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a vizinha oculta

25 Agosto 2007 | por Fernanda Câncio

Foi em plena Baixa lisboeta, num dia de calor, que a vi pela primeira vez. A maioria das mulheres de alças, decotes, calções, e a três metros de mim esta figura esbelta envolta em véus negros que avança. Quase congelo de espanto – mas faço o papel de urbana sofisticada. Limito-me a interrogar-lhe os olhos muito escuros, delineados a khol, olhos muito jovens que parecem devolver-me a curiosidade.

Ela passa, eu passo. O inopinado do avistamento faz-me descrer dele. Uma mulher tão jovem, tão velada, no centro de Lisboa? Vira outras como ela na Jordânia, no Iraque. Sempre bizarras, nunca reduzidas a hábito – não no meu olhar. Mas em Lisboa, a minha Lisboa, a jovem de negro parecia-me impossível.

Voltei a vê-la. A segunda vez, como num postal encenado, recortada contra a Sé de Lisboa, acompanhada de uma freira idosa. Parece, bem sei, ilustração a traço grosso da discussão sobre o véu islâmico, na qual não raro se tem trazido à colação o estrito hábito das monjas católicas para alegadamente demonstrar o relativismo dos conceitos, das observações e das indignações.
A terceira vez que a vi estava com um homem de barba e duas ou três crianças. O homem ia à frente e ela seguia, passos atrás. Em todos estes encontros pensei: da próxima vez tentarei falar com ela. Saber quem é, que idade tem, o que faz. Como vive, como se vê a ela e ao seu véu e como vê mulheres como eu, que a olham como uma prisioneira.

Mas nunca o fiz. Não percebo porquê: o que um jornalista mais faz na vida é meter-se na vida dos outros. Ser indiscreto, agressivo, abelhudo. E se há coisa em relação à qual me apetece ser abelhuda é esta história do véu islâmico. Não tenho sobre ele qualquer das contemplações que uma parte da esquerda dita clássica exibe. Não vejo que possa ser defendido como “uma prerrogativa cultural legítima” quando é imposto em nome da ideia de uma diferença fundamental entre sexos. Nem que possa ser, como sinal exterior de religiosidade, comparado ao hábito de uma freira católica – que na actualidade ocidental só poderá ingressar numa ordem quando adulta, responsável legal pelas suas decisões. Impor um véu a uma criança de oito ou dez anos, que é o que sucede na tradição islâmica fundamentalista, é aliás muito semelhante a agarrar numa criança da mesma idade e interná-la num convento. Já se fez na Europa, decerto – mas hoje a maioria dos europeus (ou assim espero) consideraria tal um atentado aos direitos humanos. Por outro lado, defender que as mulheres adultas inseridas em famílias ou países islâmicos têm a liberdade de optar nesta matéria é ignorar a existência de leis, nalguns desses países, que punem as que não usam véu e de uma “tradição” que legitima matar uma mulher que “desonra” a família ou a religião (que, parece, irão dar no mesmo) — tradição mantida, como se sabe, mesmo nos países ocidentais.

Não sei se a minha vizinha está em condições de distinguir uma escolha de uma imposição. Se é com orgulho que atravessa as ruas de Lisboa, como um arauto da verdade, ou se deseja poder mandar o véu às urtigas e estender-se ao sol de bikini. Talvez nunca o saiba. Porque é minha vizinha, e há nisso um pacto. O pacto que diz: viveres ao meu lado não me dá o direito de te impor o que acho melhor para ti. Chama-se a isso respeito, creio – o respeito que a maioria dos lisboetas manifesta, ao vê-la passar com surpresa mas sem agressividade – e é o mais subversivo dos princípios. Desde que, bem entendido, se não cometa o erro de o confundir com indiferença, medo ou vertigem ética.

(texto publicado na coluna Sermões Impossíveis da Notícias Magazine de 19 de Agosto)

Comentários

Comentário de António Figueira
Data: 25 Agosto 2007, 1:31

Cara f.,
Quando o 5dias era uma criança, entre Novembro e Dezembro de 2006, travou-se aqui uma tremenda batalha em torno da questão do véu (pena que ainda não tivesses chegado, para batalhares também; gostava de te ter visto em acção). Para quem queira conhecê-la ou simplesmente recordar esses dias, aqui ficam os links essenciais:
http://5dias.net/2006/11/22/velado/
http://5dias.net/2006/11/28/contra-o-veu/
http://5dias.net/2006/11/28/post-scriptum/
http://5dias.net/2006/11/30/proibir-piora/
http://5dias.net/2006/12/05/uma-resposta/
http://5dias.net/2006/12/12/o-veu-e-a-esquerda/

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 25 Agosto 2007, 2:00

antónio, lembrava-me vagamentge disso- escusado dizer, presumo, que estou de acordo com tudo o que escreveste. mas digo de qualquer modo.

Comentário de luis eme
Data: 25 Agosto 2007, 10:01

Respeito é isso mesmo, não fazeres perguntas aparentemente estúpidas, que podem ter respostas estúpidas… como um porque sim.

Porque podemos vestir o que quisermos, porque sim. Embora seja confuso. Já por cá vi duas mulheres com burka e apeteceu-me tirar-lhes aquela coisa da cabeça… mas quase de certeza que não iam gostar… muito menos os acompanhantes…

Ma o respeito é ter capacidade para aceitar este mundo cada vez mais desigual…

Comentário de Luís Lavoura
Data: 26 Agosto 2007, 11:16

“defender que as mulheres adultas inseridas em famílias ou países islâmicos têm a liberdade de optar nesta matéria é ignorar a existência de leis, nalguns desses países, que punem as que não usam véu e de uma “tradição” que legitima matar uma mulher que “desonra” a família”

A Fernanda confunde aqui a parte com o todo. Só nalguns, muito poucos, países islâmicos existem leis que obrigam as mulheres a usar certa indumentária. E só nalgumas regiões de alguns países, islâmicos ou não, é que é legítimo matar uma mulher que “desonra” a família.

Não é intelectualmente legítimo a Fernanda recusar o uso voluntário de véu com o argumento de que nalguns países tal uso é obrigatório. Tal como não é intelectualmente legítimo recorrer como argumento a umas tradições vergonhosas que ainda vigoram nalguns recantos do mundo islâmico.

Comentário de JP
Data: 26 Agosto 2007, 13:06

Cara menina f. ,que tal começar por ler o Corão, dar um saltinho a Mértola e falar (se ele tiver para a aturar, que eu acho que esta’…) com Cláudio Torres, tentar também Adalberto Alves, afinal o que esteve a fazer na Jordânia e no Iraque?
Este texto cheira-me a ferias, a verão, tipo os filmes que passam no verão também tem menos qualidade…
o calor faz com que as nossas hormonas se sobreponham aos nossos neurónios, afinal e Verão!! Estarei a disparatar assim tanto? Juro que não ando a tomar nada!!
So uma cidra bem fresquinha, aqui bebe-se muito disso…

Sera censurado este texto? espero bem que não, estou de perna ‘a banda sabe? já há 2 dias,pensava que era o Eusébio (não o vosso Maradona), e
magoei-me a jogar futebol (sim, mas o que e que você tem a ver com isso?), e o medico muito simpático, que era Indiano, e se chamava Rajiv ,e tinha um olhar um pouco assustado, pois pessoas parecidas (so’ de cara, bem entendido)com ele, e também com a mesma profissão, quiseram fazer umas maldades em Londres e nuns aeroportos,e ele não mo disse mas lia-se nos olhos “que porra pa’!so quero fazer o meu trabalho, ajudar a minha família, e agora todos me lançam censuras com os olhos!!”, e isto tudo para dizer, que ele me disse que tinha para 2 semanas(gosto desta expressão, apesar de ja estar a ficar um pouco Linda de Susa, na escrita, afinal ja sao 2 anos disto, juro que para o ano volto, ai se volto que se lixe ir ganhar um terço, viajar menos, ir para um pais que se esta cagando para nos, mas …

MAS bolas, antes da perna ‘a ( perdoem-me,mas o Mac não tem acentos, a propósito de Mac , e perdoem-me os Algarvios, mas já sabem que há uma nova marca de hamburgers no Algarve: e’ o MAC Jeto! (ler em voz alta sff.!!!)!!!banda, já tava quase a fazer a mala vrum vrum Aberystwyth (costa ocidental do UK, em Gales), comboio ate’ Gatwick, andar 2 km ate ao aeroporto sim,pq estes paranóicos agora fecharam todos os parques de estacionamento num PERIMETRO BASTANTE RAZOÁVEL ATE AO EDIFÍCIO PRINCIPAL DO AEROPORTO, COM MEDO DOS SRS. DE BARBA COM VONTADE DE SE JUNTAREM ‘AS 70 VIRGENS NO PARAÍSO DE MEL,F-O-N-I-X!!!!!!!!!

(continuando la de cima: ..e, depois de passar os olhos pelo blog do tareco (Urso mesmo)do João Gonçalves, venho aqui despejar…ta’ ma!!!

um site interessante para si e para os que a lêem (para dar um bocado de graxa, mas ,sabe, não me apetece ir la acima apagar as passagens mais , hum…digamos que Bravas!)

aqui: http://www.viniciusdemoraes.com.br/
gostava de lhe enviar a musica “Berimbau Consolação”, que tem uma guitarrada linda do Toquinho (embora o original seja de Baden Powell), mas ficara para uma próxima, boa? agora vou ler a Biografia do Leonardo da Vinci: “The flights of the mind”(de Charles Nicholl, editado pela Penguin Books)que comprei esta manha numa lojita da Oxfam pelo modica quantia de 6 pounds (9 euros), nem tudo e mau não e???
quando nos sentimos um pouco…digamos que “de cérebro ‘a banda” nada como papar de biografias de génios , para nos sentirmos génios também!
Mai nada!

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 26 Agosto 2007, 21:56

caro luís lavoura, creio que nunca é legítimo matar uma mulher que desonra a família. pode ser legitimado pela lei e/ou pela tradição, mas legítimo, decerto, nunca será. quanto a achar que essa tradição é assim tão raramente seguida, e apenas em raros países islâmicos, está a esquecer os casos de mulheres mortas por esse motivo nos países ocidentais. ou em países como o iraque, onde existe uma ocupação militar ocidental — por exemplo.

mas, já agora, podia explicar melhor o que é que eu estou a confundir? é que fiquei confusa com a confusão que me atribui. o luís acha portanto que não há motivos para questionar o livre arbítrio das mulheres que usam véu? acha que toda a mulher que usa véu o usa porque quer? não põe a hipótese de que muitas o façam por sentir que não têm outra hipótese, por se sentirem coagidas a tal? é que esse o meu argumento. gostava de conhecer o seu. e, já agora, gostava de saber por que é que o jp me aconselha a leitura do corão a propósito deste texto ou me remete para especialistas. é mais uma coisa que me deixa confusa: a que propósito, ao falar sobre o uso do véu pelas mulheres inseridas em sociedades/famílias islâmicas no mundo actual, e sobre as leis/usos que em alguns países obrigam as mulheres a velar-se, eu teria de conhecer o corão? é que, parece-me, quem o jp deveria aconselhar a ler e reler o corão, caso queira dizer com esse conselho que o corão não obriga as mulheres a velar-se ou não legitima que elas sejam castigadas por isso, são os islâmicos que exigem às mulheres que se velem sob pena de.

quanto à história do seu médico indiano, francamente: tem a certeza de que leu o meu post? é que tudo leva a crer que não.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 Agosto 2007, 23:10

Percebo o pacto de que falas f., mas lá que me apetecia muito que lhe perguntasses se usa véu por opção ou por obrigação, apetecia.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 27 Agosto 2007, 0:14

pois é, ana. mas que queres? desenvolvi uma espécie de ternura pela minha islâmicazinha privada.

Comentário de Luís Lavoura
Data: 27 Agosto 2007, 15:41

“o luís acha portanto que não há motivos para questionar o livre arbítrio das mulheres que usam véu?”

Há motivos para questionar o livre arbítrio de muitas mulheres que usam muitas indumentárias. Incluindo o véu.

“acha que toda a mulher que usa véu o usa porque quer?”

Não.

“não põe a hipótese de que muitas o façam por sentir que não têm outra hipótese, por se sentirem coagidas a tal?”

Sem dúvida que sim.

“esse o meu argumento. gostava de conhecer o seu.”

O meu argumento é que, enquanto não se provar que uma pessoa se veste da maneira que o faz porque é coagida a tal, se deve presumir que o faz de sua livre vontade. E que, portanto, enquanto tal prova não fôr feita, caso a caso, se deve deixar a pessoa vestir-se da maneira que entenda.

Comentário de Mr. Shankly
Data: 27 Agosto 2007, 16:30

“O meu argumento é que, enquanto não se provar que uma pessoa se veste da maneira que o faz porque é coagida a tal, se deve presumir que o faz de sua livre vontade”

Parece-me uma boa ideia. E vamos também presumir que as pessoas raptadas no Iraque, enquanto não se provar que o foram contra a sua vontade, o foram de livre vontade, vamos?

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 27 Agosto 2007, 17:10

uau, luís. devo portanto depreender que depreendeu do meu post que eu não deixo a minha vizinha vestir-se da forma que entende? excelente, direi mesmo, excelsa análise. a não ser, claro, que esteja a referir-se à parte do meu post em que falo das crianças. talvez o luís lavoura ache que não há provas suficientes de que as meninas que nascem em famílias islâmicas são obrigadas a usar véu. vai-se a ver e é uma escolha delas. e vai-se a ver e eu, europeia ocidental e ateia, tenho de aceitar isso nas escolas públicas e laicas que pago com os meus impostos — as mesmas onde tenho de aceitar os crucifixos que salazar lá mandou pôr.

Comentário de Shrek
Data: 31 Agosto 2007, 0:17

Fernanda,
Já pensou no aspecto positivo do véu em termos de relacionamento?
Já imaginou o que isso encerra de suspense e sedução?
A ideia do escondido, da ansiedade em ver o que está por debaixo.
Nós, ocidentais (à excepção das máscaras de Veneza, claro) é que estragamos a melhor pimenta dos flirts com o querer mostrar logo tudo. Não acha?
Será que, nesta perspectiva (e sem desprimor para todas as suas outras doutas considerações sobre o assunto) , não serão eles, os orientais, que estão certos ?

Comentário de maria manuel viana
Data: 31 Agosto 2007, 1:17

fernanda
leio-a. li este texto. sobre os véus, estamos de acordo. sobre muitas outras coisas também. li o seu comentário à morte de EPC, q tb a lia. hj saí pela 1ª vez. telefonaram-me para ir à wikipédia. fui. diz: epc morreu com sida. ele morreu a meu lado, dizendo “vou dormir mais um bocadinho”. se servisse alguma causa, eu não me importaria. não creio. sobretudo, não é verdade. e você sabe o q dói ler inverdades na wikipédia. por isso lhe escrevo, a si.
Mª Manuel

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 31 Agosto 2007, 14:51

olá, maria manuel. nem sei o que lhe dizer. fui à wikipédia mal li este comentário e constatei que alguém já tinha corrigido essa informação. pareceu-me porém que muita coisa está errada no perfil — o que não surpreende.

engraçado, a última vez que discuti com o eduardo, foi a propósito de blogues. ele não gostava, não tinha paciência. mas a liberdade da escrita dele, a liberdade na escolha dos temas, a justaposição do ‘profundo’ e do ‘fútil’, da anedota e da reflexão filosófica, fazem-no o percursor da escrita bloguística. foi o eduardo que mostrou que é possível escrever sobre tudo numa coluna de jornal: wittgenstein, telenovelas, amor, doenças, crime, política. que é possível aplicar a tudo o mesmo princípio: o de pensar.

vai fazer muita falta.

um abraço

f.

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