Uma história da net em 100 palavras

Há dias, aqui neste blogue, surgiu um comentário assinado Manuel Resende.
Como eu conheço um Manuel Resende, perguntei se era o mesmo; respondeu que sim.
Porque, por coincidência, fui ver, logo a seguir, uma peça traduzida por ele, perguntei-lhe se tencionava publicar essa tradução.
Respondeu-me: que tens tu a ver com isso?
Respondi-lhe, também desconversando: nem tu imaginas quanto!…
Dias depois, surgiu um novo comentário assinado Manuel Resende, afirmando que o comentário anterior não fora, na realidade, escrito por ele, e informando que ia publicar a tradução da peça que eu tinha visto.
Agradeci-lhe os esclarecimentos e a conversa acabou.

Em 300 palavras:
Há dias, aqui neste blogue, surgiu um comentário a um post da Marta Rebelo assinado Manuel Resende. Sucede que eu conheço um Manuel Resende que é tradutor e, como o comentário em questão evidenciava alguns conhecimentos filológicos (tratava da questão de saber se o francês “trouver” precede o provençal “troubadour” ou vice-versa), pensei que poderia ser ele o seu autor. Perguntei se era o caso e ele respondeu-me que sim. Isto foi numa quinta-feira e logo no sábado seguinte eu fui à Culturgest ver uma peça cuja tradução – descubro nessa altura – era também assinada Manuel Resende. Havia grandes hipóteses de se tratar do mesmo Manuel Resende (tradutor e recente comentador no 5 Dias) até porque a peça em causa era uma tragédia de Ésquilo e Manuel Resende (sabia eu) era conhecedor de grego (moderno). Porque a tragédia em questão – “Sete Contra Tebas” – não foi nunca, tanto quanto sei, publicada em português, perguntei-lhe – sempre em comentário ao comentário dele ao post da Marta Rebelo, que a net dá para estas histórias – se tencionava publicá-la. Foi com alguma surpresa que vi a resposta desabrida que ele me deu: “Não creio que isso seja da tua conta”, ou coisa parecida. Ora eu nunca fui íntimo do Manuel Resende, mas se uma característica ele tinha de que eu me lembrava era precisamente a gentileza de trato. Resisti por isso a mandá-lo para a tal parte, desconversando apenas, e em boa hora o fiz, porque Manuel Resende voltou a escrever, esclarecendo que o comentário anterior assinado em seu nome era uma impostura (o endereço de e-mail era realmente diferente) e respondendo, no tom cordato que seria legítimo esperar da sua parte, que tencionava de facto publicar a tradução em questão. Agradeci-lhe os esclarecimentos e fiquei a pensar no que podia dar esta história da net.

Retrospectivo:
Numa tarde do Verão de 1980, antes dos exames de Outubro do 1.º ano de Direito, procedi com o F. C., num apartamento da Praça Pasteur, em Lisboa, a uma troca que viria a revelar-se histórica: eu dei-lhe o “Aden-Arábia”, do Paul Nizan, e ele deu-me as “Considerações sobre o Marxismo Ocidental”, do Perry Anderson, numa edição da Afrontamento, com tradução de Manuel Resende. Sete ou oito anos depois, já licenciado e pós-graduado, estou eu em Bruxelas, funcionário europeu, quando o Miguel Portas, sempre à procura da adolescência perdida (ou apenas inexistente), se lembra de entrevistar, já não sei para que excelente órgão de informação, o Cohn-Bendit (à época ainda mais famoso que o seu amigo Bernard Kouchner), e pede-me a mim para pedir a um tal de Manuel Resende, com cadastro político no Porto e como eu em Bruxelas, para proceder aos necessários arranjos práticos. Vou então falar com o dito Manuel Resende (que mui sensatamente agradece e declina o convite) e guardo desse encontro a lembrança de um tipo gentil e interessante, mas pelos vistos pouco interessado em correr atrás dos fantasmas de Maio de 68 (guardo aliás, e para ser mais preciso, a lembrança de um tipo aparentemente “desinteressado”, no sentido que o Vaillant dá à palavra, mas posso estar a exagerar, porque não falei com ele mais de meia-hora). Depois disso, e enquanto trabalhei na Comissão Europeia, vi-o só mais um par de vezes; e por isso achei muita graça quando, vinte anos depois ou quase, li um comentário assinado com o seu nome no blogue em que escrevo. Seria ele? Era; e logo depois disso eu vou ao teatro, ver o Diogo Dória na Culturgest, e encontro o nome dele outra vez, como tradutor da peça que era representada! Agora, nenhum de nós está em Bruxelas: eu finjo que trabalho no privado, e acabo o doutoramento, e ele traduz literatura; conclusão magnífica para a história de um reencontro na net.

Dubitativo:
Alguém escreveu palavras duvidosas sobre a arte de trovar e procurar num comentário assinado com o nome de um tradutor meu conhecido – mas poderia alguém acreditar em tão duvidosas palavras? Fui ver, e perguntei, e responderam-me – que sim – mas poderia eu estar certo? Avancei no tempo: na Culturgest, obtive a prova: ouvi Ésquilo traduzido por quem antes esclarecera trovar e trouver, langue d’oc e langue d’oïl – mas seria suficiente? Na aparência não, porque depois ele perguntou “e tu com isso?” e aí eu duvidei outra vez: e eu, de facto? De facto, não era ele: ninguém de bestial a besta tão depressa, de gentil a brutal num comentário só; e afinal Ésquilo vai ser publicado.

Telegráfico (máximo 30 palavras):
Comentário 5dias assinado Manuel Resende. Mesmo Bruxelas? Sim. Vi-te ontem, vais publicar? E tu com isso? Muito, pá… Pá, “tu com isso” escrito por outro, vou publicar vou, obrigado, adeus.

Histriónico:
Não sabem a melhor: alguns vinte anos depois, encontro na net o Manuel Resende, da tradução de Bruxelas, lembram-se dele? Primeiro vejo o nome do gajo, pergunto és tu e ele diz que sim, é um espectáculo! Mas depois vou ao teatro e quem é que traduzia a peça? O Manuel Resende, pá! É pá, perguntei-lhe eu, tu vais publicar esta tradução ou quê e o gajo responde-me: o que é que tu tens a ver com isso? Incrível, não é? Mas não, afinal não era o gajo, porque ele depois responde outra vez e diz que aquela resposta não era dele, não é espantoso?, andava ali um caramelo a fingir que era o gajo!, a net é mesmo assim.

Misterioso:
Mão desconhecida assinou um comentário em nome de M.R., seria ele? A resposta veio que sim, mas ainda assim a dúvida ficou, porque pouco depois, numa noite escura e ventosa, junto ao templo onde em Olissipo são sacrificados os bois, ouvi invocar outra vez o seu nome, pela voz de um filho de Édipo, e, quando de novo lhe perguntei se era ele, levei uma resposta torta, que adensou a dúvida e o mistério, até que em seguida, como se fosse um raio de luz rasgando enfim a espessa treva nocturna, ele disse: “essoutro não era eu” e “eu sou este” e eu enfim acreditei.

Elegíaco:
Oh vida, as voltas que dás, desde os tempos em que, menino, trocava livros de Paul Nizan por outros de Perry Anderson até à noite em que vi Ésquilo, e por detrás desta vida um fio emaranhado, que passa pela Praça Pasteur, por Bruxelas e pela Culturgest (ao Campo Pequeno), e um mesmo tradutor, com quem falei uma vez e agora me aparece outra, não sei quantos anos passados, como que a pairar na etérea net!

Quadras ao gosto popular:
Abençoado aldrabão
que te fizeste passar pelo Manel:
sem essa usurpação
esta história não via o papel!

Um exercício de estilo
uma homenagem a Queneau;
uma história da net
que foi verdade e rimou.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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10 respostas a Uma história da net em 100 palavras

  1. cris diz:

    Muito bom post! 😀

  2. Fernanda Câncio diz:

    ena pá. isto é que é virtuosismo, antónio. apre, mesmo. nem sei para que casa de ilustres associados te hei-de propor — se, porventura, posso alcandorar-me à possibilidade de te propor para alguma coisa.

  3. António, apesar de o ler há já algum tempo, é a primeira e, provavelmente, a última que vez que comentarei um texto seu. Permita que lhe diga que não há na nossa esfera de blogues ninguém com esta sua veia.

    Notável a forma como neste jogo polémico de epítetos em que se tornaram os blogues, num nítido triunfo da forma sobre o conteúdo, o António consegue emprestar aos nossos olhos a irrupção frenética de uma interiorização de uma civilização quase caótica.

    O António é uma figura à parte. Absolutamente inspirador. Muito obrigado por estas constantes lições de sabedoria e sensibilidade.

  4. l.rodrigues diz:

    Lembrou-me um nariz.

  5. PiresF diz:

    Meu caro António Figueira!

    Neste tempo em que vivemos na ilusão que, o cinema e a televisão nos conferem sabedoria, e por isso, ler é uma perda de tempo e o nobre acto de conversar foi abafado pelo utilitário acto de falar, resta-nos, e falando da blogosfera, encontrar textos onde, não se disparam frases e bem poderiam ser conversas vagabundas se a modernidade e a cultura do ruído as não tivesse enterrado.

    Um abraço e obrigado.

  6. António Figueira diz:

    Obrigado a todos pelos comentários.

  7. oi esta peça e uma kurte

  8. Exta pexa e bueda kurte

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