Da modernidade familiar

Está «en vogue» analisar e catalogar os novos fenómenos relacionais e familiares. Se o casamento já ultrapassou todas as barreiras da tradição, o léxico recebe agora a novel fenomenologia familiar. As «famílias monoparentais», «pluriparentais», propostas tácitas de revisão das palavras «madrasta» e «padrasto», «enteados». O revisionismo vai, por vezes, mais longe, e tentam-se reavaliar as formas dos afectos. Os «laços» são hoje um abstraccionismo imperfeito, sucessor da perfeição concreta. Hoje, os defeitos são vistos à transparência, onde antes o opaco dos preconceitos e convenções sociais embaciava os movimentos.
Nesta nova tendência, que se vem sedimentado e em Portugal está longe de edificação – ouso mesmo perguntar se dos laços familiares, dos parentescos, dos laços filiais, sairá alguma vez um concreto ou uma consistência – perco-me afogada pelas peças do puzzle que não descubro, ou que sou forçada a reconhecer perdidas, ou que existiram jamais?
Começo pela árvore genealógica. E quando me confundo com um linhagista, transcende-me a realidade do sangue. Além da cor universal, de tipologias categorizadas e salvadoras, da espessura e da tragédia ou medo do seu esvair, a consanguinidade parece-me, hoje, muito pouco para alimentar uma árvore genealógica.

É popular a certeza de que a família é fruto do acaso ou da mão divina, mas não resulta de escolha livre. Cada vez mais o homem se desdiz e faz prova do erro. Quando uma criança é adoptada, é muitas vezes escolhida pelos adoptivos pais. Agora que a genética avança e ultrapassa a normalidade reprodutiva, os pais – progenitores de facto – têm cada vez mais ao seu dispor uma panóplia de opções cromáticas – louro, morena, ruivo, olhos azuis, esverdeados, negro-azeitona? –, de género – não tardará o dia em que, sem fortuna, os pais de três meninas recusem uma quarta e ela chegue rapaz, trazida pelas cegonhas de Paris, lá de onde vêm os bebés, já os pobres pássaros com os voos trocados e os bicos presos no tráfego de nuvens…
As técnicas de clonagem permitem até que amemos alguém tão profundamente que, vendo-nos na solidão da sua forçada ausência, façamos uma réplica perfeita e exacta. Ou que desagradados com o espelho, criemos um novo nós, dê-se lustro à perfeição.
É portanto mentira que a sina incontornável seja essa da ausência de escolha. A família também se escolhe. E se o sangue que corre é outro, continua espesso e trágico. E se os nossos olhos verdes enganam a pele escura do bebé de colo, a maternidade permanece um estado de espírito.
Interessa-me pouco se não há pai e mãe, mas apenas dois pais, duas mães.
Há muito sangue comum que não é nosso, não nos enlaça em nada senão em cinzento. A família escolhe-se e escolhe-nos, nós escolhemos. A família sente-se, não se tem. Não é obrigatória, é natural. E natural é tão-somente a família que sentimos, inabalável, dolorosa, imensamente feliz mas de quando em vez infelizmente, nossa. Há por aí muito sangue que não é comum, mas é nosso.
Portanto, os catálogos serão cada vez mais diversificados, questiono mesmo a necessidade de catalogar, a inglória da tarefa pelo desuso veloz em que caem. E as palavras, sempre ao nosso serviço e «insuportando» o imobilismo, servem para inventar, adaptar e dar novo uso e reinventar outras. Ou podemos, simplesmente, admitir que as palavras que temos servem muito bem. Mas de conteúdo fluído, que serve os nossos afectos e ventura.
A família sente-se, não se tem. Só nos enlaça verdadeiramente quem bem-queremos-e-nos-quer-bem. Inabalavelmente bem.

Sobre Marta Rebelo

QUINTA | Marta Rebelo
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5 respostas a Da modernidade familiar

  1. Marta Rebelo diz:

    Para aqueles que acham que eu escrevo sempre e apenas sobre a «política internacional». Gostem ou não, é uma variação temática. A anteceder alguns dias de ausência.

  2. veliberalino diz:

    Diagnóstico: confusão mental. Não tem cura mas tem tratamento.

  3. atónito diz:

    Das duas uma: esta rapariga anda a copiar e a traduzir à pressa, tipo “adoptivos pais” ou então também quero do que ela anda a fumar.

  4. Marta, toda a antropologia do parentesco contemporânea é sobre o que estás a falar. O conceito operatório mais rico que andamos a usar talvez seja o de “relatedness”, que já começa mesmo a substituir o velho “parentesco”. Talvez a autora-chave seja Janet Carsten. E em Pt quem mais sabe disto talvez seja a minha colega Antónia Pedroso de Lima. Enfim, só uma dica, no caso de quereres explorar coisas desta área.

  5. João Borges diz:

    Temos, então, a versão da “família a prazo”. Hoje gosto, abraço, amanhã não me é comum.
    Goste ou não, cara Marta, a sua família é só uma! Não se “inventa”! Agora pode chamar “família” a quem quiser. Gosta de gatos?

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