Tambores, mulheres e democracia
30 de Agosto de 2007 por Nuno Ramos de Almeida
As férias estão a acabar. Enquanto andei pelo País Basco, a região mantém a animação do costume. A polícia procura alegremente três ou quatro comandos da ETA. A morte de um jogador do Sevilha provocou uma comoção nacional. Durante dez dias, no Estado espanhol, morreram assassinadas três mulheres por antigos namorados: uma romena, uma brasileira e uma espanhola. Todas anavalhadas. Finalmente, em Hondarribia, onde me encontro, todos os anos desfilam, nas festas da terra, grupos de pessoas a tocar tambor. Tradicionalmente só os homens da terra descem à rua. Há uns anos, a organização permitiu os turistas do sexo masculino tocarem tambor. O problema foi quando um grupo misto, Jaizkibel, inscreveu-se no desfile. A reacção dos tradicionalistas foi muito dura. ‘Turistas ainda vá que não vá, mulheres com tambores nunca’. Privatizaram as festas para impedir o ultraje à tradição, mas os jovens da companhia mista não desistiram. Nos últimos anos, tem legalizado o seu desfile, no governo civil, como uma manifestação. Apesar disso, as coisas não têm sido pacíficas, a Jaizkibel só desfila com protecção policial e os tradicionalistas colocam plásticos negros ao longo do desfile para não verem as mulheres que ousam desfilar. O ambiente é soturno, uma multidão enfurecida que cobre a rua de negro para mostrar desprezo e insultam os marchantes por detrás dos plásticos. Ontem, a porta-voz do grupo, Garoa Lekuona, pediu às autoridades que impedissem os desacatos e não permitissem os plásticos negros. A reacção da câmara não se fez esperar acusou os marchantes de “serem uma minoria e de não poderem pretender calar a maioria, em democracia”.
Do ponto de vista político, a proibição das mulheres desfilarem tem um largo consenso democrático: PNV, PSOE e PP são contra a subversão. Só os comunistas e o ilegalizado Herri Batasuna são a favor das mulheres poderem tocar pífaro, tambor e o que lhes dê na bolha, pelas ruas. Uma coligação mais eficiente do que o pacto anti-terrorista, só, mesmo, a santa unidade dos que não gostam de ver as mulheres a tocar tambor…

Comentário de Rui Fernandes
Data: 30 de Agosto de 2007, 19:10
Só uma correcção. A espanhola, se é o caso recente que penso que é de uma mulher assassinada a navalhada em Madrid por um vizinho, não está claro que fosse namorado. Aparentemente o que ocorreu foi que um cão da senhora mordeu, ou o que seja ao homem, e o tarado não esteve com meias medidas… Já agora há um outro caso no mesmo período, creio que nas Canárias, em que um alemão foi morto pela companheira espanhola, acho que também a facada. Como vês tudo é mais complexo do que parece até uma “bobagem” dessas.