Jorge Palinhos: O dr. Teles e Melo e os glúteos

Com alguma renitência, o dr. Teles e Melo pousou o sapato na areia, que cedeu ligeiramente. Depois pousou o outro sapato, tendo o cuidado de levantar ligeiramente as calças para que estas não roçassem na areia, e assim continuou, com cuidado, tendo aquela desagradável sensação de estar caminhar como um pinguim.
Logo atrás seguia a D. Felismina, carregando a mala da merenda, o guarda-sol, a cadeira de praia, a mala com a muda de roupa, as toalhas, o protector solar de factor 70 e os livros e jornais.
Ambos percorreram a praia a custo, tentando não se aproximarem nem deitar areia para cima dos numerosos banhistas estendidos ao sol, alguns, notou o dr. Teles e Melo com uma certa comiseração, nem sequer convenientemente protegidos do sol.
Quando arranjaram um lugar cujo espaço, vizinhança e vistas pareceram adequados ao dr. Teles e Melo, a d. Felismina montou o guarda-sol, estendeu as toalhas e abriu a cadeira, enquanto o dr. Teles e Melo, com cuidado, tirava o casaco. Este, depois, puxou o nó da gravata e tirou-a do pescoço, desabotoou a camisa, desentalou-a das truces e puxou as respectivas fraldas de dentro das calças com cuidado para não ficarem engelhadas. Em seguida passou todas estas peças de vestuário para a d. Felismina, que as colocou cuidadosamente num cabide que pendurou numa das varetas do guarda-sol, enquanto o dr. Teles e Melo ajeitava a camisa interior de alças, que tinha ficado fora do sítio. Depois, o dr. Teles e Melo arregaçou as calças até um pouco acima dos joelhos e sentou-se na cadeira de praia, de forma a que a maior parte do corpo ficasse exposta ao sol, mas a cabeça permanecesse à sombra. A D. Felismina tirou o boião do protector e começou a aplicá-lo, com uma certa energia desagradável, nos ombros, braços e pernas do dr. Teles e Melo. Este colocou o chapéu e os óculos de leitura e abriu o Creators, do seu muito apreciado Paul Johnson.
Apesar da vontade de ler, esperou que a d. Felismina acabasse de aplicar o protector. Nesse intervalo apercebeu-se dos olhares femininos que a sua figura suscitava, percepção essa que o fez sorrir interiormente. “Apesar da idade ainda estou em boa forma,” pensou. Sentiu também bastantes olhares masculinos, que o deixaram algo incomodado.
O dr. Teles e Melo nunca fora apreciador de praia, mas o médico recomendara vivamente umas temporadas neste género de local para reforçar ossos e articulações, pelo que nos últimos tempos o dr. aqui viera algumas vezes, acompanhado pela d. Felismina. E, para sua grande surpresa, descobrira que, apesar da presença de crianças birrentas, adolescentes hiperactivos, jovens com o cio, adultos embrutecidos e idosos caquéticos, a praia até era um local aprazível para as suas leituras. O único inconveniente até agora fora mesmo a necessidade de proibir a d. Felismina de usar um fato-de-banho ousado, que lhe desnudava as pernas e as costas.
Infelizmente, apesar o ar estar agradável e não haver famílias exageradamente disfuncionais nas redondezas, o dr. Teles e Melo sentia-se distraído da leitura e, após alguns esforço de concentração, apercebeu-se que tinha os olhos pousados nos glúteos redondos de uma jovem morena deitada a alguns metros de si. Demorou mais alguns segundos a tentar compreender a razão da sua distracção, mas racionalizou que provavelmente tal se devia ao facto de a jovem ter apenas uma estreita fita a cobrir-lhe o espaço inter-gluteal, deixando toda a restante ampla e curvilínea superfície à exposição dos olhares.
O dr. Teles e Melo sentiu-se envergonhado pela rapariga. Mais precisamente, sentiu-se envergonhado pela família da rapariga, que ali exibia tão despudoradamente os seus rotundos glúteos.
Nesse momento, a rapariga virou-se na toalha e ficou de barriga para cima, exibindo desta vez duas protuberantes e sólidas glândulas peitorais completamente descobertas sob a luminosidade do sol, o que chegou a fazer o dr. Teles e Melo abrir ligeiramente a boca de pasmo.
Este interrogou-se então o que poderia motivar a jovem a fazer tais figuras num local público. Que ganharia ela com isso? Cortejadores? Só mesmo cortejadores da pior espécie. Que poderia ela querer obter da exposição pública das suas redondas glândulas de remate róseo?
O espaço público, reflectiu o dr. Teles e Melo, é uma comprovada vítima da tragédia dos comuns, em que os bens disponíveis sofrem uma degradação de uso não compensada pela atenção cuidadosa que é apanágio da propriedade privada. É certo que aquelas glândulas e glúteos redondos como bolas-de-berlim eram ainda, teoricamente, propriedade privada, mas o usufruto do olhar, que ele exercia agora, era tornado público pela exibição completa que a rapariga fazia. Este era um serviço público e gratuito e, ao desempenhá-lo, a rapariga estava a causar uma acentuada desvalorização monetária e social dos seus glúteos e glândulas. Enquanto que, prestando esse serviço de forma mais privada, numa sala discreta só aberta a pagantes, por exemplo, a moça certamente obteria um valor acrescentado pelos seus bens e até seria estimulada a preservá-los de forma mais cuidadosa – mesmo que neste momento os ditos não parecessem precisar de grande conservação, segundo a avaliação do dr. Teles e Melo, certamente viriam a precisar de alguns retoques mais tarde.
Um mistério. Mas o dr. Teles e Melo recordou-se das menções que ouvira ao software livre e a uma enciclopédia gratuita na Internet e teorizou que, provavelmente, as gerações mais jovens estariam numa fase de fé na partilha pública, fase essa que acabaria rapidamente quando os jovens amadurecessem um pouco e abrissem os olhos.
Infelizmente, acabara o dr. Teles e Melo de chegar a esta conclusão mais ou menos definitiva, quando o seu olhar se desviou ligeiramente das redondas glândulas da jovem e pousaram num moço robusto que estava sentado mesmo ao lado daquela e olhava fixamente para o dr. Teles e Melo ao mesmo tempo que estalava os punhos.

P.S. – Votos de boas férias e até Setembro

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Jorge Palinhos: O dr. Teles e Melo e os glúteos

  1. Sérgio diz:

    Pobre mortal: também fica embasbacado pelas mamas da moça…

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