Rui Tavares: O “Novo Vietname” já era

Em que ficamos? Ainda a guerra no Iraque não tinha começado e já os apoiantes de Bush negavam com estridência que ela se pudesse tornar num “novo Vietname”. Agora, afirma o próprio Bush que a guerra não pode terminar para que não se torne num “novo Vietname”. Mas, tipicamente, Bush chegou ao fantasma do “novo Vietname” num momento em que ele já não quer dizer nada: o desastre iraquiano está num campeonato à parte. Bush terá muita sorte se o Iraque não se tornar a bitola dos fracassos futuros.

O “novo Vietname” já era; qualquer aventura da super-potência correrá agora o risco de ser apelidada de “um novo Iraque”.

O novo Iraque é uma mistura de caos e falta de transparência única no mundo. Milhões de dólares iraquianos ou estrangeiros desaparecem, às vezes dos cofres dos próprios ministérios, às vezes em simultâneo com os próprios ministros. O exército e a polícia estão dominados pelas milícias xíitas. Para compensar, o exército americano começou a dar armas ( alegadamente “para conter a Al Qaeda” ) às tribos sunitas que antes eram inimigas e amanhã podem voltar a ser. Os sunitas aceitam-
nas prevendo batalhas futuras contra os xíitas e os curdos. Ainda ontem o New York Times noticiava a descoberta de uma rede envolvendo militares que pode ter defraudado o contribuinte americano em milhares de milhões de dólares na compra de armas supostamente destinadas para as tropas iraquianas e americanas. Ninguém sabe quanto dinheiro e quantas armas andam à solta. Mesmo o número de três mil soldados americanos mortos esconde a face oculta dos mercenários contratados, tão invisíveis quanto essenciais: há generais no terreno cuja segurança é garantida por mercenários. Se um mercenário morre, não entra para as estatísticas.

Com a situação nestes termos é que Bush veio agora lembrar-se do “novo Vietname”. Na Guerra do Vietname, na qual o jovem Bush se esquivou de combater, os EUA tentavam impedir um país de se reunificar. No Iraque, os EUA tentam segurar um país em cacos armando todas as partes.

Bush disse que quando os EUA abandonaram o Vietname milhões de pessoas sofreram. Mesmo esquecendo (como é hábito) os milhões de pessoas que sofreram enquanto os EUA não abandonaram o Vietname. É que, tal como hoje, não “podiam” abandonar: os apoiantes da guerra anunciavam que, caso os EUA retirassem, o comunismo tomaria conta do sudoeste asiático. Aí sim houve catástrofe humanitária, e uma das piores de sempre. Mas foi no país do lado, o Cambodja; quem a conseguiu deter foi o inimigo de então, o Vietcong.

Agora Bush anuncia que os EUA não podem retirar porque haverá uma catástrofe humanitária no Iraque. Mesmo esquecendo (como é hábito) a catástrofe humanitária que já temos: meio milhão de mortos desde a invasão, em estimativas por baixo. Mesmo esquecendo que essa era a razão para não ter começado a guerra. Mesmo esquecendo tudo isso, é verdade. A chantagem de Bush não é menos verdade por ser chantagem, nem menos chantagem por ser verdade. O Iraque pode cair num buraco sem fundo, certamente pior do que o Vietname quando ganhou a guerra.

Agora é que Bush viu o túnel ao fundo do túnel. Não é só um problema de compreensão lenta; é compreensão lenta e às avessas.

Amanhã continuamos.

Publicado no “Público” de 29 de Agosto

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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12 respostas a Rui Tavares: O “Novo Vietname” já era

  1. A.Silva diz:

    Está para além da minha compreensão a lata com que Bush fala aos americanos a ao Mundo sobre o que se passou,passa e virá a passar no Iraque quando ele já não estiver na Casa Branca.Todas as pessoas envolvidas nesta tragédia tanto os da Administração Bush como os vários lideres de outros paises que o apoiaram,deviam ser julgadas no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a Humanidade.Mas até agora só serviu para julgar os dirigentes sérvios que foram acusados de genicidio,porque os mais poderosos nunca se sentam no banco dos réus,sofrem só quando muito a facto de perderem eleições mas vão á sua vidinha.

  2. Boa visão a do Rui T. E boa ‘postada’ – já agora! – há que reconhecer…

  3. p.porto diz:

    Fraco, perto do fraquinho, este seu artigo.

    Escreveu: “Na Guerra do Vietname, na qual o jovem Bush se esquivou de combater, os EUA tentavam impedir um país de se reunificar.” Assim, não consegue; se escreve uma mentira destas ainda o seu artigo não vai a meio, já está a desacreditar-se a si mesmo e a impedir que o que quer que escreva daí para a frente possa ser lido sem que se pense ‘lá vem mais uma mentira’.

    Na guerra do Vietname os EUA tentaram impedir que o norte comunista tomasse o controlo de todo o pais. Assim, sem mais.

    Mas se quiser, também eu lhe posso retribuir a granada política: na guerra do Vietname a China e a União Soviética tentaram e conseguiram impedir que o país se unificasse em torno de um regime não comunista.

    Depois o descrédito do seu artigo continua com o Camboja. Como pode comparar a actuação dos vietnamitas com a dos americanos no Camboja? Enquanto o regime de Saigão não caiu, o khmer vermelho não teve hipóteses no Camboja. Depois disso aconteceu um dos mais significativos holocaustos do comunismo, o assassinato de cerca de 2 milhões de pessoas num país que teria cerca de 4 milhões de habitantes. Nessa altura, após a derrota no Vietname, os EUA não têm capacidade política interna ou externa para qualquer intervenção. Para os americanos e os detratores da vitória comunista no Sudeste asiático a questão passou a ser ‘nós avisámos que isto ía acontecer’. E foi isso que os vietnamitas foram resolver no Camboja. Percebendo que o nível de criminalidade comunista era enorme, desacreditando a vitória comunista no Sudeste asiático, o Vietname invade o Camboja pondo fim ao poder de Pol Pot. Não invente a história.

    Quanto ao Iraque, o erro claro é que os EUA pretenderam ditar a forma como o país se governaria e organizaria. A comparação com o Vietname não é apropriada. A comparação que deve ser feita é com o Afganistão sob ocupação soviética. Essa era a lição a aprender. Em ambos os casos, dois grandes exércitos falham no domínio do território e da insurgência armada. E falham porque politicamente não podem enveredar pela matança generalizada.

    Os EUA pensaram que podiam pacificar o Iraque mantendo intacta a mistura étnica e religiosa e tentado ser imparciais a esse respeito. Contrariaram até a proposta interna de federalização do país, erro estúpido. Por outro lado, Bush não podia chegar e mandar matar líderes religiosos, como fez Saddham. Bush não podia chegar a uma localidade e matar toda a gente, como Saddham fez. Portanto, Bush falha onde Saddham foi bem sucedido. Consequência: como Bush não usou a brutalidade de Saddham, dando assim espaço à insurgência armada, Bush é mau; Saddham, que matou oposicionistas políticos e religiosos, que matou populações inteiras em zonas insubmissas, era bom.

    Enfim, A.Figueira, tenho pena que nos tenha deixado aqui uma peça de propaganda, uma análise enviezada pelo preconceito político, uma daquelas cada vez mais numerosas opiniões de quem já sabia… mas apenas depois de as coisas acontecerem.

  4. António Figueira diz:

    p.porto,
    Eu sei que o grafismo não ajuda (vamos tratar-lhe da saúde um destes dias) mas pf perceba que, quando no título de um post vem referido um nome, esse nome é o do autor do post, o que no caso vertente quer dizer que EU NÃO ESCREVI ESTE POST, que é antes da autoria do Rui Tavares, co-fundador deste blog e digníssimo colunista do “Público”, a quem por isso devem ser dirigidas todas as observações com ele relacionadas.
    Obrigado pela sua compreensão, AF

  5. pergunto-me se será um bom emprego do tempo debater com quem glosa as posições do outro desta forma: “Bush é mau; Saddham, que matou oposicionistas políticos e religiosos, que matou populações inteiras em zonas insubmissas, era bom.” Fica absolutamente à vista que quem assim escreve não pode vir severamente acusar os outros de distorções e enviesamentos, porque não os consegue identificar na sua própria escrita. O P. Porto que me desculpe, mas a sua argumentação desacredita a interpretação que faz dos textos dos outros. Sendo assim, é já uma abébia dar-me ao trabalho de esclarecer aqui dois pontos.

    1. Você diz que eu minto ao escrever “Na Guerra do Vietname, na qual o jovem Bush se esquivou de combater, os EUA tentavam impedir um país de se reunificar.” Palavras suas: “escreve uma mentira destas”, “‘lá vem mais uma mentira’”, etc. Mas depois escreve: “Na guerra do Vietname os EUA tentaram impedir que o norte comunista tomasse o controlo de todo o pais.” Ou seja, confirma factualmente o meu ponto. Os EUA tentavam impedir o Vietname de se reunificar (sob domínio do Norte, que era o que estava em causa nessa guerra). A minha asserção não é nem “uma mentira destas” nem “mais uma mentira”: é a pura verdade. Você pode chamar-lhe “impedir que o norte comunista tomasse o controlo de todo o pais”: claro que sim, não contesto. Mas para isso a estratégia era combater a reunificação do país. [Já agora, você escreve: “também eu lhe posso retribuir a granada política: na guerra do Vietname a China e a União Soviética tentaram e conseguiram impedir que o país se unificasse em torno de um regime não comunista.” Não vejo porque é isso uma retribuição de “granada política”, numa expressão reveladora da sua visão da maneira como estas coisas se discutem. O papel da China e da URSS não estava em foco no meu texto, mas é verdade que a China e a URSS prefeririam que o Vietname ficasse cortado ao meio do que reunificá-lo sob um regime capitalista. Mas o texto sobre duas guerras de escolha dos EUA. Os EUA é que tinham centenas de milhar de tropas no terreno no Vietname.]

    2. O Cambodja. Você acusa-me de “inventar a história” quando escrevo que quem deteve a loucura do khmer vermelho no Cambodja, infelizmente mais tarde do que desejaríamos todos, foi o vietcong. Você escreve: “Percebendo que o nível de criminalidade comunista era enorme, desacreditando a vitória comunista no Sudeste asiático, o Vietname invade o Camboja pondo fim ao poder de Pol Pot. Não invente a história.” Mas na mesma frase você confirma o que eu escrevi –”o Vietname invade o Camboja pondo fim ao poder de Pol Pot”–! Como pode acusar de inventar a história quando confirma que o que eu escrevi é verdade? Você diz que as razões porque o vietcong deteve Pol Pot foram pouco humanitárias. Eu não me pronunciei sobre isso. O facto histórico é que foi o vietcong que o fez, você confirma que foi, e portanto não pode acusar-me de inventar a história.

    Em conclusão: acusar os outros de mentiras e invenções históricas é grave. Pôr palavras na boca dos outros sobre Saddam ser bom é pior ainda. Só deve fazer-se qualquer destas coisas quando se tem a certeza do que se está a dizer. Ora, você não tem nada. Zero. E isso faz com que as suas acusações a outrem valham também zero.

    Haveria decerto muito a contrariar no meu texto. Para a próxima jogue limpo com o conteúdo dos outros, e terá direito a uma discussão franca.

  6. p.porto diz:

    a R.Tavares

    Para quem inícia uma resposta com termos de má educação, arrogância e desplicência e depois escreve um texto ainda maior do que o meu, não está mal.

    Quero dizer-lhe que me parece muito óbvio que não ultrapassou de todo o que eu lhe disse, nem no que respeita à unificação do Vietname, nem no que respeita à intervenção do Vietname no Camboja. Em boa verdade, no caso do Camboja, só lhe falta dizer que confirma o que eu escrevi, só que não tem espaço mental para o poder reconhecer. Não há problema.

    Não estando ao seu e meu alcance resolver a discordância, quem se interessar pela disputa e ler que forme a sua opinião.

    Mas trouxe outra – mais uma – mentira e quero referir-me a ela. Escreveu: “mas é verdade que a China e a URSS prefeririam que o Vietname ficasse cortado ao meio do que reunificá-lo sob um regime capitalista.” Isto é falso. A China o a US nunca pretenderam manter a situação de divisão do país. A China e a US empenharam-se ativamente na guerra de conquista e invasão que o V.Norte moveu contra o V.Sul. Forneceram-lhe armas e pessoal militar não armado plenamente sabedores de que o objetivo militar do país era a conquista do Sul. E nem vale a pena desmentir porque esse foi o desfecho da guerra.

  7. P. Porto

    “Para quem inícia uma resposta com termos de má educação, arrogância e desplicência e depois escreve um texto ainda maior do que o meu, não está mal.”

    Se quiser releia o seu comentário e a minha réplica. Se alguém se pode queixar de má educação… não é você, certamente.

    “Mas trouxe outra – mais uma – mentira e quero referir-me a ela. Escreveu: “mas é verdade que a China e a URSS prefeririam que o Vietname ficasse cortado ao meio do que reunificá-lo sob um regime capitalista.” Isto é falso. A China o a US nunca pretenderam manter a situação de divisão do país. A China e a US empenharam-se ativamente na guerra de conquista e invasão que o V.Norte moveu contra o V.Sul. Forneceram-lhe armas e pessoal militar não armado plenamente sabedores de que o objetivo militar do país era a conquista do Sul. E nem vale a pena desmentir porque esse foi o desfecho da guerra.”

    Tudo o que você escreve aqui é verdade, mas não contradiz essencialmente o que eu escrevi, a saber: que colocados perante a hipotética impossibilidade de conquistar o Sul, os norte-vietnamitas, russo e chineses prefeririam certamente segurar o seu bastião no Norte a abandonar o país todo aos seus inimigos. Nem me parece que isto seja ponto de grande controvérsia.

    Finalmente, aproveito para notar que você não deu tréplica aos pontos de base desta discussão. As suas acusações de “mentiras” e “invenções” encontram-se assim refutadas.

  8. p.porto diz:

    a R.Tavares

    Só mesmo por causa de mais uma mentira sua, esta: “Finalmente, aproveito para notar que você não deu tréplica aos pontos de base desta discussão. As suas acusações de “mentiras” e “invenções” encontram-se assim refutadas.”

    Ou não conseguiu interpretar leu o que eu escrevi, ou o seu problema é mentir compulsivamente. No primeiro comentário que aqui deixei, para além de dar opinião sobre a causa do insucesso dos americanos no Iraque, deixei claro porque as suas observações sobre a guerra do Vietname e a invasão do Camboja eram falsas.

    Depois disso respondeu o que entendeu sem conseguir evitar ser mal educado.

    Em resposta escrevi:
    “Quero dizer-lhe que me parece muito óbvio que não ultrapassou de todo o que eu lhe disse, nem no que respeita à unificação do Vietname, nem no que respeita à intervenção do Vietname no Camboja. Em boa verdade, no caso do Camboja, só lhe falta dizer que confirma o que eu escrevi, só que não tem espaço mental para o poder reconhecer. Não há problema.
    Não estando ao seu e meu alcance resolver a discordância, quem se interessar pela disputa e ler que forme a sua opinião.”

    Na sua incapacidade de contestar o meu comentário original, mas também sem que vc tenha anúído a coisa nenhuma, o que escrevi é o que se adequa a uma situação destas.

    Mas vc volta aqui para voltar a mentir, conforme o que citei acima, desta vez a respeito da opinião de alguém com quem discute.

    Portanto, concluo que vc tem um de dois problemas: (1) Tem dificuldade em ler e interpretar textos. É possível. A sua dificuldade em expor a realidade com verdade pode não ser um mero caso de má-fé. (2) Vc tem um enraízado hábito de mentir. Também é possível; se mente a respeito de factos históricos também pode mentir a respeito do desenlace de uma discussão deste tipo. Assim mais ou menos como, estando vc com as costas no tapete, diz ao árbitro: ganhei, como se pode ver pela posição do adversário (para o ajudar na interpretação, o adversário a quem vc diz que ganhou é o que está por cima forçando-lhe as costas no tapete. Se não percebeu tente ler devagarinho, faça uma paráfrase, pode também tentar um esquema com desenhos).

    Claro, os dois casos acima podem não ser mutuamente exclusivos, isto é, vc pode ser um mentiroso compulsivo e simultaneamente ter dificuldade em interpretar o que lê. Mas a respeito desta acumulação eu não consigo ser conclusivo.

  9. P. Porto:

    Como previsto logo de início, discutir com alguém que começa com pressupostos de má-fé (insinuar que para o adversário Saddam é que seria “bom”, entre outros) é geralmente má ideia. As respostas factuais e detalhadas que dei não o ajudaram a diminuir o nível dos insultos e distorções. Para resumir: você acusa-me de

    a) “mentir” ao dizer que os EUA tentavam impedir a reunificação do Vietname (sob domínio do Norte, que era o que estava em causa na Guerra do Vietname). Mas isto é uma descrição correcta e até consensual da guerra: o objectivo dos EUA era segurar o Vietname do Sul e impedir a reunificação. Não há mentira.
    b) “inventar a história” ao dizer que foram os vietnamitas quem acabou por deter os massacres de Pol Pot no Cambodja. Mais uma vez, este é um facto histórico. Não há “invenção”.

    Diante disto, não há agressividade, distorção, insulto ou insistência que lhe vá dar razão.

  10. p.porto diz:

    a R.Tavares

    É 2af, dia em que eu regresso ao trabalho e aos blogs.

    Voltemos então à nossa disputa estéril, e digo estéril porque não interessa a mais ninguém que não sejamos nós.

    1) Os EUA não tentaram impedir a unificação do Vietname. Os EUA tnataram impedir a invasão do V.Norte pelo V.Sul. Informe-se sobre o que aconteceu aquando da saída/derrota dos franceses, veja como o país evoluiu biforcado no quadro da guerra fria, e veja qual deles nunca aceitou a existência do outro.

    Esta sua visão sobre a unificação vietnamita já foi abandonada por toda a gente. Talvez vc não tenha reparado, mas este era um argumento soviético para justificar o apoio militar ativo a Hanoi. Ora, a URSS acabou há uns anos, atulhada nas suas próprias mentiras e distorções da realidade. Há muito que os russos nem os órfãos ideológicos do sovietismo nem se querem lembrar destas coisas, não ande vc a carregar argumentos decompostos e putrefactos.

    2) Dizer que foram os vietnamitas quem acabou por deter os massacres dos comunistas do Camboja sem mais é mentir. Se se pretender dizer a verdade é preciso também dizer que não estava ao alcance dos americanos nem de ninguém mais pôr termo aos massacres comunistas no Camboja. Como se não bastasse, é também preciso dizer que os vietnamitas intervieram no Camboja não por questões humanitárias mas apenas porque para a China, para a URSS e para o próprio Vietnamne, as consequências políticas do que estava acontecendo no Camboja eram insuportáveis. Melhor fora que se tentasse perceber porque foram precisos 2 milhões de mortos para atuarem.

    Vamos ver se vc percebe desta maneira:
    Versão A: o João impediu o cão de morder no Carlos;
    Versão B: o João, que era o dono no cão, impediu o cão de morder no Carlos depois de o ter deixado morder 3 ou quatro pessoas sem fazer nada.
    Se vc me consegue dizer que a versão A não é uma forma de mentir, então, provavelmente, vc é amigo do dono do cão e está empenhado em iliba-lo do seu crime negligente.

    E, para já, é isto. Voltarei cá para ver a sua resposta, aquela que vc diz sempre que não vai dar, que não merece a pena, que é inútil. Mas como vc é um grande mentiroso, eu não acredito em si, e, portanto, cá fico eu à espera que ela venha.

  11. Lidador diz:

    Mais um requisitório contra a América, numa história mal contada e eivada dos habituais moralismos de pacotilha.
    Não sei até que ponto se pode condenar moralmente a conquista da Gália celta pelos romanos, ou o avanço de Shaka Zulu para sul, mas há uma esquerda cretina muito dada à interpretação moral dos conflitos, especialmente aqueles onde é possível descortinar ou inventar a acção dos malditos americanos, capitalistas, sionistas, neoliberais, imperialistas, “fássistas”, e outros adjectivos passionais que denunciam logo o insuportável maniqueísmo dos escribas de “chaise longue”
    Para esta gente a história é moral, há maus (os outros) a quem se condena e amigos sem mácula, que têm asas e cheiram a tomilho, e é tudo simples e fácil, a futurologia é óbvia e sempre cor-de- rosa, se “eles” , os maus, tivessem agido como nós achamos bem.
    No poste, Rui Tavares erige como verdade uma certa versão das coisas, tirada da vulgata marxista-leninista e do corolário antiamericano.
    Cheio de si, decreta a “Verdade Universal”, recusando distinguir entre o que sabe e o que quer.
    Infelizmente, aprende-se no secundário, que um edifício intelectual pode ser perfeito e formalmente válido, mas falso, se assente em premissas erradas.
    É o caso do Rui Tavares.

    Sobre o Vietname, sabe-se muita coisa, para além dos mitos ideológicos que distorcem a análise de RT.

    Após Dien-Bien-Phu, o Vietname ficou dividido: a Sul, Ngo Diem, feroz anticomunista, era apoiado pelos americanos, que tomaram o lugar dos franceses; a Norte, um regime comunista apoiado pela URSS e pela China, não reconhecia os “fantoches” (lá está a adjectivação passional, tão característica dos intelectualóides de esquerda), e já tinha decidido, ainda no tempo dos franceses, a união dos 3 Ky. A Conferência de Genebra, previa eleições livres, mas é claro que nunca se viu tal coisa em países comunistas. E pouco depois (final dos anos 50), o Partido Comunista do Norte decidiu retomar a guerra contra os “fantoches” do “imperialismo americano”.
    A verdade é que quando Eisenhower acabou o seu mandato, havia menos de mil militares americanos no Vietname. Foi Kennedy quem aumentou esse nº para 15 000. Porquê?
    Aplicação simples da doutrina da contenção, tal como na Coreia e antevendo uma situação semelhante na Alemanha; a vontade de Kennedy de se mostrar tough e mandar um aviso à pesporrência de Krutschev, que batia com o sapato e ameaçava ir ao enterro dos “capitalistas”
    Não, não foi o “imperialismo americano” que ditou o envolvimento no Vietname. Os EUA não queriam invadir o Norte, mas apenas assegurar a sobrevivência do Sul, invadido pelo Norte, e manter a sua credibilidade como aliados.
    Quanto a questões “morais”, merecia o regime do Sul, ser “salvo”?
    Não era flor que se cheirasse, mas o regime do Norte era bem pior pelo que, num rápido balanço moral, o Sul parecia melhor aposta.
    Para responder à agressão comunista, L.B. Johnson inaugurou uma estratégia de escalada a cargo da aviação. Os americanos bombardeavam um estado que atacava um aliado, visando interditar movimentos e castigar o inimigo, numa doutrina de uso progressivo da violência para persuadir Hanoi a abandonar a empresa.
    Não resultou.
    Os americanos nem sequer devastaram Hanoi, e os dirigentes comunistas nunca levaram a sério a ameaça americana de subir aos extremos, pelo que e o esforço americano no Vietname não foi parte de uma vontade imperialista, mas sim de uma ilusão de poder.
    A bem dizer, os dirigentes americanos nem sabiam muito bem por que combatiam. A princípio (entre 1954 e 1960), o apoio a Saigão advinha do automatismo da contenção.
    Johnson, mais tarde, falava da teoria dos dominós.
    Outros viam ali a hipótese de dar uma machadada definitiva no imperialismo russo e chinês (estes tinham afinal razão…, porque o falhanço implicou um espraiar soviético por todo o mundo, e até Lisboa esteve muito perto da mancha vermelha)
    A partir de 1969 (Nixon e Kissinger) os republicanos, que não tinham metido prego nem estopa nesta guerra, queriam livrar-se dela (no Iraque invertem-se os papéis), mas não podiam submeter-se às exigências do Norte (que, obcecado pela sua visão comunista do mundo, queria a capitulação pura e simples do “bando de fantoches”. )
    A guerra prosseguiu, tudo se passando como se os comunistas contassem com a lassidão do povo americano para finalmente alcançar a vitória politica (aqui é muito pertinente um paralelismo com o Iraque).
    A ofensiva do Tet foi um fracasso militar dos comunistas (mas uma vitória mediática na narrativa da opinião pública americana) e, pela 1ª vez , o Vietname do Norte aceitou fazer concessões (Acordos de Paris), que só os membros do júri do Nobel, perdidos na sua estratosfera, acharam ser o prelúdio da paz.
    Os comunistas reconheceram a contra gosto a legitimidade dos “fantoches”, os americanos voltaram a casa, o governo do Sul manteve-se, mas as tropas do Norte mantiveram-se também nas suas posições no Sul, com os pés nos tacos.
    Aconteceu o óbvio: em 1975 as divisões comunistas atravessaram subitamente a zona desmilitarizada e avançaram para Saigão
    O que se passou a seguir foi uma tragédia. Milhares de mortos, centenas de milhares de refugiados, a repressão comunista imposta a milhões de pessoas, os “boat people, que até Sartre denunciou (e deve ter tomado uma saca de Alka Seltzer, para o fazer) etc.
    O Laos foi submetido no alastrar da maré.
    A guerra com Pol Pot, para além de ter a ver com sucessivas escaramuças fronteiriças devido aos refugiados de ambas as partes, prende-se com a rivalidade sino-soviética. Pol Pot era grande amigo de Mao e o Vietname do Norte era controlado pela URSS.
    De resto, seguiu-se uma pequena guerra entre a China e o Vitename..

    Que tem isto a ver com o Iraque?
    A lição não é a que RT pretende extrair, na sua visão arrevesada das coisas, mas sim a de que quando a vontade do adversário não é subjugada, a violência “proporcionada” dá-lhe oportunidade para reagir, numa espiral de acção e reacção cujo desfecho é o paulatino alargamento dos limites da violência, até que a vontade de uma das partes ceda.A boa gestão da violência visa sobretudo a quebra anímica do inimigo, fazendo-o acreditar que já não vale a pena combater, pelo que usar a guerra para forçar uma vontade, obriga à aplicação da violência “qb”.Por isso em Apocalipse Now, Kurtz exigia “drop the bomb”, metáfora crua da necessidade do uso de todos os meios necessários para destruir a vontade do Vietname do Norte.

    Westmoreland não podia ir por aí, porque era apenas “um soldado obedecendo a ordens, …agindo de acordo com as restrições impostas pelo governo do meu país” e assim Giap perdeu todas as batalhas, mas ganhou a guerra.

    Por isso as democracias liberais perderão todas as guerras nas quais se confrontem com uma vontade forte, a menos que voltem ao fio-de-prumo definido por Clausewitz.
    No Iraque, como no Vietname, os Ruis Tavares de todos os tempos e lugares são, mais que eternos profetas da derrota, objectivos aliados do “mal”, eles que tantos gostam de moralismos.
    Mais…de facto desejam essa derrota, porque odeiam o tipo de sociedade de que fazem parte, numa racionalização da pulsão niilista que um Nieztche apocalíptico anunciava do alto de um penhasco da Suiça.

  12. p.porto diz:

    a Lidador

    Inesquecível, caro Lidador, memorável, daqueles comentários para ‘ler e guardar’.

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