A difícil arte das previsões

Dizia-se da Economia que é uma ciência que explicar amanhã por que razão aquilo que previu ontem não aconteceu hoje. O discurso vem a propósito da minha admiração pelo professor Marcelo e pela dificuldade de andar à chuva sem se molhar. Que é, como se sabe, um exercício difícil, embora nem sempre muito elegante. Veja-se o Sol de hoje, em que Marcelo Rebelo de Sousa garante que “Menezes cometeu um erro monumental” e que a sua estratégia sobre a questão das quotas, não passa de uma admissão que vai perder as directas: “com este comportamento, Menezes reconheceu a derrota”, garantiu seguro Marcelo.

Nota espúria: Ando com pouco tempo para escrever, ainda assim como diria o bretão do Asterix: o meu tempo é maior que o da Joana e menor que o do António e da Fernanda e o mesmo que o da Marta, como quem diz, o meu barco é maior que o chapéu do meu tio embora menor que a quinta do meu irmão. Essa indisponibilidade leva-me a reagir a assuntos com atraso. Mas não queria de deixar de dizer que acho que Ricardo Costa tem razão na polémica com Santana Lopes. Uma entrevista num telejornal não fica prejudicada por ser interrompida por um directo. Infelizmente, a maioria dos directos não têm razão de ser e servem apenas para aumentar a adrelina da transmissão. Mas, neste caso só dava para saber depois. É, aliás, um problema que os directos têm frequentemente…

Penso que as pessoas reagiram favoravelmente à atitude de Santana Lopes por boas razões: contestação de critérios sensacionalistas, fartos de não notícias e de “famosos” colonizarem o espaço informativo, mas neste caso concreto não apontaram as armas ao alvo correcto. Com todos os seus defeitos, a SIC Notícias, graças também a Ricardo Costa, é dos locais onde esses critérios estão menos abastardados.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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16 respostas a A difícil arte das previsões

  1. Ana Matos Pires diz:

    Nuno,

    Proponho-lhe um teatrinho. Vamos dividir a peça em três cenas diferentes – cena1: atitude inicial da SicN; cena2: resposta do PSL; e cena3: resposta da SicN à resposta do PSL.

    (centremo-nos na cena3, é nessa que entra o Ricardo Costa)

    E que tal o Ricardo Costa (a SicN, portanto) ter dito tão somente, de modo firme e claro, “É esta a nossa política editorial, ponto.”? Não faria toda a diferença na avaliação da tal cena3?

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Olá Ana,
    Sim, provavelmente.
    Eu não vi a resposta da SIC notícias, só li os comentários e vi a cena original. Dou de barato que a resposta pode ter sido “desproporcionada”.
    Isso não retira o facto de que uma entrevista num telejornal não é uma comunicação ao país do Presidente da República e que é passível de ser interrompida e retomada, sem que isso signifique insultar a inteligência do Pedro Santana Lopes.

  3. Nuno, a tua teoria sobre os directos (só depois de ligar é que se sabe se é relevante ou não) faz-me lembrar a minha teoria sobre os peidos, que se resume em: só depois de os dar é que se pode saber se fazem barulho ou cheiram mal. Em mecânica quântica isso chama-se o “colapso da função de onda”. Como diria o Einstein, é Deus a jogar aos dados.
    Concordo que não se pode fazer da SIC Notícias bode expiatório. É um procedimento generalizado na televisão portuguesa. Mas calhou à SIC Notícias, e calhou ser com o Santana (já uma vez sucedera algo parecido com o Miguel Sousa Tavares, a Manuela Moura Guedes e a TVI). Podem dizer que o Santana não é nenhum santo no estado de tabloidização a que chegou a TV portuguesa. Claro que não. Mas não importa, isso é secundário; no essencial ele tem razão. E ouvir ontem o Ricardo Costa no seu programinha com o Nicolau Santos a dizer que ali interrompiam a emissão as vezes que fossem necessárias só serviu para confirmar isso. É um tipo arrogante e que pelos vistos se julga inimputável. Só foi pena a Ana Gomes, que lá estava, não lhe ter dito umas merecidas.

  4. AL diz:

    Ouf.. estava a ver que falhava esta (a da interrupção da entrevista), mesmo que não acerte plenamente: falta fazer o processozinho de intenções ao Dr. Santana Lopes declarando que tudo aquilo foi chico-espertismo. Mas ficará para outra ocasião.

  5. João José Fernandes Simões diz:

    «… a inteligência do Pedro Santana Lopes»
    Ah…! o psl é “inteligente”!
    Por acaso, anda por aí alguém que me explique a diferença entre inteligência e esperteza?

  6. Ana Matos Pires diz:

    Olá Nuno, bem disposto?

    Mais desadequada que desproporcionada, diria eu da resposta. Quanto à entrevista num telejornal, claro que é passível de ser interrompida e retomada, do mesmo modo que é passível de ser interrompida e não retomada, verdade?

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Filipe,
    Sobre os peidos não sei, mas sobre os directos posso dizer-te o seguinte: a situação do Mourinho é notícias, se ele no directo dissesse o que ia fazer, ele justificava-se o directo. O problema é que nunca se podia prever o que ele ia dizer. Francamente, não vejo qual é o problema de interromper uma entrevista num telejornal e regressar a ela. Acontece, em centenas de telejornais e programas de rádio, sem que ninguém faça disso uma questão de Estado.
    Olá Ana, bem disposta?
    Eu cá acho diferente regressar ou não regressar, a menos que tivéssemos a falar de um novo terramoto em Lisboa.

  8. Ana Matos Pires diz:

    Bem obrigada, Nuno.

    Regressar ou não regressar é sempre diferente, claro, mesmo no caso do terramoto. E quanto à cena2, temos opiniões diferentes – nem sabe o que isso me custa, sendo o personagem quem é, mas para ser honesta não posso negá-lo (bom, a menos que assuma a posição da Fuckitall “Eu sei que ele tem toda a razão neste caso mas, a ele, nunca a darei. Ele que mande o Carmona buscá-la.” ihih)

  9. Trocar um ex-primeiro ministro – por muito mau que tenha sido – por um treinador – por muito bom que seja – seria em qualquer país normal um escândalo.

    Trata-se de uma hierarquia de valores. O que está em causa não são homens e as suas qualidades, mas os cargos que ocupam ou ocuparam. E a hierarquia da sic neste momento é agua cristalina. Os treinadores estão acima de ex-primeiros ministros

  10. «Uma entrevista num telejornal não fica prejudicada por ser interrompida por um directo. Infelizmente, a maioria dos directos não têm razão de ser e servem apenas para aumentar a adrelina da transmissão. Mas, neste caso só dava para saber depois.»

    O Nuno, vai-me desculpar, mas não deixo de discordar de si:

    1. Não se tratava de um telejornal, no sentido de bloco noticioso onde se tratam dos mais diversos temas com actualidade; mas de um espaço de entrevista, anunciado ao longo de toda a noite e em que se previa (em exclusivo, por assim dizer) a entrevista do PSL durante cerca de 30 min – as interrupções que se entenderiam num telejornal, deixaram, portanto, de ser expectáveis.

    2. Não vejo, ainda que segundo um juízo de prognose a que faz apelo, que a chegada do Mourinho, em férias, a Portugal pudesse trazer qualquer novidade que justificasse a interrupção da entrevista sobre o uma assunto (bem ou mal) que se deve ter como de relevo para o país – lá está, não se tratava apenas de reordenar a difusão de notícias cuja transmissão estava prevista, mas de interromper alguém que foi convidado para falar de um assunto(sob qualquer perspectiva, de maior relevo que a chegada do Mourinho, em férias).

    3. Eu teria ficado mais confortada se a Sic-N, em vez de “cuspir” mas críticas, como uma criança mal educada, tivesse feito uma análise séria da circunstância de PSL ter conseguido o vitualmente impossível: gerar consenso. Assim, fico com a impressão que a Sic-N (ou os seus responsáveis) não tem a humildade de reavaliar os seus critérios editoriais, quando se torna evidente que algo de errado se passa.

  11. João José Fernandes Simões diz:

    dou de barato que o psl tem razão e que a sicn se portou muito mal, pior ainda com as piadas foleiras de ricardo costa. e a sicn conseguiu mais, como já disse noutros comentários aqui, que foi dar uma borla que só o veio beneficiar, dando-lhe uma imagem de credibilidade que o psl não tem.

    sinceramente, e descontando o facto de, por razões que não são para aqui chamadas, não reconhecer pingo de credibilidade a psl, o que me prejudica a formulação de um juízo mais objectivo sobre o personagem em questão, que neste filme, e noutros, muita gente não perceba que o psl mais não fez do que se aproveitar de uma oportunidade, única nos últimos tempos, para captar capital político. ele que, mais do que ninguém, já interrompeu tanta coisa.

    e agora, como ainda ontem disse, aproveitando a boleia deste episódio e a vitória do seu sósia político, e quando lhe perguntam se está na corrida para líder parlamentar, faz aquela figura de modesto e usando muitas vezes o “eu” e o “graça a deus”, como se não seja o que mais deseja na vida depois de ter sido encostado.

    e quando se fala por aqui de uma hierarquia de valores, dado que se trata de ter sido primeiro-ministro, uma coisa é o psl primeiro-ministro e outra é o psl comentador, sendo que era nesta qualidade que ali estava e não naquela, e não nos podemos esquecer que foi, de facto, primeiro-ministro, mas nunca o devia ter sido, já que para tal não foi eleito.

    e eu respeito todos os primeiros-ministros, mesmo os que não são eleitos, mas já não me venho obrigado a respeitar os psl’s comentadores.
    não aprendemos mesmo nada, sendo pena que a ignorância e o facciosismo político de quem defende políticos interrompidos não saiba vislumbrar o cinismo camuflado no gel.

    e já que estamos a falar do josé mourinho, o chelsea está uma porcaria de equipa e o russo ainda se vai arrepender de o ter interrompido.
    isto para não falar no facto do sporting ter sido interrompido a propósito de uma falta na grande área, sendo escandalosamente gamado este fim-de-semana (ainda bem…) e do benfica não se estar a safar com o espanhol que o vieira foi buscar para desviar as atenções das asneiras que anda a fazer nos últimos dois anos e de ter interrompido o fernando santos, quando já, ele próprio, devia ter sido interrompido pelos sócios.

    anda tudo interrompido, incluindo as ideias de alguns comentadores.
    e “tenham juízo”, como bem se escreveu no a memória inventada, a propósito do interrompido principal.

    estas cenas começam a fazer com que comece a gostar de josé sócrates, apesar de me estar a entrar no ordenado, e embora compreenda que não tem outro remédio, com o desbaratar que houve por parte de interrompidos passados.
    pelo menos, tem tomates não dando hipóteses a que seja interrompido nem que seja, como diz o jpp, com a técnica dos momentos chavez.

  12. luis eme diz:

    O problema foi este caso passar-se com o Santana Lopes, que espertalhaço como é, percebeu que era uma oportunidade de ouro de voltar à ribalta…

    Outro político, aceitava com “desportivismo”, este directo. Mas o “menino guerreiro” é um cromo único…

  13. Nuno, a SIC Notícias não é um telejornal permanente. Olha, tudo o que há a dizer sobre o assunto é dito pela Sofia Ventura. E mantenho: só de ouvir o Ricardo Costa é impossível ficar do lado dele.

  14. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Sofia Ventura,
    Li o seu texto com atenção. Acho que tem bastante razão naquilo que escreve. Embora eu ache que num canal de notícias não há problema em interromper a emissão com um directo, sem que isso signifique falta de respeito pelo dito cujo (acho isso menos “ofensivo” que os intervalos publicitários). Mas tendo a concordar consigo sobre a natureza “sensacionalista” do directo. A chegada de Mourinho de férias é uma fraca notícia que serve apenas para animar audiências.

  15. Também não concordo com o Nuno.
    Não estávamos no meio de um qq noticiário, mas sim de um espaço de entrevista. Tudo isto num canal “não generalista”, que diz ter uma linha editorial diferenciada, ou seja, virada para um tratamento mais cuidado das notícias, com especial destaque para os assuntos da política (doméstica e internacional).
    Evidentemente que há casos em que as interrupções se podem justificar (num especial de notícias dedicado à análise de uma grave crise internacional, o entrevistado pode ser interrompido, sempre que na presença de novos dados/acontecimentos), mas tal dificil/ é sustentável num programa/formato específico de entrevista. E neste caso era uma “não notícia”.
    Também não comungo do “mérito” do Ricardo Costa à frente deste canal.
    Na Sic Notícias, temos vindo a assistir à redução do espaço consagrado à política, mais evidente no campo dos assuntos internacionais, onde praticamente não produz reportagens ou documentários; a RTPN ainda vai enviando os seus repórteres a outras paragens. E o material do seus noticiários (em que as actualizações são mínimas) é cada vez mais retirado da SIC “generalista”… Programas dedicados à Arte e à Cultura, muito poucos e pouco além da mediania (não temos um Metropolis).
    Ao contrário do Nuno, penso que, infelizmente, a SIC Notícias se vem abastardando. Se ainda faz boa figura, é porque o resto da televisão foi colonizado pelo jornalismo tablóide. Acho a RTPN bem melhor do que a SIC Notícias.

  16. Totalmente de acordo com o teor da “nota espúria”.

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