O mistério dos talassas

Nunca conseguirei perceber gente que precisa de dono. Ter pessoas que mandam já é mau, não poder correr com elas é insuportável. A certa altura pensei que os talassas precisavam de contos de fadas de reis e rainhas para adormecer nas noites mais escuras. Mas sejamos sinceros, mesmo esse substituto da chucha e da fralda foi recriado com vantagem na modernidade. Neste presente de folhas cor-de-rosa, as nossas necessidades de sermos ricos e famosos por interposta pessoa estão resolvidas sem o recurso à exploração daquelas criaturas bisonhas que se escondem atrás de nomes de famílias e de actos que nunca praticaram. Quem tem actrizes do Morangos com Açucar e futebolistas de sms fácil, para que é que precisa de fantoches menos expressivos fisicamente? Há quem responda, com um certo elitismo, que é necessário uma certa patine que não se confunda com os porches amarelos e o inglês técnico do Zezé Camarinha… Parece-me injusto e ultrapassado. O processo que atribuia características especiais a uns indivíduos só porque descendiam de uma determinada linhagem teve o seu máximo paroxismo na nossa época: hoje, são ungidos e sagrados, embora por pouco tempo, toda a gente que aparece na televisão. E aparecer no pequeno ecrã não significa ter feito qualquer coisa, basta lá estar para ser “famoso”. A televisão é a grande parteira da nobreza contemporânea e efémera. O paroxismo desse fenómeno foi atingido pela princesa Diana: ela conseguia juntar o vazio dos dois mundos. A sua vida foi uma imensa corrida de afirmação do nada com direito a um choque final para delírio da audiências. Claro que há países mais poderosos que outros. E devemos ser conscientes das implicações das nossas fraquezas: por exemplo, a razão porque os ingleses tiveram a Diana e nós o Cláudio Ramos, é porque tiveram a primazia na escolha… mas a vida é mesmo assim.

Nunca percebi a necessidade da monarquia. Azar por azar, prefiro a lotaria de Borges, ao menos todos seremos imperadores e todos seremos escravos. Todos nos apaixonaremos e todos morreremos de desespero.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

19 respostas a O mistério dos talassas

  1. António Figueira diz:

    Finalmente explicado ao povo o verdadeiro (e único possível) significado do 5 de Outubro. Obrigado, Nuno.

  2. Fernanda Câncio diz:

    pedires ‘imensa desculpa’ é que acho mal, pá.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    F,
    tens razão, vou moderar esse sentimento espúrio.

  4. Na minha opinião a monarquia nunca foi uma necessidade, foi sempre uma continuidade de um sistema antigo que na maior parte dos países acabou e deixou de fazer sentido. No caso de paises como Portugal em que a monarquia acabou nunca fará sentido que ela volte, no caso doutros paises é lá com eles e com o seu povo.
    Ao contrário do que diz no seu post eu acho que não é a televisão que anda a “parir” a nobreza contemporanea: é a política.
    Repare de quem são os cargos “hereditarios” na sociedade portuguesa actual…Cabem aos políticos. A única diferença é que em vez de passarem de pais para filhos passam de barões para delfins. O caminho é este: começas numa jotinha, passas por uma assessoria, vais ao parlamento e acabas como consultor – isto com todos os favores que têm que se fazer pelo meio…
    Na minha opinião isto é bem mais preocupante do que uma Diana (Chaves ou Spencer) que durante uns dias/meses/anos ocupa umas paginas numas revistas ou programas cor de rosa…

    Cordialmente,
    M.

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Max Mortner,
    Bem visto. Mas fica-me uma dúvida, isto não é mais uma questão de poder que de cargo e nesse caso, os Belmiros, Amorins, Espirito Santo não são candidatos mais óbvios à sucessão da dita cuja nobreza?

  6. Caro Nuno Ramos de Almeida,

    A questão que eu coloco está numa especie de hereditariedade dos cargos que se verifica na política e não nas empresas (é claro que o filho do B.Azevedo vai ficar com a empresa do pai, tal como eu herdei uma rifa do meu falecido avô Maximiliano).
    O que eu acho preocupante é que, tal como acontecia “no antigamente”, apesar da burguesia ter muito poder a injustiça da hereditariedade dos cargos cabe só ao meio político. Quanto às relações promiscuas entre politicos e grandes empresários isso já é outra história…

    Cumprimentos,
    Mortner

  7. ezequiel diz:

    Não sou monárquico mas penso que é possível defender pelo menos algumas das virtudes da monarquia. Na GB, Espanha, Dinamarca etc a monarquia desempenhou e desempenha uma função vital. No que a GB diz respeito: Quando Londres foi bombardeada a rainha mãe recusou-se a abandonar a sua cidade, permanecendo literalmente no meio da zona bombardeada. Corajosa! O principe André lutou nas malvinas. Eu estava na GB quando se celebrou o jubilee da rainha. As ruas encheram-se de + de 1 milhão de pessoas. Foi curioso reparar que pelo menos metade dos que vieram para a rua apoiar a rainha eram imigrantes. Ela nunca se cansa de promover a tolerância, o pluralismo e o espirito de compromisso. Eu gosto dela e gosto ainda mais da sua mãe. E gosto da concepção orgânica da sociedade, apesar de não gostar (detestar) das hierarquias a priori, da sociedade de classes etc.

    Comparar a rainha-nobreza aos belmiros é um absurdo. Só mesmo uma perspectiva funcional marxista é que pode obliterar as diferenças entre ambos.

    cumps

  8. ezequiel diz:

    E tem um excelente sentido de humor 🙂

    “Granny, can you remember the Stone Age?”

    http://www.royal.gov.uk/output/Page5718.asp

    Ver o video: The Queen and her (eh ehe) Prime Ministers

    aqui
    http://www.royal.gov.uk/output/page5323.asp#

  9. ezequiel diz:

    Caro Nuno

    Em relação à rainha somos todos iguais. Somos todos “subjects” de sua majestade. eh eh

    How about that for equality?? 🙂 🙂 🙂

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ezequiel,
    Só me faltava aturar um relambório sobre as virtudes da monarquia da tua parte. Presumo que o fim de semana te correu mal e resolveste embirrar comigo. 🙂
    A perspectiva funcionalista não é para aqui chamada. Tenta outra vez e lembra-te que as mulheres são como as marés: umas vezes vêm outras vão…na próxima semana terás mais sorte.

  11. ezequiel diz:

    percebi tudo até aqui (como disse je ne pensa pas que je est un monarquiste )…depois

    mulheres, marés, umas que se vão e outras que se veeeeem (neologismo açórico)…hey homme, o que é que te deu??? Mil perdonas com chocolatito mas je não haver percebido la mensage. blip gloo gloo (lager) gloo thc gloo glooo (*&*)

    what are you on? you have done some irreparable damage to my neural goshy stuff!

  12. ezequiel diz:

    e se vier com uma maré espero que seja uma bela femma que traga umas lagostazinhas, cracas, cavacos e alguns caranguejso reais (não muitos, porque aquilo é cansativo! ) e, claro, algumas cervejinhas …LOL

    silly silly silly 🙂

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ezequiel,
    Com lagosta ou sem lagosta, escreve um post para publicarmos aqui no 5 dias.

    Abraços,
    Nuno

  14. Ana Borges diz:

    Ó Nuninho, até parece que o menino não tem donos!… Claro que tem de seguir as indicações da filha do patrão e acha o máximo poder vingar-se ao ir votar num Presidente da República, que, afinal, é escolhido pelos donos dos partidos. Sabe que, na verdade, nunca deixou de ser um bom servo da gleba… Julga é que não há mais aristocratas que mandam em si… Céus, como vive enganado…

  15. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ana Borges (não uso o diminuitivo pq não a conheço),
    Tem razão, o trabalho assalariado é uma forma de exploração e implica relações de dominação e subordinação. Eu tenho a sorte de ter a capacidade de sair dos empregos quando não me agradam as ordens das chefias, mas reconheço que nem toda a gente tem a minha sorte. Mas,de qualquer forma, mais vale ter a liberdade de votar em quem nos representa do que ter que pagar do erário público a uma família inútil e cara.
    Interessante a sua teoria da alienação e da submissão. Para si, se for herditária essa imposição é boa, se tiver outras fontes é má. Eu cá acho que toda a forma de sujeição é má.

  16. Em relação a Portugal só tenho a acrescentar que o nosso sistema presidencial fica-nos estupidamente mais caro do que o sistema real fica aos espanhois.

    Além de que o “presidente” deles não governa a pensar na reeleição daí a cinco anos e depois de reeleito não torna a governar mais cinco anos a pensar no “tacho” institucional que lhe pode vir a sair a seguir. Nem eles lhe ficam a pagar (e sempre a somar a todos os outros anteriores as benesses “reais” que nós pagamos aos nossos excelsos presidentes) reformas, gabinetes, telefones, choferes, carros e etc, durante o resto da vida — que, a julgar pelo Soares, nunca mais acaba.

    Não é preciso exemplos com números, pois não?

  17. ezequiel diz:

    Estar sujeito às intempéries da liberdade é uma chatice. Estou a pensar em monges budistas a apanhar pancada, a ciber levée en masse… e a sua suposta “eficácia.”

    ok Nuno, as soon as I can!
    cumps

  18. António Figueira diz:

    Eu acho que a principal vantagem da República é mesmo o seu carácter desrespeitoso.

  19. Ana Borges diz:

    “Eu tenho a sorte de ter a capacidade de sair dos empregos quando não me agradam as ordens das chefias”… Humm vou-me lembrar dessa.

Os comentários estão fechados.