Cenas da luta de classes na freguesia da Lapa

Hoje ao almoço, a minha amiga S. contou-me o seguinte: que de manhã tinha passado pela Confeitaria X., a encomendar um bolo para os anos de um dos miúdos dela, e, como reparou numa fotografia antiga que lá estava, de uma Confeitaria assim em grande, perguntou à mulher da Confeitaria X. (ou antes à senhora, que á mulher tem algumas pretensões sociais) se aquilo tinha alguma coisa a ver com ela, mas o que ela foi dizer!, porque a mulher aliás senhora lhe respondeu: Aquilo, minha senhora? Aquilo era meu e foi-me roubado com o 25 de Abril! e nisto começou com uma conversa que nunca mais acabava, a S. com os miúdos no carro e o carro mal parado, mas a mulher não dava tréguas, aquilo foram os comunistas e os invejosos, ou vice-versa, sei lá, e o que tinha graça é que o ódio de estimação dela era o Manuel Lopes, da Intersindical, quem diria?, com o devido respeito, devia ter sido uma figura menor, supunha a S., enquanto o Vasco Gonçalves até aparecia bem na fotografia, porque seria?, eu disse que se as pessoas podem escolher os seus santos de estimação também hão-de poder escolher os seus ódios, talvez tenhas razão, disse-me a S., que me contou que a mulher nunca mais se calava, aquilo foi só o princípio, o 25 de Abril, na sua escatologia pessoal, tinha sido o fim mas também o princípio, e agora é que ela estava bem, agora é que ela sabia o que era viver, os invejosos tinham ficado sem nada (Deus Nosso Senhor não dorme, e o Manuel Lopes também já morreu) e agora não lhe faltava nada, graças a Deus, depois dos cinquenta é que começa a vida, até aos cinquenta andamos todos de fraldas. Ora aí está um pensamento muito positivo, disse eu, e a S., que é moça da minha criação, também concordou.

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SEXTA | António Figueira
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8 respostas a Cenas da luta de classes na freguesia da Lapa

  1. Fernanda Câncio diz:

    e eu, eu. também quero concordar com isso

  2. samuel diz:

    Há males que vêm por bem…

  3. Este relato fez-me lembrar um episódio que me envolveu há muitos anos. Na altura tinha uma vizinha, daquelas de sempre, que sendo já adulto aproveitava todas as ocasiões para dizer; parece que ainda foi ontem que andei contigo ao colo e agora estás um homem feito. No contexto daquelas vizinhanças em que existia entreajuda e controlo social apertado. A senhora, beirã da beira-baixa, era um poço de solidariedade. Um dia, cruzando-se comigo na rua, em altura de campanha eleitoral autárquica, interpela-me dizendo; vi-te num papel daquilo dos partidos, e com ar abatido como se me tivesse descoberto uma doença ou algo pior, disse-me; nunca gostei de comunistas, sabes lá na terra tenho umas leiras que o meu pai me deixou e sempre “deitei” contra os comunistas. Não sabendo bem o que lhe dizer para lhe abrir a expressão, disse; não se preocupe que eu só me preocupo com latifúndios e com as crianças ao pequeno almoço…

  4. Ana Matos Pires diz:

    A ser assim, a única coisa que, para já, posso declarar é que me estou a dar bem com as fraldas.

  5. Fernanda Câncio diz:

    la prairie, ana?

  6. Ana Matos Pires diz:

    La Prairie factor protector 100 elevado a n, contra assaduras. Não nos queixamos, verdade f.?

  7. Louro diz:

    E aquela senhora que dizia que o 25 de Abril afinal não foi em 1974, mas sim a partir do momento em que abriu a Zara em Portugal e patroa e criada passaram a vestir-se de igual?

  8. Fernanda Câncio diz:

    não, ana, não.

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