O filme da minha vida, parte II

Organizei ontem à noite uma pequena cerimónia de homenagem a Antonioni em volta do meu altar doméstico. Cheio de imaginação, pus o Blow Up no vídeo, esperando que o facto de saber o autor morto me mostrasse coisas novas na sua obra. Umas nem tanto: mesmo quando jovem, a Sarah Miles era um enjoo, sobretudo quando comparada com a Redgrave. Mas um pormenor houve em que eu nunca tinha reparado: o David Hemmings nunca consome nada do que leva à boca – e é muito o que ele leva à boca: tinto (duas vezes), cerveja (outras duas), um whisky e uma joint. He can’t get no satisfaction (e eu acho que, a nível metafórico, esse pormenor está a par do do braço da viola dos Yardbirds, abandonada após dura luta: o prazer está no cerco e na queda, não tanto no saque, a temática é stendhaliana, Antonioni sabe largo). O David Hemmings maltrata horrivelmente toda a gente no filme, é um déspota (o próprio Antonioni?), mas de resto dir-se-ia que não existem cenas da luta de classes (sim, talvez a cena inicial da fábrica ou do hospício que ele se disfarça para fotografar seja uma). Ou talvez eu tenha perdido alguma coisa, o filme é comprido e eu levantei-me duas vezes para um little refilling, homenagear os autores mortos também pede libações.

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SEXTA | António Figueira
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