Dizer mal, desporto nacional – ou a prosa neotrovadoresca no português contemporâneo

Quando há cerca de dois meses a Fernanda Câncio me dirigiu o colectivo convite de ser a «quinta-feira» do Cinco Dias, aceitei sem pensar, mas também a pensar nesta coisa magnífica que são as caixas de comentários. A Fernanda, vítima habitual dos predadores anónimos – e outros nem tanto – da blogosfera, dizia-me que a coisa habitualmente não corria mal. Mas a verdade é que no meu blogue (linha.de.conta) não há caixas nem caixotes, há um e-mail e quem quiser comentar, para lá comente.
Acontece que é diversão nacional dizer mal, sabe melhor ao palato verbal dizer mal do que dizer bem, e há alvos e alvos. É genético, séculos de herança cultural. Já os Trovadores, que tinham grande liberdade de expressão – comecem, então, as hostilidades: venham lá os «tiques de autoritarismo», a «intimidação» e a «crise da democracia», porque a autora até é socialista, e gostam tanto de, volta não volta, dizê-la menina de fretes e do aparelho –, e entravam em questões políticas, exercendo um destacado papel social desde os primórdios do século XII, elaboravam líricas composições trabalhadas, as «Mestrias», onde se incluíam as cantigas de escárnio e maldizer. Mais tarde a «classificação» mudou, e na literatura galaico-portuguesa os trovadores dividiam-se entre a lírica amorosa e a satírica – o escárnio e o maldizer.
Esta veia trovadoresca veio e ficou. «Trovador» é um francesismo, à época os poetas do norte da França eram conhecidos por «trouvère», cujo radical é «trouver», ou seja, achar. E isso, nós somos muito, com ou sem dotes de retórica e escrita: «achistas». Achamos muito, sobre tudo, sobre o nada que passa a ser qualquer coisa, mas sobretudo achamos mal.
Com esta liberdade sem fronteiras – ainda – que a blogosfera nos proporciona, o neotrovadorismo, na sua vertente satírica, ganha novo fôlego. São verdadeiros cânticos em caixas de comentários, em posts, de escárnio gratuito ou maldizer de borla.
E vem isto a propósito de quê? Da singela observação do comportamento dos frequentadores desta «casa». E de outras, naturalmente.
Eu, que não sou mais do que os outros, também digo mal. E gosto, às vezes gosto. Também sou «achista», não sou menos do que os demais. Porque carrego esse fardo genético. Por desporto, eu que nem vou ao ginásio por preguiça, não obrigada. Mas, continuo a dizer, estejam à vontade. Afinal, eu escrevo sobre sítios desconhecidos nesta metrópole agigantada, sobre a França que não interessa a viv’alma, sobre a diversidade em coisas mais prosaicas do que opções sexuais, ou, pecado mortal, sobre o aborto e dou vivas pela regulamentação – urra! – sem obrigação de olhar para a fotografia.
Se querem dizer mal, continuem. Se preferirem uma variação, bem. Justiça seja feita, por aqui no Cinco Dias há debates animados, com escárnio, enamoramento lírico, maldizer, amizade e veneno doseado – por quem, não sei; podia ser por nós, os cinco-dias-da-semana, mas de censores temos pouco. Justiça seja feita, há por aí muita gente com défice de pimenta na língua maternalmente aposta na infância.
Deixo uma pergunta, para efeitos de discussão, caso alguém queira discutir ou acender: entre o fadinho triste que nos veste a alma lusitana, e as cantigas de escárnio e maldizer dos idos mil e cens, quem é que vence a maratona?
Já dizia o Jorge Palma, esse grande Trovador, «Ai Portugal, Portugal, enquanto tu estás à espera, ninguém te pode ajudar»…

Sobre Marta Rebelo

QUINTA | Marta Rebelo
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