Rui Tavares: Europeus por mérito

Metade dos imigrantes que chegam aos EUA e ao Canadá são licenciados. Entre os que chegam à Europa, apenas treze por cento o são. Alarmados com esta estatística, alguns eurocratas reuniram em Lisboa para anunciar que começariam a pensar numa alternativa europeia ao “cartão verde” de residência permanente nos EUA, que possivelmente explica parte do sucesso norte-americano.

Infelizmente, o que saiu da Conferência de Alto Nível foi muito pouco, muito tarde e muito vago. O mediático “cartão azul” que foi pré-anunciado, e está longe de ser decidido, não é o “green card” dos norte-americanos. O próprio comissário europeu Franco Frattini disse apenas que sugeriria “a possibilidade de conceder liberdade de movimentos dentro da UE” aos imigrantes qualificados. E mesmo essa tímida “sugestão” de “possibilidade” seguiria um método rocambolesco: só depois de trabalhar dois anos num estado-membro o imigrante poderia mudar-se para outro estado-membro, e apenas um ano depois disso poderia mudar-se outra vez.

Comparar isto com o sistema norte-americano não é legítimo. Nem sequer sério, dada a diferença de escalas. Imaginemos que um engenheiro chega a Nova Iorque com o “green card”: se não encontrar um emprego, pode estar em Boston no dia seguinte, e passado duas semanas atravessar o país para trabalhar em Sillicon Valley. Tem um espaço de trezentos milhões de pessoas à sua espera. De acordo com as acanhadas sugestões de Frattini, que os líderes europeus provavelmente acharão demasiado ambiciosas, o mesmo engenheiro chegado a Londres não pode mudar-se para Helsínquia antes de dois anos; só um ano depois disso poderia ser contratado para trabalhar no Porto, e mesmo assim sem estar dispensado de passar os meses seguintes visitando as filas do SEF – cada país continuaria a conceder o seu título de residência à parte. Dada a compartimentação
do espaço europeu, é assim que tencionamos competir com os norte-americanos?

***

A presidência portuguesa merece pontos por ter convencido alguns dirigentes europeus a tirarem um tempinho para defenderem a necessidade e a bondade da imigração, mesmo que poucos líderes nacionais tenham coragem para fazer o mesmo diante dos seus eleitorados. Mas eu temo que estejamos diante daquele pouco que não chega a ter condições para ser melhor do que nada.

Somemos a isto dois problemas reais. Em primeiro lugar, pensar exclusivamente nos imigrantes altamente qualificados é uma ilusão. Os imigrantes qualificados não existem no vácuo e preferem ir para onde os seus compatriotas estão bem integrados, como é o caso dos EUA e Canadá. Duvido que um gestor chinês achasse grande piada à conversa recente sobre impedir os chineses de deter lojas na Baixa lisboeta – “quer dizer que se eu trabalhar e tiver sucesso nunca serei igual aos outros investidores?”. Em segundo lugar, há o problema moral de se roubar a África os médicos que são necessários por lá – um problema que não detém os nossos concorrentes mas que não deixa de ser menos grave por isso.

O que fazer? Uma possibilidade é formá-los por cá. Um imigrante que completasse uma licenciatura, mestrado ou doutoramento no país de acolhimento deveria ter direito à concessão de nacionalidade. Claro que formar um estudante sai caro. Uma vez que o imigrante não participou antes no esforço fiscal que isso representa, é legítimo pedir-lhe que cubra uma aproximação do custo real de ensino – embora o possa pagar depois de obter o título. Todos terão a ganhar, mesmo o país de origem.

Se a UE tiver dúvidas, como certamente terá, que nos impede de começar por Portugal? O imigrante terá um estímulo adicional para se qualificar, e o país sentirá que o imigrante se esforçou para ser português.

(Publicado no “Público” de 24 de Setembro)

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SEXTA | António Figueira
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4 respostas a Rui Tavares: Europeus por mérito

  1. ezequiel diz:

    Mas não se trata apenas do green card, Rui. Muitos outros factores contribuem para que os emigrantes prefiram os EUA como destino. Estou certo que os conheces bem e não presumo que os pudesses considerar todos num artigo de jornal.

  2. Luís Lavoura diz:

    “Metade dos imigrantes que chegam aos EUA e ao Canadá são licenciados.”

    Tenho as mais sérias dúvidas que esta frase seja verdadeira: os EUA estão cheios de imigrantes ilegais. Esta frase poderá muito bem estar certa se se referir apenas aos imigrantes legais. Incluindo os ilegais, estará certamente errada, erradíssima.

    “a possibilidade de conceder liberdade de movimentos dentro da UE aos imigrantes qualificados”

    Porquê somente aos qualificados? Os desqualificados também fazem muitíssima falta. Há por essa Europa fora uma cruel falta de pessoas para limpar escadas, limpar latrinas, tomar conta de crianças, etc etc etc. Na Alemanha, onde vivi, essa falta de pessoal é gritante. Os alemães têm que fazer praticamente tudo com as suas próprias mãos.

  3. Model 500 diz:

    “Os alemães têm que fazer praticamente tudo com as suas próprias mãos.”

    E qual é o mal? Choca ver um alemão a limpar latrinas !!!?

  4. ondevaisorioqueucanto diz:

    Nein, nein, nein. Os alemães fazerem tudo pelas suas próprias mãos? Mas que treta! Só se o Luís tiver a considerar como alemães, os turcos, os checos, os croatas, os polacos, etc, etc que por lá vivem. E se esses forem cidadãos, até os deve considerar; mas tira assim força ao seu argumento que parece apontar para o facto de os alemães serem bons demais para fazer os trabalhos desqualificados (será isso?)
    Agora, o artigo do Rui, e nisso concordo com o L Lavoura, tem bastantes imprecisões e acaba num bafiento “ser português” que já enjôa. Primeiro, é certíssimo, o número de imigrantes ilegais na américa é qualquer coisa que na Europa não se encontra, andam por volta dos dois milhões e quinhentos e servem as pequenas indústrias e explorações agrícolas sobretudo da Califórnia. Já para não falar daqueles que constituem população flutuante e que se deslocam semanalmente de um lado para o outro da fronteira mais bem protegida do mundo – se tirarmos Israel com a Palestina e a Coreia do Norte.
    Estes não aparecem nas estatísticas do green card, mas são indispensáveis para o PNB.
    Agora a Europa tem um dilema. Países como Portugal não só não conseguem captar imigrantes com altas qualificações (relativamente aos seus mais directos competidores) como eventualmente têm necessidade de imigrantes desqualificados. Onde Fratinni quer chegar é que abre as portas aos altamente qualificados – que é mais que certo vão escolher a Alemanha, a França, a Dinamarca e até a Espanha – para que eles possam residir; e fecha à porta da residência aos desqualificados. Estamos a caminhar para um sistema de gastarbeiter muito mais sofisticado do que nos idos de 60. É que agora há mesmo possibilidade de correr com eles – trata-se de um sistema de drenagem onde se libertam as impurezas ficando apenas com o essencial. Desumano, calculista, e muito pouco em linha com os direitos humanos.

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