O filme da minha vida

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Qual é o “filme da minha vida”? Ele há dois, de dois tipos diferentes: o filme que, à distância, por um conjunto de razões objectivas, me parece ser o mais significativo, e o filme que, a quente, por uma série de razões de natureza subjectiva, mais prazer me deu a ver. (Durante anos quase só vi policiais, ou pelo menos vi os policiais quase todos que havia para ver, de 35 a 55, mais ou menos, e se me perguntassem qual deles me tinha dado mais prazer a ver, eu diria que de longe o “Big Sleep” do Hawks, mesmo se o plot é razoavelmente confuso e a adaptação é discutível, mas que o “Maltese Falcon” do Huston era objectivamente melhor, mais bem contado, e depois o Falcão de Malta é uma parábola genial da rapacidade humana – e da “acumulação primitiva de capital”, para ser mais preciso – só que isso é mais por causa do Hammett que do Huston, a fita não tem aquele sfumato brilhante do filme do Hawks e, sobretudo, a Mary Astor não é a Lauren Bacall…).

Toutes catégories confondues, o filme que mais prazer me deu a ver foi o “Blow Up” do Antonioni. Não posso dizer o dia exacto em que o vi pela primeira vez, mas lembro-me que foi no Verão do 7.º ano do liceu, em 1977, no Jardim Cinema, um pouco abaixo do Pedro Nunes, e lembr0-me sobretudo da sensação com que saí da sala, se pudesse via o filme outra e outra vez, mas naquela altura não era assim, a relação das pessoas com os filmes era mais contida, não havia ainda video-tapes para uso doméstico (nem se falava nisso) e o mais que se podia era ver o filme várias vezes no cinema, mas ali nem isso era possível, o Jardim era um cinema de reprise, que mudava de programa todos os dias (e passava dois filmes por sessão, note-se), e como o tinha ido ver à noite não tinha hipótese de voltar a vê-lo tão cedo, mas ainda assim demorei uma hora a voltar para casa, um trajecto que normalmente me demoraria dez minutos, e de tão cheio que eu estava do filme acho que o vi quase inteiro outra vez sozinho (corri o risco de voltar a vê-lo depois, porque, como diz Nabokov, “the true reader is the re-reader”, e claro que não foi a mesma coisa, mas não desmereceu, muito longe disso).

Gosto de todo o Antonioni – pelo menos de tudo o que vi dele – e, pelo puro prazer de ver cinema, os seus filmes são os filmes da minha vida. Correndo o risco de dizer uma trivialidade, acho que o mais notável dos filmes dele são os silêncios – a gestão dos silêncios – tão importante nos seus filmes como o não dito na vida real. Antonioni era um grande autor (no sentido em que um grande autor é aquele que cria um género, como dizia Benjamin) pela sua coerência estética, pela elegância depurada das suas imagens (um cânone de bom gosto) e pela inteligência com que dispunha dos símbolos e das palavras. Para quem não saiba, morreu ontem em Roma, com 94 anos.

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SEXTA | António Figueira
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7 respostas a O filme da minha vida

  1. The Mystery of Oberwald, 1980) , o filme que gostei mais. Identificação de uma mulher também é 5 estrelas.

  2. ezequiel diz:

    Antonioni, belissimo ragazzo! rip

  3. Prakash diz:

    Belissimo, Antonioni!…”Deserto Vermelho” (?)..outro fantástico dele…pena saber do seu desaparecimento…

  4. charles diz:

    e eu recordo-me de ter visto com inusitado prazer um gostoso “Identificazione de una Dona”!

    não o melhor, porém, de todos, que mais vai isso da idade, circunstâncias e sentimentos que nos tomem

  5. xatoo diz:

    é girissima esta dissertaçãozinha individual apolitica. Justamente aquilo que Antonioni se esforçou em desmontar em toda a sua obra, enfim o tédio da burguesia ociosa,,

  6. samuel mor diz:

    ou diferença que nos prestou não dos fazendo estar só ‘com ele’ na sua obra, mas ser na obra dele. histórias, falas – de palavras ou sem elas, – lugares, são sempre já nossos (só nossos, de cada um) num onnirismo mais secreto onde cada um apenas, conhece a estrada do prazer seu, ou dor.. quer dizer essa tradução permanente que nos facultou duma linguagem universal, a pessoal (e, de novo, que pelo sentir maior que desperta, foi prazer)

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