Tiago Almeida: Mais Milho Lélé da Cuca

Retirei este comentário do Tiago Almeida do blog do Miguel Portas (para ver o contexto da discussão), parece-me ser interessante:

Esta questão pode ser dividida entre o tutano do problema, os OGM’s, e o ocorrido em Silves. Gostava de me referir essencialmente à primeira questão, e abordar por fim a segunda.
A agricultura biológica não é para os ricos, nem arcaica, ao contrário do que escreveu Pedro Pato: pelo contrário, ela está ainda no início e já detém uma fatia importante do mercado noutros países europeus (e em franco crescimento no nosso). É considerada uma prioridade de financiamento após a reforma da Política Agrícola Comum (que reconhece o carácter multifuncional da agricultura como garante de desenvolvimento rural, ecológico, paisagístico e de equilíbrio territorial, defesa contra os incêndios e preservação dos recursos NATURAIS e da BIOVERSIDADE). Com o aumento contínuo da produtividade da agricultura biológica e o crescimento da oferta, os preços descem, e aliás isso já se nota. Mas além de agricultura biológica, e antes de acharmos que podemos vir a precisar da agricultura transgénica, há a considerar também a agricultura orgânica (que não é a mesma coisa que a biológica), a agricultura convencional não intensiva, as boas práticas agrícolas apoiadas pelas medidas agro ambientais, a produção integrada, etc. Por outro lado, se os consumidores recusam maioritariamente os OGM’s e por isso os preços deles também baixarem, e mais depressa que outros produtos, isso é bom sinal? Vamos “obrigá-los” a comprar OGM’s, não havendo sequer garantias duma rotulagem eficaz?
Mas o argumento de que a agricultura biológica é a agricultura do século XIX está também redondamente errado por outras razões. A moderna agricultura biológica apoia-se nos mais recentes avanços científicos (por exemplo, na denominada “luta biológica”, que utiliza inimigos naturais das pragas ou feromonas naturais e biodegradáveis que confundem os machos na reprodução), avanços estes aliados por vezes ao saber ancestral, incluindo de povos indígenas. Por vezes bastam medidas tão simples e económicas (mas tão pouco praticadas, divulgadas ou mesmo conhecidas pelas “moderníssimas” academias e indústrias), como associar a cultura de milho, feijão e batata doce, para obter uma produção equivalente à obtida numa área 3,21 vezes superior se os três cultivos forem feitos em separado e em monocultura, como é corrente na agricultura industrial (Courrier da UNESCO, 2001).
A agricultura orgânica está longe de ser uma caricatura e aliás já é o garante único da soberania alimentar contra a fome em algumas partes da América Latina, em que nem sequer há dinheiro para comprar sementes, quanto mais transgénicas (sim, são mais caras e é preciso contabilizá-lo na análise de produtividade). A produtividade da agricultura biológica é já, aliás, em muitos casos elevada, por diversas razões: poupança em factores de produção, produção própria de sementes, sustentabilidade de cultivos e solos a médio e longo prazo, uso de fertilizantes e pesticidas naturais em doses menores ou mesmo desnecessários, luta biológica, etc. A luta biológica é muito usada por exemplo nos arrozais e laranjais da zona de Valência, em Espanha, que fazem inveja a qualquer agricultor algarvio… Para os produtores há vários benefícios: a restrição ao consumo do milho transgênico elevou o preço do milho convencional. No passado o preço girava em torno de US$ 10 a US$ 15 por tonelada, e actualmente chega a exceder em US$ 50 o preço do milho transgénico (caso do Paraná, no Brasil). (http://www.dekalb.com.br/noticia.aspx?id=102659)
No continente europeu, a fatia de mercado cresce de forma imparável aproximando-se dos 20% e as margens de lucro dos produtores podem chegar aos 200% e sem o sorvedouro de subsídios públicos da agricultura intensiva.
Mas ainda assim será o milho transgénico mais rentável que o tradicional? Vários resultados (que apenas avaliam estudos de curto prazo (a transição para a agricultura orgânica, ao contrário, leva alguns anos antes de atingir a produtividade máxima) apontam para aumentos de 8 a 20%, mas não têm conta diversos factores como a dependência económica dum único fornecedor e mercado. No entanto, num relatório de 2002 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (!), país que produz mais de 60% da dos transgénicos em todo o mundo, afirma-se que o milho desenvolvido com essa tecnologia não demonstrou maior rendimento que o das variedades tradicionais (http://www.tierramerica.net/portugues/2006/1021/particulo.shtml).
Pedro Pato também se interroga sobre se devemos abandonar já os transgénicos…Por um principio consagrado no direito primário da U.E. e da nossa própria Constituição permita-me que lhe diga que coloca a questão ao contrário (tal como o post de Oprichnick, que “tem muitas dúvidas sobre os efeitos nocivos deste milho”: e então para não termos dúvidas, esperamos com os transgénicos no prato e no estômago ou aguardamos mais trabalho dos cientistas?). Os diversos escândalos alimentares da década de 90 deviam aconselhar-nos um bocadinho mais de prudência. Também eu sou cientista e lembro-me das recentes “provas irrefutáveis” da segurança das rações animais para as vacas. Agora sabemos como as vacas ficaram loucas e donde veio a nova variante de Creuztfeld Jacob, com as suas duas primeiras vítimas mortais portuguesas ainda há poucos meses…O problema também não é, como diz, de haver ingredientes secretos ou não. O ingrediente deste milho transgénico é conhecido: um gene produtor duma toxina que destrói o intestino da larva duma broca. O problema é outro: saber por exemplo o efeito no intestino de outras espécies (já agora: porque é que este milho não é ainda autorizado para consumo humano?). Estudos recentes (que, concordo, não são conclusivos, mas reforçam a necessidade e o direito inalienável à precaução ecológica e ainda mais na esfera da saúde pública, indicam que o milho em causa (MON 810) causa problemas nos rins e sangue de camundongos (Séralini, G.E., Cellier, D., de Vendomois, J.,S., 2007. New analysis of a rat feeding study with a genetically modified maize reveals signs of hepatorenal toxicity. Arch. Environ. Contam. Toxicol., 52, 596-602)). Até agora, os efeitos dos OGM’s detectados em seres humanos foram essencialmente de ordem alérgica pouco grave: mas devemos esperar pelo primeiro caso de choque anafilático ou duma catástrofe sanitária ou ecológica maior? (Não faltam exemplos históricos de aprendizes de feiticeiro: a mixomatose do coelho, a perca do Nilo, etc.).
Mas ainda em relação ao argumento da transparência do código genético, se o código for revelado já poderemos estar descansados (considerando que esse gene, isoladamente, é seguro)? Que dizer dos casos em que as multinacionais patenteiam genes de plantas indígenas e variedades inteiras, limitando o seu uso por outros, num processo inaceitável de neocolonialismo deslocalizado geograficamente das ex-colónias?
E sobre isto ainda gostava de dizer o seguinte: o efeito dum gene não pode ser medido de forma directa, mecânica. Um gene inserido noutra parte do genoma, diferente da natural, ou mesmo no genoma de outro organismo, tem sempre um efeito mais ou menos imprevisível; um gene codifica uma proteína mas também tem efeitos reguladores, noutras partes do genoma, muitos deles por elucidar).
Falar da utilização de OGM’s na agricultura não é o mesmo que falar da melhoria genética por hibridação tradicional: isso é comparar a velocidade duma carroça com a dum míssil (e que pode transportar uma ogiva perigosa…). Creio que mais uma vez Oprichnick se engana: de facto o milho que comemos não é igual ao que veio da América. Mas até agora também ainda não é como aqueles morangos com genes de peixe de água fria para aguentar o cultivo perto do círculo polar árctico; ou como tentar roubar o cultivo do chocolate de países pobres (nalguns praticamente a única exportação!) da mesma maneira: vemos aqui alguma racionalidade, mesmo (ou principalmente!) em época de globalização??). Aliás, se Oprichnick tem formação nesta área deve saber que as técnicas actualmente disponíveis de introdução de genes estranhos num outro organismo são totalmente aleatórias quanto ao local de inserção. (Ao mesmo tempo, as consequências dessa inserção específica e obtida ao acaso, não são avaliadas). No início os OGM’s eram deliberadamente estéreis, usava-se (e ainda existe, apesar da pressão pública) a tecnologia “Terminator” que obrigava o agricultor a comprar todos os anos sementes novas (ou um reactivador). Os contratos eram naturalmente com a mesma empresa, e multianuais. Vislumbra-se aqui algum problema de monopolização e dependência económica? Mesmo depois de comprar a semente, o agricultor não a podia voltar a usar. Agora veja a benfeitoria que isto representa para os famintos do terceiro mundo no espírito das multinacionais….Perguntemo-nos pois: porquê esta urgência toda? Que problemas vão os OGM’s resolver?
Pedro Pato também diz que quem se lixa é o mexilhão… este agricultor algarvio é algum mexilhão, tendo em conta a superfície da exploração? E, sem defender a destruição dos cultivos (já lá irei), não deverá ele considerar e assumir a responsabilidade e as consequências sociais e riscos cívicos inerentes à sua decisão? (Tal como os activistas deverão acatar as consequências judiciais depois de ter a oportunidade de expor os seus argumentos).
Por fim, Pedro Pato manifesta esperança na modernidade dos OGM’s e lembra a luta contra a tuberculose e a penicilina: pois estes são excelentes exemplos da utilização da natureza “100% natural”: a penicilina é um fungo existente no meio natural e as novas gerações de antibióticos utilizam quanto muito uma bactéria em meio CONFINADO para aumentar essa produção. Quanto à vacina actualmente disponível contra a tuberculose ela é o próprio bacilo da doença, enfraquecido (e não manipulado geneticamente).
De facto não podemos confundir os críticos dos alimentos geneticamente modificados com adversários do progresso!
Gostava ainda de dizer que não tenho uma posição à priori de achar que os transgénicos são a semente da morte. Quantidades suficientes de alguns medicamentos não seriam possíveis sem manipulação genética, por exemplo. Mas a tecnologia deve ser utilizada com um grau de “certeza” científica e precaução particularmente altas, considerando o benefício, os beneficiários, os custos e a segurança. Deve por outro lado ser utilizada apenas quando haja um interesse público indiscutível (no caso dos cultivos OGM estamos a anos luz disso). A fome e a desigualdade no mundo têm aumentado nos últimos anos e nos casos em que apesar de tudo o problema consegue ser mitigado não tem sido certamente por causa dos OGM’s (que já apareceram há vários anos).
Sobre o que aconteceu em Silves. Não pude ver TV nos últimos dias, dizem-me que os tais activistas estavam com os rostos tapados e isso não me parece aceitável, pelo menos neste caso. A violência também não é aceitável, mas creio que não a houve. Inclino-me ainda para acções de protesto de outro tipo, que evitem confrontação directa (e que podem sempre resvalar para a violência).
A questão da propriedade privada (hay aquí del Rey!…): não creio que a propriedade privada seja um valor e um direito dissociado de outros, uma espécie de divindade sacrossanta que nos deva turvar a razoabilidade: este agricultor não pode garantir por exemplo que outro agricultor com produção biológica certificada, seu vizinho, não veja o seu cultivo contaminado e o esforço investido na sua propriedade destruído (nos EUA a soja tradicional já está largamente contaminada pelos OGM’s). Segundo o Conselho de Informações sobre Biotecnologia, português, a polinização cruzada pode chegar aos 3.2%. Na região de Oxaca, México, das 22 comunidades que tiveram as suas variedades de milho testadas, 15 apresentaram contaminação genética. Em 13 comunidades, os níveis variaram entre 3 e 10%; em outras duas, a contaminação foi ainda maior, mas nenhum detalhe dos resultados foi divulgado.
O que é ainda mais curioso, mas revelador, é que quando genes patenteados voam (através do pólen) para o vizinho, mesmo que acidentalmente, e esse agricultor utiliza as sementes em novos cultivos, o detentor da patente passa a ter o direito de controlo sobre essa cultura (a menos que o agricultor consiga provar que não seleccionou e usou essas sementes deliberadamente). Querem maior agressão ao direito de propriedade???? Uma expropriação por privados sem ónus de prova da parte mais forte??? (Sobre isto ver na Internet tanto os casos a correr em tribunais dos EUA como do Canadá (Monsanto Canada Inc. v. Schmeiser).
E os direitos dos consumidores? Para já temos direito à etiquetagem se houver a presença de mais de 0,9% de OGM’s (comparar com os 3,2% e 10%, acima! …), e ainda com uma margem de tolerância de 0,5% por “limitações técnicas e possível contaminação acidental”. Mas quem pode afirmar que este valor é pequeno ou sequer alicerçado em qualquer evidência científica? E alguém já viu um rótulo destes?
O direito a um grau razoavelmente elevado de segurança alimentar e saúde pública é indiscutivelmente superior ao da propriedade privada. Claro que sendo este cultivo (infelizmente) legal, também é verdade que persistem dúvidas e conflitos de direito. Temos que recear e condenar sempre a justiça pelas próprias mãos, mas o direito de desobediência, fundamentado, também existe. Agora cabe a palavra aos tribunais.
O futuro da agricultura reside na garantia e desenvolvimento da biodiversidade e em novos e modernos métodos agrícolas mas não no sistema de monocultivo intensivo ainda mais exacerbado pelos OGM’s. É aliás este o segredo do sucesso da agricultura na história humana. A solução para os novos desafios não é continuar a esgotar os solos e a engendrar um círculo vicioso interminável de necessidade de fertilização química e mecânica, de uso de herbicidas e diminuição de rotações e pousio até ao esgotamento final, poluição irreversível dos lençóis freáticos e da cadeia alimentar. A fome no mundo deve ser combatida com melhor distribuição (ainda há alimentos para todos!) e técnicas de cultivo mais racionais. Há muito por explorar: as espécies locais e não exóticas, os policultivos, a alternância e associações de cultivos (intercalados, em franjas, de relevo…), a lavoura mínima, as áreas tampão (de pragas), os cultivos de cobertura, os adubos verdes, o aumento do cultivo de leguminosas fixadoras, as rotações, as barreiras de floresta, tirar melhor partido e investigar novas alelopatias entre cultivos, avaliar melhor a adequação e “vocação” da dimensão total da exploração e tipo de cultivo, aumentar a participação popular e indígena como forma de tirar melhor partido dos recursos locais e aumentar a eficácia e produtividade de soluções técnicas importadas, a partilha de meios mecânicos, a proximidade de infra-estruturas, etc.
Mas até considero que podemos fazer uso de OGM’s em casos particulares, de segurança comprovada e livres de interesses que sejam exclusivos das multinacionais fitofarmacênticas (e que até agora nunca resolveram problema nenhum). Seria o caso por exemplo do enriquecimento de arroz com vitaminas do complexo B em zonas de desnutrição crónica, com a ajuda da UNICEF. Porque não?.
Mais uma nota: o transgénico que vem a caminho é uma outra variedade de milho, desta vez resistente a herbicidas: uma das “vantagens” é que se passa a poder despejar glifosato à “vontadex” sem matar o milho (claro que também há quem diga que assim se vai poder usar menos herbicida e poupar o meio ambiente…). Antes de ir por aí, experimentem associar o milho ao feijão…
E já agora um comentário ao post do André Ferreira: apesar de todas as discordâncias que possamos ter (várias das quais partilho), quer quanto ao BE quer quanto ao PCP, creio que “as notícias da sua morte são exageradas” … (no caso do PC remontam quase à sua fundação, na década de 20…). Podemos mudar a cassete?

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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5 respostas a Tiago Almeida: Mais Milho Lélé da Cuca

  1. manuel resende diz:

    Aplaudo com as quatro patas.

    Quero apenas salientar um aspecto: fala-se muito em ciência, e é bom que se fale. Mas nunca se utilize o argumento da ciência ad magister.

    De que ciência falamos? Se falamos de física, OK, tudo certo. Métodos laboratoriais comprovados, reprodutibilidade das experiências, controlo pelos pares, tudo bem. Eu diria: a ciência, aqui, é a arte de saber calcular a margem de erro. Todo o experimento laboratorial traz no fim a margem de erro.

    Mas a ciência biológica e a biotecnologia (que é uma técnica, não é ciência) são coisas mais complicadas. Sobretudo quando aplicadas à agricultura.

    E o que eu contesto na técnica dos OGM (melhor seria dizer das quimeras, conceito mais científico) é o facto de pôr o carro à frente dos bois.

    Explico-me: um campo agrícola ou uma floresta é um emaranhado de interrelações entre cogumelos, bactérias, minhocas, insectos, para além das plantas que nós lá vemos. A verdade é que não conhecemos um milésimo do que se passa nesse mundo.

    Os OGM até hoje comercializados têm duas propriedades primárias: ou são resistentes a herbicidas produzidos pelas empresas que os engendraram (caso dos OGM roundup ready), ou produzem eles próprios insecticidas a partir da Bacteria thuringiensis, que, veja-se lá, é comummente utilizada na luta biológica contra certos insectos.

    É muito pouco como proeza “científica” (o que não quer dizer que não haja outras experiências em curso que não tenham o seu mérito): de facto, atacam um problema isolado com uma resposta isolada. Numa palavra, está ali um insecto malandro, toma lá, está ali uma erva que não devia estar, toma lá.

    À primeira vista, tudo bem. Mas, reparem, este raciocínio É EXACTAMENTE O MESMO QUE LEVOU À DESCOBERTA DO DDT, um raciocínio mecânico com consequências desastrosas, pois não tem em consideração todas as complexas relações que fazem o húmus do solo e a saúde das plantas.

    Para explicar melhor: devemos tomar suplementos de vitaminas ou ter uma alimentação equilibrada e uma actividade física para além do fitness?

    É claro que uma agricultura diferente (diferente de TODA A AGRICULTURA PRATICADA ATÉ HOJE, baseada na convicção de que conseguimos dominar o mundo) será a única hipótese de sobrevivermos.

    E que agricultura será essa? Eu é que sei? Mas para que servem os vossos cérebros?

  2. manuel resende diz:

    Caro Nuno Ramos de Almeida.

    Se tiver alguma margem de manobra na escolha das reportagens, sugiro-lhe uma: vá aos EUA e ao Canadá entrevistar agricultores que experimentaram os OGM, bem como as associações de agricultores. É lá que tudo se passa.

    Se puder fazer um filme, óptimo. Vende para todo o mundo e pode utilizar as receitas para outras obras de interesse público.

  3. Ana Matos Pires diz:

    Independentemente da opinião de cada um nós, nada, mas mesmo NADA, justifica este nojo de que o Miguel nos dá conta:

    “Resta-me agradecer todas as opiniões enviadas e explicar, de uma vez pelas próximas, porque nunca chegaram a ver a luz do dia cerca de 50 comentários. (…) e, finalmente, também existiram os que não passavam de apelos fascistas e rascas à violência. Para se perceber melhor, guardei um exemplo entre vários que recebi ao longo da semana passada. Ei-lo:

    “Isto do milho fez-me relembrar os velhos tempos de 1975 em que entravamos de rompante pelas sedes dos comunas e partíamos aquilo tudo. Em Paço de Arcos demos cabo da da UDP e o artista que foi apanhado foi direitinho para o esgoto da Praia Velha. E no Terreiro do Paço o carro do Pierre-Pomme-de-Terre passou por cima dum comuna que se meteu à frente, a pensar que ele parava. Silves passa agora a representar a legalidade de começarmos a partir, desde já, todas as sedes do Bloco e de quem aparecer pela frente. Já há gente nossa à caça dos bétinhos da esquerda caviar. Vão ficar como o milho!””

    http://www.miguelportas.net/blog/?p=125

  4. nelson anjos diz:

    O direito – que pretende legitimar a propriedade privada como um absoluto – é apenas uma metamorfose do poder. O direito é a transformação do poder em lei.

    A propriedade privada foi possível quando uns tantos conseguiram reunir poder, e acordo entre si, para impor aos outros: “isto é meu!”.

    A terra, a água, o ar, constituem recursos da mesma natureza e são igualmente finitos. Destes, por razões de ordem diversa, no actual estádio de desenvolvimento das sociedades apenas a terra se constituiu, de forma mais evidente, como bem passível de ser abrangido pelo estatuto de “propriedade privada”. Mas, por arrastamento e associada à terra, embora com menos evidência, a água tem também já precedentes suficientes no acesso a esse estatuto. São exemplo já antigo os poços localizados em “propriedade privada”, e a exploração comercial de “águas minerais”, como se não fossem todas as águas … minerais.

    Destes três recursos – terra, água e ar – falta apenas declarar como recurso passível da aplicação do estatuto de propriedade privada o ar. Trata-se apenas de aguardar um estado superior de “progresso” e “desenvolvimento” para continuar a aplicação da mesma lógica. O direito criará as leis, a tecnologia resolverá as questões de natureza técnica e o mercado, a partir do seu divino cadeirão, regulará tudo. E, nessa altura, quando o ar natural não for já consumível sem tratamento prévio – como não o é já na generalidade dos casos a água – passará a consumir-se ar distribuído através de canalização ou engarrafado. Então, quem tiver dinheiro para pagar respira; quem não tiver morrerá por falta de ar. O que não será particularmente escandaloso, se atendermos a que, morrer por falta de ar é tão natural como morrer à fome. Aliás, e considerando que o ar é um recurso muito menos tangível do que o pão, as batatas ou o leite, dará até muito menos nas vistas e será socialmente muito mais pacífico morrer por falta de ar do que morrer por falta de alimentação.

    Se não for este o cenário que se queira permitir, o corte com a lógica que lhe subjaz implica uma atitude de crítica sem titubeio e o uso de todos os meios.

  5. anna sara diz:

    vcs nao sabe nem responder as minhas pergunta eu pergunto uma coisa e vcs coloca a resposta de outra coisa que nao tem nada haver com a minha pergunta e melhor pesquisar no google

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