Ezequiel: Miopia

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Estava a reservar esta imagem para um post sobre o papel dos intelectuais, mas como o Ezequiel estreou-se aqui no 5 dias, a fotografia está bem usada. Cá fica o texto do Ezequiel. Já só falta cravar o João Galamba. NRA

A teoria do “realismo” (realpolitik) assenta na crença de que a política internacional resulta das acções de estados que tentam maximizar os seus interesses objectivos numa “arena” global competitiva que é fundamentalmente anárquica. Os defensores da teoria da “interdependência” questionam os simplismos maquiavélicos do paradigma realista, enfatizando a emergência e consolidação de forças e processos transversais que condicionam as capacidades dos estados agirem autonomamente e em função de um conceito objectivo de raison d`état. Ou seja, para o realista a política internacional é feita de interesses nacionais articulados e realizados através de relações de força e em condições de competição radical. O realista poderá reconhecer que as condições da existência dos estados afectam a natureza dos interesses nacionais mas defende que, uma vez constituídos, estes interesses adquirem um poder normativo preeminente e decisivo. Por sua vez, os proponentes da escola da interdependência afirmam que as condições sistémicas em que os estados “vivem” limitam as suas capacidades de acção. O estado soberano é um estado condicionado por forças que não emanam dos poderes da soberania.

São dois vocabulários analíticos distintos que digladiam-se há muito. Este conflito filosófico e académico transformou estas duas escolas de pensamento em dois paradigmas herméticos e estáticos e fez com que um dogmatismo subtil e eficaz se instalasse nos dois campos. As verdades de uma escola são as falsidades da outra. É natural que cada uma destas escolas de pensamento assuma a veracidade das suas teses. Seria absurdo supor o contrário. O que não é natural é que os defensores destas teorias não considerem que a oposição dos seus conceitos não é plausível. Embrenhados no conflito, preocupam-se essencialmente com a invalidação da escola oposta e não com a contemplação do mundo tal como ele se nos apresenta. Enclausuram-se na sinuosidade sedutora da contestação teórica (com muito wine&cheese à mistura) e esquecem-se de ouvir e de ver. Movidos pelos mais mundanos e mesquinhos interesses de combate académico, acabam por celebrar a miopia e os mais perigosos anacronismos. Os departamentos dividem-se em campos opostos, estabelecem-se “escolas de pensamento” e desenvolvem-se elaborados rituais de lealdade filosófica e pessoal. Os pesquisadores de cada escola preocupam-se fundamentalmente com a árdua tarefa da elaboração e verificação das premissas da sua teoria. As criticas e contra-criticas assumem a forma de melodias previamente ensaiadas, não obstante as proclamações institucionais que tem como objectivo promover a critica descomprometida e inovadora.

Um dos casos que demonstra as limitações inerentes à oposição simplista destas duas teorias tem que ver com a reconfiguração do estado na era da globalização. A teoria vigente é, ou parece ser, a seguinte: a globalização está a corroer as capacidades de soberania dos estados modernos. Enfraquecidos e debilitados pelas forças inexoráveis da globalização, os estados encontram-se sujeitos a um processo de degeneração. Esta é, a meu ver, uma visão simplista e perigosa. A verdade é que os estados tem vindo a fortalecer muitas das suas capacidades clássicas de soberania precisamente porque estão sujeitos às pressões crescentes da globalização. Não se trata de uma mera oposição de either-or mas de uma relação complexa. Bateson escreveu num dos seus célebres livros o seguinte: “The map is not the territory.” Atrever-me-ia a dizer que nunca na história humana a discrepância entre mapa (interpretação) e território (realidade) foi tão flagrante e dramática. Deveríamos reexaminar radicalmente a relação das linguagens e vocabulários com a interpretação do real. Precisamos de uma nova gramática. Urgentemente

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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29 respostas a Ezequiel: Miopia

  1. jj diz:

    É o pragmatismo da política e a decadência dos valores. E que um dia vai acabar mal…

  2. xatoo diz:

    Muito bom texto Ezequiel. E desta vez a até o NRA foi feliz, a gaja não tem óculos de coquete.
    Devo contudo notar que talvez onde se lê “estado” para melhor compreensão da ideia deveria ler-se “Estado”
    Ácerca da essência: é óbvio que a nóvel classe burguesa transnacional saida do novo sistema de acumulação capitalista global se evadiu do Estado. Apenas o mantém como máquina burocrática de controlo fiscal dos cidadãos (que ao contrário das mercadorias não se podem “globalizar”) e como elemento organizador da repressão. No mais, cada um fica por sua conta e risco. É que administrar territórios só dá despesa; e o dinheiro só chega para os orçamentos das ilhas de prosperidade que hoje fazem mover a roleta da economia neoliberal.
    O que nós precisamos não é de “uma nova gramática” – é de um novo paradigma, e para isso podemos começar quanto antes a ajudar a revolta dos banlieus – destruir esta merda toda para se poder reconstruir depois outra coisa qualquer com mais nexo. “Bu Po Bu Li” diz um provérbio chinês (é preciso destruir para reconstruir)
    Nunca nenhuma classe saiu do Poder sem que tivesse de ser expulsa.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Xatoo,
    Também gosto mais desta do que a dona Zita.

  4. Pingback: blogue atlântico » Blog Archive » Democracia, pluralismo, liberdade...

  5. António Figueira diz:

    Bem vindo, Ezequiel!
    Fico muito contente que escrevas aqui.
    Para o debate, uma ideia: tu só falas do papel dos Estados-nação, da sua erosão e/ou fortalecimento em tempo de globalização acelerada, do ponto de vista da “oferta” e não do da “procura”. Talvez por ter tido muito tempo como objecto de estudo a questão da legitimidade dos Estados e dos processos de integração supranacionais, a questão assalta-me sempre e sempre me pergunto porque é tão pouco tratada. Os problemas que daí resultam, no caso da UE, estão bem à vista.
    Grande abraço, AF

  6. Só mesmo para mandar um abraço ao Ezequiel. Good to read you on the surface, mate. Take it easy,

  7. ezequiel diz:

    Obrigado António, Nuno (pelas boas vindas e convite) e Blog Atlântico, jj e Xatoo, pelos comentários.

    Caro António,

    Tens toda a razão. A legitimidade e os processos de legitimização são vitais, particularmente em contextos de “complexidade” (cognitiva etc)

    Um assunto fascinante, sem dúvida. Talvez não seja devidamente tratado porque as (mal)ditas “variáveis” são muitas e complexas nas suas relações. (performance legitimation, symbolic legitimation, paternalistic legitimation, pluralistic expectations, etc etc)

    Cumps

    Caro Xatoo,

    A questão que eu levanto tem que ver com as tentativas de compreender o mundo. Tem pouco a ver com activismo político no sentido estrito. Todavia, a ideia de um principio imaculado e isento a partir do qual se constrói algo de “verdadeiramente novo” parece-me um tanto ou quanto ingénua. Nem o caso chinês ilustra o célebre provérbio. Muitos diriam que a China de hoje mantém muitos dos traços essenciais da China de outrora. Esta questão leva-nos inevitavelmente à interrogação infernal da possibilidade ou impossibilidade do “novo.”

    obrigado pelo comentário

    cumps

  8. p.porto diz:

    Esta Xatoo é de mais, já me fartei de rir com ele.

    A par da desenvoltura na abordagem do Capitalismo o Xatoo também é desenvolto em chinês. Ele sabe que “pi-po-nim-ti” quer dizer “é preciso destruir para construir”. Vou guardar, não quero nada esquecer. Em sinal de reconhecimento digo-lhe outras duas frases em chinês e a respetiva tradução para português. Uma é “pim-pan-pum” que quer dizer “tradução e locução”, e outra, “bo-li-cao”, quer dizer “uma espécie de pão com uma espécie de chocolate lá dentro”. Nós aprendemos umas coisas certas consigo, vc aprende umas coisas certas connosco.

    Esta frase em chinês, “pi-lo-nim-tim” (ou qualquer coisa assim) deve ser, digo eu, não sei, do grande líder do socialismo ciêntítico chinês, o camarada (começa a cair-me uma lágrima de emoção) Mao-Tze-Tung (limpei a lágrima de emoção).

    Por falar nesse grande vulto da humanidade, peço daqui ao Xatoo que ilumine as mentes exploradoras e reacionárias dos capitalistas renitentes e seus lacaios, bem como da “nóvel classe burguesa transnacional” (sic) seja lá o que isso, for, e ainda das mercadorias não globalizadas… ou será ao contrário? E com isto acho que me perdi… talvez esteja a confundir-me com o milho transgénico, aquele das muitinacionais americanas que andam há décadas a matar o povo trabalhador à fome, como todos sabem, exepto o próprio povo, que não sabe e continua vivo, provavelmente porque os órgãos de informação também são um “elemento organizador da repressão” (sic), nunca se sabe. Mas o Xatoo sabe. O melhor é eu ir já a seguir reler o texto do Xatoo para não me ficarem dúvidas. É que é já a seguir.

    Continuando, peço daqui aos blogueiros resitendes que solicitem ao Xatoo um texto, por exemplo, com a descrição abreviada desse Grande Passo em Frente do Povo Chinês, a Revolução Cultural, esse grandioso processo de reeducação do Povo em geral e dos membros do Partido Comunista Chinês em partucular (que por essa ocasião também eles foram às lágrimas). Foi uma coisa inesquecível e sem par, um exemplo edificante para o Mundo, bem demonstrativa da superioridade do Comunisto face ao Capitalísmo, ao Liberalismo, ao Bilderberg, ao Iceberg, e outras coisas que o Xatoo sabe explicar melhor que nínguém.

    Entretanto, eu acho que já vi o Xatoo em qualquer lado. Isto porque ele fala em “destriur esta merda toda” (sic), logo, em deitar tudo abaixo, e foi aí que ficou tudo claro. Para quem nunca viu o Xatoo, é altura de o verem a dizer as mesmas coisas que escreve aqui, só que agora é ao vivo e a cores, o que faz com que tenha ainda mais piada e seja mais elucidativo, ora vejam
    http://www.youtube.com/watch?v=BNR_yrpq_Pk&mode=related&search=

    Muito obrigado, Xatoo, e um grande “ki-ri-ki-ri, ki-ri-ki-ri, ki” também para si.

  9. xatoo diz:

    carissimo p.porto
    pode crer que também já me fartei de rir consigo. Aliás quando me deu para parir aquela frase bombástica agit-prop nas salsas ondas da silly season era mesmo em si que eu estava a pensar, ihihihi
    Como deve calcular até o cirscunspecto bloguissimo Atlantida deve estar a partir a moca connosco, ihihihihi
    Gozos àparte, vc citou 9 vezes o meu nick no texto.Uau! tô a ficar famoso; mas pf, para ser rigoroso, mude o X por x (de xatoo), ok?

  10. Viva zekes!

    Bom texto. Diz-me uma coisa: não achas que enquanto as pessoas pensarem em paradigmas teóricos -entendidos como uma grelha de análise pré-definida e teoricamente “validada” que é subsequentemente aplicada a determinada realidade- o tipo de dicotomias conflituantes é inevitável? Se assumires que um modelo teórico preciso, daqueles que as RI infelizmente tanto gostam, tem de ser internamente consistente, é inevitável que involva cegueiras e exclusões rígidas, criando espaço para que alguém apareça e inicie a dinâmica de conflito e negação que tu tão bem caracterizas.
    O Marco (brasileiro, lembras-te) fez a tese dele tentando evitar cair em paradigmas reducionistas, mas existem sempre reacções para que tu te situes numa escola teórica particular. A lealdade não é a realidade a interpretar, mas a determinada seita organizada que define aquilo que conta como interpretação.

  11. Bem vindo, Ezequiel!

  12. p.porto diz:

    Ao Xatoo, agora xatoo

    Está aceite, Xatoo passa a xatoo.

    Também gozos à parte, parabéns pelo espírito desportivo. Por um instante vc não foi marxista.

  13. ezequiel diz:

    Hello Filipe!

    Hello Johnny,(its Zeke mate, not zekes 🙂

    João, eu bem sei que tu gostas da pertença pratica e situada no mundo, à la heidegger, mas repara no seguinte. Quando falamos de processos complexos e, mais importante ainda, quando tentamos compreender o mundo (incluindo práticas e processos dos quais não fazemos parte, no sentido mundano, directo, da coisa) não é possível compreender sem teorizar. A teorização pode ser entendida como a transcendência dos mundos práticos imediatos. Não há nada de repreensível nisto. Nós não falamos apenas dos mundos em que estamos situados. O ser humano não é provincial na sua essência. A tua definição de “teoria” parece-me um tanto ou quanto simplista. Nem todas as teorias assentam, de forma irredutível, na pré-definição. Muito do pensamento empírico, como sabes, contempla a redefinição continua da teoria na sua relação com o mundo. A falsificação é uma orientação sem conteúdo pré-determinado, por exemplo. Eu não assumo um modelo teórico preciso e internamente consistente. Nem tenho que o fazer porque a inteligibilidade não se rege apenas pelos princípios da consistência argumentativa, discursiva ou epistemológica. Basta lembrar o imenso valor heurístico das contradições e das tensões ou, se preferires, das incomensurabilidades entre linguagem e mundo. Quanto às cegueiras, elas são diversas. Existem as académicas, os condicionalismos das circunstâncias, do tempo, PRESSÕES ( e não reacções), disposição e sensibilidade x ou y etc…existirão sempre! Todavia, uma coisa é fingir que as tensões não existem e outra é reconhecer na sua existência uma justificação plausível para alguma modéstia analítica. O que este modesto artigoleto pretende explorar é a invenção e perpetuação (académica) de contradições não-existentes no mundo “empírico.” Correndo o risco de parecer demagogo ou new age (uhrrrr), atrever-me-ia a dizer que o mundo é muito mais rico do que todas as teorias de RI juntas. Daí a máxima “the map is not the territory.”

    Além disso, gostaria de saber quais são os modos de interpretação (etc) que não instituem dicotomias, tricotomias, quadritomias (etc)..e também não percebo qual é o problema com estas contradições e tensões? Parecem-me salutares e naturais. Todas as teorias são parciais.

    O problema que tu colocas apresenta-se em todos os domínios. Mas, claro, há graus de discrepância e o que eu defendo aqui não é a possibilidade de a eliminar mas a capacidade de a compreender.

    grande abraço 🙂

  14. xatoo diz:

    Ezequiel:
    A ideia do “verdadeiramente novo” pode parecer-te “um tanto ou quanto ingénua”. Contudo se procedermos a uma análise radical
    (um parêntesis para o p.porto: “radical” não é um daqueles provocadores que andam por aí infiltrados nas manifestações pacificas. Radical é alguém que procede a uma análise racional das questões partindo das suas raízes)
    as mudanças radicais abundantes na história falam por si,,,
    Quanto maior em diversidade (complexidade e quantidade) for a teia de relações num ecossistema, maior a probabilidade de ele ser estável no tempo – com as sociedades humanas acontece o mesmo – a coisa é semelhante á teoria da Evolução: milhões
    de agentes actuam nela, cada qual com seus objectivos, ideias e valores A clivagem social feita pelos neocons pós 11/9 na implantação da “nova ordem mundial” corta rente a possibilidade de intervenção de cada vez mais extractos da população. Como cada vez menos gente participa cria-se uma dicotomia entre o Poder central actuando como se fosse um sistema linear sobre o real e possivel, e por outro lado, cada vez mais aparecem ressentimentos apelando a acções buscando o provável e desejável. Claro que a complexidade atingida através da globalização imperialista subiu de patamar paradigmático – à “luta de classes” entre o Trabalho e ao Capital de Marx, acrescentou –se Interacção e Poder (Habermas). Poder que actua cada vez mais descaradamente sobre o “imbecil colectivo”. Tudo se organiza entre a Ordem e o Caos (neste último segundo a teoria de auto-organização de Maturana e Varela)
    Enquanto o Poder for conseguindo manter condições de exploração que permitam a indiferença das massas alimentando-as pelo minimo denominador comum, a água dos recipientes vai aquecendo mas não ferve. Se os cozinheiros bushistas (e já agora cavaquistas, a nivel de tasca) se esquecem do tacho ao lume, surgem cada vez mais bolhinhas até que o caldo se entorna – existem teses cientificas consistentes referentes aos sistemas complexos, criticalidade e leis de potência (estudadas pela teoria de Per Bak, Yesenfeldt e Yeng – mas não digam nada ao Henrique Monteiro nem ao João Carlos Espada)
    Foi nesse sentido que falei num “Novo Paradigma”, como revolução cultural (como nas panelas da antiga feira popular de dentro do panelão marxista de Mao saem tachos mais pequenos e diversificados: Frijot Capra, Gramsci, Zizek, etc). As mudanças radicais existem, há pelo menos “três grandes saltos em frente” na história que ilustram outras tantas “fervuras” – a Comuna de Paris, a Revolução de Outubro e a Revolução Cultural chinesa. Apurem-se as causas.
    Esperemos que o NRA que ao que penso andou lá pelos lados do Instituto de Santa Fé em busca dos esoterismos de Four-Corners ou Roswell não tenha passado ao lado das causas que determinaram o desaparecimento misterioso das tribos Anazasi depois de construções grandiosas (para o caso Angkor também servia) – a complexidade criada não se compadeceu com a dramática falta de bases de sustentação material. Thats it. E a lição histórica aprende-se, conforme a aprendeu o Império Romano cujas condições de mercado não permitiram alojar as infindáveis hordas de Alarico.
    É a chegada de milhões de “alaricos”, dos subúrbios das metrópoles e da devastação do 3º mundo, que hão-de forçar a mudança de paradigma. Quando me diverti a empregar a expressão “partir tudo” fi-lo no sentido metafórico – “os que não têm nada a perder” é melhor ficarem sempre ao lado dos mais fracos do que ficar passivamente à espera que a situação se degrade e entre em ebulição para que então se verifique uma mudança radical. Quanto mais quente melhor (cito Billy Wilder, para não me cunharem de anti-americano)

  15. Nuno Ramos de Almeida diz:

    xatoo, perdoa-me mas não consigo acompanhar a tua deriva. Sinto-me como um careta ao lado de um cocainómano. Que raio é essa merda do Instituto da Santa Fé com Anazasi e companhia? Dá-me urgentemente o nome do teu dealer, tenho que experimentar este fim-de-semana o que tu andas a fumar?

  16. xatoo diz:

    NRA
    eu vi logo que tinhas passado ao lado
    Anazasi – Lost Chaco Canyon Civilizations

    e a marca do tabaquinho é Cohiba, vende-se nas farmácias, não nas urgências dos viciados em social-democracia

  17. Zekes,

    Percebeste-me mal. Eu não defendo o silêncio ou a passividade mística perante a complexidade do mundo. Acho apenas que muitos dos modelos usados em RI, e sobretudo quando pretendem compreender uma Totalidade chamada Mundo, não fazem mais do que reproduzir preconceitos teóricos dados à partida e falham nos objectivos a que se tinham proposto. A obsessão em compreender TUDO usando ora rational choice, ora métodos neo-hobbesianos realistas, etc… raramente põem em causa os seus modelos, obrigando a realidade a conformar-se às exigências das suas escolas. O que dúvido é que o mundo se possa conceber como uma totalidade (aqui não se trata de Heidegger) passível de ser entendida como tal. O Marco (que eu mencionei no outro coment.) já tinha “percebido”/”interpretado” o problema da Sida na África Austral. A chatice chegou quando ele teve que “generalizar” a coisa para se situar num dos vários “debates teóricos” a que os académicos de IR tão diligentemente se dedicam. O meu problema é com aqueles pessoas que acham que a sua dedicação (assombro, devoção,…) é sobretudo a um paradigma e não a realidade(s) concretas passíveis de entendimento (parcial, reinterpretável; sem dúvida).

  18. Nuno Ramos de Almeida diz:

    xatoo, deviam-te ter prevenido que o fumo de charuto não é para travar. E sobre a social-democracia estás com a pessoa errada, não consumo desse produto. Estranhamente, ou talvez não, os tipos que me disseram isso, costumam acabar no sítio da Zita. Boa sorte para ti. Quando chegares ao PSD, avisa.

  19. xatoo diz:

    NRA, peace brother! aqui venho eu com o cachimbo
    Naquela coisa do Santa Fé Institute
    fiz confusão com o Rui Tavares (como estiveram ambos nos States, baralhei-me) mas de qualquer modo o facto de não termos estado num sítio não é razão para não se saber daquilo que lá se passa. E não altera rigorosamente nada ao sentido do texto que escrevi. Com uma boa contra-argumentação acho que o NRA ainda me fica ainda a dever um bilhete de avião e o prazer de viajar a um sitio onde nunca foi. E por falar em psd, o Júdice não faria melhor

  20. Acho que a confusão é capaz de ter a ver comigo. Eu também estive nos States, mas nunca estive no Santa Fe Institute. Tenho porém muito respeito pelo que se faz no Santa Fe Institute (o nome, infeliz, só tem a ver com a cidade do Novo México). O que é que o xatoo tem contra o Santa Fe Institute? Já leu “O Quark e o Jaguar”?

  21. Nuno Ramos de Almeida diz:

    xatoo, estás a falar com o irmão errado: eu sou o surdo, o Groucho é o outro. Infelizmente, nunca estive nos states, andei sempre mais a Sul.

  22. xatoo diz:

    absolutamente nada contra, caro Filipe Moura – nem me dei conta que o nome podia ter uma conotação pejorativa. Se mencionei o Santa Fé Institute foi só para o relacionar com a “Teoria da Complexidade”. Mas a malta prefere concentrar-se nos óculos da gaja e nunca mais passamos a dissecar o bikini,
    Quando ao livro,esse não li mas deve ser interessante, o que li sobre o assunto já foi do grupo posterior ao Murray Geli-Mann – foi uma súmula do que se vai fazendo por lá, salvo erro organizada por um tal Stewart Kaufman. O titulo era mesmo “Complexidade”
    bfs

  23. Eu também só reparei na possível conotação do nome a partir do comentário do Nuno – “Instituto da Santa Fé” parece uma coisa totalmente diferente! “O Quark e o Jaguar” é o melhor livro de divulgação científica que eu já li. Cumprimentos.

  24. Boa Ezequiel! Gosto de te ver aqui. Um beijo de parabéns.

  25. ezequiel diz:

    Os comentadores que me perdoem. Estou dentro de uma cratera de um ex-vulcão e é com muito esforço que consigo deixar aqui este comentário (esta é a vigésima tentativa). A vodafone wireless é uma grande treta.
    Na segunda, quando regressar á autoestrada tentarei responder aos simpas . Para o João, caro compa de andanças londrinas, uma palavra amiga: o mundo, a tentativa de compreender o mundo, como uma totalidade (afirmar que a totalidade existe não é a mesma coisa do que a pretensão de que esta pode ser exustivamente conhecida…é uma orientação latente…mais do que uma )…é uma PRATICA interpretativa presente em todos os humanos. Os mundos são muitos, é claro. Mas o conceito mundo persiste na alteridade.

    Quanto as teorias. A meu ver, seria mais sensato falar da sujeição das teorias ao mundo. A ideia da aplicação ofusca algo de mais primordial. A falsificação é, sempre, a falsificação do agir do mundo. É a hipotese, a lei explicativa, que recua (quando está errada). O mundo nunca recua. Está lá a falsificar, confirmar, ETC.

    Outra coisa. Não é o conceito de totalidade ou do mundo que gera o impulso dogmático. É a interpretação do conceito mundo ou totalidade que pode ser mais ou menso desejável. Na segunda prometo tentar responder de forma mais adequada ás interessantes questões que levantas. Agora vou ao vulcão buscar o cozido. 🙂 How about that for belonging?

    Fátima, HELLLOO 🙂 Big chuac!

    (Olá Tiago, não tinha visto o teu comment)

    Cumprimentos

  26. ezequiel diz:

    ooops, how rude

    João, é obvio que eu me recordo do Marco Vieira. Koolio brazilian e um brainie das IR. O que é que é feito dele? Só mais uma coisa: aa totalidade não é, não pode ser, uma generalização do mesmo (do equivalente, semlhante, igual, parecido…as familias de semelhanças Wittgies)…a luzinha está a piscar outra vez..sorry

    cumps

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  28. Ezequiel diz:

    Caro João

    Só hoje regressei.

    Os preconceitos não são apenas teóricos. Podem também ser práticos. Tudo dependerá, eventualmente, da forma como definirmos preconceito.

    A rational choice ou a decision “science” (etc) não tem como objectivo compreender tudo. Nem os laureados (da rational choice) presumem tal coisa. Desde o imenso falhanço (entre outros) da rational choice e da psicologia política na análise das transformações no bloco soviético, que nenhuma destas ditas ciências pode cultivar a pretensão de explicar seja o que for. Falava-se em “transitology” ( o estudo “cientifico de transformações sistémicas…Todos falharam!) Os adeptos novatos destas teorias, movidos talvez por algum narcisismo académico, gostariam de pensar que compreendem tudo.(mas quem é que presta atenção a estes senhores???)

    A rat choice aplica-se a processos de decisão. Mas, como é sabido, o domínio da decisão não é tudo. (são todas parciais). Existe, contudo, um impulso universalizante em cada uma destas disciplinas. Cada qual, incluindo a filosofia, acredita que pode explicar tudo. Não é isto que me preocupa, sinceramente.

    Cumps

  29. Lidador diz:

    Sobre a ânsia de destruição dos xatoos deste mundo, a pista maoísta é quente, como se demonstra com estas citações do mandarim vermelho:

    “O país deve ser destruído e depois formado de novo. Isto aplica-se ao país, à nação e ao género humano”

    “Pessoas como eu anseiam pela destruição porque quando o velho estiver destruído, um novo universo se formará. Será muito melhor.”

    o xatoo, como é habitual, limita-se a regurgitar a baba que vai engolindo…é o tipo de “intelectual” que , porque leu pouco e sempre a mesma coisa, não tem dúvidas e acredita estar munido do mapa que lhe permite ler o mundo tal como ele é.
    Enfim , o paradigma da ignorância convencida, convencido tb que basta misturar ananzazis com ananases, Habermas com Bolicao, e chouriços com a teoria do caos, para que não ousem dizer que o rei vai nu.
    Mas vai.

    O xatoo é um cromo, do tipo Boaventura Sousa Santos e embrulha o absoluto vazio do seu pensamento em retórica copiada às 3 pancadas e amalgamada à martelada.

    Há tempos Sokal ( Imposturas intelectuais) dissecou implacavelmemente este tipo de marmelos.
    Infelizmente nunca estes tontos lerão este tipo de obras.
    A fé, para se manter, tem de ignorar o resto do conhecimento.

    Sobre a realpolitik, deixo aqui a minha opinião:

    http://o-lidador.blogspot.com/2006/12/realpolitik.html

    Não transcrevo porque é extenso..

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