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pena e psicoterapia

30 Setembro 2007 | por Fernanda Câncio

Há umas semanas, escrevi aqui sobre uma amiga que está apaixonada por uma mulher e que é correspondida. Falei das dificuldades dessa relação, da forma como tanta coisa que é considerada normal e desejável e, sobretudo, espontânea é dificultada ou mesmo impossibilitada por um contexto social e cultural que trata o amor entre pessoas do mesmo sexo como uma aberração e uma ameaça.

Ver uma relação de amor consentânea entre adultos como uma ameaça social é algo que, confesso, ultrapassa a minha capacidade de entendimento. Não creio, aliás, que haja alguma forma de explicar esse tipo de atitude que a do mais puro e tenebroso preconceito, aquilo a que se chama fobia. Um sentimento que nada tem de razoável ou racional, e que retira a sua virulência de uma caldeirada de temores, atracções e recalcamentos que são decerto muito interessantes para especialistas mas que só servem para fazer o mundo um lugar mais perigoso.

Vem isto a propósito da carta de um leitor que, em reacção ao meu texto, começava por dizer que tinha “pena” da minha amiga. E que lhe aconselhava, para fazer face à situação em que se encontra, o recurso a psicoterapia. Para este leitor, a minha amiga, uma mulher de 30 e tal anos que se apaixonou por outra mulher da mesma idade e que tem de, diariamente, medir os gestos e as palavras para não ter de lidar com a incompreensão e a agressividade das pessoas que acham isso impensável e inaceitável, é que tem de, digamos, se emendar.

Para este leitor, não são as pessoas que, conhecendo a minha amiga, mudam de opinião e de atitude por saberem que ela, em vez de gostar de um homem gosta de uma mulher, que têm um problema. Não são as pessoas que se a virem na rua de mão dada com a namorada a insultarão e os colegas ou patrões capazes de a ostracizar e de a conduzir ao despedimento ou os que acham que a paixão dela é uma espécie de vírus da perdição que precisam de tratamento. Não são os legisladores e sacerdotes que em tantos países do mundo, incluindo vários estados dos EUA, criminalizam o amor dela, chegando a castigá-lo com a pena de morte, que estão doidos. Ela é que tem de ir à consulta.

Estou certa que o leitor que enviou esta carta se considera boa pessoa. Que não se vê como capaz de condenar alguém à infelicidade e a uma vida clandestina, quanto mais à prisão e à morte. Que acredita mesmo que está a lutar pelo bem ainda que, quando escreveu a carta que enviou à NM, não foi decerto capaz de, nem por um instante, imaginar-se no lugar da minha amiga, ou de pensar que pode haver, ao seu lado, na sua família, entre os seus amigos, pessoas que as suas palavras iriam magoar profundamente.

Não: o leitor acha-se um justo. Quando escreve que sente pena, o que está a dizer é que se considera melhor e mais correcto que a minha amiga, capaz de lhe dizer o que está certo e errado. Que ela deve, se insistir em amar uma mulher, viver esse amor escondida e temerosa e envergonhada, sem jamais se arrogar o direito de o proclamar e consagrar publicamente. O que o leitor diz é que o amor que ela sente a torna menos digna. A faz menos que ele.

É porque há tanta gente como o leitor da NM que se fazem festas do orgulho gay e festivais de cinema queer como o que esta semana decorreu em Lisboa. É, digamos, uma forma pública de terapia. Para toda a gente. Um dia virá – e desenganem-se os que o temem, porque é inevitável – em que estas festas e festivais vão deixar de fazer sentido. O dia em que a pena que o leitor impõe à minha amiga seja vista por todos como a aberração e a ameaça que é.

(publicado na coluna ’sermões impossíveis’ da notícias magazine de 23 de Setembro)

Comentários

Comentário de Dário
Data: 30 Setembro 2007, 17:38

Olá f. A questão está muito bem colocada,e, raramente o é. Alguém que discrimina, que sente ódio ou desprezo por outro, que o põe de parte, sem que este incomode, realmente, alguém, não pode ser uma pessoa saúdavel. Deve precisar de alguma psicoterapia. Esta não aceitação do outro, é uma coisa muito estranha,e, mas é pouco habitual ser considerada estranha, pelo menos por enquanto. E, como diz, muitas destas pessoas devem-se achar “boas pessoas”. Contraditório? Muita gente pensa que não, infelizmente. Cumprimentos

Comentário de josé Manuel Faria
Data: 30 Setembro 2007, 19:15

Os gays e lésbicas não precisam de tolerância, necessitam sim de respeito. E quem não pensa assim tem de ir ao psicólogo com todo o respeito, como diz o outro.

Comentário de Sofia Ventura
Data: 30 Setembro 2007, 20:22

Triste. Mas, infelizmente, representativo da sociedade em mais variantes que gostaríamos de acreditar.
Desde que há muito se diagnosticou a necessidade humana de denegrir o outro como forma de, reflexamente, aumentar a imagem que fazemos de nós próprios (Woolf e Stuart Mill), que estes comportamentos estão explicados. Sendo essa a sua motivação, encontramo-los por todo o lado.
Por exemplo, entre adultos, fala-se em prostitutos e prostitutas e ainda se ouvem risinhos parvos, desejosos de marcar a distância entre si e qualquer coisa que se assemelhe a esta realidade. Confesso, que já por mais de uma vez, optei por interpelar a pessoa acerca de quantos amigos ou amigas prostitutas teria. A resposta, ainda entre risinhos, é sempre a mesma: “que eu saiba nenhuma!”. Precisamente, “que saiba”. É que prostituição há muita, e não é só a do Parque Eduardo VII. Nesse momento, tremem um bocadinho; depois, invariavelmente, voltam às certezas iniciais.

Comentário de Cláudio
Data: 30 Setembro 2007, 20:31

O tal leitor sugeriu que se emendasse a mulher que se apaixonou por outra. E que teve a sorte de ser correspondida. Não gostará de amor, esse leitor. Aliás, é uma besta.

Comentário de João
Data: 30 Setembro 2007, 20:52

Cara F.
Ameaça não é, de todo, a menos que me obriguem a gostar do mesmo caldo (no dia gay fico à rasca durante 2 a 3 dias…).
Aberração (=anomalia) é, de todo. Mas, tal como todas as doenças, há sempre a hipótese de tentar a cura.
Por fim dou comigo a pensar que continuo a não conseguir encaixar o direito à diferença (reclamado pelos ditos incompreendidos) e o direito à igualdade.
Anomalia minha…

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 30 Setembro 2007, 23:44

joão, muito obrigada por vir aqui exemplificar. não fosse alguém pensar que exagero.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 30 Setembro 2007, 23:45

Sabes uma coisa, f., mais grave ainda é existirem psicoterapeutas, e garanto-te que existem, disponíveis para “ajudar” na emenda desse amor de que falas. E uns outros que, não sendo tão “pró-activos”, continuam a fazer juízos de valor sobre esse tal amor. Para falar verdade, não consigo decidir por quais tenho menos consideração.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 30 Setembro 2007, 23:48

Bolas, não tinha visto o comentário do João. Valha-nos, ó menos, o facto de ter consciência mórbida, é que é mesmo anomalia.

Comentário de Costa
Data: 1 Outubro 2007, 0:10

Sem qualquer ironia, quem sabe o João não vai tirar desta conversa ilações proveitosas?

Comentário de MPR
Data: 1 Outubro 2007, 10:36

Parafraseando um amigo meu, há dois tipos de homofóbicos, os verdadeiros e os falsos. Os primeiros não falam disso, não se misturam, não nada. Sentem uma tal repulsa que se afastam o mais possivel do assunto. Depois há os segundos, que vociferam, insultam, opinam. Esses normalmente, têm é questões a resolver, dúvidas quanto à sua própria sexualidade. Não sei se é verdade… mas desconfio.
Quanto ao João, não o catalogo, mas ninguém pede o direito à diferença, sim o direito à indiferença, à mesma indiferença que eu tenho quando saio à rua com a minha mulher ou digo que sou casado. Ninguém olha, ninguém nota, ninguém comenta, não faz diferença…

Comentário de João
Data: 1 Outubro 2007, 11:18

Cara F.
Feliz por “ajudar” a exemplificar a sua “tese” ( a menina continua um terramoto).
Sorry por não poder agradar-lhe mas que culpa tenho eu de não associar supositório a guloseima?!

Comentário de Ofélia
Data: 1 Outubro 2007, 13:09

Este sr João é mesmo grosseiro e não vai mudar nunca

Comentário de MPR
Data: 1 Outubro 2007, 13:20

Supositório a goluseima… ora não lhe falta imaginação… Tanto rancor contido… tanta animosidade… tem alguma coisa por resolver João?

Comentário de Dário
Data: 1 Outubro 2007, 13:30

É muito curioso. Homófobicos, mas focados.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 1 Outubro 2007, 13:32

o joão, bom, o joão é o joão. para o joão, não ser discriminador implicaria não apenas sentir-se igual ao outro, como fazer aquilo que ele acha que o outro faz. teme ser ‘confundido’ — de mais de uma forma. desculpe lá a psicanálise de bolso (ana, estou-me a imiscuir nos teus domínios) mas é mais bom senso que ciência.

não tenha receio, joão. ninguém o vai obrigar a comer supositórios.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 1 Outubro 2007, 13:36

sim, dário. sem dúvida. é uma questão auto-centrada. ça va sans dire.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 1 Outubro 2007, 13:41

é a tal ‘caldeirada de temores, atracções e recalcamentos’, n’est ce pas?

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 1 Outubro 2007, 14:54

Hum, supositórios? Vá lá olhar para o espelho com mais atenção e depois, querendo, dê notícias.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 1 Outubro 2007, 15:04

Ah, é verdade, a bem dizer, João, ninguém o vai obrigar a comer nada, descanse.

Comentário de Roteia
Data: 1 Outubro 2007, 16:25

Texto lúcido, necessário. No entanto, um pequeno reparo: a função da psicoterapia não é emendar o que quer que seja, é ajudar a conviver com o que se tem. E se há uma leitora que garante que há psicoterapeutas disponíveis para “ajudar” a emendar… tem certemente razão, porque maus profissionais há em todas as áreas, incluindo psicologia.

Comentário de Mafalda
Data: 1 Outubro 2007, 17:07

Excelente texto que subscrevo na íntegra! Bem haja sempre Fernanda!! Este blog continua O P T I M O!

Comentário de joséjosé
Data: 1 Outubro 2007, 18:20

O João está doente, e antes de ser “banido” ou “achincalhado” deverá ser compreendido e ajudado…
Ana, os espelhos não reflectem doenças!
Porquê tanta agressividade?

Comentário de Carlos Fernandes
Data: 1 Outubro 2007, 19:03

Há aqui comentários, além deste post, que só dão vontade de rir: não, levando o ilustre raciocínio de alguns até ao fim, não, quem é normal, e não é “paneleiro” ou “fufa”, esse é quem precisa de psicoterapia e de se tratar, claro…
Agora que há fufas giras sim, poucas mas há, para algumas eu até era capaz de me vestir de mulher para as conquistar, claro, LOL…

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 1 Outubro 2007, 19:51

Caro Joséjosé,

Doenças os espelhos não reflectem, ou reflectem poucas – as cutâneas, por exemplo, ou os hematomas e outras lesões traumáticas graves presentes no corpo de um homossexual após ser agredido por homofóbicos, outro exemplo -, mas ainda assim são úteis na visualização de algumas pequenas e insignificantes anomalias.

E lamento não concordar consigo, mas tenho demasiado respeito pelo sofrimento que a doença causa para permitir que seja usada como capa ou como atenuante para falhas de carácter, desculpe.

Cumprimentos,

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 1 Outubro 2007, 19:54

Discutir a função da psicoterapia dava pano para mangas, Roteia, várias teses de doutoramento de certezinha, desde logo porque interessa saber de que tipo de psicoterapia falamos. De qualquer modo, deixe-me dizer-lhe que concordo plenamente consigo, e não estou só a pensar nos psicólogos, incluo também o meu grupo profissional, os psiquiatras.

Bom, mas a verdade é que estava a ironizar, com essa da ajuda e da emenda. Já em relação à existência dos tais técnicos que desconsidero, não tenho ironia suficiente porque é uma triste realidade.

Comentário de Zé Martins
Data: 1 Outubro 2007, 22:20

Afinal o que disse o João de tão constrangedor?
Que não havia ameaça. Que é uma anomalia.
Logo saiu:
” O João está doente, e antes de ser “banido” ou “achincalhado” deverá ser compreendido e ajudado…”
“quem sabe o João não vai tirar desta conversa ilações proveitosas”
Que sapiência!
Tanta pesporrência agonia.
Passem bem!

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 2 Outubro 2007, 1:23

A amostra aumenta, f., dois já cá cantam… três, a contar com o senhor que referes no texto. Vais ver que rapidamente tens sujeitos em número suficiente para validares a tua asserção: “É porque há tanta gente como o leitor da NM que se fazem festas do orgulho gay e festivais de cinema queer como o que esta semana decorreu em Lisboa.”

psst, Joséjosé, outro doente?

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 2 Outubro 2007, 2:00

… quatro.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 2 Outubro 2007, 2:18

o que eu acho mais notável, ana, não é que existam pessoas que acham que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é uma anomalia — sabemos quehá muita gente assim. o que é de facto curioso é que sintam a necessidade de certificar isso a torto e a direito — incluindo em incursões nesta caixa de comentários –, chamando ‘pesporrentes’ a quem não pensa como eles e arvorando-se em perseguidos da história.

esta extraordinária inversão das posições, em que o opressor se transmuta em vítima mal a vítima levanta a cabeça, é uma constante numa série de batalhas culturais.

veja-se o caso da discussão sobre o fim dos privilégios da igreja católica: apesar de esta se encontrar ainda numa situação de absoluto e inconstitucional privilégio, há quem fale de uma questão como a do diploma governamental que supostamente prevê o fim das capelania e dos padres funcionários públicos como se estivesse em causa banir a ic do mundo, ilegalizar o culto católico e, quiçá, queimar os crentes na praça pública apreendendo os seus bens (rings a bell?) caso se não convertam ao mais puro laicismo.

esta coisa da estratégia da vitimização deve estar muito bem estudada lá nos teus calhamaços, ana, verdad?

Comentário de ezequiel
Data: 2 Outubro 2007, 4:54

Que grande merda!

Não é anomalia. Existe desde os primórdios da macacada ancestral.
Pena? Nunca. Psicoterapia sim, mas social.

a good FUCK OFF directed at the homophobic imbeciles usually does the trick. (a form of shock treatment)

if that does not work, maybe free entry/drinks to The Fridge (love muscle) would do the trick eh ehe eh eh eh he h eh eh eh e he hh he

it reinforces the esprit de corps and does wonders for self-esteem LOL LOL :)

Comentário de Zé Martins
Data: 2 Outubro 2007, 8:34

Para F.
Diz “o que eu acho mais notável, ana, não é que existam pessoas que acham que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é uma anomalia — sabemos que há muita gente assim. o que é de facto curioso é que sintam a necessidade de certificar isso a torto e a direito”.
Não repara que é V. que começa?
Se pode arrancar com a “não anomalia” que espanto lhe provoca outrém dizer que é anomalia? Onde vê os discordantes andarem a abanar o assunto a torto e a direito que não seja quando os “fracturantes” resolvem vir a terreiro defender os seus pontos de vista com o aviso prévio de que quem não concorda é um “montezinho” que não reconhece o comboio da história?
As coisas são o que são. Prossiga mas não deixe de esgrimir argumentos com quem não concorda consigo. Sem ofensa, evite levar-se demasiado a sério e ficar focada no seu umbigo.
Com simpatia

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 2 Outubro 2007, 12:46

Yes, f., verdad. As antigas “neuroses de renda” - assim renda em sentido de nartel (ou outros ganhos), não de bilros - são deliciosas.

Ah, e noutra perspectiva, a comunicação em double bind, tipo “nós sempre fomos uns pais abertos, sabes bem que não crítico, acho que “eles” têm direitos, até já contribui com qualquer coisita uma vez, mas tu, filha, que sempre tiveste tudo, sempre trabalhámos para que não te faltasse nada, sempre te demos tudo o que precisavas, foste uma menina tão amada, criada com tanto amor, como podes estar a dizer-me que gostas de mulheres?… Estou doente por tua causa. Que grande desgraça se havia de abater sobre a nossa família, tudo por culpa tua”. Poderoso, digo-te eu, este discurso parodoxal, esta dupla mensagem.

Comentário de ezequiel
Data: 2 Outubro 2007, 14:16

É isso mesmo Zé.

Quem não concorda não reconhece o comboio da história. Fica para trás. Não basta saber que há gente assim. Do saber ao reconhecer vai uma grande distância. Não confunda “anomalia” com “minoria.” Quais são os argumentos Zé. Embora não seja gay, nem represente seja quem for, terei o maior gosto em conversar consigo.

1-Existe ou não um conjunto de pessoas (gays e outros) que, pelas mais variadas razões, vivem sob o jugo do ostracismo social? O que é que propõe? O qu é que se dev fazer numa democracia liberal? O que é que toda a malta faz? (os srs agricultores, não protestam? Os polícias não protestam? Whats the bloody difference????)

2- Qual é o prob de falar sobre isto, criticar, promover o reconhecimento bla bla bla???
(sem cair nas essências identitárias, a meu ver)

3- “As coisas são o que são.” E pronto. É assim. Definitivo. Não há mais nada a dizer: As coisas SÃO o QUE SÃO e ponto final. No, no, no, meu caro. As coisas são aquilo que nós fazemos delas (e com elas). O Parmenides, que era um gajo teso pá bufa, deu uma pirueta no panteão. :)

Boa Fernanda!! É isto mesmo

Who dares wins!!:)

Ando por aqui há muito e nunca vi (li) a Fernanda a fugir da esgrima. Justiça lhe seja feita!

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 2 Outubro 2007, 18:36

entretanto, encontrei algures no meu mail a carta que motivou o texto. deleitai-vos, pois.

O casamento como esteio da sociedade

Lido o texto “Querem destruir a família”, na N.M. 786, fiquei com pena da amiga de Fernanda Câncio. O amor heterossexual nem sempre é feliz ou para a vida toda! Mas não me consta que o amor homossexual seja mais estável. As pessoas hoje são livres de optar pela diferença não podendo ser desrespeitadas por isso. Cabe, porém, aos próprios assumirem essa diferença e não esperar que isso seja feito por si ou por decreto! Os problemas psicológicos ou de outra ordem que a opção pela diferença pode acarretar são, creio, tratáveis com psicoterapia. O facto de gays, lésbicas, transsexuais serem muitos e se associarem em defesa das suas ideias não significa que devam pretender impô-las aos que, por sua vez, exigem respeito pela manutenção do casamento (heterossexual monogâmico) como opção socialmente preferível! Convenhamos que a união homossexual é radicalmente diferente do casamento heterossexual, é de outra natureza, é diferente quanto ao seu valor social. A justiça e a imparcialidade aconselham que relações claramente desiguais sejam tratadas de forma justamente diferente em prol do bem da sociedade. O casamento é uma instituição de valor e, como tal, regulado e protegido pelo Estado. É o lugar natural da renovação das gerações (de que tanto carecemos hoje em dia), da construção do carácter e primeira socialização dos futuros cidadãos. É na dualidade sexual do casamento que se estrutura a sociedade. Assim, contrariamente a outras formas de união sexual, o casamento heterossexual é um bem público indispensável. Uma coisa é o direito à diferença outra é a imposição aos que, por sua vez, reivindicam manter intacta a opção por uma união em sintonia com a natureza, o casamento na verdadeira acepção da palavra! Este é por definição e natureza uma aliança entre um homem e uma mulher. Nem nas sociedades onde a união homossexual foi aceite se concebe fazer da homossexualidade uma instituição social com estatuto público que se iguale ao casamento. Não se pode promover a conduta homossexual desconstruindo o casamento heterossexual. Este traz benefícios para a sociedade como um todo, requer uma cultura que o valorize e apoie! O casamento, união estável com uma pessoa do sexo oposto, tem que ser mantido como opção socialmente preferível. Portanto, a dignidade única da opção pelo casamento (heterossexual monogâmico) e a noção do seu valor ficariam diminuídos aos olhos dos indivíduos se a sociedade deixasse de reconhecê-la, de distingui-la.

(acho que está completa)

Comentário de Dário
Data: 2 Outubro 2007, 21:19

Onde é que as relações entre gays ou lésbicas prejudica as relações entre heterossexuais? Porquê o medo, de que, com o casamento homossexual o casamento heterossexual desapareça? O sr. parece recear que os “hetero” mudem em massa para “homos”, lê-se nas entre linhas. O casamento entre heterossexuais só se afirma se excluir outras formas de união? Não me parece!… E neste caso, não me parece que as pessoas optem pela diferença. É uma questão de identidade, que, como as opções de cada um, devem ser respeitadas.
“O amor heterossexual nem sempre é feliz ou para a vida toda! Mas não me consta que o amor homossexual seja mais estável”, como sabe? se não existe o casamento homossexual em Portugal?
… Enfim.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 3 Outubro 2007, 0:05

uindo e iuariante ou… hoguível e tguiste?

Comentário de ezequiel
Data: 3 Outubro 2007, 16:32

Hoje, um amigo disse-me isto: ” Sinto-me em plena sintonia com a natureza mas estou confuso. Não sei qual dos animais ou forças da natureza é que melhor representam os valores éticos que defendo (conservadorismo). A girafa parece-me uma opção desejável: vegetariana, pacifica e social. Todavia, é uma libertina. Invocar a girafa como referencia ética seria um desastre. Lembrei-me dos lobos e das orcas, animais que praticam a monogamia. Depois recordei-me do seguinte: são uma minoria predatória que matam à dentada. (ooops) A macacada, de quem descendemos é, mais do que libertina, demente. Fornicam continuamente com parceiros diferentes. Em suma, adoram forrobodós com bananas e outros frutos proibidos à mistura. Compreendi, depois de alguma ponderação, que não devemos invocar a natureza como critério moral. Teria que decidir o que sou: girafa libertina, predador conservador, macaco ninfomaníaco ou um outro quadrúpede imoral? O que é a natureza? “

Comentário de ezequiel
Data: 3 Outubro 2007, 16:40

eu gostaria que o autor do texto que a Fernanda publicou aqui me explicasse o seguinte:

Como é que o casamento homossexual desvaloriza o casamento heterossexual?

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 3 Outubro 2007, 21:03

era, não era, ezequiel? foi esse um dos temas do meu texto na nm ao qual esta carta ‘responde’. vou procurar o texto e postá-lo também

Comentário de ezequiel
Data: 4 Outubro 2007, 2:35

Este texto que aqui publicaste é muito interessante porque nele se congregam, de forma sintética, quase todos os argumentos clássicos da oposição ao homocasamento. Seria interessante se o seu autor-a o defendesse aqui. O argumento mais provocante é (na minha opinião) o de que o casamento reflecte uma ordem ética pré-estabelecida inquestionável que delimita a sua interpretação. Esta maneira de ver as coisas é profundamente ahistórica porque, como todos sabemos, o casamento é uma instituição que mudou profundamente (os casamentos pós-WWII-guerra seriam irreconhecíveis para os casamenteiros de fins de século XIX) Eu não discordo da valorização do casamento hetero nem acredito que o seu valor seja posto em causa pela so called “relativização” da instituição casamento que, a bem da verdade, não é verdadeiramente relativizada mas sim (re) interpretada. Os atributos do casório clássico podem ser e serão preservados, certamente.

O facto do casamento clássico estar em declínio não tem rigorosamente nada que ver com as propostas de casamento homo. Esta é uma falácia perniciosa.

Mas isto já vai longo e eu não quero estar aqui bla bla bla.

Fernanda, posta lá o texto, p.f. Estou curioso.

bedtime…zzzzz zzzzz

Comentário de ezequiel
Data: 4 Outubro 2007, 14:25

PS: desculpas para o Dário! Só agora me apercebi que eu repeti o que ele tinha dito. Não o tinha lido. Sorry!

Obrigado Fernanda.

Gostei muito do artigo e da “fotografia” …HOLY CANOLLI!!!(já o velhote da praia dizia:
“o que é bonito é para se ver!!”)

sorry
:)

Comentário de Manuel Vaz
Data: 4 Outubro 2007, 23:19

Fernanda,

Tal como o leitor que te enviou a carta, eu também tenho pena da tua amiga. Aliás, tenho pena dos homossexuais em geral.

Como tu não transcreves um parágrafo sequer das linhas que ele (ou ela) te escreveu, não posso determinar que tipo de pena é que ele(a) sente.

No entanto posso te dizer que a pena que eu sinto da tua amiga, é uma pena verdadeira, sincera e autêntica. Não é uma pena gozôna, com o intuito de desprezar ou diminuir.

Como não sou médico, nem nunca estudei medicina ou psicologia, não posso dizer que a homossexualidade é uma doença, e pelo mesmo facto, de não ser um estudioso, também não posso afirmar que não o seja.

No fundo se é doença ou não, não o sei, no entanto basta debruçar um bocadinho sobre o assunto para se chegar à conclusão que apesar de poder não ser uma doença, normal também não o é.

Para chegar a esta conclusão sobre a normalidade ou “anormalidade” da homossexualidade, não tive em consideração aspectos como os sociais, morais, históricos, culturais ou mesmo religiosos. Aliás, pu-los completamente de parte.

Como Sócrates (o primogénito), por uns momentos deixei de ser português e passei a ser um simples cidadão do mundo, e aproveitei para fazer um pequeno exercício mental, que consistiu no seguinte;

Tentei imaginar como é que seria o mundo se todos fossemos normalmente homossexuais e cheguei a várias conclusões engraçadas:

Verifiquei que o mundo seria melhor, e isto porque:

- Não haveria preconceito,
- Não haveria corrupção,
- Não haveria pedofilia,
- Não haveria injustiças sociais,
- Não haveria tristeza,
- Não haveria listas de espera nos hospitais
- Não haveria tribunais atulhados de processos
- Doenças só haverias as próprias dos animais ou vegetais,
- Não haveria trânsito todas as manhãs,
- As paisagens seriam mais bonitas,
- Não haveria poluição,
- As praias e os rios seriam mais limpos,
- O mundo seria como era.

Em suma, o mundo seria melhor porque não havia heterossexuais, esse ser que deve ser considerado o princípio de todo o mal, porque é o poluidor, o corrupto, o pedófilo, o injusto, o triste, o doente, o caloteiro, o estraga paisagens, praias e rios, e o progenitor do homossexual.

Em conclusão, apesar de toda a maldade provocada pelo heterossexual, parece-me claro que ser homossexual não é normal, é ser, não socialmente, religiosamente ou culturalmente anormal, mas sim naturalmente anormal. Não faz parte da natureza humana ser homossexual, logo a homossexualidade não pode ser vista com ligeireza, deve ser tal como outras má formações humanas acompanhada com o intuito de ajudar e não reprimir.

Não consigo perceber porque razão a homossexualidade entre adultos não é criticada nem vista como algo a ser tratado, e homossexualidade consentida levada a cabo entre um homossexual adulto e um homossexual com dezasseis ou dezassete anos é sancionada, moral, social e criminalmente.

Ainda tinha muito para te dizer, mas não me quero alongar muito mais, até porque tenho a certeza que mais tarde irás voltar a este assunto, faz parte com certeza da lista de assuntos que te encomendaram. Sim, encomendados. Desculpa mas ainda não conseguiste convencer-me que és um ser humano autónomo, com uma inteligência própria, activa e sobretudo construtiva.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 5 Outubro 2007, 1:23

manuel vaz, acho que para além do resto tem um problema com a vista — um que talvez tenha conserto.

quando (ou melhor, se) arranjar uns óculos, umas lentes de contacto, uma lupa, enfim, uma prótese qualquer para o efeito, poderá constatar que a carta a que faço referência no texto postado está, completa, nesta mesma caixa de comentários, às 18.36 h de 2 de outubro. a seguir, poderá folhear um código penal (ou procurá-lo na net) e constatar que quando escreve ‘[a]homossexualidade consentida levada a cabo entre um homossexual adulto e um homossexual com dezasseis ou dezassete anos é sancionada, moral, social e criminalmente’ está decerto a falar da legislação (para não falar da sociedade e da moralidade) de outro país que não Portugal.

enfim, tenho pena de ter de ser eu a dizer-lho, manuel, mas você está um pouco — bom, talvez um pouco mais que um pouco — baralhado.

Comentário de Manuel Vaz
Data: 5 Outubro 2007, 19:15

Fernanda,

Sinceramente gostei do teu comentário de 5 de Out, às 1:23.

A sério, gostei mesmo.

Sem cinismo. GOSTEI

Desculpa por, ao comentar as tuas considerações, ter usado a técnica da brutalidade, ou melhor, ter usado o meu lado lunar. Quero que saibas que a uso de uma forma consciente, só ainda não sei se a uso para meu ou para teu bem. Pode ser que seja para bem dos dois.

Até à próxima

Comentário de Abel Ribeiro
Data: 9 Outubro 2007, 11:29

Meus Caros,

Li atentamente todos os posts que aqui estao colocados e chegueia a conclusao que começaram muito bem e estao a desviar o assunto.
O problema aqui não é se a outra “besta” que diz ter “pena” da amiga da FC concorda ao não… e ainda por cima se acha com direito de resposta (NM de Domingo)… é preciso ser muito estupido…Mas regressando… o problema aqui é se a amiga da FC é feliz ou não… Espero sinceramente que sim, e a partir daí, tudo aquilo que se possa dizer ou escrever e pura demagogia, portanto nao divaguem e desejem-lhe muita sorte e AMOR.

Cara “Amiga da FC”, se por acaso ler este Post. saiba que tudo o que dizem é treta e vem de pessoas, como alguem disse e muito bem, que têm assuntos pessoais relativos as suas tendencias sexuais por defenir, eu não, eu sou hetero, mas tou do seu lado pro que der e vier, VIVA O AMOR…

Comentário de Marco Túlio
Data: 29 Junho 2008, 17:12

Não há diferença alguma entre amores hétero e homossexuais. O amor é um sentimento que vem de um plano espiritual, algo que foge a qualquer explicação científica.

Eu sempre namorei meninas, transei com meninas, me atraia por meninas, até que há alguns meses coonheci um cara. Nos tornamos grandes amigos e logo me dei conta que estava apaixonado por ele e que esse sentimento era recíproco. Encaramos isso com a maior naturalidade. Aconteceu o primeiro beijo, a primeira transa e em dois meses trocamos alianças de compromisso. Contamos para nossos melhores amigos, que se assustaram no começo, mas que logo entenderam e que nos respeitaram de boa.

Hoje comemoramos oito meses juntos. Ele se mudou para o Rio de Janeiro há algumas semanas e no fim do semestre, eu me mudarei pra lá também para iniciarmos uma vida juntos. Depois desse tempo percebi que a idéia que sempre tive do amor era errada. Nada do que vivi antes se compara ao que sinto pelo namorado hoje e ao que passamos juntos. É um sentimento carregado de cumplicidade, intimidade, carinho, respeito e apoio mútuo. Ele é meu amigo, meu irmão e sobretudo, o namorado que amo e com quem quero dividir minha vida.

Pena que tantos não pensam assim e reprimam seus sentimentos com medo do que a sociedade vai pensar a respeito. A vida é curta, ainda mais quando vivemos de acordo com o que os outros pensam. Viva o amor!!!

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