Irmão Lúcia:Burma noodles

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Irmão Lúcia:Burma noodles

  1. Luis diz:

    Por que todos agora só falam de Myanmar
    As imagens de notícias sobre Myanmar, ou melhor, sobre os protestos em curso no país, tiraram aquele Estado asiático de seu isolamento informativo. O crescente interesse de alguns governos ocidentais e dos meios de comunicação não pode passar desapercebido para quem tem acompanhado a complexa situação birmanesa nos últimos anos. Ao visitarmos o país há algum tempo descobrimos parte dessa realidade oculta e esquecida há tanto tempo no Ocidente.
    Por Txente Rekondo, no Rebelión*

    Marcha de monges (de carmim) e civis em Rangun
    A sinceridade e a proximidade das pessoas, as dificuldades económicas de grande parte da população, as medidas repressivas da Junta Militar, a importância do budismo e da comunidade dos monges budistas (Shanga), a permanente presença das forças armadas (Tatmadaw), o mercado negro de combustíveis, os pagodes… São partes da paisagem birmanesa que alguns só agora parecem descobrir.
    Por que agora? Chama a atenção esse repentino interesse pelo povo birmanês, abandonado por muitos outros povos, em uma agenda que assinala a cada momento os interesses geoestratégicos, militares e económicos do Ocidente, sobretudo dos Estados Unidos.
    É neste contexto que conviria situar a recente declaração de Bush assinalando o regime birmanês, numa clara tentativa de desviar as atenções de seus mais frequentes fracassos no Iraque e no Afeganistão, e inclusive do braço-de-ferro que mantêm com o Irão.
    Duas anedotas sobre a ignorância ocidental
    Nessa atitude ocidental vale mencionar duas anedotas sobre Myanmar que reflectem o desconhecimento do país e denunciam as lágrimas de crocodilo derramadas pela maioria das informações e reacções aos acontecimentos dali.
    Para começar, a própria denominacção do fenómeno, baptizado de ”revolução açafrão”, numa clara tentativa de vinculá-la às mudanças de regime promovidas por Washington com as chamadas ”revoluções de cores”. A referência ao açafrão estaria ligada à tonalidade das túnicas dos monges budistas, que se puseram à frente dos actuais protestos. Mas, como já assinalou algum analista que conhece melhor aquelas realidades, ”açafrão” é a cor vestida pelos monges dos países vizinhos, enquanto os monges e monjas de Myanmar se destacam pelo colorido carmim de suas vestes.
    Outro ponto ”anedótico” de desentendimento é o próprio nome do país. A maioria dos Estados e as Nacções Unidas aceita o nome Myanmar, enquanto os Estados Unidos e a Grã-Bretanha continuam a usar Burma (Birmânia), recusando à Junta Militar a prerrogativa ”democrática” de mudar a denominacção. Para além desse uso faccioso e político, o certo é que Burma é ”uma corruptela local da palavra Myanmar”; ambos os nomes são usados pela população birmanesa, o primeiro com um carácter informal, o segundo como a forma literária e formal.
    Deixemos as anedotas sobre o conflito birmanês, suas interpretações e repercussões externas. Por estes dias as ruas do país estão assistindo às maiores manifestações contra o governo desde os protestos de Agosto de 1988 (8888, numa referência ao número daquele mês).
    Um país que é um quebra-cabeça
    Myanmar é um país de mais de 50 milhões de habitantes, na maioria, cerca de 90%, budistas. Além disso, conta com 135 etnias oficialmente reconhecidas, distribuídas por oito troncos principais. Daí a importância do clero budista e de alguns movimentos independentistas de minorias nacionais, na composição do mosaico birmanês.
    Outras duas peças-chave são: os militares, que governam o país há décadas e recebem a maior parte do orçamento estatal; e a oposição a estes, que tenta, sem êxito, capitalizar as manifestações dos últimos dias, lideradas na maioria por monges. Para completar o quebra-cabeça, há a presença de actores estrangeiros que não vacilam em usar os protestos populares em prol de suas próprias estratégias e interesses.
    As raízes desses novos protestos são marcadamente económicas: as medidas do governo representaram um duro golpe para muitas famílias birmanesas, que já travam uma dura luta para ganhar a vida. Se a desastrosa administração das autoridades birmanesas é evidente, é bom lembrar que em parte as medidas actuais foram fruto de pressões do FMI e do Banco Mundial, que não titubeiam em aplicar suas políticas neoliberais mesmo à custa de aumentar a penúria das populações locais.
    Mas também é certo que as manifestações foram derivando para uma situação em que seu carácter político é inegável. Alguns veículos nos apresentam os enfrentamentos como uma contenda entre monges e militares, dois ”exércitos” de cerca de meio milhão de pessoas, cada um com seus aliados, uma luta entre Tatmadaw e Shangha.
    O papel dos monges e seus pontos obscuros
    O papel de parte da comunidade religiosa budista, à frente dos protestos, introduz um novo factor na hora de se analisar os acontecimentos. O papel central do budismo na vida birmanesa é chave na hora de se compreender tudo aquilo. Daí que alguns tenham querido enxergar uma espécie de ”carta branca” para se promover a mudança de regime, por meio de uma justificativa religiosa.
    No entanto ainda há uns tantos pontos obscuros em tudo isso. Alguns analistas, embora reconhecendo a importância de Tatmadaw e Shangha, sustentam que a participação não seria do conjunto dos monges, mas de uma parte deles, embora importante. Além disso, o protagonismo dos monges em diferentes fases da história do país é usado para ressaltar a importância da participação monacal nas manifestações. No passado, monges budistas se puseram à frente das revoltas independentistas e contra a ocupacção britânica; e enquanto alguns o faziam com plena convicção política, outros apenas buscavam manter o seu status dentro da sociedade birmanesa, sem perder protagonismo e controle sobre determinadas esferas.
    As manifestações em curso não podem ser comparadas com as de Agosto de 1988, embora alguns factores permitam vincular as duas situações. É evidente que a participação actual de alguns antigos dirigentes estudantis daquela época também tem seu peso na estratégia que se deseja definir. Ademais, apesar dos protestos serem agora bem menores, em número e extensão, o fator mediático (sobretudo a internet) pode superdimensioná-los, à espera de que se expandam por todo o país e de que o número de manifestantes aumente.
    Por outro lado, desta vez o regime birmanês se antecipou aos manifestantes e preparou paulatinamente suas forças militares e os grupos de ”vigilantes” (conhecidos como Usda) para reprimir os protestos sem que eles alcançassem as dimensões do 8888. E a maior diferença, sem dúvida, que pesar relativamente em favor dos manifestantes: o papel dos monges em seu apoio, com uma intensidade que não ocorreu no passado.
    Os protagonistas em cena
    Se os verdadeiros protagonistas são os manifestantes que saem às ruas para reclamar uma mudança verdadeira e profunda no país, outros seriam os actores que estariam movimentando os cordéis da nova situação birmanesa.
    A oposição ”oficial” e preferida no Ocidente é a que se articula em torno da figura de Aung San Suu Kyi do partido, a Liga Nacional pela Democracia (LND), a quem o viés assumido pelos protestos teria apanhado de surpresa. Com um passado sempre ligado à elite política local, ela ganhou um papel de realce em 1988, quando retornou ao país. Desde então foi submetida a detenções e prisões em diferentes momentos, e os governos ocidentais apostam nela como alternativa à Junta Militar.
    A própria Aung San Suu Kyi aceitaria com gosto esse papel, e o colocaria em oposição a uma verdadeira união das forças oposicionistas, o que significa de fato uma clara debilidade destas diante da Junta Militar. Alguns analistas assinalam que dentro da própria LND haveria uam luta de duas tendências, a ”radical”, partidária da ruptura e partilhando as posições de outros sectores mais progressistas (estudantes, comunistas e outros) e a ”conservadora”, alinhada com Aung San Suu Kyi e que já estaria manobrando em favor de uma mudança pactuada com os militares, com o beneplácito de seus apoiadores internacionais e com apoio também do alto clero budista. Caberia interpretar também neste sentido as reivindicações ”limitadas” que o clero teria feito à Junta.
    O outrora poderoso Partido Comunista da Birmânia (PCB), actualmente ilegal e clandestino, ainda está se recuperando das dissidências internas e da enorme repressão a que foi submetido depois de apostar na luta armada contra o regime militar. No entanto, ainda tem um papel a desempenhar nos acontecimentos; junto com outras organizações progressistas e estudantis, tem tomado parte dos protestos e dos reclamos por uma mudança profunda da situação. Suu Kyi rejeitou no passado os chamamentos desses grupos por uma unidade de toda a oposição, a formação de um governo provisório e novas eleições multipartidárias.
    Por sua vez, a Junta Militar parece controlar a situação no momento. Segundo Renaud Egreteau del Ceri, ”o maior perigo pode vir de uma cisão interna ou de divergências dentro do próprio exército”. Por isso todo um maquinário se pós em acção no Ocidente para difundir rumores e notícias sobre as supostas enfermidades de alguns dirigentes (fala-se até da morte de um ou outro). Também se tenta superdimensionar algumas hipotéticas rivalidades ou lutas com raízes em diferentes clãs, buscando mostrar uma imagem de enfrentamento entre os homens fortes da Junta Militar, o general Than Shwe e seu braço direito, Mahung Aye.
    Faz tempo que os generais birmaneses controlam a situação interna, e não seria disparatado pensar que possam buscar uma saída negociada, a médio e longo prazo, para manterem boa parte de seus privilégios e não serem condenados pelos excessos repressivos de todas essas décadas. Por enquanto, a Junta Militar calibrou sua resposta repressiva para que ela não chegue aos níveis de 1988 e sobretudo para que os protestos não ganhem aquelas proporções. Assim, parece que o regime continua forte.
    O papel da ”comunidade internacional”
    Se já nos referimos aos dois actores internos, os militares e o clero budista, o último papel desse script birmanês cabe à chamada comunidade internacional, embora esta não se apresente como uma voz única.
    A importância estratégica e os importantes recursos energéticos inexplorados de Myanmar, unidos à rivalidade entre alguns desses actores internacionais, fazem com que o tabuleiro birmanês seja um bom lugar para que a ”comunidade internacional” ajuste suas contas e interesses às custas do povo birmanês.
    É neste contexto que chama a atenção a importância agora atribuída à situação de Myanmar por parte do presidente dos EUA. Sob o guarda-chuvas do discurso de ”fomentar a democracia”, Washington colocou em marcha uma campanha diplomática e mediática por uma mudança de regime no país asiático. A proposta de endurecer as sanções contra o governo da Junta deve ser interpretada mais como algo para consumo interno (diante das próximas eleições presidenciais, Bush precisa apresentar algum ”resultado”, sobretudo depois dos sonoros fracassos no Iraque e no Afeganistão, ou inclusive do que pode acontecer no Irão).
    Também a China e a Índia levam a Myanmar seu impulso de dominar e capitalizar influência regional. Chama a atenção neste sentido a pressão que se exerce sobre o governo de Pequim, para que influa e propicie uma mudança em Myanmar, enquanto se esquece propositadamente o papel indiano, sem solicitar de Nova Delhi as mesmas acções. Washington e seus aliados querem usar a proximidade dos Jogos Olímpicos de 2008 na China para pressionar o país, e talvez isso dê resultado, mas não se deve esquecer que hoje como ontem a China tem sabido se mover na cena internacional alheia às pressões e chantagens desse ”clube de defesa da democracia à moda ocidental”.
    Finalmente há a Europa, que, fiel a seu triste papel, é incapaz de mostrar uma imagem unitária. Devido sobretudo aos interesses de grandes empresas europeias no país, os governos da Europa não querem que suas posturas impliquem em perdas nos negócios. A chamada União Européia actuará em Myanmar como actua sempre, defendendo os interesses económicos e geoestratégicos por cima dos clamores da população birmanesa por mudança e principalmente eludindo seu próprio discurso oficial de ”defesa dos valores democráticos”.
    Uma certa transição pactuada
    A Junta militar sabe, faz algum tempo, que deve buscar uma saída., Por isso desenhou uma estratégia conduzindo a um tipo de transição, por isso as reformas económicas e políticas iniciadas e planejadas nos últimos anos. Tal processo tem óptimos exemplos em lugares não tão distantes. Olhando para esses espelhos, os militares birmaneses estariam buscando uma aproximação com os sectores ”moderados” da dividida oposição. Com apoio das classes empresariais e da elite política actual, buscam esboçar esses passos rumo a uma ”democracia com selo ocidental”o que na verdade seria ”mudar alguma coisa para que nada mude”.
    Por sua vez, a chamada comunidade ocidental, se é que quer mesmo que suas propostas ”democratizantes” sejam levadas a sério, deveria agir da mesma maneira diante dos regimes corruptos de outras partes do mundo, ou de seus aliados das petromonarquias do Golfo Pérsico, onde as liberdades e os direitos humanos brilham pela ausência.
    Uma mudança pactuada ou uma reforma formal pode ser a solução que está sendo cozinhada, para que se mude os actuais papéis em Myanmar, com um exército que domine a situação dos bastidores, mas fora da foto política oficial; com uma nova elite política disposta a não fazer mudanças e rupturas que desagradem o Ocidente; e com um clero budista que pode continuar a ter seu status sem limitações a suas actividades e poder. Se assim for, os desejos de mudança e transformação dos manifestantes birmaneses e a boa vontade da população de Myanmar serão esquecidos e descartados. Venderão a eles um produto que não é o que querem comprar.
    * Do Gabinete Basco de Análise Internacional (Gain); tomado de http://www.rebelion.org; intertítulos do Vermelho
    http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=25963

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