Rui Tavares: Honorabilidade, responsabilidade e conversa fiada

Neste caso Somague / PSD, posso afirmar com certeza que há pelo menos um tipo de corrupção: a corrupção activa da língua portuguesa.

O primeiro sinal é sempre o aparecimento da “honorabilidade”. Esta magnífica palavra, tão do gosto de políticos medíocres e dirigentes de clubes de futebol, ocorre sempre em ocasiões embaraçosas. Pois mal se soube que, nos idos de 2002, o PSD deixara que uma companhia de construção civil lhe pagasse dívidas de uma campanha autárquica, a “honorabilidade” do partido não tardou em aparecer. Em primeiro lugar, se não erro, pela boca de Luís Filipe Menezes; mas poderia ter sido outro qualquer. A honorabilidade tem pouco a ver com a honra, de que é uma prima afastada. A honorabilidade é antes uma espécie de verniz que reclama para si um tratamento respeitoso ou “honorável”. A honra é uma obrigação para o próprio; a honorabilidade é um penacho a ser respeitado pelos outros. Quando alguém clama pela sua “honorabilidade” não quer dizer que seja obrigatoriamente honrado; quer dizer que está convencido de que nós temos a obrigação de o tratar como se fosse.

Logo depois tivemos o esvaziamento, na forma tentada, da palavra “responsabilidade”. Foi perpetrado por José Luís Arnaut, que era secretário-geral do PSD no tempo em que a Somague pagava dívidas ao partido, e que veio dizer que “assumia a responsabilidade” pelo sucedido. Se José Luís Arnaut pensa que para assumir a responsabilidade por algo basta pronunciar uma fórmula e ficar por isso mesmo, significa que nesse contexto a palavra responsabilidade vale zero. Assumir responsabilidades significa, desde logo, dar explicações desagradáveis: porque diabo andou uma companhia de construção civil a pagar dívidas ao partido? Não é fácil, está claro; mas “assumir responsabilidades” não é para ser fácil.

Esperemos que quando Durão Barroso der as explicações que tem a dar sobre este assunto, elas venham num português claro e incorrupto.

Mas neste caso corremos um risco imediato de obscurecimento. Passou poucos dias até que o Público encontrasse um indício de favorecimento da Somague por um governo PSD, num momento em que o ex-tesoureiro do partido que aceitou o financiamento ilegal chegara entretanto a secretário de estado. O problema é que, como em todas as decisões do estado, não será difícil justificar essa opção concreta, ao passo que será muito difícil, sem mais provas, ligá-la a um financiamento ilegal ocorrido meses antes. Sem nada de concreto a unir uma coisa e outra, surgirá naturalmente quem venha tentar a habilidade de, uma vez reabilitado o segundo facto, defender que o primeiro perdeu fundamento. Para bem da democracia portuguesa, não pode ser assim.

O financiamento da Somague pode ter tido como resultado aquela decisão favorável numa questão de auto-estradas, ou qualquer outra que desconhecemos, ou ambas, ou até nenhuma. Pode nem ter havido data, local ou ocasião para a cobrança do favor. Ela poderia vir a ser realizada no futuro, ou poderia apenas ser reservada. Mas é sempre bom ter desenrascado um partido que, na altura, acabara de ganhar as câmaras municipais das maiores cidades do país e estava muito perto de vir a ganhar o governo. Quem paga uma dívida de outrem pode nem pedir nada em troca, mas comprou o direito a uma retribuição. E isso basta.

Publicado no “Público” de 28 de Agosto

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

3 respostas a Rui Tavares: Honorabilidade, responsabilidade e conversa fiada

  1. Luísa diz:

    bem escrito. especialmente o penacho de honra que todos parecem querer usar. é um ornamento, a corrupção, e a honra de todos no meio da mesma. honrados e talvez corruptos.

  2. Fernando diz:

    Qual é o partido politico português que não é financiado por privados? – Pois parece-me que é isso a essência da questão-.
    Já há alguns anos que li o livro de Ciência Politica do Professor Adriano Moreira, onde uma das coisas que retive e aprendi, foi que enquanto a lei permitir esse tipo de financimento aos partidos politicos, haverá sempre corrupção, pois quem dá tende necessariamente a pedir.

    Bom dia

    Fernando

  3. Fernando diz:

    Sem querer fazer a defesa do partido em questão, questiono-me, se existe algum partido politico em Portugal que não tenha no seu seio, teias de aranha dessa natureza? Pois não é a lei de financiamento dos partidos que permite as contribuições aos partidos politicos portugueses por privados!
    Em suma, é o próprio sistema legal que fomenta esse tipo de situação relatada aqui no “post” tal como ensinou e continua a ensinar o já vetusto manual de Ciência Politica escrito pelo Professor Adriano Moreira.
    À laia de conclusão, sempre direi, é próprio da condição humana Dar para a seguir pedir.

    Bom dia

    Fernando

Os comentários estão fechados.