Filipe Moura: Eu preferia quando a Eufémia era vermelha

E eis que em plena silly season surge algum facto político para animar: a invasão de uma herdade de cultivo de milho transgénico no Algarve por membros (de diversas nacionalidades) de um grupo com um nome bem português: “Verde Eufémia”.

A reacção da comunicação social portuguesa foi de escândalo pela “invasão da propriedade privada” para destruição de uma “plantação legal”. O facto de a plantação ser legal é importantíssimo e meu ver é o que mais merece ser discutido. Ninguém tentou saber, porém, quem trabalhava na referida herdade e em que condições. O que interessa é que é “propriedade privada”. Quem torna a referida propriedade produtiva está, ainda assim, a trabalhar em “propriedade privada”, e isso é o mais importante de tudo.Este é um triste sinal dos tempos em que vivemos, em que “Torre Bela” é só nome de documentário.

De entre os jornais que só se importaram com a defesa da propriedade, o mais assanhado foi o “Diário de Notícias”. João Pedro Henriques, um jornalista que eu habitualmente respeito e considero muito, nas questões que coloca numa entrevista a Miguel Portas chega ao cúmulo do dislate, ao comparar a invasão da plantação de milho transgénico com uma suposta invasão da casa do eurodeputado por este fumar. Miguel Portas estaria a fumar em sua casa, algo que só diz respsito a si e à sua família. O milho transgénico, que eu saiba, não era para consumo pessoal e pode vir a ser consumido por toda a gente.

Dito isto, tenho realmente pena que os activistas, com tantos crimes ecológicos que se cometem pelo Algarve e por Portugal fora, se concentrem exclusivamente no milho transgénico. Esta é a questão que vale a pena debater, e para isso precisamos de especialistas, que eu não sou. Mas até prova em contrário eu sou favorável ao cultivo de transgénicos. Creio que as suas vantagens superam em muito os seus inconvenientes. As alternativas são o recurso a produtos químicos poluentes, que têm um impacto ambiental muito superior aos transgénicos. Ou então – e esse é com certeza o sonho da “Verde Eufémia” – um regresso à agricultura biológica. Eu conheço vários adeptos da agricultura biológica, de várias nacionalidades, todos burgueses de esquerda. A produção da agricultura biológica talvez chegue para os alimentar a eles. Talvez dê para alimentar pequenos produtores do campo com pequenas hortas. Mas nunca uma produção exclusivamente biológica permitirá fornecer todos os supermercados de uma região como a Área Metropolitana de Lisboa. Chegará para fornecer, quanto muito, o “El Corte Inglés”. Um dos principais objectivos da esquerda deve ser dar comida a toda a gente e isso, com a actual demografia, só é possível com uma agricultura de massa. Era bom que a esquerda percebesse isso.

(Encontro-me numa aldeia do distrito de Aveiro, numa casa de família com uma pequeno pomar de frutas que são biológicas desde que os meus avós morreram. Frequentemente, para me entreter, apanho um cesto de deliciosas peras. Dois ou três dias depois, metade das deliciosas peras biológicas estão boas para voltarem para a horta e servirem de adubo.)

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SEXTA | António Figueira
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22 respostas a Filipe Moura: Eu preferia quando a Eufémia era vermelha

  1. a.pacheco diz:

    Mas Antonio Figueira possivelmentes essas peras sabem a Pera.

    Ao passo que estas coisas a modos que, que dão pelo nome de peras maçãs , pessegos, muito bonitas, nuito trangenicas, vai-se a comer, e sabem a nada, ou quando muito a maçaroca.

    E ainda ninguem provou, se amanhã não teremos insectos e pragas mais resistentes.

    Mas o que importa, depois dos frangos com nitrofuranos, das vacas loucas engordadas a hormonas e cheias de antibioticos, mais milho OGM mesnos milho OGM, o final é ….não passamos fome ….mas morremos TODOS CANCEROSOS…..

    NOTA: ESTE TEXTO É DA AUTORIA DE FILIPE MOURA, EU – AF – LIMITEI-ME A “POSTÁ-LO”, OU SE PREFERIREM, A AFIXÁ-LO.

  2. Roteia diz:

    Também seria bom que se entendesse, seja qual for o campo político, que os efeitos dos químicos obrigam a novos e mais químicos. A contaminação pode até vir do quintal do vizinho. As cebolas transgénicas não são um mal menor: sabem mal, cheiram mal, não deviam servir como alimento. A solução não é transgénica, a solução é o respeito pela natureza, a nossa, humana, e a do meio envolvente, incluindo bichinhos que se alimentam uns dos outros . Bem sei que no actual modelo de sociedade há inevitabilidades, coisas que a médio prazo não é possível alterar, mas se nunca houve tanta fartura, também nunca houve tanta fome no mundo. É necessário que a Esquerda se debruce no estudo de alternativas ao economicismo global e ao modelo apocalíptico que está instaurado. A Esquerda tem essa responsabilidade, digamos, histórica. De nada valem acções pontuais. É o monstro sem rosto que deve ser combatido. O monstro é o consumismo, a alternativa está longe.

  3. Lino José diz:

    Não percebo as suas confusões acerca do conceito de “propriedade privada”. Propriedade privada é quando alguém compra uma propriedade, seja de que natureza fôr, a regista obedecendo a todos os requisitos legais, e paga impostos por ela. Também é propriedade privada toda aquela que passa de pais para filhos, por herança.

    Não percebo as suas dúvidas.

    “Torrebela” mostra um período triste e trágico da história recente portuguesa em que as forças totalitárias de esquerda, encabeçadas pelo PCP, tentaram impôr um regime ditatorial, recorrendo ao roubo e ao terror, nomeadamente sobre os legítimos proprietários das ditas “propriedades privadas”.

  4. Luís Lavoura diz:

    As peras são uma fruta muito perecível, é sabido, devido ao seu alto teor em água. Deve-se a isso a popularidade da “pera-rocha”, uma variedade especialmente resistente, por ser muito dura. Na agricultura de alta produção, toda a fruta é apanhada quando ainda muito verde e metida em congeladores, e só é descongelada quando vai para o supermercado – ficará depois a amadurecer na prateleira. Apanhar fruta deliciosa quando ela já está bem madura é equivalente a admitir que metade dela se irá estragar.

    O meu pai também era de uma aldeia do distrito de Aveiro, Aguada de Baixo, talvez o Filipe Moura (que foi meu aluno, já agora) conheça.

  5. Luís Lavoura diz:

    Há uma diferença fundamental entre os produtos químicos poluentes e os vegetais transgénicos, que o Filipe Moura se esquece de considerar: os vegetais transgénicos são seres vivos – podem-se multiplicar, reproduzir, trocar informação genética com outros seres vivos, etc – ao contrário dos produtos químicos, os quais sofrerão diversas reações mas nunca se multiplicarão. Esta é uma diferença crucial. Um só bacilo de Koch, depositado nos pulmões do Filipe, pode ter um efeito nefasto devido ao facto de se tratar de um ser vivo. Brincar com seres vivos tem perigos que não existem quando se brinca com produtos químicos.

  6. jpt diz:

    Antonio Figueira
    Comcordo plenamente com quse tudo o que disse.
    Principalmente na parte de que utilizar pesticidas e bem pior que ter milho trangenico.Ja agora por mera desconfianca , nao consumo produtos no mercado com a marca tengenico , e todos podem optar como eu, imformo tambem que o milho nao serve so para alimentacao que humana quer de animais, esta em desemvolvimento, um combustivel com um percentagen assinalavel de milho , com as vantagens inerentes a sua utilizaçao , menos emissao de CO2 , tambem a marca Goodyear esta a desenvolver
    um tipo de peneu apenas e so feito de milhos e outros matreriais biodegradaveis , abandonado por completo a utilizaçao de petroleo na composiçao da borracha.
    E verdade que a invazao nos .pos a discutir os trangenicos,
    Mas pergunto o seguinte:~
    Nao tera aberto um grande percedente?
    Nao teria o mesmo efeito um manifestaçao, sem destruir ou invadir o que quer que seja?

    NOTA: ESTE POST É DA AUTORIA DE FILIPE MOURA.
    ………

  7. Luís C. diz:

    Há um modo de vida apoiado numa economia doméstica de pequena produção de cereais, legumes, fruta e carnes. Contas feitas, em alguns casos, é realmente menos dispendioso adquirir os produtos dos supermercados, mas a qualidade não será a mesma. Nesta economia doméstica joga-se algo estruturalmente humano, a agricultura. Além da produção, há uma ligação à terra, aos ciclos das colheitas, a uma aprendizagem familiar, que continuam a ser património activo, pelo menos de muitas pessoas na Beira Alta – a situação que conheço melhor. Há bons exemplos, nas Beiras e no Alentejo, de associações que vendem e distribuem cabazes com os produtos provenientes desta economia familiar que produz também os seus excedentes.
    No texto da directiva comunitária sobre transgénicos é mencionado o risco de “contaminação” (as aspas são minhas) das colheitas já existentes pelas novas colheitas de transgénicos, entre Estados. Ora se é entre Estados então o que acontecerá dentro do próprio Estado? Este modo de produção que menciono fica em risco.
    Porque é que temos que escolher entre transgénicos ou produtos químicos poluentes, como afirma? Preferia não ter que escolher, haverá, com certeza, alternativas equilibradas. Recuso esse mundo a preto e branco em que os contestatários são todos burgueses de esquerda.
    A questão da produção em massa de milho será que se coloca no caso português, então agora vamo-nos tornar em grandes produtores europeus de milho? Alguém já avisou a Comissão Europeia? Ou não estará a ser feita a transposição de uma directiva comunitária sobre um assunto que diz respeito a todos e sobre o qual falta informação e discussão? Mais uma daquelas questões em que se chegam à frente os principais interessados e cabe-nos a nós a receber passivamente esta política de acto consumado?
    A Autarquia de Salvaterra de Magos (não, não sou eleitor ou militante do Bloco) aprovou por unanimidade uma moção que pretende considerar o concelho como zona livre de transgénicos e reuniu com os agricultores em sessões de esclarecimento.

  8. A questão de A. Figueira está, quanto a mim, muito mal colocada.

    Ao contrário do que ele pretende fazer crer, a cultivação de alimentos transgénicos não pretende fazer face à carência alimentar de ninguém. As grandes superfícies de Lisboa, Porto e arredores não spfreriam rigorosamente nada com a supressão das culturas transgénicas. Como todos se sabem, mas alguns às vezes esquecem (aproveitando ainda para fazer publicidade totalmente despropositada a uma cadeia de centros comerciais), o grande problema da agricultura europeia (se não mesmo mundial) NÃO é a sub-produção. É mesmo a SOBRE-PRODUÇÃO!

    Que, infelizmente, de nada serve para corrigir outro problema ainda maior e mais grave que é o do desequilíbrio da distribuição alimentar no Mundo, ou mais cruamente, da sub-nutrição e fome dos Países pobres e miseráveis.

    A cultura dos transgénicos é meramente uma forma de potenciar o LUCRO do produtor (nomeadamente, ainda que possa não ter repercussão nos preços, pela REDUÇÃO DO RISCO inerente à actividade).

    Dizer que se é “a favor” dos transgénicos porque de outra forma haveria escassez de alimentos é de uma ingenuidade confrangedora.

    Os transgénicos, tal como tudo o que não é natural e local ou, pelo menos, regionalmente controlável, apenas interessa a quem detém as PATENTES e os respectivos lucros: dos produtos e, quando soar a hora do alarme, dos antídotos!

    Defender os interesses desta indústria altamente especializada é que é ser de Esquerda, sim, com maiúscula, de Esquerda “não-burguesa”, mas sim verdadeiramente proletária, logo obscurantista, ignorante, e burgessa (= anti-burguesa…).

    Vai um copinho de um rosé alentejano, feito a partir de uvinhas transgénicas?

    NOTA: A QUESTÃO, BEM OU MAL COLOCADA, NÃO É DE ANTÓNIO FIGUEIRA MAS SIM DE FILIPE MOURA, QUE É O SEU AUTOR.

  9. jpt diz:

    mas quem e o filipe moura que pos uma nota com o nome dele no meu post????????????????????????????????????????

    NOTA: NÃO FOI O FILIPE MOURA NEM FOI NUM POST SEU; FOI O AF, NO SEU COMENTÁRIO E PARA EXPLICAR MAIS UMA VEZ QUE O AUTOR DO TEXTO A QUE SE REFERE NÃO SOU EU MAS SIM O FILIPE MOURA.

  10. LOL! O que tem mais piada no meio disto tudo é que quase todos os comentadores pensam que o texto é do António Figueira…

  11. “tenho realmente pena que os activistas, com tantos crimes ecológicos que se cometem pelo Algarve e por Portugal fora, se concentrem exclusivamente no milho transgénico”

    Em total acordo.

    “Mas nunca uma produção exclusivamente biológica permitirá fornecer todos os supermercados de uma região como a Área Metropolitana de Lisboa”

    Filipe, em muitas das grandes cidades da europa central e do norte os produtos biológicos representam partes importantes do mercado nas grandes superfícies, estou a falar de percentagens acima dos 30%.
    A coisa não está assim tão rudimentar como escreveste. Lê o Nicolas Hulot, ele tem uma série de textos e estudos científicos sobre a agricultura de massas ambientalmente sustentavel:

    http://www.amazon.fr/Pour-pacte-%C3%A9cologique-Nicolas-Hulot/dp/2702137423
    http://www.fondation-nicolas-hulot.org/

  12. Ok A. F., mas a gente não adivinha, né?

    Convém talvez “assinar” os Artigos, com o nome do seu Autor, sempre que não seja quem afixa…

    E substituo no meu comentário (para além das indesculpáveis “gralhas”) “rosé” por “tinto” (de uvas NÃO contaminadas por culturas transgénicas…)…

    CARO A. CASTANHO: O MÉTODO NÃO SERÁ O MELHOR (E CONTAMOS MUDÁ-LO EM BREVE), MAS ASSINALO-LHE QUE, QUANDO HÁ POSTS QUE NÃO SÃO DA AUTORIA DE NENHUM DOS “CINCO”, OS NOMES DOS RESPECTIVOS AUTORES FIGURAM NO TÍTULO DO PRÓPRIO POST (COMO NESTE CASO).

  13. manuel resende diz:

    Oh caro amigo FM! Dizes tu:

    «Mas até prova em contrário eu sou favorável ao cultivo de transgénicos. Creio que as suas vantagens superam em muito os seus inconvenientes. As alternativas são o recurso a produtos químicos poluentes, que têm um impacto ambiental muito superior aos transgénicos. Ou então – e esse é com certeza o sonho da “Verde Eufémia” – um regresso à agricultura biológica. »

    Onde foste buscar tu estas coisas?

    Várias observações.

    Uma. Os transgénicos não significam um abandono dos produtos químicos poluentes. Por exemplo: a Monsanto produz agora uma soja transgénica que é Roundup ready. Quer dizer: a soja resiste ao Roundup, herbicida da própria Monsanto. Assim, semeia-se a soja e pode deitar-se herbicida à vontade que ele não a mata.

    Duas. Não se trata de regresso à agricultura biológica. Não há um regresso: há novos métodos culturais, baseados, não já na química, mas na biologia, e mais: na microbiologia dos solos. Exemplo: a cultura sobre ramos triturados. Espalha-se sobre a terra uma camada de ramos triturados tirados da floresta. A lenhina das folhosas, é decomposta por acção dos cogumelos e das bactérias, incorporando-se nos solos e dando origem a compostos argilo-húmicos. Resultado: limpam-se as matas, incorpora-se carbono no solo, reconstitui-se o húmus destruído pela lixiviação resultante das regas e da adubação química. Obtêm-se assim altos rendimentos sem deterioração do solo.

    Três: quem te diz que a agricultura química agora praticada consegue alimentar a humanidade? Vejam-se os resultados da revolução verde na Índia.

    Quatro: dizes também que os adeptos da agricultura biológica que conheces são todos burgueses de esquerda. Eu conheço também alguns que o não são (burgueses de esquerda). Talvez conheças burgueses de esquerda a mais. Uma pessoa muitas vezes procura as chaves perdidas debaixo dos lampiões (não é piada aos benfiquistas), que é onde há mais luz. Por exemplo: as minhas primeiras sementes comprei-as nas Fraternidades Operárias de Mouscron, na Bélgica, uma associação que desenvolve hortas populares. Outro exemplo: no Brasil há um grande movimento camponês de agro-ecologia, que está a desenvolver novas técnicas de cultivo com a ajuda de agrónomos e técnicos agrícolas: sementeira directa, mulching, etc.

    Enfim, dá que pensar, não?

  14. manuel resende diz:

    Esqueci-me de dizer uma coisa:

    Estes raparigos e raparigas que foram destruir um hectare de milho transgénico deviam ter juízo. E devia ter juízo quem chama a isso «desobediência cívica». Desobediência cívica é resistência às autoridades e aos poderosos, não isto.

    Nas actuais circunstâncias económicas é muito difícil, por questões técnicas, mas sobretudo económicas, resistir à industrialização da agricultura e aos produtores de pesticidas, transgénicos, herbicidas, adubos, etc. Há toda uma máquina que impele ao desenvolvimento destas quimeras. Incluindo os serviços públicos.

    Na sua grande maioria, os agricultores são vítimas e não culpados. Atacá-los é, além do mais, estúpido. Para mim, a propriedade privada não é sagrada, há valores superiores. Mas neste caso, o que se destruiu não foi a propriedade privada, foram meses de trabalho e acho que isso não se faz, por mais transgénico que seja o milho.

  15. Caro António, muito obrigado pela postagem, na ausência do Nuno, em parte incerta. Os agradecimentos são estendidos à Ana Matos Pires, que nos pôs em contacto.

    Caro Luís, pelos vistos recorda-se do meu nome mas não da minha cara. É frequente passarmos um pelo outro – noutro dia até estávamos a mijar em urinóis contíguos na casa de banho do 5º piso – e você nem um “olá” me diz.

    Manuel Resende e Rui Curado Silva, obrigado pelos (excelentes) comentários e abraços a ambos.

    Esta questão dos transgénicos parece-me semelhante à da energia nuclear. É possível que com um melhor aproveitamento dos recursos existentes – que estão muito mal aproveitados – o recurso a elas seja desnecessário, mas tal não invalida que se investiguem e proponham formas novas de produção. O que me causa espécie é que esta investigação é logo catalogada como “sede de lucro”. Alguém duvida que, se a URSS ainda existisse, estaria a investigar em transgénicos? Seria esta putativa investigação da URSS movida pelo lucro? Não; esta história do “lucro” é só uma desculpa para disfarçar a desconfiança pela ciência e pela tecnologia. Os mesmos que são contra os transgénicos por causa da ganância propõem que os charlatães das homeopatias e outras medicinas “alternativas” sejam subsidiados pelos nossos impostos. Isto tudo é a influência do Prof. Boaventura. E só demonstra a desorientação de alguma esquerda desde a queda do muro de Berlim.

  16. manuel resende diz:

    Caro Filipe Moura:

    Perdão, perdão e mais perdão. Não brinquemos. Não me move qualquer ódio ou desamor ou desconforto relativamente à ciência, pelo contrário. Mas não confundamos ciência com técnica, nem ciência com coisas que dão jeito à Monsanto e que tais.

    Só os esturrados podem ser contra a investigação em transgénicos. A mim o que me incomoda é a pressa (a pressa, repara bem) em transformar investigação em lucros, precisamente.

    E mais: a invocação da URSS não colhe no caso.

    Pois a grande tragédia da esquerda “clássica” (chamemos-lhe assim, entre aspas) foi precisamente querer transformar a sociedade numa empresa. Bem, adiante.

    Quanto a transgénicos e ciência, caro amigo. A biologia, e a biologia genética em especial, não é física. Não é fácil construir um ambiente confinado, digamos, por exemplo, um pêndulo ideal (ideal, ah ah) e construir uma experiência reprodutível.

    Não é fácil encontrar uma causa – um efeito. O ADN não é um programa de computador, são inúmeras as acções e retroacções e a certa altura estamos a braços com a explosão combinatória. Sabes perfeitamente que, a partir de um certo horizonte temporal, é impossível calcular a trajectória de três planetas sujeitos à lei da gravidade. Que fará nestas coisas de ADN!

    Ora bem. Podemos não saber prever o futuro, e isso é mais que certo, por exemplo, em matéria de mutação climática. Até podemos dizer que a única coisa que sabemos é que não podemos saber. Mas já vemos, pelo passado recente, acumular-se os indícios de que alguma coisa se está a passar de muito esquisito. Eu sei que isto é difícil de entender, mas, para um espírito científico, não devia ser assim coisa do outro mundo. Toda a gente sabe que há integrais que não se podem calcular, mas, dai-me uma série de dados, e de certeza que vos faço um gráfico.

    Ora, nestas questões de agricultura, repara bem: estamos perante uma infinidade de variáveis (climáticas, meteorológicas, biológicas, geológicas, físicas, etc., etc., etc.). A chamada «ciência agronómica» (a agronomia será uma ciência?) apoderou-se deste campo e despejou-lhe em cima produtos químicos, contendo azoto, potássio e fósforo – as três substâncias que aumentam a «massa muscular» das plantas. Despejou-lhe também em cima outras coisas menos recomendáveis, até pelo nome, tipo pesticidas, etc.

    Repara bem: desprezou o que faz a vida do solo. Repara também: mais não fez do que reproduzir erros milenares da humanidade (desflorestar, semear e plantar, e bazar para outro lado, quando o solo estava esgotado).

    O meu ponto, como hoje se diz, consiste no seguinte: não será de seguirmos um caminho mais humilde? Não será de procurar reproduzir o que faz a natureza? Já reparaste que as florestas «selvagens» não precisam de adubos? Só que não dão cenouras com facilidade, concedo.

    Mas,em vez de gastarmos energias a investigar produtos miraculosos, não seria melhor respeitar o solo, a sua vida biológica, tentar encontrar um equilíbrio entre floresta e agricultura, procurar aumentar a produtividade pela multiplicação de seres vivos que comem, mastigam, defecam e morrem, em vez de doparmos tomates com adubos químicos?

    Dir-me-ás? Mas quem és tu, fantasma? E eu te responderei: ninguém. Um palerma como outro qualquer. Só que ando há anos a experimentar estas coisas. E descobri, eu, o grande palerma, que nem sei se já tenho forças para continuar, que se cultivar plantas com respeito pelo solo, posso obter «monstros enormes» e se não respeitar o solo, tenho de certeza fracassos.

    Explico-me: sem adubos, sem estrume, sem cavar, apenas com o que semeava e plantava, obtive uma fatia de terreno que dá enormes tomates, belas courgettes, razoáveis cebolas. Nos sítios onde não incorporara suficiente massa vegetal (vulgo biomassa) era a catástrofe. Mas outra coisa te garanto: aí onde tens minhocas, podridão, restos de plantas, etc., tens boa colheita.

    Saudações sindicalistas

    manel

  17. manuel resende diz:

    Quanto à energia nuclear.

    Não sou a priori contra a energia nuclear. Porquê? É perigosa, sim, e muito perigosa. Mas o perigo é a nossa profissão.

    Agora, a questão que eu coloco (como se diz hoje em dia) é: para quantas centrais dá o urânio existente? Alguém me sabe dizer?

    Sabe a organização das indústrias nucleares:

    http://www.euronuclear.org/info/encyclopedia/u/uranium-reserves.htm

    Dá para várias décadas com a utilização actual. Obrigado, se faz favor.

    Também aqui temos de mudar de vida, caros amigos.

    Temos de aprender a viver à escala do mundo. Boa noite, que tenho de trabalhar.

  18. Depois da eterna referência ao corte inglês ninguém deveria ter dúvidas que a posta é mesmo do Filipe Moura.

  19. Sem nada para acrescentar à discussão em si, que já foi bastante esclarecedora (e que continua já em cima, num Artigo perto de si…), apenas uma breve ressalva (que pode ser também um pedido de desculpas ao Ant.º Figueira, ou uma tosca tentativa de defesa face à minha obstinada e aparente “cegueira”…): de facto o que se lê não é apenas o que está escrito, mas aquilo que o nosso cérebro “espera” ler (grande novidade, para vós jornalistas…)!

    É a única explicação que encontro para o facto de, apesar de ser mesmo a primeira informação de todas, eu não ter conseguido das duas primeiras vezes identificar o verdadeiro Autor deste Artigo!

    Porquê? Porque o meu cérebro se “recusou” a processar a mensagem “Filipe Moura:” como sendo relativa à autoria, dado que ela estava escrita no sítio do título! E com os caracteres relativos ao título (ou seja, funcionamento automático das meninges: se está no título, “não tem nada a haver” com a autoria)! E onde é que o cérebro “admitiu” processar essa informação sobre autoria? Exclusivamente no espaço próprio, a seguir à barra vertical! E lá estava, indesmentívelmente: “por António Figueira”!

    É verdade: só à terceira é que consegui “ler” o verdadeiro Autor, indicado claramente… mas dentro do campo próprio destinado ao título!

    Auto-manipulação da informação, absolutamente involuntária…

    Deve dar pano para mangas nas redacções e nos centros nevrálgicos onde se “negoceiam” as notícias…

  20. sory. do filipe moura. topei.

  21. adriana diz:

    Este texto está muito bem elaborado, gostei muito .Sei apreciar textos como estes porque sou uma professora

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