As palavras são como as amêijoas

Escreve André Freire no “Público” de hoje que “o PSD não almeja para breve o poder”. Eu acho que ele é capaz de ter razão, mas nem por isso me parece sensata a utilização do verbo almejar e da forma verbal almeja, que se assemelha perigosamente a amêijoa (a minha filha, quando era pequena, confundia amêijoa com ameixa, mas isso é outro problema: não se almejam amêijoas como se alvejam ameixas, todos o sabem). Eu tenho um problema igual com o verbo lobrigar, tão do agrado de alguns tradutores e que, sobretudo na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, me evoca sem remédio a desagradável lombriga, mas os meus escrúpulos não são partilhados por toda a gente; recorde-se a este propósito a seguinte passagem de um comentário d’”O Lidador”: “Vá, cheguem aqui os 5, tomem um chupa-chupa e sentem-se. Agora ouçam com atenção: Porque estão com essas gesticulações? Porque razão andam tão carrancudos? Porque cospem no Lidador, que não lhes quer mal e apenas almeja levá-los de passeio um pouco para além dos vossos umbigos?” Felizmente, parece que não sou o único a dar o justo valor à prosa do nosso assador de carnes (castelhano!) preferido e ao seu vocabulário si recherché; não desisto de pensar que ainda havemos de ser tantos que havemos de almejar o poder.

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SEXTA | António Figueira
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