Férias, o último acto

Depois de passeios a pé pela Serra d’Ossa e de barco pelo grande lago do Alqueva, de várias sopas de cação e muitas migas, de tintos jovens & velhos, esgotado que foi o Babel e a sua sanguinolência absurda e quando as férias se aprestavam a acabar, resolvi levar os miúdos a ver o Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa (e refugiar-me eu próprio do calor que fazia do lado de dentro das suas grossas paredes).

Good value for money: uma hora de visita a cinco euros per capita (e o meu Manel a fingir que tinha um ano a menos para poder entrar à borla). Estava cheio: metade portugueses, metade espanhóis, a ouvir um guia que era uma máquina, uma metralhadora a disparar nomes e datas precisas, só lhe faltava dizer os dias da semana em que cada acontecimento aconteceu há não-sei-quantos séculos atrás.

Começámos a visita por uma escadaria de mármore encimada por um conjunto de frescos à memória do quarto duque, D. Jaime de seu nome – o mesmo que há quinhentos anos tinha iniciado a construção do Paço – e que o mostravam à frente dos soldados da Coroa e do seu próprio exército privado (os célebres “tudescos” que então serviam os Braganças) na tomada de Azamor.

Ora o que o guia do Paço não contou, porque não soubesse ou não quisesse, mas que o precioso “Guia de Portugal” logo ali me recordou, foi que o fero D. Jaime, antes de partir para Marrocos, tinha naquele mesmo lugar e pelas suas próprias mãos justiçado sua mulher, por crime de adultério. Os turistas teriam certamente preferido a evocação desta cena de sangue à descrição das amenidades burguesas que compunham a vida doméstica dos últimos reis de Portugal.

Crimes passionais, para mim, são piores que migas e sopa de cação, não sei como resistir-lhes: e por isso, chegado a Lisboa, procurei saber mais, agora à custa de uma bela monografia de Sant’Anna Dionísio sobre o Paço de Vila Viçosa que tive a sorte de receber há anos em legado e que conta tudo ao pormenor: que D. Jaime, casado em 1502 com D. Leonor, filha do duque de Medina-Sidónia – um Grande de Espanha, como é sabido – e então com apenas quinze anos de idade, a surpreendeu, na noite de 2 de Novembro de 1512, à janela dos seus aposentos, em trato com o moço fidalgo António Alcoforado, mancebo de catorze anos e pagem de sua casa.

Nessa mesma noite, e sempre segundo a descrição do erudito Sant’Anna Dionísio, D. Jaime “…fez acordar e convocar todos os seus familiares e servos, convocar um tabelião e um confessor para uma inquirição sumária, e sem mais demoras, na presença de todos, depois de mandar matar o pagem por um escravo com um cutelo de cozinha, imolou ele próprio a mulher com uma faca de caça, por ‘entender que dormiam ambos e lhe cometiam adultério’”.

Foi porventura “no intuito íntimo de espalhar a atmosfera de rumores que à volta da sangrenta cena se formara”, que o então rei D. Manuel confiou a D. Jaime (seu sobrinho, e quase dez anos mais velho que a mulher que assassinara) a missão de conquistar a praça norte-africana de Azamor – uma missão que D. Jaime cumpriu e lhe permitiu continuar a ser “homem de privança e de conselho d’El-Rei”. Conta-se que o pesadelo da execução nocturna de D. Leonor levava o duque a errar ensimesmado pelas brenhas da Serra d’Ossa – mas não o impediu de fazer, mais tarde, um casamento morganático com uma alentejana de origens modestas, de quem viria ter uma vasta prole.

Sant’Anna Dionísio cita como sua fonte a “Crónica de D. Manuel”, de Damião de Góis; mas estas punhaladas do Bragança evocam um passo inesquecível de uma outra crónica que a precede de pouco mais de um século: a “Crónica de el-rei D.Fernando”, de Fernão Lopes. Num dos seus passos mais notáveis, Fernão Lopes conta-nos como o infante D. João, irmão bastardo do rei (mas a não confundir com o futuro D. João I), se enamora da formosa D. Maria Teles, irmã da pérfida Leonor do mesmo nome, com quem casa em segredo; como depois a rainha, por ciúme da irmã, envenena o espírito do seu marido e o predispõe para o crime; e como este finalmente vai a Coimbra tirar desforço da mulher e a mata também por suas mãos, antes de fugir para Castela (e ser depois perdoado por D. Fernando e D. Leonor). A crónica de D. Fernando está disponível na net, e a passagem em questão vai da página 139 à 156 da edição on-line; ainda assim, vale a pena reproduzir aqui a cena final, depois de D. João e os seus homens terem arrombado de madrugada a porta do quarto em que dormia D. Maria:

“D.Maria, acordando subitamente, quando viu aquela entrada no seu quarto levantou-se do leito tão assustada e temerosa que mal se podia ter em si, e ao levantar-se nenhum vestido nem manto teve acordo nem tempo para deitar sobre si, nem quem lho desse, porque as que estavam no quarto com ela não puderam aguentar-se com o medo e temor. E querendo ela cobrir as suas vergonhosas partes, não encontrou nada à mão senão uma colcha branca em que envolveu todo o seu corpo, assim encostado a uma parede perto do leito.

Logo que o infante entrou conheceu-o no rosto e na fala e ao vê-lo cobrou já algum tanto o ânimo e ousadia, e disse:

– Ó senhor, que vinda é esta tão desacostumada?

– Boa dona – disse ele – agora o sabereis. Vós andastes dizendo que eu era vosso marido e vós minha mulher e fizestes com que se falasse nisso pelo Reino todo até o saberem el-rei e a rainha e toda a sua corte, o que era motivo para me mandarem matar ou pôr em prisão perpétua, sendo vossa obrigação encobrir tal cousa contra toda a gente do mundo. E se vós minha mulher sois, por isso ainda mais mereceis a morte, por me pordes os cornos, dormindo com outrem.

E em dizendo isto deitou-lhe a mão. D. Maria, vendo tais ditos, respondeu ao infante:

– Ó senhor, eu entendo que vindes mal aconselhado, e Deus perdoe a quem tal conselho vos deu. Se quiserdes falar um pouco à parte comigo neste quarto, ou mandar estes embora, eu vos mostrarei mais proveitoso conselho do que aquele que vos deram contra mim. Por mercê ouvi-me e tereis depois tempo para fazerdes o que quiserdes.

Ele não quis ouvir as suas razões nem lhe dar tempo para se justificar da falta que não cometera, mas disse:

– Não vim eu aqui para estar convosco em palavras.

Então deu um grande empuxão pela ponta da colcha e atirou-a ao chão, ficando descoberta parte do seu mui alvo corpo, à vista dos que estavam presentes. Os mais deles, em quem havia delicadeza e boa vergonha, afastaram-se de tal vista que lhes era dolorosa de ver e não se podiam ter em lágrimas e soluços, como se ela fosse mãe de cada um deles. E naquele derribar que o infante fez lhe deu com o bulhão [espécie de punhal] que lhe oferecera o irmão dela por entre o ombro e os peitos, perto do coração.

Ela deu umas altas vozes muito doridas, dizendo:

– Mãe de Deus, acudi-me e tende mercê desta minha alma!

O infante, arrancando o bulhão, deu-lhe outro golpe pelas virilhas e ela deu outro grito, dizendo:

– Jesus, filho da Virgem, acudi-me!

Esta foi a sua última palavra, dando o espírito e lançando muito sangue.”

É sempre inspirador correr com os nossos infantes queridos os campos e as terras deste lindo Portugal e colher de cada um dos seus recantos o exemplo das virtudes dos nossos maiores, para que ele nos guie e nos anime nesta vida de canseiras. Para o ano há mais.

PS Quem tomar a estrada que vai de Redondo para Estremoz e passar pela Serra d’Ossa, que deixe o carro por alturas do Convento de S. Paulo (muito recomendável, aliás) e suba ao chamado Alto de Pêro Crespo (no Convento explicam-lhe como): a altura não é muita (a Serra d’Ossa, embora seja o ponto mais alto do Alentejo, não ultrapassa os 650 metros, e aqui ainda não chegámos ao seu cume) e as encostas estão meio despidas pelos fogos dos últimos anos, mas o panorama que se oferece é sumptuoso e vai da Arrábida até Marvão; conte com uma hora para subir e descer de novo até à estrada.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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15 respostas a Férias, o último acto

  1. Convém referir que, de acordo com a “Crónica de D. Fernando”, o rei tentou apunhalar o seu meio-irmão no final do casamento por ele se recusar a beijar a mão de D. Leonor Teles.

    Vale a pena a visita à igreja gótica de Leça do Balio onde se realizou este casamento em 1372.

  2. António Figueira diz:

    Caro José Manuel,
    O meio-irmão que D. Fernando tentou apunhalar no seu casamento não foi o D. João referido acima mas sim o seu irmão D. Dinis, que era também filho de D. Pedro e D. Inês de Castro.
    Quanto ao convite para visitar Leça, está aceite – há muitos anos que quero conhecer o mosteiro do romance de Arnaldo Gama.
    Cordialmente, AF

  3. Luís Lavoura diz:

    A serra d’Ossa não é o ponto mais alto de Portugal Continental a sul do Tejo: a serra de Monchique é bastante mais alta (900 metros).

    Os fogos na serra d’Ossa não foram “nos últimos anos”: foram exclusivamente no ano passado, 2006. A serra já foi toda reflorestada, com eucaliptos outra vez, por uma empresa bairradina.

  4. Luís Lavoura diz:

    Vá a Leça do Balio, vá. O mosteiro é muito bonito. Em Leça do Balio, numa casa mesmo em fente ao mosteiro, à esquerda, nasceu a minha mãe; os meus avós moravam lá. Os meus pais, tal como toda a minha família do lado materno, também se casaram nesse mosteiro.

  5. António Figueira diz:

    Caro LL,
    Obrigado pelo seu reparo; já fiz a correcção que se impunha – ou seja, substitui “Portugal Continental a sul do Tejo” por Alentejo (porque o Reino dos Algarves também é Portugal). Quanto ao Mosteiro de Leça, não me esquecerei também, quando pisar o seu augusto solo, de que por ali passaram várias gerações de antepassados seus.
    Cordialmente, AF

  6. Luís Lavoura diz:

    AF,

    passa muita gente pelo mosteiro de Leça do Balio, que ainda hoje é a igreja principal desse subúrbio do Porto. Nada tem de peculiar que a minha família materna, sendo de Leça do Balio, frequentasse o mosteiro e nele se tivesse casado. Muitas outras famílias de Leça do Balio terão feito o mesmo.

    Já agora, quando visitar o mosteiro tape o nariz, pois a região está frequentemente coberta pelo mau cheiro da cervejeira que fica mesmo ao pé, que produz a Super Bock.

  7. Fernanda Câncio diz:

    ena, antónio. cum caraças. mas não percebi nem essa cena das teles (é que se facto esquece muito a quem não sabe): a maria foi morta porquê? pºorque era mais gira que a irmã? porque a irmã era má como as cobras e inventou uns cornos ao irmão bastardo do marido? que cenas shakespereanas se acoitam na nossa história, ãh? e a propósito, já deste uma vista de olhos a uma biografia do afonso henriques que anda para aí, salvo erro de uma teresa ventura? aquilo é que é. põe o rei a aviar gajas em série que é um primor. numa passagem em diálogo, um adjunto do afonso henriques diz-lhe que uma moira qualquer quer encontrar-se à noite com ele. e o rei, a fazer-se de parvo: ‘ que me quererá ela?’ responde o adjunto, ‘ora, sabeis muito bem o que as mulheres querem de vossa alteza’. vai daí, o rei presta-se a pormenores técnicos: ‘e onde há-de ser? o quarto do forte de silves não é bem?’ cito de memória, a autora que me desculpe. mas acho que é um caso para ti, antónio. já tou a salivar com a perspectiva de posts teus sobre o assunto.

  8. António Figueira diz:

    f., vastas questões!

    Quanto à primeira, és capaz de ter razão, ou seja, eu sou capaz de ter sido elíptico demais na explicação da má-vontade da megera da Leonor Teles em relação à irmã. Segundo o Fernão Lopes, a explicação é a seguinte: o D. Fernando andava doente, e já não devia ter filho varão; assim sendo, a Leonor Teles queria que lhe sucedesse a D. Beatriz – e ela própria como Regente; ora sucede que, ao contrário da D. Leonor, o D. João e a D. Maria eram muito populares; para os fazer saír de cena, ela bolou este plano tenebroso: convenceu o D. João de que se casasse com a sobrinha – isto é, a D. Beatriz – poderia vir a ser rei quando morresse o irmão e que a única pessoa que se interpunha entre ele e esse casamento (ou seja, a sua própria irmã, D. Maria) podia ser legal e convenientemente morta por ele, pois andava a pôr-lhe “os cornos” (linguagem coeva, note-se). Não é tão pérfido? Mas faz o link para a crónica de D. Fernando e lê essas páginazinhas do Fernão Lopes: são fantásticas.

    O livro do Afonso Henriques de que tu falas faz-me lembrar uma célebre carta do Eça para o Oliveira Martins, que ele mandou a agradecer “Os Filhos de D. João I” que o outro tinha escrito e lhe tinha enviado; o Eça diz que gostou muito, que era muito bem escrito e coisa e tal, mas que havia uma coisita que o incomodava, que era o excesso de realismo de algumas cenas, do género “então D.João corou”, ou “D.Duarte cofiou os bigodes e sorriu” e outras parecidas; para o Eça, este tipo de coisas retirava um bocadinho de credibilidade à narrativa histórica, e no fim perguntava assim: “- Pois como sabes? Estavas lá? Viste?”

    Dito isto, é sabido que os nossos reis foram sempre uns grandes indecentes; muitos séculos depois, o rei da Prússia até dizia que o nosso D. João V era um homem tão santo, tão santo que só arranjava freiras como amantes. Um despautério.

  9. patricia sanpayo diz:

    Caríssimo Tó, de relatos desses vivem não os guias turísticos mas os romances de cordel. Percebemos de onde vêm, no plano referêncial, aqueles fidalgos brutais e néscios de Camilo (por exemplo, nas Novelas do Minho). No Romanceiro de Garrett, encontras lendas que transferem para o plano do sobrenatural o que é ou terá sido bem factual. Muitos beijinhos, vai contando mais histórias.

  10. António Figueira diz:

    Trícia!
    Beijinhos também para ti
    (mandei-te um mail, para as outras pessoas não verem).
    Até breve

  11. Ana Matos Pires diz:

    Olá António, bem disposto?

    Ao ler o seu texto, não sei porquê (!), lembrei-me do Madeira’s Bokassa: “Degradação e deboche. Estes são os atributos com que Alberto João Jardim qualifica as “causas fracturantes” (…) “Querer o casamento entre homossexuais e tudo isso que o Governo prepara não são causas, são deboche, são degradação, é pôr termo aos valores que, nós, portugueses, a nossa alma tradicional, tem desde o berço e que os nossos pais nos ensinaram”, declarou Jardim, citado pela Lusa.” (Público)

    Bom, vou continuar as minhas férias, um abraço.

  12. António Figueira diz:

    Cara Ana,
    Como sem dúvida terá reparado, o último parágrafo do meu post (ou o penúltimo, se contarmos com o PS) antecipa os argumentos de AJJ; para mal dos meus muitos pecados, parece que eu lhes leio as mentes…
    Boas férias, e até breve, A.

  13. Sérgio diz:

    Caro António,

    Lamento que o guia que calhou ao meu grupo quando lá fui não nos tenha posto ao corrente desses feitos de alguns Braganças. Pelo contrário, estava mais preocupado em relevar a honra imensa da família dos patrões e sublinhar a riqueza visível do palácio. Mas como quem vende meias na feira…

    Cumprimentos.

  14. António Figueira diz:

    Caro Sérgio,

    Devo a minha ilustração na temática criminal, não ao guia (esforçado, mas mudo e quedo em relação a essa matéria) mas ao “Guia de Portugal”, de Raúl Proença e comparsas, e em última instância à F.C. Gulbenkian, que em boa hora decidiu reeditá-lo.

    Cumprimentos, AF

  15. vítor diz:

    No Alentejo, e mesmo a Sul do Tejo, o ponto mais alto situa-se na Serra de S. Mamede, na zona de Portalegre. Este é o único local acima dos 1000 metros, a Sul do referido rio.

    um abraço!

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