Outra entrevista (a última)

Depois das referências às entrevistas a Manuel Villaverde Cabral e Vasco Pulido Valente, uma última menção à série de entrevistas que António José Teixeira realizou este Verão para o “Diário Económico” – todas entre o fútil e o intemporal, como pede a estação – desta vez com o discurso directo de Francisco Seixas da Costa, actual Embaixador de Portugal em Brasília, produzindo considerações inteligentes sobre duas das coisas que mais interessam no nosso trato com o Brasil: o afecto “natural” e a língua comum:

Há equívocos que permanecem no relacionamento bilateral?

Há um bom relacionamento. O Brasil sabe que Portugal é na Europa um defensor dos seus interesses garantido e automático. Sabe, no entanto, que Portugal tem o peso que tem no contexto europeu e mundial. Temos de cuidar de um aspecto que talvez possa beliscar a prazo o relacionamento com o Brasil. Está a desaparecer a última geração que tinha uma afectividade natural com Portugal. Hoje há menor ligação à diplomacia da retórica… Até a nova classe política brasileira, que não passou por Portugal ou pela Europa, que não esteve aqui exilada, tem hoje referências e formas de olhar para Portugal diferentes. Há ainda um olhar negativo para o antigo colonialismo, o que é normal nos países que foram colónias, mas talvez não o seja num país emergente como potência mundial. É preciso cuidarmos da afectividade. Como dizia o Alberto Costa e Silva, que está encarregue das comemorações dos 200 anos da chegada de D. João VI ao Brasil e foi embaixador em Lisboa, a afectividade foi o que nos permitiu manter vivas e alerta as nossas relações nos momentos em que nada se passava ou em que a conflitualidade emergia. Aprendi a apreciar esse aspecto positivo da afectividade natural, mas que tem de se trabalhar e aculturar.

Além da retórica, a língua une-nos tanto como poderia? A cultura portuguesa continua a ter dificuldades de penetração no Brasil. É um problema económico ou dificuldade de comunicação?

Há um problema estratégico sobre a língua portuguesa no mundo que temos de discutir. Temos de perder o sentido patrimonialista da língua. Se o português tem futuro esse futuro está no modo maioritário como ela é falada. E esse é o modo brasileiro de falar português. É preciso que se comece a dizer isto de uma forma clara. Temos hoje quatro grandes línguas internacionais de afirmação cultural: o inglês, o francês, o espanhol e o português. O resto são línguas que podem ter uma grande dimensão de falantes ou um grande peso económico (como sejam o chinês, o russo ou o alemão), mas não têm uma grande dimensão de natureza cultural. Devemos olhar para o português como elemento de natureza estratégica no plano internacional. Brasil e Portugal têm de o encarar como elemento constitutivo da sua afirmação de poder no mundo.”

(O texto integral da entrevista pode ser encontrado aqui).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Outra entrevista (a última)

  1. Luís Lavoura diz:

    Ou seja: o futuro do português está no brasileiro. O português tal como é falado no Brasil tem futuro, o português tal como é falado em Portugal é para esquecer.

    É bom que alguém assuma e diga isto com esta crua clareza.

  2. SL diz:

    Fútil, fútil foi mais uma das crónicas do Pulido Valente sobre Diana de Gales (25 de Agosto)… Ora este senhor habituou-nos a “ouvi-lo” falar de tudo. Ele fala do Bloco de Esquerda, do PSD, de Cavaco Silva e até de Diana de Gales, a quem chama de “pouco esperta”, uma “pequeno-burguesa analfabeta e ambiciosa, ensopada no sentimentalismo popular do tempo” e que “romanticamente se achava “natural” e era de facto uma exibicionista indiscriminada e louca”. Para finalizar acrescenta “Não por acaso os filhos comemoraram a morte da mãe em Wembley, com um concerto rock. Ninguém representou como ela e egocentrismo, a vulgaridade e a superficialidade da época, de certa maneira, a cultura da democracia liberal em que vivemos.”
    Deve ter privado com a senhora, este senhor…
    Os outros de quem ele fala, principalmente os da política portuguesa, que têm os meios próprios de o ler (já acabavam com aquela última página do PÚBLICO…), até se podem defender, se é que fale a pena… Mas de uma pessoa que já morreu, e que parece que nunca fez mal a ninguém… e que, sensacionalista ou não, foi chamando a atenção dos media para muitos problemas sérios deste nosso “belo” mundo. Também poderia ter tido outra opção. Gastar o mesmo dinheiro com outras extravagâncias e ficar em casa “a fazer tricô”!

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