Luís Rainha:O rapaz das mamas não gosta de comunistas

Pedro Boucherie Mendes, que eu conhecia apenas como director de uma revista de mamas e participante num programa que ligo quando quero que as crianças fujam para a cama, resolveu escrever sobre a festa do “Avante!”. Já há muito andamos habituados a ver a ignorância promovida a ponto de vista, em largas páginas juncadas de palpites néscios e patetices tresloucadas. Mas este caso, pela concentração de disparates e pela necedade militante, merece destaque. A coisa começa por irritar; mas ao fim de umas linhas já só dá vontade de rir. Agora, deu-me vontade de a partilhar convosco.

PBM começa a crónica – publicada dia 8, na revista “NS” – apostando na segurança dos lugares-comuns: parece que o rapaz se sente como que a ver um “documentário do National Geographic” sempre que lobriga “um comunista a falar”. Por mim, que até me lembro do Boris Karloff mal vislumbro o camarada Jerónimo, a falta de originalidade da passagem é penosa mas não fatal.

Depois, passa para “um dos cúmulos da toleima”, que é “o comício de três dias no Seixal que todos os anos, em início de Setembro, se disfarça de Festa do Avante”. Aqui, percebe-se que o rapaz nunca se deu ao luxo de visitar o objecto da sua crítica. Mas esse pormenor não o impede de criticar os jornalistas que efectivamente lá vão, por se esquecerem “de fazer jornalismo” — depois de hipnotizados pelos “tapetes dos guatemaltecos”, suponho. Imaginem que os malandros até escrevem sobre concertos em vez de glosarem as “paredes cimentadas com o sangue de milhões” que os maus dos comunas andaram a celebrar pelas bandas do Seixal.

Aqui, o PBM proclama que “o jornalismo deve saber distinguir entre a realidade e a ficção” — tenho de pedir emprestados uns números da “FHM” para ver se o seu director também apontava o dedito acusador a cada prótese de silicone que adornava as suas coloridas páginas…

Depois, o preclaro cronista denuncia outra conspiração vermelhusca: a venda da Caminho a Paes do Amaral. Na realidade alternativa em que o homem se asilou, teria sido “o PCP” a vender a editora (não os seus donos), sem acautelar o futuro de uns “trabalhadores dispensados”… de que ninguém ouviu até agora falar. De caminho, Saramago, “um comunista que gosta de ter coisas” (!), também surge como cúmplice da maquinação.

Hilariante? Esperem, que ainda não viram nada. O terceiro ponto da crónica é pedaço bem mais sápido. Nele, o PBM descobre a verdadeira razão da queda do Muro de Berlim. Reagan, Andropov, Gorbachov, Walesa, João Paulo II? Pouco fizeram. Terá sido por causa da falência do sistema soviético ou de outra minudência política qualquer? Ná.

O real poder por detrás da queda do Império do Mal foi… a nação tuga! A sério: terão sido os bons eleitores portugueses, através das derrotas infligidas ao papão comunista, a força motriz desse tsunami planetário. Eles “disseram não ao comunismo” em 1975 e iniciaram uma “terceira vaga da democracia” que logo alastrou à Espanha (?), à Grécia e à América do Sul. Uns bons anitos depois, a tremenda vaga com origem na Costa da Caparica ainda andava a dar voltas ao mundo, tendo por fim desabado sobre a URSS. Terá sido este o “principal contributo português ao mundo dos últimos anos”. (A bem da verdade, já Mário Soares tinha expendido teoria parecida, mas com a sua augusta pessoa no papel principal.)

Que o rapaz das mamas prefira a Carla Matadinho ao Sérgio Godinho é lá com ele. Que tenha escolhido o José Cid para abrilhantar a festa do 3.º aniversário da sua revista, também parece natural. E, pensando bem, estas alucinações grotescas sobre a história mundial assentam que nem uma luva ao director da revista que elegeu um vídeo intitulado “Os intestinos da Floribella”, versando “o facto de a miúda ter feito cocó no hall de entrada”, como o melhor “contributo português” no YouTube. Estamos falados quanto a discernimento e horizontes culturais.

Revelador mesmo é que ele tenha agora sido nomeado para tomar conta dos canais temáticos da SIC. A ignorância desabrida acaba sempre por ser recompensada. Pelo menos em Portugal.

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