A estação dos enfartes

O enfarte que o R. sofreu este Verão (felizmente sem consequências de maior) teve um significado e uma importância que o próprio R. não alcançou – e não alcançou porque se safou como não alcançaria se tivesse morrido. Eu explico: para todos nós, que conhecemos o R., somos mais ou menos da idade dele (mais menos do que mais) e praticámos enquanto jovens o mesmo género de disparates que ele praticou (ainda que com maior moderação e um menos pronunciado pendor auto-destrutivo), o enfarte do R. anunciou o início da estação dos enfartes e o fim da ilusão juvenil: daqui para a frente, menos casamentos e mais funerais. Até aqui, as mortes dos outros pareciam notícias de jornal, ou quase: mesmo quando sucediam próximo de nós, e nos tocavam de perto, as mortes passavam-se sempre noutro escalão etário, ao qual decididamente não pertencíamos e no qual fazíamos muita cerimónia a entrar. O enfarte do R. (malgré lui, que continua inconsciente e folgazão), tornou real a ameaça da morte (que, decerto, impende sobre as nossas cabeças desde o dia em que nascemos, mas devidamente entre parêntesis para podermos viver sem demasiada ansiedade) e avisou quem se tivesse esquecido de reparar na passagem das horas que tinha chegado o princípio do fim da vida, tempo dos grandes balanços e também dos grandes cagaços. Até agora, a malta parece-me estar a reagir bem, embora já tenha apanhado um ou outro a ler Pascal e a dar longos passeios no campo, pensativos passeios que para mim têm sempre um perfume testamentário e suicida. Mas mesmo que mantenhamos levantado o moral e acordado o uso da razão, tentando quanto possível resistir à sereia da introspecção, a verdade é que, no fim, não haverá como escapar ao seu canto: no estertor da morte, de pouco servirão quaisquer considerações sobre o homem em situação: quando um gajo se passa, não há paliativos para a sua solidão (a terrível solidão do moribundo: quem já viu alguém morrer sabe do que eu estou a falar). O tempo começa a acossar-nos, primeiro o R., para servir de exemplo, depois nós próprios, os pintelhos brancos, a menopausa das namoradas, os putos insuportavelmente jovens, e no final, mais tarde ou mais cedo, infelizmente sempre cedo de mais, o funeral é o nosso e nós já não estamos cá para o ver. Eu, que desde pequeno fujo a celebrar o meu aniversário, serei então, malgré moi, o centro das atenções. Como um personagem de Borges, hei-de também perguntar-me à vista do cadafalso: “Apesar de meu pai ter morrido, apesar de ter sido um menino… eu, agora, ia morrer? Depois reflecti que todas as coisas nos acontecem precisamente agora. Séculos e séculos, e só no presente acontecem os factos; inumeráveis homens no ar, na terra e no mar, e tudo o que realmente sucede, sucede-me a mim…” Depois de tudo o que já se escreveu sobre o assunto, não vou poder queixar-me (a quem?) de que ninguém me tinha avisado.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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9 respostas a A estação dos enfartes

  1. M.M. diz:

    O que é importante é viver, por muito que a morte nos cerque. Porque essa é sempre igual e como dizia o Cesariny “a morte é um momento” nada mais do que isso…
    O seu amigo R. , que como deve calcular, não conheço de lado nenhum faz bem em continuar folgazão – e talvez não seja tão inconsciente quanto isso (digo-lhe por experiencias próprias).
    Afinal quando um dia mais tarde encontrar “a terrível solidão do moribundo”(uma solidão inevitável mesmo para quem tem muita gente à volta) vai poder dizer ou pelo menos pensar: Vivi.

    PS: Desculpe se achar o meu comentário idiota por não saber quem é o R. . Mas no fundo está a falar de situações que são comuns a todos nós, independentemente de sermos nós a vive-las ou serem aqueles que nos são próximos.

  2. s diz:

    além de tudo o resto… (não resisto!) fazes hoje anos… ou amanhã?…

  3. António Figueira diz:

    Ao M.M.:
    O R. é um príncipe.
    Ao s.:
    Boa tentativa, mas não confirmo nem desminto.

  4. Parece-me que o princípe R. o que mais detesta é de moralismos… mas o texto está bem apanhado e dá sempre aso à imaginação do que se passa no interior de cada um de nós.

  5. Saloio diz:

    Eu cá não sei quem é o R. – desculpem-me a ignorância, mas não frequento os vossos círculos intelectuais de esquerda fashion.

    No entanto, ainda aqui não vi nenhuma palavra sobre o Sr. Dr. Magalhâes Mota, e quere-me parecer um pouco injusto, pois ele foi alguém que contribuiu com empenho, dedicação e desinteressadamente, a nossa democracia.

    Enfim, se calhar aqui no 5 dias esqueceram-se dele porque não era esquerdista e não escrevia nos jornais, mas era um Homem.

    Acho que hoje, Portugal acordou mais pobre.

    Digo eu…

    Saloio

  6. Carlos Fonseca diz:

    Sabe que, para a morte, também existe uma concorrência agudíssima entre patologias. As cardiovasculares em Portugal, como no mundo Ocidental, são quem lidera e e são avassaladoras. Ontem cilindraram o R., hoje fustigam o S. e amanhã derrubarão o T.. No entanto, depois da amanhã, ao comparar os tipos de vida destes nossos amigos, concluiremos que não existiam quaisquer analogias nos modos de vida deles, a não ser, claro, no desfecho final. O R. bebia uns copos, adorava e gozava a noite e na noite. O S., ficara desempregado aos 58 anos, e de contabilista-chefe passou a segurança, em regime de turnos – de 3 em 3 semanas, dormia mal e pouco… umas horitas de dia. O T. era um ‘workaholic’ desepenhando um lugar de topo numa empresa intermacional, para poder ter duas belas casas, uma na cidade e outra em na Q.Lago, uma prole de 5 filhos que a sua convicção religiosa e obediência papal fez expandir com sua Nonocas, esposa tão dedicada quanto traída.
    Estas 3 personagens encontraram-se no dia X, na mesma enfermaria de um hospital público (ainda são os melhores para os ‘enfartados’), felizmente sãos e salvos, convencidos que regressariam às suas vidinhas habituais daí a uns dias. Que engano ! O R. veio a concluir que o gozo da noite e na noite já tinha ido, o S. teve que pedir a pré-reforma e o T., que só podia tocar na Nonocas espaçada e muito suavemente, acabou por ser afastado da companhia e lá se foi a casa da Q. do Lago que andava a pagar.
    Como se vê, na saúde como na doença é, sobretudo, com o coração que se sofre. Umas vezes por desejo, outras por prazer e ainda mais umas por fazermos prevalecer a nossa componente animalesca.
    As melhoras do seu amigo R. !

  7. Fernanda Câncio diz:

    belo texto, antónio.

  8. Luís Lavoura diz:

    Muito bem escrito, gostei.

  9. jose carlos silva diz:

    Chamada de atenção para o romance Todo o Mundo de Philip Roth (Everyman no original) publicado este ano pela D. Quixote .
    «Tivesse ele sabido do sofrimento mortal de todos os homens e mulheres que por acaso tinha conhecido durante todos os seus anos de vida profissional, da história penosa de desgosto, sofrimento e estoicismo, de medo, pânico, isolamento e pavor de cada uma dessas pessoas, tivesse ele sabido de todas as coisas, até à mais insignificante, que elas tinham deixado para trás depois de em tempos terem sido estruturalmente suas, e da forma sistemática como estavam a ser destruídas e teria sido obrigado a ficar ao telefone o resto do dia e pela noite fora, fazendo pelo menos mais cem chamadas. A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.»

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