Rui Tavares: Como obter ideias

Tal como nas bebidas alcoólicas, há duas maneiras de obter ideias: por fermentação ou por destilação. As ideias obtêm-se por fermentação quando se acumulam histórias antigas e novas, recortes de jornal, memórias agradáveis ou desagradáveis, afectos em decomposição, livros, coisas meio esquecidas, coisas meio lembradas. Junta-se tudo e aguarda-se que se levante uma espuma roxa a que se chama mosto. É adocicada e agradável mas ainda não ganhou grau, o que quando acontecer nos dará vinho. Em termos muito genéricos, a fermentação é o resultado de juntar a abundância das coisas com o passar do tempo.

O processo de destilação é inteiramente distinto. Tem como objectivo separar e purificar os elementos que constituem as coisas. A matéria prima é colocada no alambique; por debaixo dela acende-se o fogo; uma parte evapora-se e sobe para uma câmara vazia, de onde por sua vez desce através de uma retorta ou serpentina arrefecida, condensando-se pelo caminho. O resultado é muito puro e concentrado. Também se obtêm perfumes através de destilação; mas não se podem beber. Uma gota apenas basta para preencher um ambiente.

As ideias que se obtiveram por fermentação ou destilação são diferentes na sua essência. As bebidas destiladas chamam-se muitas vezes espirituosas, porque é como se elas fossem a alma da substância. Ao contrário, as ideias fermentadas não são puras, mas compostos, ou misturas, de diversas coisas. Ambas são inebriantes, como é da natureza das ideias.

Para o pensamento em fermentação, tudo serve para obter ideias: os disparates podem transformar-se em arte, o mau gosto interessante, um concurso televisivo repugnante numa janela para a alma humana. O estrume é fertilizante. O pensamento em destilação, pelo contrário, precisa de concentração e silêncio; não escreve com a música ligada, não quer papéis em cima da mesa, exige limpeza e procura linhas rectas. O pensamento em fermentação aumenta. O pensamento em destilação reduz. Um inventa regras; o outro encontra leis. Para um, a confusão é criativa; para o outro, a confusão é o problema.

Não existe ninguém que pense só por fermentação ou só por destilação. A maior parte das pessoas, ou culturas, ou organizações, oscilam regularmente entre os dois modos. Este texto é produto de destilação; todos os textos que começam por “há duas maneiras de fazer algo” o
são. Mas é precedido de fermentação, notória na sua metáfora de base; todas as metáforas são fermentação.

Grupos de pessoas juntam-se para ter ideias. Uma banda pop, um conselho de ministros. Fazem “tempestades cerebrais”, que são fermentação. Ou dedicam-se à “resolução de problemas”, que é essencialmente destilação. É uma dança pendular; às vezes destilámos
tudo o que havia para destilar. Viramos as pedras da vinhas ou metemos as mãos entre as almofadas do sofá à procura de uma ideia que tenha ficado esquecida. Não resta nada; secámos os miolos até ao bagaço. Está na hora de deixar o terreno em pousio, ou voltar a
atirar um monte de coisas lá para dentro.

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Há épocas que foram mais de fermentação ou destilação. O politeísmo é fermentação. Muitos deuses para todas as coisas, e mais deuses para serem os pais desses deuses, e semi-deuses para se colocarem entre os deuses e os homens, e mais ninfas e musas e sátiros para distribuir
pela paisagem. O monoteísmo é destilação; apenas um Deus para tudo o que existe. O instrumento da destilação, al-ambiq, vem do mundo do Islão antigo, talvez a religião mais abstracta do seu tempo.

Há teorias alternativas para a origem das ideias. Os profetas diziam obtê-las por “revelação”. Para Moisés, os Dez Mandamentos apareceram-lhe não por qualquer processo mental seu, mas porque lhe foram dados. Naturalmente isto é uma espécie de destilação forçada: “eu sou o
Senhor teu Deus” e “não terás outros deuses além de Mim”. Resolve-se a abundância do universo e as complicações da vida em sociedade em duas penadas.

Os poetas românticos pretendiam obter as suas ideias por “inspiração”, que na origem é semelhante à revelação (“in” significa para dentro e “spiritus” o sopro divino) mas na prática é uma coisa diferente. O poeta vai para o campo ou para o meio das ruinas, observa uma guerra ou uma tempestade e as ideias “nascem”. À medida que viajamos no tempo, e da religião para a arte, a inspiração aproxima-se cada vez mais da fermentação.

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Entre uma coisa e outra, o século XVIII terá sido a época ideal para o pensamento em destilação. Foi nesse século, aliás, que se insistiu que o progresso das artes e das ciências consiste em purificar as ideias através do uso da razão. E, mesmo mais tarde, foi nas ciências naturais que as ideias destiladas resultaram melhor: a evolução é uma ideia simples da qual se explicam as mais variadas coisas. Mas a evolução também nos ensina a valorizar a fermentação, aquele caldo de genes de onde sai a vida.

Encontramos fermentação e destilação na filosofia, na política, e também nas artes. O dadaísmo é fermentação, o surrealismo também; o minimalismo é destilação (“menos é mais!”).

O marxismo era destilação: “toda a história é a história da luta de classes”. O neo-liberalismo, seu grande rival, também: “as leis do mercado isto, as leis do mercado aquilo, as leis do mercado aqueloutro”. Ambos demonstraram já a sua incompetência com as pessoas reais. Quando isso acontece, exasperam-se com a realidade, por ser tão intratável. Outros reagem através da religião. Outros pelo moralismo. Outros pelo saudosismo. Há uma geração, a televisão destilava quotidianamente a realidade; hoje, a internet é um enorme caldeirão em fermentação permanente.

Mas a exasperação, na verdade, é fútil. Reconheçamos que de cada vez que tentamos fazer sentido da nossa época, somos forçados a acrescentar mais umas camadas de palavras às camadas anteriores. E criamos um pouco mais de confusão.

A nossa época é de fermentação. Aproveitem enquanto dura.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Rui Tavares: Como obter ideias

  1. Luísa diz:

    eu acho este texto brilhante. até fiquei ofuscada da vista, hihi!

  2. renegade diz:

    O RT usou esta metáfora na apresentação que fez no Socialismo e depois da massagem às meninges fiquei a pensar: “olha, se o socialismo for sempre assim não me importo nada de lá morar!”.

  3. Lidador diz:

    Enquanto o RT se mantém nas regiões etéreas da abstração, o post lê-se bem e, tal como nas previsões astrológicas, toda a gente encontra na metáfora algo com que se identificar.
    Assim que compara considera o marxismo o “grande rival” do “neoliberalismo”, borra a pintura toda e prova que ainda não percebeu nada do assunto.
    Nomeadamente o facto simples e claro de o liberalismo não propor nenhuma visão escatológica do mundo, não ser uma ideologia nem uma religião secular, como o marxismo.
    O liberalismo não é o “grande rival” do marxismo, mas sim a recusa liminar das visões míticas do mundo, alimentadas não só pelo marxismo, mas por outras religiões seculares, como o islamismo, o nazismo, o socialismo ou o fascismo.

    RT, ao enveredar por uma metáfora baseada em teses e antíteses, em grupos antagónicos em luta, mantém-se afinal na tradição marxista e prova que apesar da falência desta religião secular, a vulgata marxista continua a dominar o sistema de pensamento de muita gente que acredita já não o ser.

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