Rui Tavares: A gosto

Lá para meados dos anos 90, Portugal perdeu alguns dos seus maiores pensadores. Desapareceram (não por esta exacta ordem) António José Saraiva, Natália Correia, Miguel Torga, Agostinho da Silva e Vergílio Ferreira, por vezes com poucas semanas de intervalo. A cada triste notícia, as rádios telefonavam de manhã a quem pudesse dizer algumas palavras informadas, como é hábito, sobre “a vida e obra”. E calhava quase sempre a Eduardo Prado Coelho, que então já era o comentador de referência nestes assuntos, o ter de dizer algo na morte de autores que muitas vezes tinham sido amigos ou mestres.

Essa tarefa ingrata foi-se repetindo até lhe causar uma certa perplexidade. Escreveu então uma crónica no suplemento cultural deste jornal, que então se chamava “Leituras”, lamentando-se por lhe telefonarem sempre na morte de algum grande autor, mas nunca lhe terem pedido para comentar um nascimento. A estação de rádio ligaria logo no primeiro noticiário da manhã: Eduardo Prado Coelho, nasceu hoje o mais importante poeta do próximo século, quer comentar? E ele diria algo como: a sua obra vai ser complexa e transbordante, tocando diversos géneros mas interminável no seu detalhe, e é com felicidade que aguardamos que ele ou ela comece a escrevê-la. E com este pedaço de esplêndido absurdo Prado Coelho intuía que a melhor resposta à morte (na verdade, a única resposta possível) é mais outra vez a vida.

Guardei sempre esta imagem e gosto de a citar de memória, como faço agora. É um belo achado de crónica, um exemplo do melhor de Eduardo Prado Coelho, mas não só. Traz consigo uma ideia generosa do papel da imprensa, que imaginamos nos dará a conhecer todos esses poetas futuros, e do seu gosto partilhado em não querer deixar nenhum autor por conhecer, nenhuma exposição por visitar, nenhuma polémica por argumentar, por mais que a empresa seja fútil.

Encontro ainda naquela imagem a ética de vida do agnóstico, embora já naquela fronteira em que estas coisas dependem mais do temperamento de cada um do que de doutrinas e filosofias. Porque o agnóstico não é só aquele que não sabe o que acontece depois da morte. É aquele que, uma vez que não sabe o que vem depois, vive como se esta vida fosse a única.

Não vá dar-se o caso de não haver mais nada depois, tomemos pelo menos esta por garantida. Viver na expectativa de uma nova vida pode justificar um certo gosto pelo sofrimento na vida presente, como se tudo isto fosse um jogo cósmico de compensações. Ainda mais se, como postulam tantas tradições religiosas, o sofrimento de agora der acesso à bem-aventurança depois. Para o agnóstico, contudo, sofrimento é desperdício. Este pode não ser o melhor de todos os mundo possíveis; mas é o que há. E sabê-lo parece-lhe uma libertação.

Não é assim para toda a gente. Para muitos, apenas isto já é uma visão da vida sem sentido e justificaria por si só a queda no desânimo. Para o agnóstico, desanimar seria perder tempo. E perder tempo nunca significa só perder tempo; é perder a vida. O sentido da vida é vivê-la.

Publicado no “Público” de 27 de Agosto

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SEXTA | António Figueira
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10 respostas a Rui Tavares: A gosto

  1. Excelente crónica do Rui Tavares. Vai muito para além do habitual obituário, ganhando até uma interessante densidade filosófica ou, se quiserem, existencial.

    Quanto ao Eduardo Prado Coelho, gostei das recensões literárias que escrevia no Mil Folhas e de muitas das crónicas habituais no Público. Nunca gostei da sua “persona”, porque – não há como escondê-lo – fez uso de muito oportunismo político como meio de obter algumas sinecuras interessantes.
    Mas o pior não é isso: EPC podia ter sido um grande escritor, podia ter sido um grande crítico literário. Mas não foi. Como português sabia que, num país pequeno com falta de quadros em todas as áreas, bastava-lhe estar um pouco acima da média.

  2. Ezequiel diz:

    Belo texto!

  3. Um obituário que nos deixa de bem com a vida. Uma lição.

  4. Ezequiel diz:

    Caro Nuno

    Por favor envia-me um email. Apaguei acidentalmente o teu e agora estou a rasca.

    cumprimentos, ezequiel

  5. Fernanda Câncio diz:

    muito muito bom, rui.

  6. João Urbano diz:

    Fiquei perplexo com isso de Portugal ter perdido em meados dos anos 90 grandes pensadores. Nunca me tinha apercebido que José António Saraiva ou Agostinho da Silva fossem grandes pensadores, e muito menos Natália Correia ou Miguel Torga. E nós a queixarmo-nos que a terrinha não produz pensamento e logo a meio de uma só década ficámos sem uma mão cheia de Grandes Pensadores…

  7. “Fiquei perplexo com isso de Portugal ter perdido em meados dos anos 90 grandes pensadores. Nunca me tinha apercebido que José António Saraiva ou Agostinho da Silva fossem grandes pensadores… nós a queixarmo-nos que a terrinha não produz pensamento e logo a meio de uma só década ficámos sem uma mão cheia de Grandes Pensadores…”

    Bem esgalhado o comentário, se fosse verdade. Eu não escrevi “grandes pensadores”, muito menos “Grandes Pensadores”. Escrevi “alguns dos seus maiores pensadores”, o que é muito diferente. Se quiser, eles até podem ser pouco relevantes à escala internacional. Por outro lado, se quiser sugerir alguns maiores à escala nacional que estivessem vivos à mesma época, esteja à vontade. Já agora, é António José Saraiva e não José António.

  8. João Urbano diz:

    Mal acabei de enviar o comentário apercebi-me da troca do pai pelo filho e também da confusão e mal-entendidos que poderia sugerir entre maiores e grandes, mas achei escusado rectificá-lo. Evitando levar isto demasiado a sério e até porque penso que o Rui escreveu o que escreveu dadas certas circunstâncias, não vou estar aqui a dizer que este pensador é melhor que aquele e por aí fora. O Rui utilizou um critério para pensadores que pela sua amplitude inclui uma variedade grande de géneros literários e de disciplinas. De tal forma que considera Miguel Torga e Natália Correia não apenas pensadores, mas pertencendo, na altura, ao grupo dos maiores. E isso de Agostinho da Silva ser um pensador maior em meados dos anos 90 parece-me um exagero total. Nenhum dos escritores que nomeou me parecem pensadores maiores, com uma excepção, o Vergílio Ferreira, que é bastante mais interessante que os demais, embora mesmo assim, quanto a mim, demasiado previsível e pantanoso. Se pretende uma lista de alguns pensadores interessantes que estavam vivos e no activo em meados dos anos 90 e de que me lembro, posso referir o Eduardo Lourenço, o Fernando Gil, o José Gil, o Miguel Baptista Pereira, o Boaventura Sousa Santos, o M.S.Lourenço, o próprio Eduardo Prado Coelho, o José Maria Carrilho, o Fernando Belo, o João Barrento, e esse pensador maior que é Hermínio Martins, como também alguns mais novos ou que editaram obras importantes na primeira metada dos anos 90, como o António Damásio, o José Bragança de Miranda, a Filomena Molder, o Sousa Dias, o Miguel Tamen, a Silvina Rodrigues Lopes ou o Américo António Lindeza Diogo. Mas se manejasse o termo com a amplitude que o Rui lhe dá poderia incluir a Agustina Bessa Luis, o Vicente Sanches, o Alberto Pimenta, o João Miguel Fernando Jorge, a Maria Gabriela Llansol, e tantos outros. E como vê estou longe de ser exaustivo. Se me descair para os historiadores a coisa alarga-se, suponho que na altura Vitorino Magalhães Godinho ainda era vivo, e tínhamos um António Espanha ou um José Mattoso ou uma Maria de Fátima Bonifácio. E repare que alguns dos pensadores e afins que nomeei interessam-me muito pouco. Diria que o pensamento português nunca foi tão forte como nestas últimas três décadas, o que não é um acaso. Sei que muitos daqueles que nomeio pertencem a gerações diferentes das de um Agostinho da Silva, de um Torga ou mesmo da Natália Correia mas embirrei com isso de eleger como dos nossos maiores pensadores da altura autores que pensaram em moldes tão arcaicos como estes três, mesmo para Portugal. Nenhum deles nos ajudou ou ajuda a modelar o pensamento e a poética que vem. Agostinho da Silva, Natália Correia e Miguel Torga tinham um pensamento anacrónico, mítico, regionalista e tacanho. Algo muito frequente no nosso sec XX, de Pascoais a Régio ou a certos expoentes da dita filosofia portuguesa ou de Aquilino aos neo-realistas. Mesmo assim um António José Saraiva que transitou do marxismo para uma espécie de saudosismo pelo último quarto do nosso sec.XIX ou o Vergílio parecem-me bastante mais interessantes que os demais que nomeou. Mas nenhum deles, quanto a mim, nos auxilia a abrirmos caminho no mundo contemporâneo. Um pensamento, uma poética sem futuro, produto do fechamento salazarento, foi o que nos legaram. Caso no início do seu texto em vez de pensadores tivesse posto escritores, de pouco adiantaria e também estaria em quase total desacordo consigo. Bom, esta coisa dos maiores tem o condão de nos tornar menores. E pelo que vejo nem as almas revolucionárias estão livres deste engodo avaliativo e polar do maior e do menor, do melhor e do pior, dos eleitos e do resto. É que mesmo o menor e o pior são truques, meios de se chegar mais longe e não menos longe, e de nos tornarmos melhores e não realmente piores. O pior de Beckett é sempre para mais e nunca para menos, nunca para o realmente pior. É retirar mais e melhor do menor e do pior. O mesmo se poderia dizer do Comunismo Soviético ou do Nazismo e porque não do Salazarismo, a posteriori, claro. No seu interior estes regimes tendiam a desertificar, a liquidar.
    Não posso deixar de dizer que num certo sentido o Rui é muito mais generoso e menos cruel que eu na avaliação que faz da importância da obra destes escritores.
    Isto ficou extenso, mas ficou quase tudo por dizer ou mal dito.

  9. João Urbano diz:

    É Manuel Maria Carrilho e não José. A minha dislexia farta-se de me pregar partidas.

  10. João Urbano: regressemos à frase. Está lá “alguns” e “dos maiores”. “Alguns” quer dizer que não são todos. “Dos maiores” respeita a um subconjunto, no caso do conjunto “pensadores portugueses”. As pessoas que citei têm em comum: a) terem morrido em meados de 90; b) serem “alguns dos maiores”; c) pensadores, não só em sentido lato mas também restrito (todos eram autores de ensaios ou reflexão semi-filosófica a par de outros géneros – nenhum era um ficcionista puro, por exemplo –; d) portugueses.

    Dir-me-á: o Agostinho da Silva tinha um pensamento passadista, confuso e sei-lá-que-mais. O Torga não era um real “pensador”, etc. Você pode ter razão; eu até lhe posso dizer que, excepção feita ao António José Saraiva, não sou um leitor empenhado dos restantes. Mas não é isso que está em causa. Qualquer deles era um autor importante para o conjunto em causa, e (mais uma vez) não só como ficcionista no caso dos “escritores”. O Torga foi proposto repetidamente ao Nobel, mas os diários e a reflexão geral eram considerados incontornáveis para uma certa geração: não por acaso era um referencial do PS ou, por exemplo, ganhou o primeiro prémio Camões. Eu até posso não ser um enorme fã do Torga; mas que quer que lhe faça: que escreva que “em meados dos anos 90 morreram autores que são considerados alguns dos maiores mas que na verdade não eram grande espingarda?” Posso fazê-lo. Mas isso serviria só para contentar os meus instintos mesquinhos.

    No entanto, não é para isso que serve aquela frase. Ela é rigorosa, tem intuitos descritivos e pouco polémicos. E lembro-lhe que isto começa por um erro de leitura seu: partir do princípio que eu lhes tinha chamado Grandes Pensadores, em abstracto, quando eu escrevi uma coisa bem diferente. Sem esse seu erro à partida esta conversa não faria grande sentido.

    Uma nota final, e algo pessoal, sobre os historiadores, em que me sinto mais à vontade. Fui aluno de três dos quatro que cita: José Mattoso, António M. Hespanha e Fátima Bonifácio. Falhei o VMGodinho por uns anos, mas tive aulas com alguns dos seus discípulos directos, e alguns dos seus colegas aqui e em França. O Hespanha é o meu “guru”. Foi com o Mattoso que eu aprendi a admirar o AJSaraiva: ouvi-o assumir-se como um admirador e seguidor do AJSaraiva, modestamente, em diversas ocasiões.

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