Double talk

A pequena entrevista que António Barreto deu ontem ao DN merece ser guardada e relida daqui a umas dezenas de anos, quando a natureza tiver seguido o seu curso inexorável e António Barreto, o PREC, a reforma agrária e cada um de nós for apenas história. Talvez nessa altura seja possível lê-la justamente como história – contada por um personagem com a importância que António Barreto teve para extinguir a reforma agrária e impedir que se consolidasse qualquer transformação revolucionária da estrutura da propriedade rural em Portugal – e não como um exercício, às vezes penoso, de uma certa má consciência pessoal.

Hoje, a história como é contada por António Barreto ainda sofre de um double talk que (apesar de ele também contar que alguém já lhe tinha dito que ele era “a primeira pessoa que estava a fazer uma reforma agrária para tirar a terra aos pobres e dar aos ricos”) o leva a pretender “que em Portugal se deu uma contra-revolução e foi preciso repor o rumo que a revolução tinha tomado”. Claro: a Lei Barreto representou a justa via revolucionária, tal como João Carlos Espada ou José Manuel Fernandes representaram o autêntico socialismo e Durão Barroso dirigiu o proletariado português contra os desmandos da burguesia. Havia paciência para essa conversa em 75 ou 76, hoje valia mais a pena chamar as coisas pelos seus nomes.

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SEXTA | António Figueira
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13 respostas a Double talk

  1. carmo da rosa diz:

    ‘Havia paciência para essa conversa em 75 ou 76, hoje valia mais a pena chamar as coisas pelos seus nomes.’

    Que nomes?

  2. joséjosé diz:

    Em 75 e 76 havia a paciência que há hoje. Talvez desvanecida (ou coberta) com um pouco do manto e da fantasia do Eça. Hoje os nomes são iguais. A paciência, essa cristalizou, e foi colocada ardilosamente como uma arma por cima das nossas cabeças desprotegidas, pelos mandantes dos “revolucionários”que fala…

  3. p.porto diz:

    a A.Figueira

    Não entendo onde quer chegar. Está-nos dizendo que aquelas propriedades semi-destruídas e descapitalizadas ao fim de dois de ocupação eram uma via adequada para a agricultura portuguesa? Fico à espera do seu esclarecimento.

    No entanto, acho que isto leva a outra reflexão: como está hoje a agricultura portuguesa, sobretudo a da zona cerealífera, o Alentejo e o Ribatejo-Sul, precisamente a da zona de intervenção da RA?

    Está desta maneira: a produção é deficitária e sustentada pelos subsídios da PAC, muito jeep à mistura com muita dívida, muito terreno vendido a empresas agrícolas espanholas, muito campo de golfe.

    Bem se pode dizer que a agrícultura portuguesa extensiva não morreu do mal, mas morreu da cura.

  4. António Figueira diz:

    P.Porto:
    Caso não tenha percebido, esclareço: não me interessam (hic et nunc) juízos históricos, mas apenas o léxico empregado: a intervenção de A.Barreto foi obviamente contra-revolucionária e não o seu contrário, e ele sabe-o; V. não?
    Cordialmente, AF

  5. charles diz:

    Que nomes?

    nomes? oh, que esse homem da perinha, ora armado aos cucos da revisão dulcineia, é o mesmo tiranete da lei barreta prepotente de primeira!

  6. charles diz:

    ou que a esse homem se deve em grande escala a distribuição em 90% dos dinheiros da Europa pelos grandes senhores agrários,

    que mais lhe devem as indemnizações milionárias tamém estimadas por cima já ao tempo dos governos de Cavaco Silva e seguintes, num leque dos verdadeiros heróis da contra-revolução,

    sem fazer nenhum nem semear pastos prò gado, num momento transformados nos nossos senhores agrários

    que deve estar rico, a esta hora, o homem, por tão completo serviço de barreta vassalagem

    e se não está ou é tolo ou vítima de grande injustiça por parte de tais agrairos!

  7. samuel mor diz:

    Valha-nos! Havia vários a ver, ouvir, ler… e ainda foram ficando até na blogodemogrática uns a escrever… Mas esta da representação do eu, dum gajo como o ABarreto nos dias que por aí correm se ter autoproposto revolucionária (só 30, só 25 anos depois) afeiçoa-se bem a outras que neste XX têm acontecido face a muito auto perfil. Afinal, um homem que profundamente está com o seu tempo, não? (sim porque análise, memória, sentido crítico esses… – saudando os campos – mais do que a coisa que ordenha… são a coisa que se ordenha).

  8. antonior diz:

    Todas as escolhas na vida de A.Barreto contradizem o seu discurso.Todas.

  9. xatoo diz:

    nem de propósito no cinema Quarteto está em reposição a filme “Torre Bela” sobre as cooperativas revolucionárias. Na época os trabalhadores agrários, o tenente Banasol do MFA e Camilo Mortágua da LUAR iniciaram uma experiência comunitária original com a participação efectiva de todos: operários e gestores, à revelia p/e da estratégia oficial do PCP – experiência que depois do 25 de Novembro e da Lei Barreto acabou invadida pelas forças da (des)Ordem.
    Nem de propósito também, de Camilo Mortágua, um dos principais intervenientes no assalto ao Banco da Figueira da Foz (e relacionado com as guerras opusianas presentemente em curso na Banca de Deus) uma frase dele que guardo é esta: “O Banco do Vaticano, o Ambrosiano foi a única entidade que se prontificou a trocar-nos o dinheiro, cujas notas estavam numeradas por séries. Trocavam-nos esses milhões ficando com 50 por cento do valor”.
    Fica a nota, só para que se veja por quem foi assaltada a “reforma agrária” – do Barreto ao Mário Soares e do arcebispo Marcinkus ao bispo Ratzinger, são todos bons rapazes,,,

  10. carmo da rosa diz:

    ‘a intervenção de A.Barreto foi obviamente contra-revolucionária e não o seu contrário,’

    Será esta a resposta que eu tanto esperava para o arremate críptico do seu artigo?

    Qual seria então a alternativa, na altura, para A. Barreto? Entregar os latifúndios ao PCP?
    Para a agricultura em Portugal se encontrar hoje na situação em que se encontra a Coreia do Norte ou o Zimbabwe?
    Situações realmente muito revolucionárias, mas muito pouco aliciantes, penso eu de que…

  11. Lino José diz:

    É evidente que o 25 de Abril e o PREc foi pior que poederia ter acontecido a este país, e ainda estamos a pagar por isso.

    O PREC, a Reforma Agrária, foram episódios da tentativa dos comunistas e dos extremistas de esquerda, de implantarem uma ditadura neste país, mil vezes pior do que a do Salazar. Não conseguiram e andam ressabiados.

    A Reforma Agrária foi um roubo que bandos de meliantes fizeram a bens que não lhes pertenciam. Roubaram e depois destruiram. E se tem dúvidas disso veja as recentes decisões do Tribunal Europeu que determina o pagamenro de indemnizações por parte do Estado às pessoas que foram extorquidas.

    Vocês andam é ressabiados por nunca terem conseguido implantar neste país uma Ditadura do Proletariado e não perdoam às pessoas, como o António Barreto, que tudo fizeram para impedir esse desastre.

  12. Pingback: António Barreto - A Contra-Reforma Agrária

  13. Sérgio diz:

    Interessantíssimo notar, ler e reler todos aqueles que atribuem ao PREC e só ao PREC (ok, concedo, e ao Estado Social) a responsabilidade de termos uma sociedade semi-periférica. Bravo!

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