Eu ainda sou Adão por parte de Caim

A vida é feita de coincidências: tinha lido a semana passada um excelente artigo do professor de psicologia evolutiva na Universidade Harvard (EUA) Steven Pinker, quando o António Figueira ofendeu os descendentes de nobres (99 por cento da população) e os parentes distantes de Gengihs Khan (apenas 33 por cento dos portugueses). Espicaçado pela polémica e pelo artigo fui consultar o site do projecto geneall e descobri o que há muito suspeitava, pertenço a uma família de operacionais de sangue bastante mais vermelho (como deve ser) do que azulado: o meu bisavô marinheiro republicano mandou bombardear o palácio do rei. Para compor o ramalhete, o Remechido (guerrilheiro miguelista fuzilado em 2 de Agosto de um ano qualquer) é parente da minha avó materna. Nessa linha materna, o mais perto que fiquei da nobresa foi um dos Távoras que, segundo um amável e sábio comentador, nem sequer é aparentado dos escapados ao churrasco do Marquês de Pombal. De resto, perco os genes há mais de 500 anos na localidade de Ruivães. Da parte do pai, os meus antepassados passeiam-se por Espanha entre Escuderos, Arteguis e Duques de Estrada: Simpatizo sobretudo com um parente meu, a quem o cavalo mordeu e ele respondeu dando-lhe uma dentada e arrancando o beiço ao quadrupede; parece que tinha, segundo a minha avó, a alcunha de Machuca, por ter perdido a espada num combate e ter desancado os oponentes com uma árvore que não consta que fosse transgénica. Enfim, gente que não conhecia os encantos da blogosfera.
Pinker diz uma coisa com piada, como a população diminui, à medida que nos embrenhamos no passado, e todos temos dois pais, quatro avós, oito bisavôs e assim sucessivamente… somos todos parentes uns dos outros. Parece que Gore e Bush são descendentes de Afonso Henriques, o que diz muito sobre o efeito dos casamentos consanguíneos. Esta promiscuidade assusta-me bastante, não me apetecia ser primo do João Miranda….

A sociedade contra a família

Para o autor de “Como a Mente Funciona”, número insuficiente de antepassados levou a natureza a criar laços de parentesco inusitados, como entre George W. Bush e seu opositor Al Gore

Divulgação
 

Rene Russo e Dennis Quaid em cena da comédia “Os Seus, os Meus e os Nossos” (2005), dirigida por Raja Gosnell

STEVEN PINKER

As tecnologias novas freqüentemente têm conseqüências imprevisíveis. Michael Faraday não poderia ter antecipado a ascensão da guitarra elétrica e de seus efeitos em nossa cultura, nem os inventores do laser perceberam que prepararam o terreno para a próspera indústria da remoção de tatuagens.
Também é certo dizer que Watson e Crick não poderiam ter previsto um dia em que uma análise do DNA de Oprah Winfrey lhe dissesse que ela descende do povo kpellé da floresta tropical liberiana. “Sinto-me poderosa por isso”, disse ela ao ouvir a notícia, superando seu desapontamento ao saber que seus antepassados não eram guerreiros da tribo zulu.

Nova era
O fascínio pela ascendência tem sido por muito tempo parte da condição humana, dos “gerou” da Bíblia à minissérie “Raízes” e à restauração da ilha de Ellis [principal ponto de recepção de imigrantes nos EUA no início do século 20]. Mas, com o advento da internet e da tecnologia genômica, a genealogia entrou numa nova era.
O ano passado promoveu uma série de revelações vultosas. A notícia de que os antepassados de Barack Obama [candidato à Presidência dos EUA] possuíram escravos surpreende um pouco mais do que a notícia de que os de Strom Thurmond [1902-2003, senador] também tinham, mas foi ainda mais surpreendente o fato de que, entre os escravos da família de Thurmond, estavam os antepassados de Al Sharpton [ativista político].
E Henry Louis Gates Jr., apresentador da série da PBS “African American Lives”, que investiga as árvores genealógicas das famílias de seis afro-americanos, ficou chocado ao saber que metade de sua própria ascendência era européia, incluindo parentes irlandeses do lado do pai e duas mulheres judias do lado da mãe.
Poucos de nós podem esperar que uma busca por antepassados nos traga uma herança, um título ou um brasão: as recompensas da genealogia são em grande parte psicológicas. Como disse Winfrey, “saber a história da sua família é saber seu valor”. O sentimento, porém, é dúbio -não só no terreno moral mas no biológico.

Intuições x fatos
Um olhar mais atento para o ímpeto humano de conhecer sua árvore genealógica revela tensões entre nossas intuições a respeito de nosso parentesco e os fatos sobre o parentesco em si. Alguns desses fatos mostram que as descobertas da nova genealogia não devem ser tão surpreendentes de fato.
E outros, tacitamente estimados por milênios, têm sido, para nosso risco, recentemente negligenciados.
Apesar de todo seu fascínio, a consangüinidade é um tópico surpreendentemente negligenciado nas ciências do comportamento. Um marciano que lesse um livro de psicologia não teria nenhuma suspeita de que os seres humanos tratam seus parentes de modo diferente de como tratam os estranhos.
Muitos cientistas sociais foram longe o suficiente ao alegar que o parentesco é uma construção social sem conexão com a biologia. Mas, supondo que os criacionistas estejam errados e os seres humanos sejam produtos da evolução, seria surpreendente se nossa espécie inteira escapasse das forças poderosas que dão forma ao comportamento dos organismos para com seus parentes.
A genética e a teoria evolucionista prognosticam que a biologia da consangüinidade deve ter, de diversas maneiras, influenciado nossos pensamentos e emoções a respeito de nossos parentes.
A primeira é o fato simples de que os parentes consangüíneos provavelmente compartilham seus genes; levando-se em conta que as mentes são moldadas pelos genomas, os parentes têm provavelmente mentes semelhantes.
Os parentes próximos, educados juntos ou separados, se descobriram correlacionados na inteligência, na personalidade, no gosto e nos vícios.
Sente-se, assim, que a descoberta de um antepassado reflete nos descendentes, que podem sentir que têm uma explicação para o tipo da pessoa que são e que podem reivindicar ter uma dose dos traços louváveis do antepassado.
Um comercial para a Coca-Cola em “African American Lives” justapõe imagens de afro-americanos com imagens de africanos com as seguintes legendas: “Ela tem o gosto de sua tataravó por enfeites. Ele é esbelto e ágil como seus antepassados”.

Muito em comum
As semelhanças entre parentes consangüíneos significam que eles provavelmente compartilham valores, e os valores compartilhados podem facilmente levar à solidariedade devido ao que os ecologistas chamam de mutualismo e, os economistas, de “externalidades positivas”.
Dois sócios com os mesmos interesses podem se beneficiar apenas sendo egoístas -sempre o caminho menos doloroso rumo ao altruísmo. Se dois companheiros de quarto têm o mesmo gosto musical, um beneficiará o outro cada vez que trouxer um CD novo, e cada um deles tem uma razão para valorizar o bem-estar do outro.
Identificar um parente consangüíneo é, portanto, identificar uma cara-metade em potencial. As pessoas adotadas que vão ao encalço de seus pais e irmãos biológicos freqüentemente relatam uma solidariedade imediata assim que descobrem peculiaridades e paixões compartilhadas.
Um esforço mais direto dos genes compartilhados em emoções familiares vem do fenômeno que os biólogos chamam de aptidão inclusiva, seleção de parentes ou altruísmo nepotista. A sobreposição dos genes entre parentes faz mais do que torná-los similares; altera a dinâmica da seleção natural.
Através do tempo evolutivo, todo gene que predispusesse uma pessoa a ser agradável a um parente teria alguma possibilidade de ter uma cópia desse gene no interior de um parente, e esse gene teria sido favorecido pela seleção natural e se entrincheirado no genoma (contanto que o benefício médio ao parente, descontado pela probabilidade de que o gene está compartilhado, exceda o custo médio do favorecido-doador).
Compartilhar genes ajusta o estágio evolutivo para sentimentos de solidariedade e afeição no nível emocional, e isso, por sua vez, dá forma a muito da vida humana.
Em sociedades tradicionais, parentes genéticos têm mais probabilidade de viver juntos, trabalhar juntos, se proteger e adotar crianças órfãs um do outro; e têm menos probabilidade de atacar uns aos outros, de entrar em contendas ou se matar.
Mesmo nas sociedades modernas, que tendem a enfraquecer laços de consangüinidade, estudos mostraram que, quanto mais próximas duas pessoas são relacionadas geneticamente, mais inclinadas são a auxiliar uma à outra, especialmente em situações de vida ou morte.
A solidariedade entre pares de parentes é amplificada ainda mais pelo fato de terem outros parentes em comum. Meu irmão e eu somos próximos não apenas porque cada um de nós tem cópias dos genes do outro mas porque temos a mesma mãe, um pai, uma irmã e sobrinhas e sobrinhos, de forma que nossos interesses genéticos estão unidos.
Esse altruísmo triangular explica também por que os parentes não-sangüíneos podem sentir vários graus de afinidade.

Pouco em comum
Mas agora surge uma parte crucial da aritmética. Nas espécies que se reproduzem sexualmente, cada organismo tem dois pais, e cada organismo compõe metade da ascendência de sua prole.
O resultado é que, conforme as pessoas são separadas por mais gerações, elas estão relacionadas a um número exponencialmente maior de pessoas, e seu relacionamento genético com algumas delas também cai exponencialmente.
Indo para cima, você tem dois pais, com quem compartilha metade de seus genes; quatro avós, com quem você compartilha um quarto; oito bisavós; 16 trisavós; e assim por diante. Indo para baixo, se você e seus descendentes tiverem duas crianças cada, a seguir você terá quatro netos, oito bisnetos e assim por diante.
E você compartilha metade dos seus genes com seus irmãos, um oitavo com cada um de seus primeiros primos, um trinta e dois avos com cada um de seus primos de segundo grau e assim por diante.
As funções exponenciais rapidamente atingem valores de magnitudes inimagináveis ou diminuem gradualmente a valores infinitesimais, e a inabilidade de nossa intuição de seguir essa pista conduz a muitos paradoxos de consangüinidade.
Num velho esquete dos “Smothers Brothers”, Tommy explicava por que a explosão de população é um mito.
“Temos dois pais, quatro avós, oito bisavós, 16 trisavós e assim por diante. Quanto mais para trás você vai, mais antepassados você tem. Assim”, concluiu, “a população não está crescendo -está diminuindo!”
Como muitas outras piadas, essa depende de uma verdade sutil. Se você considerar 25 anos por geração, você pode calcular que teve por volta de 3 bilhões de antepassados à época da assinatura da Carta Magna [1215], 100 bilhões durante a invasão normanda, 2 quintilhões na queda do Império Romano e ao redor de 1,2 septilhão no nascimento de Jesus.
Não é preciso dizer que a Terra não conteve nada perto de tantas pessoas naquelas épocas.
O paradoxo é resolvido pela constatação de que nossos antepassados devem ter se casado com seus primos distantes -e de lugares diferentes, de modo que o grande número de espaços vazios numa árvore genealógica seja preenchido pelos mesmos indivíduos.
Imagine, em um caso extremo, que seus pais eram primos em primeiro grau. Então dois de seus avós pelo lado de sua mãe seriam também seus avós pelo lado de seu pai -você teria seis avós, em vez de oito.
Os genealogistas chamam isso de “colapso de pedigree”: a necessidade de que, ao recuar em sua árvore genealógica, ela se espalhará por gerações até abranger a maioria da população disponível, em conseqüência retornando a si mesma, coincidindo com o crescimento original dessa população.
A taxa do colapso depende do tamanho do número de parceiros potenciais e do índice médio e da proximidade de casamentos entre primos.
Mas o fato de nossos antepassados nunca terem coberto a superfície da Terra mostra que os casamentos entre primos de média distância devem ter sido a regra, mais que a exceção, na maior parte da história humana.
Esse incesto crônico, a propósito, não transformou nossos antepassados no elenco do filme “Amargo Pesadelo” [de John Boorman, em que homens da cidade deparam com uma população rural isolada e são recebidos com violência].
O grau de parentesco e, portanto, o risco de que um gene recessivo prejudicial encontre uma cópia em uma criança cai por terra à medida que você se move dos irmãos para os primos de primeiro grau e para primos mais distantes.
A mesma aritmética que faz o pedigree de um indivíduo entrar em colapso nele mesmo também o faz com o pedigree de todos os outros.
Todos nós somos relacionados -não apenas no sentido óbvio de que descendemos da mesma população dos primeiros seres humanos mas também porque todos os nossos antepassados se casaram com todos os outros em vários momentos desde o alvorecer da humanidade.

Parentes opostos
Não há número suficiente de antepassados para que cada um de nós tenha uma árvore genealógica própria.
Assim, é uma necessidade matemática, não uma surpresa, que a genealogia produza estranhos parceiros de alcova. [O presidente dos EUA] George W. Bush é um primo distante de seus adversários eleitorais Al Gore e John Kerry (assim como de Richard Nixon, Ernest Hemingway, rainha Elizabeth 2ª e, por meio dela, de cada monarca europeu).
Gore, por sua vez, é um descendente de Carlos Magno, e Kerry é um descendente de Maria, rainha da Escócia -e presumivelmente também (graças a seu avô paterno, que recentemente descobriu ser judeu) de rabinos e de agiotas medievais.
O que apresenta um outro corolário da matemática da consangüinidade: um único casamento entre povos de dois grupos étnicos resulta em que todos os descendentes serão perpetuamente relacionados a ambos os grupos.
Assim, mesmo os casamentos esporádicos através das linhas raciais e étnicas podem emaranhar as árvores genealógicas, explicando por que a espécie, peripatética e sexualmente onívora, é razoavelmente homogênea geneticamente, apesar de nossa distribuição mundial.
Os laços genealógicos que conectam presidentes norte-americanos e a realeza européia não são um sinal de nenhuma ampla casta transatlântica governando. Cada pessoa importante é relacionada a outras pessoas importantes (junto, naturalmente, com incontáveis pessoas não tão importantes).
Um genealogista que dispunha de muito tempo mostrou que o senador Alan Cranston, morto em 2000, era aparentado de Emily Dickinson, George Plimpton, Margaret Mead, da atriz Julie Harris, da família fundadora da Dow Chemical e da rainha Geraldine da Albânia.
Outros descobriram que os Hanks de Tom, a estrela do “Código Da Vinci”, têm laços de sangue com muitas das figuras históricas mencionadas no filme, incluindo William, o Conquistador, Shakespeare e Henrique 8º. Um fato recentemente revelado é o de que Paris Hilton está relacionada aos presos famosos Zsa Zsa Gabor e G. Gordon Liddy. Encontrar laços de parentesco entre pessoas é como vender banana na feira.

Herança de parente rico
E, antes que você se gabe do talento ou da coragem que compartilha com algum parente ilustre, lembre-se de que a matemática exponencial do parentesco sucessivamente divide pela metade o número dos genes compartilhados por parentes com cada ligação que os separa. Você compartilha somente três por cento de seus genes com seu primo em segundo grau e a mesma proporção com sua tataravó.
É importante recordar que, primeiramente, os traços psicológicos não são tão fáceis assim de serem herdados; portanto, as possibilidades de que você tenha herdado o gosto por adornos daquele ancestral vestindo aquele lindo “dashiki” são muito pequenas.
Tampouco espere a repentina generosidade inspirada geneticamente de um parente rico descoberto. A dizimação implacável dos recursos (genético e financeiro) ao longo das gerações é a base racional por trás da prática feudal da primogenia, em que toda a propriedade de família era legada ao filho mais velho.
E é por isso que nos tempos modernos as fortunas das famílias podem se dissipar tão rapidamente.
A deterioração geométrica do parentesco tira um pouco do divertimento de duas das principais ferramentas usadas por serviços da ascendência genética: a análise do DNA mitocondrial (que é passado da mãe à filha) e dos cromossomos Y (que são passados do pai ao filho).
Uma vez que traçam a ascendência somente pelo ramo masculino ou feminino de sua árvore genealógica, podem identificar somente um galho minúsculo, que diminui exponencialmente quanto mais recua no tempo.
Muitos afro-americanos que procuram seus antepassados paternos e, conseqüentemente, um sentido em suas raízes africanas -por meio da análise do cromossomo Y- descobrem, para seu desânimo, que essa raiz se encontra na Alemanha ou na Escócia.

Essência e aparência
Se os laços de família são tão biologicamente tênues, por que o parentesco assombra a psique humana?
Uma razão é que nossas intuições sobre o parentesco evoluíram quando vivíamos em vilas e territórios cujo tamanho pequeno e cuja mobilidade limitada asseguravam que a maioria dos casamentos fosse entre primos mais próximos -e, conseqüentemente, a sobreposição genética entre parentes era próxima o bastante para ser biologicamente significativa. Hoje, projetamos esses sentimentos de afinidade em parentes que são muito mais distantes -arbitrariamente distantes, graças às maravilhas da internet e da genealogia do DNA.
Mas a outra razão é que nosso sentido de parentesco é estimulado não pelo ser aparentado em si, mas pela percepção de ser aparentado.
Afinal, quando encontramos um parente possível, nós geralmente não exigimos um cotonete para colher uma amostra de material e analisar seu DNA. Em vez disso, confiamos nas dicas que, no passado evolucionário, tenderam a se correlacionar com parentesco.
Os experimentos recentes de Debra Lieberman, John Tooby e Leda Cosmides [em psicologia evolutiva] mostraram que dois tipos da experiência de vida são cruciais para provocar sentimentos familiares em irmãos (tais como fazer favores e ter disposição a doar um rim).
Um consiste em observar o irmão ser cuidado por sua mãe quando pequeno. O outro é ter crescido na mesma casa que o irmão.
É por isso que as crianças adotadas no nascimento podem ser emocionalmente próximas de seus pais e irmãos, apesar da falta de sobreposição genética: o vínculo precoce ajusta todos os detectores de parentesco, um tipo de ilusão benigna.
E, porque essas experiências igualmente provocam repugnância a pensar em fazer sexo com o parente, a rejeição ao incesto não é perfeitamente correlacionada ao parentesco biológico. As crianças não aparentadas que são criadas juntas (como nos berçários comunitários dos kibutz) tendem a se afastar como parceiros sexuais na idade adulta, como se fossem irmãos.
E crianças que encontram um dos pais ou um irmão pela primeira vez na idade adulta podem considerá-lo sexualmente atraente, como a escritora Kathryn Harrison relata em “O Beijo” [ed. Objetiva], suas memórias de um caso amoroso de quatro anos com seu pai.
Quanto às pessoas, então, o parentesco está nos olhos de quem vê. Isso cria uma abertura por meio da qual os manipuladores podem inundar o senso de parentesco de alguém com sinais que imitam os sinais de parentesco biológico. Esse tipo de controle da mente é uma tentação forte a qualquer um que queira promover a coesão entre pessoas que não são estreitamente relacionadas.
Contrariamente a uma pedra de toque do direito norte-americano, os valores familiares não sustentam a religião e o país; subvertem-nos.
Uma família extensa é uma aliança rival para qualquer outro grupo, mantida unida não por uma ideologia ou um contrato social ou por um propósito comum, mas pelo irracional parentesco genético.
E é uma aliança com uma vantagem injusta: os parentes importam-se uns com os outros mais do que os companheiros. As religiões e os movimentos políticos, dessa forma, têm que enfraquecer as lealdades familiares.
A coletivização marxista e a programação dos discípulos do reverendo Moon são óbvios exemplos recentes, mas milênios antes deles, Jesus declarou significativamente: “Os inimigos de um homem serão aqueles de sua própria casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”.

Lares simulados
As alianças freqüentemente bem-sucedidas tentam cooptar sentimentos de família de forma a enganar o cérebro, fazendo-o perceber os aliados como parentes. Embora a técnica mais poderosa -forçar pessoas a serem criadas em um único ambiente familiar- seja impraticável, outros tipos de ilusão de parentesco vêm sido repetidamente inventados.
O antropólogo Alan Fiske observa que as refeições comunais são um dos rituais de ligação mais comuns no mundo, em parte porque simulam experiências de família, em parte porque os povos acreditam que você é o que você come -e, se vocês comem a mesma coisa, são a mesma coisa.
Muitas tribos e alianças (tais como a máfia) cortam seus dedos e os friccionam uns nos outros para permitir que seu sangue se misture, daí a expressão “irmãos de sangue”.
Do mesmo modo, as pessoas desfiguram seus corpos -produzindo cicatrizes, fazendo tatuagens, colocando piercings, adotando cortes de cabelo, fazendo circuncisões e outras formas de mutilação genital- para fazer o grupo parecer uma raça ou uma espécie separada, biologicamente distinta de outros grupos humanos.
A língua fornece uma outra maneira de cooptar os sentimentos afetuosos e vagos que as pessoas têm para com seus parentes. Um truque comum é o uso de metáforas de parentesco: irmãos, fraternidade, congregação, irmandade, pátria, pátria-mãe, terra natal e assim por diante.
Essas táticas são provavelmente eficazes: experimentos mostraram que as pessoas são convencidas por um discurso político se o orador utilizar termos associados a parentesco.
Os mitos e as ideologias são igualmente utilizados. Dizem às pessoas que elas descendem de um patriarca ou de um casal primordial ou que estão ligadas a uma terra natal ou que pertencem ao mesmo ato da criação ou que estão relacionadas ao mesmo animal totêmico.
Em grande parte, as instituições da modernidade dependem da dissolução dos laços familiares. É difícil administrar uma organização eficaz se você não pode demitir o cunhado estúpido que lhe foi imposto pela família da sua mulher, nem a sociedade civil pode funcionar se os instrumentos do governo são tratados como espólio do clã local mais poderoso.
A segurança pública é garantida mais eficazmente por uma polícia e por um sistema judicial desinteressados do que pela ameaça de que parentes venham vingar seu assassinato, e a defesa nacional depende sobretudo da disposição dos cidadãos a negligenciar as ligações de parentesco.
Em “O Poderoso Chefão 2”, Sonny Corleone censura Michael por sua solidariedade para com os homens que se alistaram após Pearl Harbor: “Eles são tolos porque arriscam suas vidas por desconhecidos. Seu país não é seu sangue. Lembre-se disso”.
Na luta entre a sociedade e a família, a matemática exponencial do parentesco trabalha costumeiramente a favor da sociedade. Com o passar do tempo ou pelo fato de que os grupos começam a se tornar maiores, as árvores genealógicas se entrelaçam, as dinastias se dissipam, e as emoções nepotistas se diluem.
Mas as famílias podem se defender com uma tática poderosa: podem transplantar as pontas do galho da sua árvore genealógica pela união com um primo.
Se você força sua filha a se casar com o primo de primeiro grau dela, então seu genro é seu sobrinho, o sogro dela é seu irmão, a propriedade dos seus pais valerá duas vezes mais por neto, e os casais nunca terão que brigar sobre qual lado da família visitar nos feriados.
Por isso, os clãs e as dinastias em muitas culturas incentivam a união entre primos de primeiro ou segundo graus, tolerando o risco ligeiramente elevado de doença genética.
Não somente a união de primos amplifica o grau médio de parentesco entre membros do clã como os enreda em uma teia de relacionamentos triangulares, com os parentes valorizando-se uns aos outros por causa de seus muitos parentes mútuos assim como seu próprio parentesco.
Em conseqüência, o clã ou a tribo pode emergir como uma poderosa coligação política coesiva -e com pouco em comum com as outras famílias, clãs ou tribos na organização política que os compreende.
A antropóloga Nancy Thornhill mostrou que as proibições a casamentos incestuosos na maioria das sociedades não ocorre por questões de saúde pública visando a reduzir defeitos congênitos, mas como uma maneira de a sociedade lutar contra famílias grandes.

A família contra o Estado
Em janeiro de 2003, na iminência da Guerra do Iraque, o jornalista e blogger Steve Sailer [www.isteve.blogspot.com] publicou um artigo na revista “The American Conservative” em que chamou a atenção dos leitores para uma característica daquele país que fora ignorada no debate corrente. Como em muitas sociedades tradicionais do Oriente Médio, os iraquianos tendem a casar entre primos.
Aproximadamente metade de todas as uniões é consangüínea (isso incluindo a de Saddam Hussein, que preencheu muitas posições do governo com seus parentes de Tikrit).
A conexão entre os fortes laços de família dos iraquianos e seu tribalismo, corrupção e falta de comprometimento com a nação que os contém fora percebida havia muito tempo por aqueles que conheciam o país.
Em 1931, o rei Faisal descreveu seus súditos como “desprovidos de qualquer sentimento patriótico, sem nenhum laço comum que os ligue, dando ouvidos ao mal; propensos à anarquia e perpetuamente prontos para se levantar contra qualquer tipo de governo”.
Sailer previu que a estrutura familar iraquiana e sua má combinação com as sensibilidades da sociedade civil frustrariam qualquer tentativa de construção de uma sociedade democrática.
Fora de um círculo familiar pequeno, as ligações de parentesco são biologicamente superficiais, vulneráveis à manipulação e adversas à modernidade. Por tudo isso, a ligação quase mística que sentimos com aqueles que percebemos como parentes continua a ser uma força poderosa nas questões humanas.
Não é pouca ironia que, em uma época em que a tecnologia nos permite sentir essas emoções como nunca antes, nossa cultura política sistematicamente as interprete mal.

Publicado no suplemento Mais da Folha de São Paulo

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

9 respostas a Eu ainda sou Adão por parte de Caim

  1. jj diz:

    Mas, então, qual a novidade, o Telmo Correia já não nos tinha dito somos todos primos, quando andou a limpar as paredes na campanha para Lisboa…!

  2. Diogo diz:

    E Cheney? Será o cruzamento de Diana Spencer e do Anticristo?

    E Sócrates? Será descendente de Cheney e de Paulo Portas?

    E Paulo Portas e Sócrates? Terão descendência?

  3. Caro Nuno Ramos de Almeida,
    Em ultima análise somos todos primos, a piada da coisa está em descobrir isso…
    O António figueira não me ofendeu, visto que não me encontro nos 99, 9 ou 19 % dos portugueses que são nobres. A única coisa em que, na minha humildade camponesa, tentei dizer ao António Figueira foi que Eça era um nobre de berço…Isto após ele ter dito ao comentador AL, num tom algo paternalista que Eça (e outros) não eram nobres: “Não, AL, não eram – e a nobreza portuguesa do século XIX é certamente muito mais bem representada pelo Conde de Gouvarinho do que pelo autor de “Os Maias”… Ora talvez o Eça fosse capaz de caracterizar tão bem uma classe porque, entre outros factores, a conhecia por dentro.
    A genealogia é, na minha opinião algo de muito importante para o estudo da História, quando é feita com seriedade. Quando é feita com certo tipo de pretensiosismo (eu sou bom ou sou diferente + porque descendo de A ou B) há uma critica/pergunta que os senhores, certamente por não quererem ofender os leitores, e as suas prerrogativas não fizeram: e no meio dessa linhagem não houve alguma menos séria que tenha dado uma por fora? É claro que esta critica tanto se aplica às bisavos dos pretenciosos como as minhas e, logicamente às vossas e às de todos nós.
    Há coisas muito interessantes na genealogia em várias áreas. Uma delas é a de, através desta ciência, se poder constatar que não há “sangues puros”, como alguns movimentos políticos de extrema direita apregoam.
    Quanto à sua arvore genealógica é muito interessante, até tem ´”lá para cima” um barão e tudo! É pena é não fazer parte dos 99% dos portugueses que descendem do Afonso Henriques! Ainda tentei ver se corria nas suas veias sangue de algum familiar do Santo Oficio que tivesse sido seu antepassado para lhe por peso na consciência mas não consegui…Ah menino bem!!!

    Cumprimentos,
    Max Mortner

  4. AL diz:

    Caro Max Mortner,
    Fico a saber que o Sr. Ramos de Almeida tem antepassados que mandaram bombardear a residência do soberano de um regime parlamentar e constitucional. Não é de admirar.
    Também me meditei bastante com a erudição do Sr. Figueira sobre o séc. XIX e o modo como compreendeu bem as biografias do Eça.

  5. AL diz:

    O que o Nuno Ramos de Almeida (desapareceu o Sr. Ramos de Almeida do cometário anterior) escreveu para que a gente soubesse que ele é gente conhecida!… Achei que o mínimo de decência era ir ver ao genealogia e … uhm, sim, conheço primos dele. Os que conheço não são de esquerda, mas são primos dele. Nuno, apareça! Max, apareça também.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Max Mortner,
    Também vi esse pobre barão de Porto Alegre, espero que tenha tido uma vida divertida. Deve ser da época do “foge cão que te fazem barão! Para onde se me fazem visconde?”.
    Caro Al,
    Mima-me. Repare que no meio de tanta realeza eu só arranjo um guerrilheiro e um marujo republicano. Pior só mesmo parente da Dona Urraca, como o meu amigo Miguel Portas que ainda é primo do Bush pela parte de D. Afonso Henriques…:)

  7. AL diz:

    Caro Nuno Ramos de Almeida,

    Convém introduzir o conceito de contra-parente (aquele que é parente de parentes nossos). Justamente jantei ontem em casa de uma parenta de parentes seus (não sei se ela acharia graça a estes contra-parentescos com o reviralho aqui denunciados…). Apanhou com o Sr. Ramos de Almeida por causa do tiro do almirante ao palácio das Necessidades, embora o Remexido atenue muito a gravidade de tal parentesco. Interessantíssimo, o Remexido! Há um estudo sobre os Les bandits et la Revolution – ultrapassado, já se vê, mas com alguma graça, vou ver se o acho (não que o Remexido fosse um bandido)
    O Távora é que não é dos justiçados de Belém. Nada tem a ver. Lamento, mas nem tudo podem ser boas notícias.
    Apareça! Traga o Max (bem decente a defender-me! Obrigado Max!)
    Al.

  8. AL diz:

    Caro Max.

    Há um estudo que lhe aconselho, do Conde de Aurora, “Eça de Queiroz e a nobreza”. Creio que é aí que há uma “proposta de resolução em linha recta” da leitura da Ilustre Casa – que eu também defendo.
    Quanto às genealogias, são actos de fé, como dizia o Borges, mas quem pode viver sem fé?
    Apareça! Traga o Nuno
    Abraço
    Al

  9. ezequiel diz:

    Aquele detalhe das bolinhas do geneal é muito giro. Ainda não percebi. As bolinhas amaarelas calham a quem? Tem azulk escuro e azul claro e, por toutatis, não é que optaram pelo azulinho clarinho como símbolo da nossa nobreza realeza! Uma coisa esmorecida, mesmo mal amanhada, uma tristeza. E, se não me engano, há por lá cor de rosa. São os tresmalhados. Os amarelos, claro, são a geração mdma. Os castanhos são os chatos de abril que ainda não se esqueceram da revolução. Não falam noutra coisa. O azul escuro representa, alas com balalas, o mui famigerado lobby (trambores!) GAY. (O contributo do Sr Pedro Arroja neste domínio é de reconhecido mérito. A ele, desde já, os nossos sentidos cumprimentos)

Os comentários estão fechados.