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um livro que seja eu

18 Agosto 2007 | por Fernanda Câncio

De cada vez que penso oferecer um livro a alguém, quase invariavelmente escolho entre os que já li. Tenho até dificuldade em entender que se ofereçam livros desconhecidos, “novidades” dos escaparates, best sellers daquela semana, títulos “giros” (quantos livros se venderão pelo título?).

Passo pois, nessa perspectiva, longos minutos a estudar lombadas nas minhas estantes, num exercício de memória, reconhecimento e projecção. Revisito a minha família mais secreta, ressaboreio a incursão nas histórias esquecidas, nas personagens que reencontro como amigos perdidos. Apaixonar-me-iam hoje como há dez, vinte anos?

O Morel de As Raízes do Céu parecer-me-ia ainda o santo ecologista perfeito do romance que aos catorze anos aclamei “melhor livro da minha vida” como só aos catorze anos? Ainda me encantaria o Bosque da Noite, de Djuna Barnes, que devorei aos vinte anos, ainda me arrebataria até às lágrimas o no se puede vivir sin amar do Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry, ainda receberia o Golpe de Misericórdia, de Marguerite Yourcenar, e a sua crudelíssima entrega de uma mulher à morte pelas mãos do homem que ama, como uma lança na alma?

O tempo passa e as minhas fixações também. Mantenho algumas fidelidades, é certo. Mas a família cresce, cresce sempre. Não posso amar com a mesma intensidade todos os Fabricios del Dongo, todos os John Grady Cole, todas as Antoinettes Cosway, todos os Judes Fawley, todos os Heathcliffs. Não tenho coração para tanto. É preciso escolher, graduar, hierarquizar. É preciso esquecer, em suma. A cada volta nas lombadas, surpreendo os olvidados com uma ponta de arrependimento, uma melancolia suave.

Os livros, como os rios onde nos banhámos, nunca mais são os mesmos, porque nós não somos os mesmos. Oferecer as nossas paixões velhas ou recentes é ressuscitá-las. Poucos presentes tão íntimos, poucas ofertas a exigir tanto talento. O de dizer “isto sou eu e acredito que podes ser tu”. Ou “isto fui eu, quando tinha a tua idade”. Às vezes acerta-se, outras não. Mas resulta sempre: quem ao ler o que lhe oferecemos não o amar como nós não pode ser da família.

(publicado a 7 de Fevereiro de 2007 na extinta coluna ‘contra os canhões’, no DN)

Comentários

Comentário de António Figueira
Data: 18 Agosto 2007, 14:58

Belo, bem mais que as conspirações, digo eu, e com um reparo, digo eu também: que o marchesino del Dongo será sempre o primus inter pares.

Comentário de jpt
Data: 18 Agosto 2007, 22:36

ola!!!!!!
Olhe de uma uma lista dos 10 livros que mais gostou?

Comentário de Ezequiel
Data: 18 Agosto 2007, 23:05

Eu tenho um amigo que leu Kafka, Pessoa e Kiergegard aos 7 anos.

;)

Comentário de Patuleia
Data: 18 Agosto 2007, 23:40

não diria melhor, mas não garanto desejar ser da família.

Comentário de luis eme
Data: 19 Agosto 2007, 1:41

Não necessariamente…

é apenas um chavão, como o do Rui, com as pessoas que não gostam da mesma canção que nós…

Comentário de jmf
Data: 20 Agosto 2007, 18:26

E convite para a sessão de lançamento?

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 22 Agosto 2007, 14:38

ó jmf, descanse que farei saber.

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