Um fim de semana bem passado

… deve sempre incluir uma leitura da crónica de João Miranda no DN, que deve ser lida em família, em voz alta, logo no sábado de manhã, para que todo o fim de semana decorra sob o espírito da boa disposição, da fraternidade e da concórdia familiares. A desta semana, sob o prometedor título “Sexo em democracia”, é das melhores que este investigador em biotecnologia já assinou; só para vos abrir o apetite, antecipo aqui a sua conclusão: “O actual Governo optou por distribuir a maior parte dos incentivos à natalidade pela população de classe mais baixa, provavelmente por acreditar que este é o segmento mais fácil de captar. Mas o Governo deve ter cuidado. Os membros da classe média sentiram-se castrados.” Vão lá ver que há mais e melhor.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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36 respostas a Um fim de semana bem passado

  1. Fernanda Câncio diz:

    good old joão miranda. podemos sempre contar com ele.

    afinal, é o mesmo joão miranda que leu o estatuto da região autónoma da madeira e concluiu que, se a transferência de competências por parte do governo central para a região, como é caso do sistema público de saúde ou do sistema de educação, implica a transferência das verbas respectivas, então o governo central tem de dar dinheiro à madeira para fazer abortos no quadro da nova lei. o joão miranda acha portanto que uma aplicação de uma lei da república sobre um cuidado de saúde é ‘uma transferência de competências’. impagável.

  2. António Figueira diz:

    João Miranda é um príncipe renascentista, um novo Leonardo, toca-a-tudo, é biotecnólogo mas perora sobre direito constitucional com a mesma ligeireza e à-vontadecom que fala de sexo e democracia, divagando de passagem pela história, a ciência política ou a filosofia; atrevida é a sua ignorância, infinitos os seus disparates!

  3. dinis diz:

    …néscio,numa palavra!

  4. Soulfood diz:

    Eu gosto de ler o António Figueira. Mas Os textos de João Miranda são imcomparavelmente mais interessantes. Pode-se discordar. Mas ninguém consegue ficar indiferente. A visão do mundo de João Miranda obriga a reflectir. Não se trata de criar factos que virem tudo do avesso, mas de ensaiar uma nova visão do mundo que nos rodeia.

  5. Juro que, por momentos, não acreditei que aquilo fosse o DN. Custou-me imaginar tal texto em páginas de um jornal que não fosse satírico. A passagem «O poder é apenas um meio para conseguir sexo», então, é absolutamente impagável. Mas enfim, no fundo, o que o João Miranda quer é mesmo subsídios para os mais abastados. Deve dar-lhe jeito para ter realmente sexo, que com aquela carinha e aquela expressão… coitadinho, deve andar seco há muito tempo.

  6. Pingback: cinco dias » Não vos queremos privar de nada

  7. António Figueira diz:

    Caro Soulfood,
    Concordo consigo: os textos do João Miranda são incomparavelmente mais interessantes do que os meus. Eu, por exemplo, acho que a associação do sexo à reprodução, que estrutura a visão do mundo que rodeia João Miranda, está um bocadinho fora de moda: é certo que ainda dificilmente há reprodução sem sexo; mas sexo for its own sake, dizem os melhores demógrafos, começou generalizadamente em França no século XVIII, quando, pela primeira vez na história humana, se verificou uma travagem no crescimento demográfico em tempos de paz e de abundância (percebe agora o meu apego às Luzes e a minha simpatia pela França e pelas francesas?). É claro que, sendo a nossa taxa de natalidade inferior a 2, e a descendência média das portuguesas equivalente a um filho e pouco, ninguém no seu perfeito juízo, escrevendo na tribuna de um jornal de referência, deveria sustentar que o sexo e a reprodução constituem, em sociedades como a nossa, realidades mutuamente explicáveis (a menos que, como escreveu ainda ontem neste blogue essa grande prosadora que assina f., “o cilício o faça uivar ao luar”); mas é o que João Miranda faz, “ensaiando [as palavras são suas] uma nova visão do mundo que nos rodeia”. Foi a dura lei da evolução das espécies que associou o prazer à reprodução, para que o bicho humano reproduzisse mais e assim tivesse mais hipóteses de sobrevivência, como foi ela que aguçou a sua inteligência, para o mesmo bicho comer melhor outros bichos e evitar ser comido por eles; sucede porém que, hoje, o bicho humano compra a carne de outros animais no supermercado, e o sexo que serviu para crescer e multiplicar – lamento informar – serve também para outras coisas, nem sempre desagradáveis. João Miranda sustenta alucinadamente que o Governo, com as suas políticas natalistas, está a castrar a classe média (sic); eu, que sou um teso do tipo médio, sinto-me atingido pela afirmação e deprovido de meios – do meio – para a rebater.
    Cordialmente, AF

  8. A visão do mundo de João Miranda obriga a discordar não a reflectir!

  9. Vasco diz:

    António,

    Nem discordo em absoluto do que escreve, mas os seus frequentes comentários à profissão do João Miranda são totalmente despropositados. É certo que entre os nossos cronistas contamos sobretudo gente do Direito e das Humanidades, mas desde quando um biólogo ou um engenheiro da área da biotecnologia está proibido de comentar a Constituição? O António também faz alusões à teoria da evolução e eu não salto da cadeira por causa disso. Se o João Miranda diz disparates, discuta-os e não parta do princípio de que são disparates só porque uma pessoa não leu os calhamaços que o António foi obrigado a estudar entre os 18 e os 23 anos.

    Vasco (biólogo, como talvez se perceba pelo tom)

  10. aff diz:

    Vasco, o problema é quando um biólogo defende opiniões políticas a partir de teorias biológicas. O governo não pratica o evolucionismo quando implementa políticas sociais.

  11. Sérgio diz:

    Caro António,

    Compreendo o exercício lúdico mas não consigo achar piada nenhma a uma amálgama que está para além do conservadorasmo apresentada como um pitéu do mais básico cientismo pseudo legitimador de um conjunto de visões do mundo que mais do que novas(?) são mui vetustas.

    Cumprimentos,

    Sérgio

  12. ezequiel diz:

    Medo de castração, luta de classes, luta darwiniana. Assim não há sofá que resista.

  13. Pingback: cinco dias » Resposta a Vasco

  14. António Figueira diz:

    Caro Vasco,

    Desculpe a demora desta resposta.

    V. está zangado, e eu tenho a presunção de pensar que entendo as suas razões, mas que o Vasco não percebe as minhas; o culpado deste estado de coisas sou certamente eu, que não me consegui explicar decentemente; é o que vou tentar fazer em seguida, na esperança de conseguir estabelecer um terreno de entendimento entre ambos; V. dirá depois se o consegui.

    Em primeiro lugar, eu não contesto a ninguém, seja biotecnólogo, varredor de ruas ou dona-de-casa reformada, o direito de se pronunciar sobre os problemas da coisa pública: a Constituição é de todos, não é dos constitucionalistas, e todos têm igual legitimidade para opinar sobre as questões da sua aplicação. Mais: embora eu tenha fugido das matérias científicas mal pude (ou seja, mal acabei os exames do antigo 5.º ano do liceu), não partilho nenhum preconceito idiota sobre uma hipotética superioridade do saber humanístico sobre o saber científico, nem estimo que os cientistas devam todos acantonar-se às especialidades respectivas e deixar a alta cultura às pessoas de letras.

    Dito isto, eu devo chamar a sua atenção para o facto de João Miranda não assinar as suas prosas na qualidade de simples cidadão-eleitor ou de blogger de sucesso, mas invocando um determinado estatuto (investigador) e um determinado saber (a biotecnologia). Ora de um biotecnólogo esperar-se-iam considerações sobre matérias conexas, tal como de um jurista, por hipótese, seria legítimo esperar considerações sobre matérias relativas ao ordenamento jurídico; não seria extravagante que, digamos, Vital Moreira assinasse artigos de opinião, na qualidade de professor de direito constitucional, sobre as implicações da investigação genética na indústria farmacêutica ou os efeitos das mutações do vírus da gripe das aves na saúde humana?

    Daqui não viria grande mal ao mundo se, como disseram e muito bem outros comentadores, JM não estivesse aqui a invocar a sua qualidade de cientista para praticar “cientismo” do mais lamentável, anacrónico e obscurantista – ou seja, a transpor, com o zelo de um social-darwinista de há 150 anos, categorias das ciências da natureza para o plano social. Esta sua crónica – e meço bem as minhas palavras – é uma amálgama ignorante e pretensiosa de concepções vitalistas, social-darwinistas e “biopolíticas” à la Foucault, que eu julgo indigna de um jornal de referência com responsabilidades na vida cultural portuguesa.

    Comparar a instituição dos eunucos da China imperial com as políticas eugenistas da Suécia no século XX, por exemplo, ou supor um pano de fundo de política sexual às recentemente anunciadas medidas natalistas do governo, acusando-o de preferir que um grupo social se reproduza mais em vez de outro e afirmando que, por isso, as classes médias se sentem “castradas”, dá vontade de rir – para não dar vontade de chorar. Toda a gente tem direito à palavra, e o direito à palavra inclui, necessariamente, o direito ao disparate. Agora invocar a qualidade de cientista para escrever dislates destes, não dá bom nome à ciência, e justifica, acho eu, um bom par de aspas à volta da palavra “biotecnólogo”.

    Cordialmente,

    António Figueira

  15. RAF diz:

    O João Miranda tem o condão de vos deixar com os cabelos em pé, o que só por si vale ouro. Deve ser horrível ter coisas tao interessantes para dizer e ver que um biotecnólogo qualquer consegue ter muito mais espaço de intervenção e polémica…

  16. António Figueira diz:

    “Cabelos em pé?” Exagero seu, mas é bem verdade que o sucesso alheio tem o condão de me tirar o sono – o do João Miranda e o da revista “Maria”. E folgo em verificar no seu comentário um tom prazenteiro e vivaço – que é sinal de que não pertence à classe média.
    Cumps., AF

  17. RAF diz:

    Caro AF,
    Não me diga que ainda vive sob o estigma da luta de classes? Que tal virar a página da revista «Maria» e aderir ao século XXI?
    Abraços,
    RAF

  18. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro RAF,
    Tem toda a razão já não existe luta de classes: somos todos azuis! Azuis claros à frente, azuis escuros atrás, sff.

  19. António Figueira diz:

    Caro RAF,
    Vou dar-lhe uma má notícia: a “Maria” vende-se também no século XXI.
    Entretanto, se para além dos protestos da sua simpatia, tiver alguma coisa a dizer em defesa da inenarrável crónica de João Miranda intitulada “Sexo em Democracia”, pf atreva-se; eu prometo guardar a compostura.
    Cordialmente, AF

    PS A minha referência à classe média tinha pouco que ver com a luta de classes e mais que ver com o facto de JM ter proclamado que as recentes medidas natalistas do Governo a tinham “castrado”; folgo em poder concluir que escapou por enquanto à sanha das autoridades.

    PS II Mas… agora é que eu reparei, V. não leu a crónica de João Miranda!! É por ser amigo dele?

  20. Ana Matos Pires diz:

    Calhando o RAF leu e ficou sem palavras (psst, António, vou falar baixinho… para falar verdade até se compreende, aquilo é de perder o piu).

  21. RAF diz:

    Desiludam-se, li a crónica sim, e achei aquilo bem divertido. O mal é que acham que o João Miranda, sempre que escreve, quer provar uma tese. Com elevada frequência, o objectivo é apenas especular. E, na especulação, surgem ideias bem curiosas. Agora, percebe-se que sendo todos os senhores dotados de um elevado grau de sentimento objectivo, amantes da verdadeira ciência, o pensamento objectivo seja uma blasfémia. Ups. Blasfémia. Parece que estamos no universo da crença. A nobreza da esquerda tem alguma dificuldade, na verdade, em conviver com a diferença. Quem diria, que no 5 dias impera uma esquerda conservadora e snob…

  22. António Figueira diz:

    O que significa ser “dotado de um elevado grau de sentimento objectivo”? Caro RAF, cuidado com as companhias: V. de tanto defender JM ainda fica como ele, e depois escreve non senses e chama-lhes “especulações”.

  23. RAF diz:

    «Non senses?». Ai que fino, caro António Figueira, sempre a utilizar estrangeirismos.

  24. Sérgio diz:

    nada a ver…
    mas “estigma da luta de classes”?
    de facto já não há lutas de classes. a “classe alta” ganhou.
    à “classe baixa” resta apenas, e cada vez mais, uma cada vez mais curta esperança média de vida sendo esta preenchida com anos de trabalho em condições degradantes de forma a alimentar as gordas porcas e os seus milhares de bacorinhos que andam por aí a bradar as virtudes da nova ordem.

    perante isto, estou-me nas tintas para que se um biologo escreveu alguma parvoíce ou não… e também acho que para se dar tamanha importância a este artigo de opinião é porque não se anda muito atento ao mundo real.

    até parecem sociologos do iscte.

  25. ezequiel diz:

    Estou com dores no duodeno.

  26. Ana Matos Pires diz:

    Cabelos em pé? Desengane-se, RAF, nem isso o JM me consegue elevar.

    (Ó, afinal parece que ele é mesmo seu amigo, que triste fiquei, por si naturalmente)

  27. RAF diz:

    Cara Ana Matos Pires,

    «(Ó, afinal parece que ele é mesmo seu amigo, que triste fiquei, por si naturalmente)».

    Tem pena? Não tenha. O grupo das pessoas que considero ‘amigos’ assenta numa malha ampla, que pesca gente de esquerda, de direita, dos que vêem a política para lá destas dicotomias, muitos sem ideais políticos, desinteressados deste mundo, católicos, agnósticos, de vário género e natureza, artistas, quadros de empresas, gente desempregada, e imensas coisas e tal. A amizade, para mim, vai muito para lá dos rótulos.

    Tenho pena por si, que pelos vistos tem condições ideológicas prévias à admissão ao estatuto singelo da ‘amizade’. A coisa assim tão monocromática deve ser um pouco maçadora, não acha? Pelos vistos, a esquerda moderna é elitista e, na prática, um pouco avessa à diferença. Não sabia, pois no discurso publicitam precisamente o contrário.

  28. Ana Matos Pires diz:

    E o que lhe permite concluir isso tudo, caro Rodrigo Adão da Fonseca? É que estou consigo, a amizade, para mim, também vai muito para lá dos rótulos e das dicotomias, por isso mesmo…

    (Discordo, contudo, de si nessa história do estatuto da amizade ser singelo. Acho mesmo que é dos menos singelos dos estatutos, dada a importância que lhe dou).

    Cumprimentos
    ana

    Ps: Hoje não vou discutir consigo, já decidi.

  29. RAF diz:

    Cara Ana,

    Pode decidir não discutir comigo hoje, não lhe nego tal direito (nem posso), mas o que me permite concluir que a Ana rotula os seus amigos é precisamente a forma como afirma que tem pena de mim por ser amigo do JM, em razão dos seus textos. A frase que se segue é sua, não minha:

    «(Ó, afinal parece que ele é mesmo seu amigo, que triste fiquei, por si naturalmente)».

    Admito que reconsidere e entenda ter sido infeliz; agora, as minhas conclusões assentam precisamente no seu raciocínio: se a Ana tem pena por mim, se me desqualifica pelo facto de ser amigo do JM, em função do que ele escreve, não vejo onde seja abusiva a leitura que eu faço, que as suas amizades estão condicionadas pelo tipo de opinião emitida pelos ‘candidatos’ a seus amigos.

    Vou dar o devido desconto admitindo que foi um comentário pouco pensado, pois em rigor, não tem razão alguma nem faz sentido, nem me parece que tenha a ver com a sua forma de estar, face ao que tenho lido escrito por si.

  30. Ana Matos Pires diz:

    Qual pena de si, Rodrigo, não falei em pena nem o desqualifiquei (a si), falei em tristeza. Estou no domínio dos sentimentos, dos quais a tristeza é uma ilustre representante… “senti” não “pensei”, fiquei triste, posso?

  31. ezequiel diz:

    miauu miauu miauu

    fssst fsst

    Tortellini anyone?

  32. Ana Matos Pires diz:

    Hummm, afinal o Rodrigo também faz juízos e constrói opiniões sobre os outros com base naquilo que escrevem. eheh

  33. RAF diz:

    Ana,

    Folgo em saber que não tem vocação monástica, e que não aguente nem duas horas os votos de silêncio:)

    Realmente, não foi pena mas tristeza. Lapso meu. E sim, faço juízos a partir do que escrevem, mas não a partir do que não escrevem, o que é algo bem diferente. Sem prejuízo que os meus juízos não conduzem a avaliações sentimentais, como alegria, tristeza, amizade, e coisas dessa natureza. Há uma evidente separação das águas.

    Enfim. Opções.

  34. Ana Matos Pires diz:

    Rodrigo,

    Não acredito que ainda não se tivesse apercebido da minha fraca vocação monástica (o que não quer dizer que não consiga manter-me caladinha mais que duas horas, bem entendido ).

    Outra coisa, olhe que essa separação assim tão rígida da emoção e da razão pode prejudicar a sua inteligência emocional. E, no limite, a separação das águas não é uma opção, acredite. Fazemo-la todos, aqui e acolá, mais quando podemos, ou conseguimos, e menos quando queremos.

  35. Ficou óbvio que o António Figueira está incomodadíssimo por um biólogo ter muita audiência quando escreve sobre assuntos que estão na “coutada” daquele. Ao tentar negá-lo, só diz óbvios disparates ou entra em contradição:

    Diz que o problema está em João Miranda “invocar” o seu “estatuto” de biólogo. Ora, todos sabemos que é frequente os jornais indicarem a profissão dos seus colonistas. É claro que o João Miranda escreve no DN por ser uma estrela da blogosfera por mérito próprio. Mas a sua profissão não é ser blogador e há muitos colunistas que são também blogadores mas indicam apenas a sua profissão.

    Depois, Figueira diz que, de um colunista que assina como tendo certa profissão, se espera que escreva sobre temas com ela relacionados, dando como exemplo a profissão de jurista. Que disparate total! Então o José Miguel Júdice só escreve sobre direito; o Pacheco Pereira sobre História? O Figueira não se apercebe do disparate porque está tolhido por um preconceito dominante alimentado pelos intelectuais das letras (um pleonasmo, para eles): Que alguém das letras está em perfeitas condições de opinar sobre tudo, incluindo sobre ciência (casos destes abundam; veja-se o caso do Boaventura Sousa Santos), podendo, seguindo o raciocínio de Figueira, “invocar” o seu “estatuto”, mas o mesmo, segundo esse preconceito, não se aplica aos cientistas, que não têm legitimidade para escrever sobre temas fora da esfera científica. É um preconceito pernicioso e desfasado da realidade, uma vez que é muito frequente os cientistas interessarem-se por temas das humanidades — é o caso do João Miranda, é o meu caso e de vários professores meus –, mas o contrário não é verdadeiro — é o caso de Figueira, que confessa ter fugido da ciência no nono ano.

    CONTINUA

  36. CONTINUAÇÃO

    António Figueira dá o exemplo divertido de o insuportavelmente arrogante Vital Moreira escrever sobre genética e gripe das aves “na qualidade de professor de direito constitucional”. Figueira pressupõe que as pessoas escrevem sob uma determinada “qualidade”. Isto é uma variação do argumento de autoridade. Isso é pouco racional e completamente anticientífico. Vital Moreira tem toda a legitimidade, mais que um simples direito que ninguém nega, para escrever sobre esses temas. O problema é que não sabe nada disso e iria ser humilhado na praça pública. João Miranda e qualquer outro têm essa mesma legitimidade.

    A tese do João Miranda pode estar errada — haverá alguma tese política certa? –, mas é pertinente e fez toda a gente ter vontade de comentar. Pessoalmente, achei a tese algo forçada e com fragilidades, mas achei interessante. Aliás, o valor dos artigos de Miranda reside na sua originalidade, coerência interna, clareza, concisão,coerência entre artigos, na inteligência com que articula o raciocínio, no estilo limpo, sem gordura, directo ao assunto e sem floreados, na ausência de agressividade, na ausência de apelos a argumentos de autoridade, etc. Já os artigos da Fernanda Câncio, por exemplo, irritam-me pelos motivos contrários e não por discordar — discordo sempre — das suas teses ou achá-las falsas. Irrita-me o sarcasmo que pretende humilhar, o uso completamente despropositado de palavras inglesas, a ironia brejeira, o recurso ao sentimentalismo, à permanente rotulação dos adversários, à assunção permanente da inferioridade moral e social das teses dos adversários, etc.

    O João Miranda assume a defesa do que escreve e, ao contrário de Vital Moreira, por exemplo, participa nas discussões suscitadas pelos seus artigos nas caixas de comentários. Ou seja, usa apenas as armas da razão e não um determinado “estatuto”. É isto que verdadeiramente interessa, e não a profissão que exerce ou deixa de exercer.

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