Morrer pela Pátria

Adelaide, filha de Luís XV, sobreviveu (solteira) à Revolução. Com as suas irmãs (igualmente solteiras) Vitória e Sofia, era uma das “Dames de France”, cujos retratos se podem encontrar ainda em Versailles, nos aposentos que foram de Maria-Antonieta. As três velhas meninas, por mais que desgostassem da Pompadour e da Du Barry, amantes de seu pai, costumavam visitar na Champagne o “Castelo de La Bove”, da duquesa de Narbonne-Lara, antiga dama de honor de Adelaide – e amante também de Luís XV – e o caminho que então percorriam, por ser por elas percorrido, é chamado desde o século XVIII o “Chemin des Dames”.

Em 1917 – há 90 anos, portanto – uma das piores e mais estúpidas batalhas da Grande Guerra foi aí travada e ficou com esse nome galante e patético. Entre a Primavera e o Outono desse ano, morreram no “Chemin des Dames” para mais de 100.000 soldados franceses e 50.000 alemães. Para quê? Mesmo à luz dos estreitos objectivos militares da altura, para nada: a frente não mexeu, e 150.000 vidas (para mais, que não para menos) perderam-se em pura perda em meia dúzia de meses.

Era preciso avançar – diziam Nivelles e os outros generais franceses da altura – em vagas suicidas, contra as metralhadoras inimigas e os obuses amigos (lançados sobre as próprias tropas, para forçá-las a sair das trincheiras): na altura da ofensiva, caíam por minuto, em média, cem soldados. A ordem de combate proclamava: “l’heure est venue, confiance, courage et Vive la France !” ; mas os soldados acreditavam pouco nisso: o que lhes pediam era simplesmente a morte, sem nada em troca que se visse. Parece então que se esforçaram pouco, disseram Nivelles e os outros oficiais; deviam pagar por isso, pela falta de bravura no combate, por hesitarem em abrir o peito às bombas e à metralha, em suma, pela cobardia. Como não se podem fuzilar centenas de milhares de homens (até porque se fica sem exército), tiraram-se à sorte uns tantos, para dar o exemplo (já os romanos o faziam, conta Suetónio, é a origem da palavra “dizimar”). Era uma lotaria: quem perdesse era declarado cobarde e fuzilado pelos seus camaradas.

Aqui paro: quem quiser saber mais, e sentir melhor, que veja o “Paths of Glory”, do grande Kubrick, com o enorme Kirk Douglas e o não menor Adolphe Menjou (de 57, o filme de Kubrick saiu já em plena Guerra da Argélia, e foi considerado perigoso para o moral das tropas; os franceses só puderam vê-lo em 75 – e em Portugal também não creio que tenha sido exibido antes disso). “Paths of Glory” não se refere especialmente ao “Chemin des Dames”, nem a nenhum dos muitos motins da I Guerra (até os civilizadíssimos ingleses fuzilaram um miúdo de dezassete anos por “cobardia”), mas em geral à infâmia dos fuzilados “pour l’exemple”, designados pelos seus poltrões de oficiais – muitos dos que em Vichy iriam repor “l’honneur de la France”. No galante “Chemin des Dames”, há 90 anos, houve de tudo isso: ordens assassinas, resistência passiva, execuções “pour l’exemple”. No fim, a incompetência e o barbarismo de Nivelles ficou demasiado à vista e ele foi despachado para Argel (para ser substituído por Pétain), mas tarde demais, claro, porque ninguém ressuscitou por isso.

Em Itália, fuzilou-se ainda mais “por cobardia” do que em França; mas quem quiser ler uma história militar da Grande Guerra – a de John Keegan, por exemplo – há-de perceber que esse massacre foi uma inutilidade, que não havia meio de convencer um pobre siciliano ou calabrês a deixar-se matar pela glória dos Sabóias e dos seus oficiais piemonteses, e que, quando a frente se rompeu em Caporetto, o exército italiano se derreteu ainda mais depressa que a neve dos Alpes ao claro sol. Diz Negri algures que as vilas e vilórias italianas, em vez de terem todas o seu monumento aos mortos da Grande Guerra, deveriam antes ter um aos desertores, que foram os seus verdadeiros heróis; eu não iria tão longe, mas uma coisa parece-me certa: na Europa, do indivíduo e da razão, não há lugar para kamikazes, e ainda bem: viver a vida que temos vale certamente mais a pena que qualquer improvável paraíso.

Há poucos anos, o primeiro-ministro francês defendeu que era necessário reintegrar os soldados injustiçados, fuzilados por desobediência e cobardia, na memória nacional, e abolir de vez o opróbrio de que eles e as suas famílias foram vítimas, em nome de uma “justiça” cuja violência só rivalizava com a da própria Guerra. Por espantoso que possa parecer, a iniciativa foi ainda criticada por muitos, incluindo o então Presidente da República, e o perdão póstumo foi-lhes negado, porque seria um precedente para indisciplinas futuras. Este ano, há poucos dias, no “Chemin des Dames”, foi organizada uma vigília em honra desses mortos: os seus descendentes, muitos pela primeira vez, deram a cara e contaram as suas histórias de orfandade, de vergonha, de injustiça. Numa espécie de manifesto que lhes era dirigido, dizia-se: “Tenham orgulho nos vossos antepassados. Graças à sua acção contra a barbárie dos generais, eles salvaram a vida de outros soldados”. Também eles morreram pela Pátria.

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SEXTA | António Figueira
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17 respostas a Morrer pela Pátria

  1. Sérgio diz:

    Como diria o Rui Tavares, deste lado peca-se sem pecado…

    Caro António,
    Presumo que esteja em férias. Se assim, for, umas boas férias. Se a viagem for de estudo, bom proveito.

    Cumprimentos,
    Sérgio.

  2. Sérgio diz:

    Há ali uma vírgula a mais, bolas.

  3. António Figueira diz:

    Infelizmente as férias já acabaram – mas obrigado na mesma.
    Um abraço, AF

  4. Joss Van Aerts diz:

    Recomendo-lhe a história da I guerra mundial de Marin Gilbert, seguramente irá apreciar.

  5. Joss Van Aerts diz:

    MARTIN e não Marin como é óbvio..

  6. António Figueira diz:

    Obrigado pelos comentários – e obrigado pelo link no “Womenageatrois” (shall I say: thank you, fuckit?). Joss, o Martin Gilbert em causa é o biógrafo do Churchill? Vou espreitar; histórias militares da I Guerra Mundial eu só conheço a clássica, do Liddell Hart, e a do John Keegan – e tenho também uma, pequenina mas sumarenta (e ilustrada), do grande A.J.P. Taylor, de que também gosto muito mas que não é uma história militar em sentido estrito.

  7. FuckItAll diz:

    Ora essa, caro senhor, pode dizer tudo o que entender. Mas é uma honra e um privilégio que reivindico como meus parasitar vossos textos em vez de escrever os meus.

    Mais a sério, obrigada pela história e talvez valha a pena espreitar os textos do Ernst Junger, que deve ter sido o único soldado no terreno na I GG que aparentemente gostou imenso de lá estar.

  8. f. diz:

    chiça, antónio. tu envergonhas-me. escusavas de escrever textos tão bons só para me apoucar.

  9. Saboteur diz:

    Ide fazer as vossas apostas sobre o acto eleitoral no Spectrum!

    http://www.spectrum.weblog.com.pt

    Um fabuloso prémio está à vossa espera (para além do reconhecimento global de que és alguém com grande capacidade para sentir o pulso ao povo de Lisboa)

  10. Luís Lavoura diz:

    Um excelente post a exibir uma tragédia masculina, que felizmente hoje vai podendo cair no esquecimento.

  11. jpt diz:

    Ler este post foi saboroso e instrutivo.

  12. Van Aerts diz:

    Com o devido atraso confirmo-lhe que MG do livro que lhe referi é o biógrafo de Churchill e a editora é a esfera dos livros.

  13. António Figueira diz:

    Cara Fuckit,
    Ernst Jünger não li e não gosto. Eu sei bem que é preconceito puro, mas a conversa do “assim é que se conhecem os homens”, das virtudes do militarismo e das amizades viris incomoda-me muito, e o elogio da guerra, então, incomoda-me absolutamente. Mesmo para ilustrar uma época e uma mentalidade (a “revolução conservadora” alemã, chamemos-lhe assim por pudor), há muito mais interessante – Carl Schmitt, por exemplo. Não, acho mesmo que o Jünger is not my cup of tea.

    Cara f.,
    Bondade sua.

    Caro Luís Lavoura,
    Bem observada, a dimensão masculina da tragédia. Como dizia um antepassado meu já desaparecido e de quem eu gostava muito, “elas têm o período e nós vamos à tropa”. À chacun ses enmerdements.

    Caro jpt,
    Obrigado pelo simpático comentário.

    Caro Joss,
    Obrigado pela precisão.

  14. FuckItAll diz:

    Eu imaginava que não seria, estava a lembrar-me enquanto documento de um outro olhar sobre a dita guerra.

  15. António Figueira diz:

    Fuckit:
    Fair enough – e o meu preconceito, em qualquer caso, não passa disso mesmo, e é ilidível por eventuais provas em contrário. Mutatis mutandis, e sempre a propósito da Grande Guerra, também o facto de o Céline ter sido um salaud não impede o Voyage au bout de la nuit de ser um livro enorme.

  16. Luís Lavoura diz:

    António Figueira, a tragédia feminina não é (era) ter o período. A tragédia feminina era a maternidade. Era costume, nesses tempos infaustos, muitas mulheres perderem a vida ao darem à luz.

    Hoje também já não se ouve, felizmente, falar dessa tragédia, que nesses tempos era a “doença profissional” feminina por excelência.

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