Filipe Moura: o Tâmisa e o Ruanda

Os problemas associados a uma política excessivamente de proximidade são exemplificados num caso como o do líder conservador inglês, David Cameron,  acusado de não ter prestado atenção suficiente às cheias na região por onde foi eleito deputado. Mas que poderia um deputado e líder da oposição fazer para resolver a situação? Nada; isso é com o governo e as autoridades competentes. Quanto muito poderia fiscalizar a acção de quem tem o poder executivo. E foi isso que Cameron fez, até ter de se ausentar, na sua qualidade de líder do Partido Conservador, para uma viagem ao Ruanda. Eu compreenderia até certo ponto as críticas se se tratasse de férias. Mas tratava-se de uma viagem de trabalho!
O problema destas “políticas de proximidade” é que os eleitores tendem a sentir-se os mais importantes do mundo, e esperam uma dedicação exclusiva dos seus eleitos (sendo que tal nem se traduz numa maior participação eleitoral). Por isso não sou favorável a esta concepção de política, muito vulgar na Grã Bretanha. E que em Portugal se difundiria, se hipoteticamente fosse aprovada a famigerada regionalização.
Nem de propósito (destaques meus):  The Guardian revelava ontem que o governo britânico tinha sido avisado há três anos, em dois relatórios separados (…).
Na altura em que os relatórios foram entregues ao governo (Julho de 2004), o executivo (…) terá reconhecido a necessidade de melhorar a coordenação entre as companhias abastecedoras de água, os concelhos municipais e a Agência do Ambiente, que deveria passar a centralizar a gestão destas situações de crise.
No entanto, e a avaliar pelas revelações do Guardian, nada foi feito e a transferência de responsabilidades que todos preconizavam- e que chegou a estar agendada para o ano passado – nunca chegou a ser concretizada, dando origem a muitas das críticas que têm sido feitas nos últimos dias.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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7 respostas a Filipe Moura: o Tâmisa e o Ruanda

  1. António Lopes diz:

    Também acho muito perigosa esta proximidade entre eleitos e eleitores (fonte UNICA da legitimidade dos eleitos).
    Desculpe a curiosidade, é amigo da Sra. D. Inês Pedrosa?

  2. ezequiel diz:

    Caro Filipe

    alguns reparos

    Na GB, os parlamentares praticam as tais políticas de proximidade, reservando pelo menos um dia p/semana para o contacto directo com os eleitores. A fiscalização só pode ser feita eficazmente e honestamente se os MOP´s (members of parliament) fizerem o seu trabalho semanal.

    Estas coisas dos relatórios também são um pouco enganadoras pq não obstante a situação, que pode ser excelente (coordenação, comunicação etc), existem sempre falhas, particularmente quando se trata de eventos freak. Desempenham uma função preciosa mas não são necessariamente uma demonstração da incompetência do governo ou estado. O prob da coordenação entre companhias privadas de electricidade etc é um legado da Maggie (que privatizou muitas coisas que nunca deveriam ter sido privatizadas na GB), não obstante o mérito inegável de ter tirado a GB da era industrial e de ter transformado uma nação de working class numa sociedade de pequenos e médios empresários (Generalização um pouco desonesta mas, grosso modo, foi mais ou menos isto)

    O MOP David Cameron é uma reedição do Blair, à direita, como toda a gente já percebeu. Cameron foi o maior erro do PC na GB. Consegue irritar os clássicos e os neos ao mesmo tempo. O projecto do Ruanda foi uma excelente ideia, um projecto modesto, mas importante do ponto de vista humanitário (porque é regido por uma lógica distinta das lenga lenga habituais das ong`s ) mas nunca, NUNCA, deveria ter sido “prioritised”. Cameron é um pateta, guiado por mais uma caterva de spinsters bla bla bla. Prefiro Francis Maude ou Davis. Concordo contigo: os eleitores são, sempre, os mais importantes do mundo. 🙂

    Outra coisa: na gb não é a regionalização que predomina. É a localização. A proximidade é um ingrediente fundamental na representação democrática. Isto parece-me inquestionável.

    A acusação é pertinente e muito corrosiva. É verdade que o Guardian é de esquerda. Mas não questiono a integridade jornalística deste respeitado jornal. Cameron foi estúpido. E deve pagar por isso. Quem me dera que se pusesse a milhas do PC e que os “old school” (Davis, May & Maude) regressassem. Paciência! Vivemos numa era de plástico. Nada a fazer! 🙁

    Cumprimentos

  3. ezequiel diz:

    Ou seja,

    É muito importante preservar a relação face-a-face na representação democrática.

    Muito.

  4. a propósito das cheias e o papel do governo:

    «The Government accepts that global warming is the likely cause, but seems incapable of doing anything to curb it. For example, one billion pounds is being removed from subsidies to the privatised train companies which sum will be made up in increased fares, which therefore must increase the use of cars.
    Similarly, the private water companies were discouraged from building larger drains and sewage systems, because this would have increased water charges. And no one dare suggest decreased water or rail company profits. And the same profit-driven logic will apply to the building of new houses.
    So, as the floods get worse, the next move will be to privatise the flood relief, as this is the only way to attract much-needed investment into the emergency industry. Advertisers will divert the river, so the chimneys sticking above the water spell “DFS sofas”. And, as residents are hoisted out of their upstairs bedroom window, they’ll be asked: “Would you like a pastry with your rescue?” Meanwhile, the housing minister will justify with history why she can spend her day fiddling.»

    http://comment.independent.co.uk/columnists_m_z/mark_steel/article2798497.ece

  5. Ezequiel, reconheço que é indispensável um eleitor pedir contas ao seu eleito e, para isso, este não pode ser um burocrata anónimo. Embora a realidade britânica seja diferente da portuguesa, o objectivo do texto é ilustrar as perversões subjacentes a misturar política local com política nacional, e fazer desta um somatório de interesses daquela.

  6. joséjosé diz:

    Próximo é pouco.Eu diria juntinhos. Mesmo mesmo, muito muito juntinhos…

  7. ezequiel diz:

    Filipe,

    O caso brit ilustra a possibilidade de deslocalizar um sistema central e vice versa. É um sistema central que se faz representar nos affaires semanais dos MOPs. Sem feeback, em ambas as direcções, não é possível falar de política nacional e local. Estás a tocar num dos mais interessantes temas da análise política (etc): a relação da linguagem com “processos práticos”(digamos assim). A linguagem permite-te a distinção (local/nacional) mas a prática nega-a porque as 2 dimensões são interdependentes. Ou seja, a linguagem vigente é falaciosa porque através do poder imenso e sedutor das distinções ela ofusca uma sistematicidade profunda.

    Cumprimentos

    (e cuidado com os canollis!)

    Nuno (já corrigi o meu email)

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