Não vos queremos privar de nada

João Miranda escreveu no DN de hoje uma crónica no igual a si próprio: para evitar os juízos de valor, diria apenas que controversa. Eu, muito de levezinho, disse o que pensava dela; mas um leitor (muito legitimamente, diga-se) contestou-me assim:

Eu gosto de ler o António Figueira. Mas Os textos de João Miranda são imcomparavelmente mais interessantes. Pode-se discordar. Mas ninguém consegue ficar indiferente. A visão do mundo de João Miranda obriga a reflectir. Não se trata de criar factos que virem tudo do avesso, mas de ensaiar uma nova visão do mundo que nos rodeia.

Eu gosto que gostem de me ler, claro, mas não pude deixar de replicar:

Caro Soulfood,
Concordo consigo: os textos do João Miranda são incomparavelmente mais interessantes do que os meus.
Eu, por exemplo, acho que a associação do sexo à reprodução, que estrutura a visão do mundo que rodeia João Miranda, está um bocadinho fora de moda: é certo que ainda dificilmente há reprodução sem sexo; mas sexo for its own sake, dizem os melhores demógrafos, começou generalizadamente em França no século XVIII, quando, pela primeira vez na história humana, se verificou uma travagem no crescimento demográfico em tempos de paz e de abundância (percebe agora o meu apego às Luzes e a minha simpatia pela França e pelas francesas?). É claro que, sendo a nossa taxa de natalidade inferior a 2, e a descendência média das portuguesas equivalente a um filho e pouco, ninguém no seu perfeito juízo, escrevendo na tribuna de um jornal de referência, deveria sustentar que o sexo e a reprodução constituem, em sociedades como a nossa, realidades mutuamente explicáveis (a menos que, como escreveu ainda ontem neste blogue essa grande prosadora que assina f., “o cilício o faça uivar ao luar”); mas é o que João Miranda faz, “ensaiando [as palavras são suas] uma nova visão do mundo que nos rodeia”. Foi a dura lei da evolução das espécies que associou o prazer à reprodução, para que o bicho humano reproduzisse mais e assim tivesse mais hipóteses de sobrevivência, como foi ela que aguçou a sua inteligência, para o mesmo bicho comer melhor outros bichos e evitar ser comido por eles; sucede porém que, hoje, o bicho humano compra a carne de outros animais no supermercado, e o sexo que serviu para crescer e multiplicar – lamento informar – serve também para outras coisas, nem sempre desagradáveis. João Miranda sustenta alucinadamente que o Governo, com as suas políticas natalistas, está a castrar a classe média (sic); eu, que sou um teso do tipo médio, sinto-me atingido pela afirmação e deprovido de meios – do meio – para a rebater.
Cordialmente, AF

A conversa está por aqui (são quatro da tarde, mais coisa menos coisa, e eu a seguir tenho um casamento, daqueles modernos, que começam às seis e acabam no dia seguinte, pelo que não vou poder cuidar deste estimável blogue nas horas que seguem), mas quem quiser opinar, please feel free.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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