Diabo na gaveta (artigo antigo reciclado)

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Num Mundo em que Deus manda é fácil acreditar no Diabo, difícil é continuar a pensar na bondade universal.
Se o Diabo não fosse inventado, tinhamos que desistir de Deus. Estariamos de acordo com Diderot quando comentou a crueldade de Deus: “Com pai assim, mais valia ser órfão”.
O Mal existe. A sua, aparente, irracionalidade sempre foi um mistério. Numa conhecida passagem do romance ”Irmãos Karamazov”, de Dostoievski, Ivan explica a Aliocha o que é o mal: “Imagina uma mãe assustada com o seu filho nos braços, rodeada de invasores turcos. Eles planearam uma diversão: acariciam a criança, riem para fazê-lo rir. Conseguem-no, a criança ri. Nesse momento, um turco aponta uma pistola de quatro polegadas à cara da criança. A criança ri feliz, estende as suas mãozinhas para a pistola e o turco dispara para a cara da criança e rebenta-lhe o cérebro. Artístico, não é? (…). Penso que o Diabo não existe, mas o homem criou-o, criou-o à sua imagem e semelhança”.
O artista MC Escher é autor de várias gravuras que funcionam como quebra-cabeças. Uma das mais conhecidas é a de uma casa em que há escadarias que simultaneamente nos fazem subir e descer, na mesma direcção e sentido, dependendo da forma como as observamos. Escher destrói outros ícones na sua obra de 1921 chamada “O bode expiatório”. Aí, aparecem Deus e Demónio como dois lados de um espelho.
Deus e o Diabo são faces da mesma moeda: um não existiria sem o outro.
A história da nossa tomada de consciência em relação ao mal é a história da relação de uma santíssima trindade: Deus, o Diabo e o Mal.
Na maior parte das religiões politeístas, o mal é uma questão familiar, uma espécie de Seinfeld com super poderes.
Os deuses, na maior parte das vezes, são iguais aos humanos. Por vezes fazem o mal, outras vezes abstêm-se de o praticar. Nenhum é totalmente bom, nenhum é inteiramente mau.
A construção de uma religião monoteísta coloca outros problemas. O início e a vida estão subordinados a uma única entidade.
Na religião hebraica, o Deus dos judeus é simultaneamente responsável pelo bem e pelo mal.
O Deus dos judeus é uma divindade guerreira, que proclama com orgulho: “Eu é que formo a luz e crio as trevas, que faço a paz e crio o mal; eu sou o senhor que faço todas as coisas” (Isaias: 45, 7).
O Deus do Antigo Testamento é, aliás, particularmente implicativo e intriguista. Não só castiga com grande violência os inimigos do povo de Israel, como tem alguns acessos de prepotência contra os fiéis.
Exemplo desse comportamento é quando Deus pede a David para que recenseie o povo de Israel, fazendo-o violar uma proibição anterior sua. Tudo no intuito de ter uma justificação para mandar castigar o seu povo. O resultado desta “justiça divina” é expedito: “Mandou o senhor a peste para Israel, desde manhã até ao tempo assinalado e morreram do povo, desde Dan até Bersabée, setenta mil homens”.
E tendo estendido o anjo do Senhor a sua mão para Jerusalém para a destruir, o Senhor se compadeceu da sua aflição e disse ao anjo exterminador do povo: basta, detém a tua mão” (II Samuel: 24, 15-16).
Aqui os anjos exterminadores não aparecem como seres independentes, mas como serviçais de Deus.
O mesmo acontece noutra célebre passagem do Antigo Testamento, o “Livro de Job”, em que Satanás surge como membro do Conselho Celestial a aconselhar Deus sobre o seu súbdito Job. Satanás que significa aproximadamente “o adversário”, é uma espécie de acusador do céu. As desventuras de Job começam num encontro de trabalho de Deus com os seus.
“Mas um certo dia, como os filhos de Deus se tivessem apresentado diante do Senhor, achou-se também entre eles Satanás.
E o Senhor perguntou-lhe, de onde vens tu? Ele respondeu, dizendo, girei a terra e andeia-a toda. E o Senhor disse-lhe: acaso consideraste tu o meu servo Job, que não há semelhante a ele na terra, varão sincero que teme a Deus e que se afasta do mal?” (Job:1,6-8).
Satanás responde que a vida de Job tem tantas benesses do Senhor, que tem dúvidas que Job tema e respeite Deus.
O que leva a que Deus, invertendo o ónus da prova, dê ordem a Satanás para tornar a vida de Job insuportável, a fim de experimentar Job.
A história é exemplar a vários títulos. Satanás aparece claramente como um “filho de Deus” (Bene ha-eloim), membro da “corte celestial” e colaborador expedito do Senhor. Mais importante, a história de Job é uma das primeiras tentativas para perceber os males sofridos por toda a humanidade: a doença, a dor, os acidentes, a desgraça, etc. E as conclusões são claras: os desígnios do Senhor são insondáveis e o sofrimento é dado aos humanos independentemente do seu comportamento. A “justiça Divina” depende da paciência , da compreensão e da resignação perante a condição humana.
As desventuras do povo de Israel vão alterar este tipo de compreensão. A destruição da Nação, o exílio, a escravidão e o cortejo de misérias que se seguiram vão abrir o passo a uma literatura religiosa de características apocalípticas. O “povo eleito” só entende a ausência do favor de Deus se isso for passageiro e tiver outros responsáveis. Nos escritos Apocalípticos a salvação surge depois de uma derradeira batalha contra as forças do Mal e pressupõe um processo prévio de separação de águas entre o Mal e Deus. Este caminho faz-se dando autonomia ao Diabo.
A solução escolhida vai incorporar na religião de Israel influências de outras tradições em que o mal aparece como um princípio independente do bem. É facilmente visível a influência da religião do Zoroastro, em que a um Deus bom, Ahura Mazda, se opõe um Deus mau, Ahriman, que simbolicamente é representado por uma serpente e acompanhado por sete arqui-demónios: o erro, a heresia, a anarquia, a discórdia, a presunção, a fome e a sede.
Os textos apocalípticos vão explicar como é que os “filhos de Deus” se vão tornar seres maléficos gozando de livre arbítrio.
Estas histórias vão ter grande repercursão, embora sejam incorporadas de uma forma limitada no cânone bíblico. O “Livro do Apocalipse”, no Novo Testamento e algumas passagens do Antigo são registos desta influência.
Exemplo disso é a descrição da queda de Lucifer no “Livro de Isaías”: “Como caíste do céu, ó Lucifer, tu que ao ponto do dia tão brilhante? Como caíste por terra, tu que ferias as Nações? Que dizias no teu coração: subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima dos astros de Deus, assentar-me-ei no monte do testamento aos lados do Aquilão.
Subirei acima das alturas das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías: 14, 12-14).
É interessante ver o paralelismo da história com a lenda assíria que narra a queda de Anzu, o pássaro mensageiro dos deuses, que pretendeu derrubar o poder do Deus supremo, Enlil.
Anzul quis erguer o seu trono acima dos deuses. “Eu tirarei as tábuas dos destinados, eu dirigirei os decretos divinos, afirmarei o meu trono serei mestre das leis”.
Dentro desta literatura apocalíptica, são de realçar os vários livros de Enoch (Enoch Etíope e o Livro dos Segredos de Enoch, também conhecido como Enoch Eslavo) que vão falar do papel da luxúria, do conhecimento e do orgulho na queda.
Segundo os relatos, os anjos ter-se-iam apaixonado pelas mulheres humanas e dessas relações teria nascido uma raça de gigantes.
Não contentes com isto, os anjos teriam ensinado aos homens a ciência, a astronomia e a metalurgia, que estavam até então no segredo dos deuses.
Ao pecado do sexo, do conhecimento ter-se-ia juntado a vontade de revolta.
A presença discreta do Diabo, nos textos mais antigos da Biblia, é substituída por uma febre diabólica no Novo Testamento. O Diabo é aí nomeado 188 vezes (62 como Demónio, 36 como Satanás, 33 como Diabo, 37 vezes como Besta, 13 como Dragão, sete como Belzebuth).
A possessão diabólica torna-se mais frequente do que a constipação.
No Antigo Testamento só há uma referência lateral a um exorcismo (Tobias: 6, 8), mas trata-se de uma receita mágica primitiva para afastar os maus espíritos, deixar libertar no ar o cheiro de fígado de peixe queimado. Nenhum Demónio “decente” resiste a tal perfume.
Em compensação, no Novo Testamento, Jesus Cristo exorciza para todos os gostos e feitios: é individual, é em grupo, às segundas, quartas, sextas, sábados e domingos.
A terra onde aparece Cristo é uma terra povoada por demónios e tentações. Os escribas bíblicos estão obcecados por aquele a que chamam o “príncipe deste mundo”.
Cristo e Diabo chegam a ser para alguns teólogos medievais irmãos, filhos do mesmo pai.
De qualquer forma, a linha “oficial” da igreja permite pensar que só a existência de uma ameaça “sobre-humana” justifica que Deus envie o seu filho. Só uma pretensa origem “cósmica” do Mal justifica a natureza divina de Cristo. Esta interpretação exige uma releitura do Antigo Testamento e do episódio do “Pecado Original”.
A falta de Adão e Eva, ao comerem o fruto da árvore do conhecimento, deixa de ser própria, para ser resultado de uma tentação maléfica. A serpente, que no “Livro do Genesis” induz Eva a comer a maçã, tem de ser identificada com o “maligno”.
Nenhum texto do Antigo Testamento permite esta conclusão. A única passagem das “Sagradas Escrituras” que vai permitir esta ilação é o único texto apocalíptico que a igreja deixou entrar no cânone bíblico, o “Apocalipse de S. João o Apostolo”. Aí se diz: “E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama Diabo, e Satanás que seduz todo o mundo; sim, foi precipitado na terra e precipitados os seus anjos” ( Apocalipse: 12, 9).
Esta inflação do papel do Diabo contém o risco de tornar a religião cristã dualista. Atribuindo ao Bem e ao Mal origens sobrenaturais e a Deus e ao Diabo iguais poderes.
A predominância do Mal num mundo que Deus comanda é uma contradição insanável.
Deus é absolutamente bom, Deus é todo poderoso, então porque é que existe o Mal?

Aquilo que os teólogos calam, os selvagens perguntam. É pelo menos o que acontece a Robinson Crusoe, quando depois de explicar Deus a Sexta Feira, recebe em troca algumas interrogações.
Se o Senhor tem o poder de destruir o Diabo e quer destruí-lo, porque é que espera pelo fim do mundo?
A forma como os teólogos superam o dualismo é complicada e engenhosa.
No fim dos tempos o Mal será negado. Como não se pode negar o divino, isso significa que o Mal não faz parte do divino. E dado que em última instância o divino é tudo o que existe, então o Mal não tem identidade própria. Baseando-se na Filosofia grega, os teólogos concluem que o Mal é um “não-ser”, uma simples ausência de bondade. O Mal existe no cosmo, como os buracos do queijo Gruyère. Os buracos estão aí, mas simplesmente como não-queijo contido no queijo. Não têm qualquer existência independente do queijo. Não podem sequer ser comidos à parte.
Para Santo Agostinho – cuja metáfora usada é uma esponja, por desconhecimento do queijo Gruyère – o Mal é um não ser, e cria-se devido ao “livre arbítrio” que Deus permite à criatura criada. O Diabo era inicialmente bom, pecou por orgulho e revoltou-se contra Deus. O Senhor permite a falta ao Diabo, porque deu aos Anjos a liberdade de escolher.
Posteriormente, o Diabo convenceu a serpente que seduziu Eva, que comeu a maçã da árvore do conhecimento do bem e do mal, permitindo aos homens terem o livro arbítrio para fazer o bem ou o mal.
Deus permite que escolhamos o nosso lado. Para apenas salvar os seus.
As correntes gnósticas têm outro entendimento. O nosso mundo é mau porque o Deus que o fez é mau. A proibição que Ele decretou a Adão e Eva, interditando-os de comer os frutos da árvore do conhecimento, foi uma tentativa de manter o seu poder maléfico sobre eles. O que melhor do que a ignorância para manter o primeiro casal subjugado.
Séculos depois, os homens revoltados vão ver os anjos caídos com outros olhos. Pelo caminho passam centenas de anos de caça às bruxas e de autos de fé. Enquanto tem o poder, a igreja, dita de Cristo, vai queimando todos os que pensam diferente.
Da arte surgem Faustos e Don Juans. Pela sabedoria e pelo sexo, os homens vão-se libertar das grilhetas da religião, nem que tenham de vender a alma ao Diabo.
A partir do romantismo, escritores, poetas, artistas e filósofos vão dar uma outra perspectiva do Diabo. Num mundo mau, o revoltado é aquele que recusa o estado das coisas. Os anjos caídos são aqueles que tiveram a coragem de afrontar a tirania dos céus. Nos seus “Provérbios do Inferno”, William Blake denuncia: “as prisões são feitas com as pedras da lei, os bordéis com os tijolos da religião”.
O Deus dos ricos, aquele que vive num mundo de guerras e misérias, não é um Deus justo. Logo, não pode ser bom.
No pensamento romântico, o Diabo torna-se uma espécie de Prometeu agrilhoado. Condenado pelos deuses por ter tomado o partido dos fracos.
“A sua causa confunde-se com a da humanidade humilhada, sobretudo do povo, mantido em sujeição pelos representantes na terra do Deus tirano”, escrevia Max Stirner.
A revolta de Lucifer e dos anjos ganha contornos de rebelião, não é por acaso que o anjo mais inteligente da criação tem como divisa: “Non Servian”. Não servirás, nem amos nem senhores.
Mikhail Bakounine, filósofo anarquista, dá-lhe honras de primeiro revoltado: “Satanás é o primeiro livre pensador e salvador deste mundo. Ele liberta Adão e imprime na sua fonte a marca da humanidade e da liberdade ao fazê-lo desobedecer”.
O próprio Karl Marx não esconde, num poema da juventude, ser seu devedor: “Os vapores infernais sobem-me ao cérebro e invadem-me até à loucura. Até que o meu coração esteja completamente mudado. Olha esta espada: O príncipe das trevas vendeu-ma.”
A Praxis revolucionária está tão bem contida nas famosas “Teses de Feuerbach”, como no Provérbio do Inferno de William Blake que reza: “o que deseja e não age gera pestilência”.
A guerra dos anjos revoltados contra o poder de Deus é uma guerra perdida. Mas é um grito contra a adversidade.
Como escrevia Giambattista de Marino, no seu Satã, ”(…) e mesmo se tombarmos vencidos, ter tentado tão alto feito é ainda um triunfo…”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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10 respostas a Diabo na gaveta (artigo antigo reciclado)

  1. Ana Matos Pires diz:

    Mesmo a propósito, este post, e tudo por causa de uma pequena troca de impressões que tive esta tarde. Obrigada, Nuno.

  2. miriam diz:

    E há a morte lenta.sócrates e a respectiva camarilha (CIP,CAP,e restante bandidagem)jogam o papel de turcos…
    Queria realçar o bom trabalho do seu ex-camarada Eugénio Rosa sobre a privatização e os lucros liquidos que o Estado teria com as repercussões no OE e na vida das pessoas.
    http://resistir.info/e_rosa/privatizacoes_defice_orcamental_e_externo.html

  3. António Figueira diz:

    Nuno:

    O estudo atento do teu texto suscita-me uma dúvida: na frase “Segundo os relatos, os homens ter-se-iam apaixonado pelas mulheres humanas e dessas relações teria nascido uma raça de gigantes.” não deveria escrever-se anjos no lugar de homens?

    Quanto ao mais, a teodiceia é de facto um vasto problema… para os outros: a minha falta de sensibilidade metafísica torna-me incapaz de grandes reflexões sobre o tema, mas uma coisa parece-me certa: o mal em nós (o turco do Dostoievski) não pertence à mesma categoria do mal que se abate sobre nós (o exemplo clássico é o do terramoto de 1755, mas há muitos mais, evidentemente, a começar pela doença que há-de matar cada uma das nossas adoráveis pessoas). O famoso livrinho da Susan Neiman ajuda a arrumar as ideias sobre o assunto – e tu a desarrumá-las (criativamente): pôr as Teses sobre Feuerbach a par do William Blake é ousado, mas thought provoking; uma boa malha, portanto.
    Abraço, AF

  4. Joaquim diz:

    Af,
    Toda a razão

  5. Prakash diz:

    Como diz no texto “se o Diabo não fosse inventado, tinhamos de desistir de Deus”…portanto, o Deus não existe sem o Diabo…o bem não existe sem o mal…(o santo não existe sem o pecador…)…o futuro não existe sem o passado…a única realidade existencial é o PRESENTE….tudo o resto, quanto a mim, são construções humanas e, como tais, contingentes e relativas.

    Quanto à questão do pecado original, só se pode encontar…quem tenha perdido….no perder é que está o ganho! a um Céu (se é que existe…) dado, oferecido, é preferível, inquestionávelmente, um Céu conquistado…nem que para isso tenha de se passar pelo…Inferno;)

  6. p.porto diz:

    Excelente o seu texto. Parabéns.

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ana Matos Pires e P. Porto,
    Obrigado pelos elogios. Sabem sempre bem.

    Abraços,
    Nuno

  8. tenho uma versão da bíblia em banda desenhada…se quiseres

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Imaginas quem (Arbusto do Senhor ou sarça ardente?),
    Tenho umas três biblias sem quadradinhos. Mas posso fornecer-te o Capital em BD.

  10. simone diz:

    Deus existe com toda certeza, só que ele não obriga ninguém a acreditar nisso somos adultos e capazes de tomarmos decisões e posições da maneira como quisermos, assim como existe o bem também existe o mal,cabe a nós tomar um lado e pronto…

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