Resposta ao Vasco

Na caixa de comentários de um post meu sobre uma crónica de João Miranda, o Vasco escreveu o seguinte:

António,
Nem discordo em absoluto do que escreve, mas os seus frequentes comentários à profissão do João Miranda são totalmente despropositados. É certo que entre os nossos cronistas contamos sobretudo gente do Direito e das Humanidades, mas desde quando um biólogo ou um engenheiro da área da biotecnologia está proibido de comentar a Constituição? O António também faz alusões à teoria da evolução e eu não salto da cadeira por causa disso. Se o João Miranda diz disparates, discuta-os e não parta do princípio de que são disparates só porque uma pessoa não leu os calhamaços que o António foi obrigado a estudar entre os 18 e os 23 anos.
Vasco (biólogo, como talvez se perceba pelo tom)

Para este e outros possíveis Vascos, cientistas que possam sentir-se ofendidos com as referências à profissão de João Miranda, segue esta resposta:

Caro Vasco,

Desculpe a demora desta resposta.

V. está zangado, e eu tenho a presunção de pensar que entendo as suas razões, mas que o Vasco não percebe as minhas; o culpado deste estado de coisas sou certamente eu, que não me consegui explicar decentemente; é o que vou tentar fazer em seguida, na esperança de conseguir estabelecer um terreno de entendimento entre ambos; V. dirá depois se o consegui.

Em primeiro lugar, eu não contesto a ninguém, seja biotecnólogo, varredor de ruas ou dona-de-casa reformada, o direito de se pronunciar sobre os problemas da coisa pública: a Constituição é de todos, não é dos constitucionalistas, e todos têm igual legitimidade para opinar sobre as questões da sua aplicação. Mais: embora eu tenha fugido das matérias científicas mal pude (ou seja, mal acabei os exames do antigo 5.º ano do liceu), não partilho nenhum preconceito idiota sobre uma hipotética superioridade do saber humanístico sobre o saber científico, nem estimo que os cientistas devam todos acantonar-se às especialidades respectivas e deixar a alta cultura às pessoas de letras.

Dito isto, eu devo chamar a sua atenção para o facto de João Miranda não assinar as suas prosas na qualidade de simples cidadão-eleitor ou de blogger de sucesso, mas invocando um determinado estatuto (investigador) e um determinado saber (a biotecnologia). Ora de um biotecnólogo esperar-se-iam considerações sobre matérias conexas, tal como de um jurista, por hipótese, seria legítimo esperar considerações sobre matérias relativas ao ordenamento jurídico; não seria extravagante que, digamos, Vital Moreira assinasse artigos de opinião, na qualidade de professor de direito constitucional, sobre as implicações da investigação genética na indústria farmacêutica ou os efeitos das mutações do vírus da gripe das aves na saúde humana?

Daqui não viria grande mal ao mundo se, como disseram e muito bem outros comentadores, JM não estivesse aqui a invocar a sua qualidade de cientista para praticar “cientismo” do mais lamentável, anacrónico e obscurantista – ou seja, a transpor, com o zelo de um social-darwinista de há 150 anos, categorias das ciências da natureza para o plano social. Esta sua crónica – e meço bem as minhas palavras – é uma amálgama ignorante e pretensiosa de concepções vitalistas, social-darwinistas e “biopolíticas” à la Foucault, que eu julgo indigna de um jornal de referência com responsabilidades na vida cultural portuguesa.

Comparar a instituição dos eunucos da China imperial com as políticas eugenistas da Suécia no século XX, por exemplo, ou supor um pano de fundo de política sexual às medidas natalistas que foram recentemente anunciadas pelo Governo, acusando-o de preferir que um grupo social se reproduza mais em vez de outro e afirmando que, por isso, as classes médias se sentem “castradas”, dá vontade de rir – para não dar vontade de chorar. Toda a gente tem direito à palavra, e o direito à palavra inclui, necessariamente, o direito ao disparate. Agora invocar a qualidade de cientista para escrever dislates destes, não dá bom nome à ciência, e justifica, acho eu, um bom par de aspas à volta da palavra “biotecnólogo”.

Cordialmente,

António Figueira
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SEXTA | António Figueira
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16 respostas a Resposta ao Vasco

  1. Luísa diz:

    muito bem, é isto mesmo: «Daqui não viria grande mal ao mundo se, como disseram e muito bem outros comentadores, JM não estivesse aqui a invocar a sua qualidade de cientista para praticar “cientismo” do mais lamentável, anacrónico e obscurantista – ou seja, a transpor, com o zelo de um social-darwinista de há 150 anos, categorias das ciências da natureza para o plano social.» cito, porque tiraram-me as palavras do pensamento (neste caso, “faça favor”).
    adenda: talvez que os programas escolares que separam os cientistas das ciências ditas puras (!?) do pensamento crítico, q o estudo das humaniodades fomenta, não seja uma grande ideia…

  2. mari diz:

    De como um biólogo tem também o direito a dizer as suas patacoadas mais imbecis…

  3. Pingback: cinco dias » Ana Matos Pires: Por um juízo esclarecido*

  4. jmscoelho diz:

    Registo que, apesar de considerar a “alta cultura” o campo natural onde se movimentam as “pessoas de letras”, concede que, pelo menos alguns cientistas, cujo campo natural de actuação não integra o da “alta cultura”, possam, por vezes, fazer umas incursões por esta.

    Obrigado,

  5. António Figueira diz:

    Caro jmscoelho,
    V. regista “que, apesar de considerar a ‘alta cultura’ o campo natural onde se movimentam as ‘pessoas de letras’ [eu concedo] que, pelo menos alguns cientistas, cujo campo natural de actuação não integra o da ‘alta cultura’, possam, por vezes, fazer umas incursões por esta” – mas regista por sua conta e risco, porque eu não disse aquilo que V. regista, ou seja, que para uns a alta-cultura é “natural”, enquanto outros apenas podem fazer nela “incursões”.
    AF

  6. Já li muita coisa desse João Miranda e ainda não li nada, mesmo NADA, que valesse a pena…

    O que só prova que deve ser um óptimo investigador: seguramente passa a vida enclausurado nos seus laboratórios e não entende nada de rigorosamente mais nada. Um exemplo raro de autêntico especialista!

    Agora, de tudo isto só realmente me intriga uma coisa: o que faz este homem no «Diário de Notícias» a escrever sobre aviões na Ota, trânsito e transportes em Lisboa, etc. ou, posta a questão de outra maneira, que faria eu por exemplo no “Público” a opinar sobre lagares de azeite?…

  7. martinsmr diz:

    Quando se lêem estes textos percebe-se a razão do falhanço de qualquer medida que incentive o conhecimento científico em Portugal e consequentemente a melhoria das condições de vida neste país. Quem se dedica à ciência em Portugal deve abster-se de qualquer opinião pública, política ou cultural. Sectarizar letras e ciências e atribuir-lhes valores diferentes na sociedade portuguesa é sinal de medíocridade e ignorância. Somos todos importantes e essenciais.
    Quanto ao assunto em foco, a castração, só posso perguntar aos ilustres comentadores deste blogue o seguinte:

    -quando numa entrevista de emprego se indica como aspecto negativo a existência de filhos pequenos da entrevistada, que nome se dá a esta atitude?
    -quando a uma trabalhadora contratada a recibos verdes lhe é dito que por estar grávida, e forçosamente necessitar de reduzir o seu horário de trabalho a curto prazo, que o seu contrato acaba no dia em que nascer a criança, que nome se dá a esta atitude?
    -quando os empregadores sugerem um aborto como sic “maneira mais rápida de resolver o seu problema e que agora já é legal e gratuito”, que nome se dá a esta atitude?
    -quando dizem a uma mulher que está desempregada por ser mãe, que por ter uma licenciatura não tem direito a subsídios de sobrevivência (rendimento mínimo) porque tem qualificações, não tem direito a subsídios de desemprego porque nunca teve contrato de trabalho, apesar de ter sempre pago taxas de seg. social, que nome se dá a esta atitude?

    Castração talvez seja uma palavra dura para intelectuais mas é o que está a acontecer em Portugal. Subsídios para incentivo à natalidade não vão alterar as mentalidades, e infelizmente quem permite a continuação destas atitudes repressoras da natalidade tem visão demasiadamente curta para vislumbrar o futuro de Portugal.

  8. CMF diz:

    Um social-darwinista há 150 anos! Hum, seria então um fundador do social-darwinismo, ou um precoce. Um pouco de rigor não faz mal a ninguém, especialmente quando se recorre a argumentos ad hominem. Formação científica, por exemplo, dá sempre jeito. Não garante a busca incessante pelo rigor, mas deixa alguns bons vícios que nos orientam nesse sentido.

  9. António Figueira diz:

    Aonde é que CMF encontrou “um argumento ad hominem”? Só se foi no seu próprio comentário, o que me leva a concordar em que “um pouco de rigor não faz mal a ninguém”; rigor cronológico, por exemplo: quando escreveram Gobineau ou Agassiz (senão Comte ele próprio)? Para garantir “a busca incessante pelo rigor” (sic; a busca “do” rigor ficaria melhor, mas é preciso saber perdoar), nada como falar do que também se fala – a saber, da ridícula crónica de João Miranda, personagem que alguns defendem mas sobre cujas “teses” não se atrevem a escrever (argumentos “ad hominem”, não era?)

  10. À parte a divertida troca de argutos comentários, queria apenas manifestar a minha estupefacção pelo facto de tanta gente não ter percebido a — para mim clara — ironia do texto do JM.

    É óbvio que — contra o que as credenciais de biotecnólogo poderiam fazer prever — todo aquele texto é uma hipérbole bem humorada e provocatória, como convém, mas que não reclama nenhuma tese científica para si. Pode, quanto muito, inspirar, fazer pensar, o que já é muito bom. Pena é, também, que muitos a tenham aproveitado apenas para perorar fastidiosamente sobre o estado ou os propósitos da imprensa.

    Se não é óbvio, e sou eu que estou errado, então amanhã tenho um biotecnólogo perseverante para refutar, num post que dará de certeza uma trabalheira.

  11. António Figueira diz:

    Já tinhamos a tese provocatória, já tinhamos a tese da liberdade científica, já tinhamos a tese da arrogância dos letrados, já tinhamos a tese do ataque ad hominem, temos agora a tese da ironia fina – mas nunca mais temos a defesa literal da crónica de João Miranda, porque será?
    (Aviso ao público: Figueiras há muitos, e eu até tenho um primo chamado Vasco, mas não frequenta a blogosfera).

  12. Eduardo diz:

    Quem é o João Miranda?

  13. Comentei longamente esta resposta de António Figueira ao Vasco na caixa de comentários do post que originou a polémica. Foi lapso meu porque queria publicar antes aqui. Eis o link. É só procurar por “lpedromachado”:

    http://5dias.net/2007/07/28/um-fim-de-semana-bem-passado/#comment-10006

  14. Publiquei dois comentários, consecutivos, ao post inicial de António Figueira, defendendo João Miranda e a legitimidade de alguém das ciências escrever sobre outros temas, apontando os erros e preconceitos de Figueira. Não os publiquei aqui por lapso. Estão aqui:

    http://5dias.net/2007/07/28/um-fim-de-semana-bem-passado/#comment-10006

    Obrigado.

  15. hugo diz:

    joão miranda sempre a facturar tempo de antena, qualquer dia abre o telejornal..

  16. «Já tinhamos a tese provocatória, já tinhamos a tese da liberdade científica, já tinhamos a tese da arrogância dos letrados, já tinhamos a tese do ataque ad hominem, temos agora a tese da ironia fina – mas nunca mais temos a defesa literal da crónica de João Miranda, porque será?»

    Porque ela é, em bom rigor, indefensável.

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