Leituras de férias – a primeira sugestão

“J’aimais éperdument la comtesse de *** ; j’avais vingt ans, et j’étais ingénu ; elle me trompa ; je me fâchai ; elle me quitta. J’étais ingénu, je la regrettai ; j’avais vingt ans, elle me pardonna ; et comme j’avais vingt ans, que j’étais ingénu, toujours trompé, mais plus quitté, je me croyais l’amant le mieux aimé, partant le plus heureux des hommes. Elle était amie de T…, qui semblait avoir quelques projets sur ma personne, mais sans que sa dignité fût compromise. Comme on le verra, madame de T… avait des principes de décence, auxquels elle était scrupuleusement attachée.”

Para quem ainda ler francês, aqui fica uma primeira sugestão de leitura de férias e o link para o texto integral de um curto mas belíssimo conto do século XVIII intitulado “Point de lendemain”, de que as linhas acima constituem a famosa entrada. “Point de lendemain” – ou “Sem amanhã”, se quiserem – foi editado pela primeira vez, sem indicação de autor, em 1777, reeditado pouco depois numa versão pornográfica sob o sugestivo título “La nuit merveilleuse, ou le Nec plus ultra du plaisir” e de novo reeditado em 1812, já atribuído a Vivant Denon e numa versão modificada que constituíu o padrão das sucessivas reedições que conheceu ao longo dos séculos XIX e XX (o link permite acesso a ambas as versões). O texto é curto demais para se prestar a longas introduções: eu diria apenas que se trata de um conto ao mesmo tempo cheio de marcas do tempo e espantosamente moderno, muito elegante na forma como é escrito e nas atitudes dos personagens que descreve, psicologista na explicação dos seus gestos e, sobretudo, profundamente libertário do ponto de vista do julgamento que deles faz. Eu detesto ler textos longos em ecrãs de computador, mas ainda é sexta-feira, quem quiser ainda pode roubar algum papel e tinta ao patronato e imprimir o texto na impressora do trabalho. Boas férias.

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SEXTA | António Figueira
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8 respostas a Leituras de férias – a primeira sugestão

  1. samuel mor diz:

    também detesto leituras de ecran. Pena que nos fins-de-semana de Agosto alguns já estejam de férias, outros sem patronato e ainda haverá os que chegam a este ‘Bacardi’ já a (des)horas de 6ª ou mesmo mais. Mas (valeu!) vale 1 obrigado.

  2. xatoo diz:

    hoje estamos mal para a conversa de chacha
    é fim de semana, está sol, e les miserables petit bourgeois desabelharam todos a banhos, “nec plus ultra du plaisir”
    talvez aproveite a sugestão, mas com um cd da canção de Gravoche como pano de fundo da leitura

  3. António Figueira diz:

    Aproveite: o Point de lendemain é de uma imoralidade sem limites…
    E passa-se no Verão, à noite, foi feito para ser lido como um nocturno para ser ouvido, entre o cri-cri dos grilos…

  4. luis jorge diz:

    O Point de Lendemain está publicado na colecção l’école des lettres da Seuil. É um livrinho encantador (também como objecto), que deve encontrar na Amazon fracesa, e assim não precisa de andar para aí a estragar a vista nem a perder fotocópias. Ai, a nossa esquerda…

  5. luis jorge diz:

    Já agora pode aconselhar-lhes o Crebillon Fils, da mesma época, que embora mais difícil possui aquela dose de pequeno amoralismo que as suas leitoras devem adorar. O “Les Égarements…” é excelente, e está na mesma colecção.

    Enfim, é bom saber que os nosso bloggers já andam a passar a fase do Proust, com o atraso do costume.

  6. António Figueira diz:

    De férias, passei os olhos pelo blogue, e vi os dois últimos comentários, a propósito dos quais se me oferece a dizer:
    – que não vejo a relação desta sugestão de leitura com Proust (nem creio q o comentador me conheça para fazer qq comentário útil sobre uma minha hipotética “fase do Proust”, atrasada ou não);
    – também não vejo a relação desta sugestão de leitura com a esquerda (nem creio q o comentador me conheça…, idem);
    – Por falar em edições, informo também que o “Point de lendemain” está publicado também na Folio, à módica quantia de três euros e picos; a vantagem de fazer o download da net é que é gratuito.

  7. luis jorge diz:

    Pfff… O “comentador”, que é uma pessoa descontraída, não tem muita pachorra para snobeiras esfíngicas nem gente ressentida. Quem quer falar apenas com quem “o conhece de algum lado” não anda por aí a fazer blogues, como acontece ao “autor”. Deixe-se de tretas, homem.

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