Dizer mal, desporto nacional – ou a prosa neotrovadoresca no português contemporâneo

Quando há cerca de dois meses a Fernanda Câncio me dirigiu o colectivo convite de ser a «quinta-feira» do Cinco Dias, aceitei sem pensar, mas também a pensar nesta coisa magnífica que são as caixas de comentários. A Fernanda, vítima habitual dos predadores anónimos – e outros nem tanto – da blogosfera, dizia-me que a coisa habitualmente não corria mal. Mas a verdade é que no meu blogue (linha.de.conta) não há caixas nem caixotes, há um e-mail e quem quiser comentar, para lá comente.
Acontece que é diversão nacional dizer mal, sabe melhor ao palato verbal dizer mal do que dizer bem, e há alvos e alvos. É genético, séculos de herança cultural. Já os Trovadores, que tinham grande liberdade de expressão – comecem, então, as hostilidades: venham lá os «tiques de autoritarismo», a «intimidação» e a «crise da democracia», porque a autora até é socialista, e gostam tanto de, volta não volta, dizê-la menina de fretes e do aparelho –, e entravam em questões políticas, exercendo um destacado papel social desde os primórdios do século XII, elaboravam líricas composições trabalhadas, as «Mestrias», onde se incluíam as cantigas de escárnio e maldizer. Mais tarde a «classificação» mudou, e na literatura galaico-portuguesa os trovadores dividiam-se entre a lírica amorosa e a satírica – o escárnio e o maldizer.
Esta veia trovadoresca veio e ficou. «Trovador» é um francesismo, à época os poetas do norte da França eram conhecidos por «trouvère», cujo radical é «trouver», ou seja, achar. E isso, nós somos muito, com ou sem dotes de retórica e escrita: «achistas». Achamos muito, sobre tudo, sobre o nada que passa a ser qualquer coisa, mas sobretudo achamos mal.
Com esta liberdade sem fronteiras – ainda – que a blogosfera nos proporciona, o neotrovadorismo, na sua vertente satírica, ganha novo fôlego. São verdadeiros cânticos em caixas de comentários, em posts, de escárnio gratuito ou maldizer de borla.
E vem isto a propósito de quê? Da singela observação do comportamento dos frequentadores desta «casa». E de outras, naturalmente.
Eu, que não sou mais do que os outros, também digo mal. E gosto, às vezes gosto. Também sou «achista», não sou menos do que os demais. Porque carrego esse fardo genético. Por desporto, eu que nem vou ao ginásio por preguiça, não obrigada. Mas, continuo a dizer, estejam à vontade. Afinal, eu escrevo sobre sítios desconhecidos nesta metrópole agigantada, sobre a França que não interessa a viv’alma, sobre a diversidade em coisas mais prosaicas do que opções sexuais, ou, pecado mortal, sobre o aborto e dou vivas pela regulamentação – urra! – sem obrigação de olhar para a fotografia.
Se querem dizer mal, continuem. Se preferirem uma variação, bem. Justiça seja feita, por aqui no Cinco Dias há debates animados, com escárnio, enamoramento lírico, maldizer, amizade e veneno doseado – por quem, não sei; podia ser por nós, os cinco-dias-da-semana, mas de censores temos pouco. Justiça seja feita, há por aí muita gente com défice de pimenta na língua maternalmente aposta na infância.
Deixo uma pergunta, para efeitos de discussão, caso alguém queira discutir ou acender: entre o fadinho triste que nos veste a alma lusitana, e as cantigas de escárnio e maldizer dos idos mil e cens, quem é que vence a maratona?
Já dizia o Jorge Palma, esse grande Trovador, «Ai Portugal, Portugal, enquanto tu estás à espera, ninguém te pode ajudar»…

Sobre Marta Rebelo

QUINTA | Marta Rebelo
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41 respostas a Dizer mal, desporto nacional – ou a prosa neotrovadoresca no português contemporâneo

  1. Não concordo que seja “desporto nacional”. Pensei assim muito tempo, mas depois de ir apra fora cheguei à conclusão que é “desporto humano”. O que pode ser desporto nacional é a lamentação, corolário do dizer mal. Também pode ser considerado desporto nacional o dizer mal de dizer mal. porque dizer mal, minha cara, isso não pode ser de maneira nenhuma um desporto nacional. Os holandeses, alemães, franceses, espanhóis, turcos, nigerianos, polacos, argentinos e gregos praticam-no. Isto dentro dos meus colegas. Ainda dentro dos meus colegas, apenas não ouvi os indianos e o checo (também cá está há pouco tempo) a dizerem mal dia sim dia não. Fora dos colegas directos ainda acrescento italianos, sérvios, russos, búlgaros, dinamarqueses, mexicanos, colombianos, belgas, sul-africanos e romenos. Aliás, dos que são colegas directos ou indirectos, apenas se safaram os checos, os chineses, os indianos e os japoneses.

    Se isto não tende a demonstrar que dizer mal é um hábito mundial, não sei o que o fará.

  2. jj diz:

    Eu, pecador, me confesso.

    Mas, como eu disse num comentário por aí, “… das duas uma, ou a Fernanda é uma pessoa espectacular e tem mesmo muita paciência para aturar este pessoal. Ou então também gosta da “brincadeira” e de entrar neste jogo do “toma e embrulha”, onde ela me parecer ser imbatível…”.

    Por mim, acho que é uma pessoa espectacular. Como, aliás, todos vocês e muitos comentadores que por aqui andam.

    Agora, já não concordo consigo quando diz que“… no seu blogue (linha.de.conta) não há caixas nem caixotes…”.
    Porque um blog não deve funcionar em circuito fechado, ou ser apenas bi-direccional, só fazendo sentido a partilha com todos os comentadores, de forma aberta, com a cumplicidade que melhor enfatiza o prazer dos bloggers.

    Por outro lado, a censura nem sempre é uma heresia democrática e o autor do blog pode sempre não publicar os comentários que entender, não sendo isto nenhum drama, sobretudo os dos comentadores que manifestamente pretendem atingir as pessoas na esfera da sua vida privada.

    E a Fernanda Câncio, que, de facto, é aqui estupidamente maltratada, só tem que fazer “delete”. Se bem que quando somos intelectualmente crescidos, só nos ofende quem nós deixamos e não quem quer.

    Por mim, à vontade, quando quiserem, força, censura para cima. Porque em vez de “amuar”, irei, antes, reflectir no que possa estar errado sobre o que comento, seja na substância ou na forma.

    E agora, como disse Fernanda Câncio, vou “destroçar”.
    Porque estou com fome e tenho que ir almoçar.

  3. Ana Matos Pires diz:

    “Destroçar e almoçar”… jj, fez um verso.

    Percebo o que quer dizer com isso do “só nos ofende quem nós deixamos” mas, por vezes, a estupidez, a burrice e o mau carácter são tais que irritam, enojam e, nesse sentido, são profundamente ofensivos.

    Bom, para rimar também, vou trabalhar.

  4. Marta Rebelo diz:

    Meu caro jj,

    Quando um entende a blogosfera e a «propriedade» de um blogue à sua maneira, é uma das coisas boas da vida, a singularidade da observação.

    Tem toda a razão, só nos ofende quem nós deixamos. Eu, como a Ana, fico profundamente ofendida com determinadas caracteristicas que, João André, sendo «do mundo» são também muito nossas. E sobretudo com a crónica mesquinhez e preocupação com o alheio, com o que não nos diz respeito. Ah, sem esquecer que uma grande parte dessas demonstração não revelam mais do que incapacidade de responder noutro registo, e isso, voltando ao jj, não é de pessoas «intelectualmente crescidas».

    Mas convivo com a normalidade possível com o escárnio, o maldizer, a ofensa e a gratuitidade da sua utilização.

    E mais uma coisinha: eu gosto muito da Fernanda e estou absolutamente solidária com ela (o «delete» não é automático, a publicação vem primeiro, mas os sistemas informáticos mudam-se…) mas sei bem que a Fernanda não precisa da minha defesa para nada. Embora a tenha!

  5. Marta Rebelo diz:

    «Revisão de prova»: Cada um…

  6. Marta Rebelo diz:

    «Revisão de prova 2»: grande parte dessas demonstrações… (prometo que vou responder mais devagar, doravante)

  7. Grande post. Cada um sabe de si, naturalmente, mas a meu ver o silencio e’ muitas vezes a unica reaccao a ter perante autenticas javardices que se veem nalgumas caixas de comentarios. Mas, repito, cada um sabe de si.

  8. jpt diz:

    O minha sra. outra vez com o infantario?
    A lingua materna ja aqui espliquei que nao nasci ca.
    Se dizer mal e um deporto nacinal v Excelencias concerteza que sao os vencedores.
    Quanto aos ataques pessoais pensso ter explicado no post dos sapatos que nao o era .Alias acredite ou nao fiquei a saber do facto que nao posso… falar pelo link ao correio da manha da DRa Cancio.

  9. jpt diz:

    JA agora justica feita ao Antonio Figueira os srs e sras andam sem grande assunto e a falar dos posts uns dos outros.o antonio figueira sempre fala de outros assuntos.
    Este blog e interressante mas agora precebo que existe mesmo uma certa prisao em falar sobre agenda politica.
    A excepcao da JAD que ja postou aqui sobre por exemplo joging…
    nao me posso alongar com ja percebi

  10. jj diz:

    Ana Matos Pires,

    Embora não haja nenhum complexo de culpa da minha parte (penso eu), também concordo que “mas, por vezes, a estupidez, a burrice e o mau carácter são tais que irritam, enojam e, nesse sentido, são profundamente ofensivos”, todos os conceitos que enumera são sempre, afinal, muitos relativos.
    Embora admita que alguns desses “maus carácter” que andam por aí, e que existem por todo o lado, sobretudo os que pretendem claramente atingir a Fernanda Câncio na esfera da sua vida privada. Mais uma vez a Fernanda, não falta muito e passo a ter direito a uma avença.

    Mas a rusticidade do discurso, o “não senso”, o bronco, a estupidez dissimulada de crítica incisiva, o uso da metáfora, o aforismo certeiro, também podem ser apenas uma forma retórica como método de instrumentalizar a provocação e não necessariamente a ofensa.

    E mesmo podendo sermos estúpidos, existe uma questão relevante.
    Já que, quando o somos, se por acaso o estivermos a ser, lá está a tal relatividade, o importante é que o que sentimos, sendo, de facto, muito feio se o que nos move é a ofensa gratuita.

    Espero que me tenha feito compreender.
    Sem complexos ou pretensões intelectuais, até por que, como deve reparar, eu sou dos mais broncos que por aqui ando.
    Apesar de não estar zangado com o mundo, como ainda há pouco li noutro blog (pena que nos comentários não seja possível funcionalizar os links), um comentador que ataca, forte e feio, o autor do Portugal dos Pequeninos, com este brinde: “… Cheira tudo a despeito e a uma zanga generalizada com o mundo, talvez por não lhe reconhecer o mérito que acha que tem…”.

  11. f. diz:

    ó jj, mas os links funcionam nos comentários, sim. faça copy paste e pimbas. bom, e estamos a falar de uma avença mensal? em euro, ou pode ser em camarões canibais?

  12. jj diz:

    Já tinha saudades suas…
    Acho que estou um pouco “bronco” nesta história dos links nos comentários.
    Vou ler os “russos” a ver se resolvo este défice informático.
    Melhor, vou ver onde me posso inscrever nas Novas Oportunidades. Acho que existem por lá cursos que ensinam estas coisas. Mas, e tempo para isso, afinal, passo a vida a recrear-me por aqui.

  13. jj diz:

    Ah…
    E quanto à avença eu dou uma borla, que para os amigos eu sou assim.
    E a Fernanda iria ter alguma dificuldade em conseguir camarões vivos e mais sabendo que se iam matar uns aos outros.

  14. Lololinhazinha diz:

    Caríssima Marta,

    Gostei imenso do seu post. É mesmo assim!! Vivam as cantigas de escárnio e mal dizer.

  15. Goios diz:

    Já tenho pensado nesta faceta maledicente dos portugueses, mas sendo eu português fico com receio de estar a maldizer se a denunciar…

  16. Marta Rebelo diz:

    Caro Tiago e cara Lololinhazinha, muito obrigada. Ainda bem que gostaram!
    Caro Goios, não tenha receio! Isto é-nos ancestral!

  17. papagajas diz:

    Já dizia o Jorge Palma´….

    É mesmo preciso ter mau gosto!!

    Os gostos musicais dizem muito sobre os individuos. Marta, Marta!

  18. jpt diz:

    Com tanta graxa. eu abria um sexto dia so para para o jj.
    a serio ele merece.

  19. Ana Matos Pires diz:

    jj, não tem que sentir qualquer complexo de culpa, pelo menos no presente caso.

    Sabe, tou um bocadinho farta dessa história de ser tudo relativo, desculpa muita coisa. E não é disto “… a rusticidade do discurso, o “não senso”, o bronco, a estupidez dissimulada de crítica incisiva, o uso da metáfora, o aforismo certeiro, também podem ser apenas uma forma retórica como método de instrumentalizar a provocação e não necessariamente a ofensa” que eu falo, ainda que só concorde consigo parcialmente. Um bronco é sempre um bronco, por exemplo.

  20. Ana Matos Pires diz:

    papagajas, há-de ir longe…

    jpt, tá um “coxinho” reverberante (e não é do seu português, que é perfeitamente entendível)

  21. jj diz:

    Para o jpt:
    Do que mais detesto na vida é dar graxa.
    E menos ainda de engraxadores, que são uma versão soft e dissimulada dos bufos.
    Antes, pelo contrário, gosto da irreverência e da provocação.
    E de alguma “parvoíce”.
    O que não significa que goste de parvos.
    Agora, não gosto mesmo nada é da ofensa gratuita.
    E anda por aqui quem a pratique.
    E neste contexto, apenas neste, até estou de alguma forma de acordo com a Marta Rebelo. Aliás, concordo com o que a Marta quanto ao conteúdo, apenas não concordando com a forma. Mas, o “entendimento que cada tem do seu blog” é com qual e temos que respeitar isso.
    Sendo assim, não só dispenso a minha “careta” neste excelente blog, como disse de forma tão simpática (mais graxa) o António Figueira, acho que é assim que se chama, que agora não me apetece ir lá cima confirmar, como acho que o meu amigo (ou amiga) aqui ficaria melhor que eu.

    Para a Ana Pires (e para a Marta Rebelo):
    Eu não disse que sentia qualquer complexo de culpa.
    Disse: “… Embora não haja nenhum complexo de culpa da minha parte (penso eu)…”.
    No fundo o que eu queria dizer, no contexto do meu comentário a que se refere, é que nem sempre a ironia e a provocação se devem confundir com ofensas.
    E, como tenho consciência de que, por vezes, tenho um discurso provocador, com uma linguagem desviada dum registo mais intelectual, a expressão é minha, e por isso, talvez, não “… revelando mais do que incapacidade de responder noutro registo…”, fazendo minhas as palavras da Marta Rebelo, quis deixar claro, mantendo a ironia, e a provocação, que nunca aqui quis ofender ninguém.
    Também não sentindo que alguém me acuse disso, sobretudo por parte da “mártir de serviço”.
    Achando mesmo que a Marta Rebelo, na parte em que se “enfileira” no “pelotão de defesa ” da Fernanda Câncio, bem que podia escrever outras coisas bem mais interessantes, a que, aliás, nos habitou, em vez de vir em defesa de quem, “penso eu”, não lhe pediu patrocínio.
    Ou seja, a Marta Rebelo bem que podia “destroçar” desta missão e ter falado de outros assuntos mais interessantes.

    E para o condomínio:
    Já agora, espero que o “condomínio” não me ofereça nenhuma “careta” porque eu iria recusar. Garantidamente.
    Podendo ficar sossegado, meu caro, ou cara, jpt.

    Aviso:
    Vou entrar de folga sabática.
    Portanto não perguntem por mim.
    Preciso de ler, pensar e dormir.
    E menos de escrever.

  22. jpt diz:

    Reverberante .
    peco desculpa dra pires…

  23. Artemis diz:

    Um post cheio de borbulhas….
    A Marta quer angariar polemistas aqui no 5 dias e ter as caixas cheínhas de comentários como a Fernanda. E aqui o pessoal mordeu o anzol.
    Não perceberam que esta “indignação” da Marta contra as críticas nas caixas de comentários serve um propósito: que escrevam críticas nas caixas de comentários dela!
    Qualquer publicidade é boa publicidade, n’est ce pas?
    A Clinique tem uma linha óptima para tratar da acne e já que a Marta gosta tanto dos franceses, que os leia e perceba como se constroem belíssimas polémicas. Argumentar e contra argumentar recorrendo à inteligência e à sabedoria é um óptimo passatempo, melhor do que agitar bandeiras nos comícios dos partidos. E outra coisa. O sentido de humor também é importante. Presumo que essa parte é aquela em que cita os Trovante e o Jorge Palma, não será?

  24. jj diz:

    Meu caro Artemis,

    Eu não iria tão longe.
    Mas bem que estou a (des)confiar.
    Não das “borbulhas, claro, porque todos nós já as tivemos. E eu não quero ir por aí.
    Além disso, como estou de “folga sabática” e disse que ia “escrever menos”, não me vou esticar.
    Também, os “intelectuais” costuma ser superiores a provocações, portanto talvez seja pouco sensato estar a perder mais tempo.

  25. Paulo diz:

    Excelente post Marta. eu também acho que sou achista. há e gosto do que a f. escreve.

  26. Marta Rebelo diz:

    Carrísmo Artemis,

    Na sua agitação e correria em dizer-me indignada e ávida por comentários aos meus posts – ai, ai.. – leu «Trovante» onde? Eu refiro-me, na ultima frase, ao «Trovador Jorge Palma». É que já que é para comentar e pretensamente argumentar e ensinar, sejamos rigorosos…..

    Ainda no âmbito do rigor: a Marta não se indignou, constatou; o Cinco Dias não precisa de angariação de «polemistas» por parte da Marta ou de qualquer outro «escritor», porque já os temos de sobra; a Marta é amiga da Fernanda, e acha uma maravilha que escrevam 500 comentários aos seus textos, desde que sem o nível costumeiro que certos «achistas» imprimem à coisa; quanto às borbulhas… a minha pele andou sempre benzinho, obrigada. Mas de facto a Clinique é do melhorzito que anda ai no mercado.
    è como diz; meu caro jj; borbulhas jà todos as tivemos!

  27. Lopes diz:

    Estou comovido.

    Senti-me obviamente visado com este texto, na medida em que fui dos “mal-dizentes” no que toca aos últimos esguichos de sabedoria que a Marta por aqui foi deixando.

    Reitero duas ideias que defendi previamente. Este blogue tem duas das mais brilhantes vozes do nosso panorama bloguístico, a Fernanda e o António. São quase que como um absoluto da expressão. A segunda é a de que a Marta não acrescenta qualidade alguma a este blogue. E, agora, minha cara, qual é o seu problema? Sim, agora que a almofada do ataque à voz colectiva – essa baça inquietação – foi calcinada, até porque nunca me insurgi contra o blogue, apenas contra o seus textos, continuo a ser “mal-dizente” apenas porque não gosto do que escreve? Porque raio compara o seu caso com o da Fernanda Câncio? Tanto quanto me apercebo, a Fernanda é atacada não pela qualidade do escreve, mas sim pelas ideias que defende. Correcto? Aliás, sou capaz de lhe apontar dois ou três de arqui-rivais da Fernanda nestas antiglosas da net que lhe reconhecem o brilhantismo da escrita. Mas tudo bem, no fundo somos sempre crianças a precisar de colo… Voltando a si. Feri de morte o seu percurso profissional e a sua altiva intelectualidade ao referir-me ao evidente (que a Marta é de facto uma cara do aparelho)? Até lhe digo mais, houvesse uma bolsa de apostas – daquelas como nas corridas de cavalos – sobre quem serão os futuros aríetes da política portuguesa e os rostos da nossa representação, e o meu dinheirinho cairia no seu número, minha cara. Veja bem o fantástico futuro que lhe auguro.

    Este seu desafabo – queria dizer devaneio – toldado com maneirismos dos melhores autopanegíricos, muito acrescenta à opinião que vou formando acerca da sua pessoa. Parece a vida esfumada no rosto de Eurídice, qual sabedoria volvida em estátua de sal. A autotransparência é uma ilusão e fonte da mais fatal das ilusões criadoras. Ainda bem que se imagina mestre do dom que consagra os Deuses, crendo ter enfim nos braços o segredo da vida que transporta sem ver que é ela que a transporta a si. Desfrute, então, ao som de outras cantigas declaradas ao luar por um qualquer embebecido e complacente trovador, o êxtase do seu incontestável e inimputável sucesso. Sim, mas não se iluda, por que os poetas agora são outros.

  28. jj diz:

    Não é que eu me divirto mesmo com este pessoal.

    Sobre o “comentário de Lopes”, engraçado que conheço é um “comissário” Lopes, e que agora já deve ter sido promovido, aquele anda lá pelas Nações Unidas e que é um tipo espectacular.
    Que grande lenga-lenga, ó comissário, perdão, meu caro Lopes.
    O facto de não ser nem académico nem intelectual, mas tendo um bocado a mania que acho que devia ter jeito para escritor, vai fazer com que vá perder tempo a perceber tão erudito texto.

    E agora vou dar “graxa” à Marta Rebelo, apesar de a achar ser um pouco para o intelectual, o que não faz muito o meu género, seja com “decote ou sem “decote”, atenção, sem ofensa, e sobre “decotes” foram vocês que andaram para ai a escrever.

    E, afinal, que mal tem isso de ser intelectual, a não ser, por vezes, viverem assim como que num mundo diferente, que não quero dizer superior.
    É que, em “Eu, pecador me confesso”, apenas discordo dessa treta dos comentários serem em estilo “di-direccional”.
    Porque um blog é isto, a cumplicidade e algum devaneio dos comentários de toda a comunidade, e não em “circuito fechado”.
    Quanto à “substância” do post, eu assinava por baixo, agora, não me dava era ao trabalho de fazer citações.
    Nem sequer do Jorge Palma que é um dos meus “vadios” favoritos e que faz parte da minha musioteca, ena, que palavra tão gira, não sei é se existe, receando bem que não.

  29. Marta Rebelo diz:

    Ao Senhor Lopes,

    Primeiro e destacado ponto: não sou sua cara. Quanto mais não seja, pela óbvia razão de que não lhe sou minimamente cara.

    Segundo: não acha presunção excessiva pensar que o texto que escrevi – e confesso ser-me absolutamente irrelevante o desagrado que em si provocou – lhe é, de alguma forma, dedicado?! Acha-se visado, acha mal, não tenho tendência para decorar nomes só porque sim, ou porque escrevem em caixas de comentários.

    Terceiro: como deverá adivinhar, a opinião que tenha sobre mim é-me também indiferente. A que deslindo da sua missiva de comoção também não é grande coisa.

    E, finalmente, quanto ao que augura para o meu futuro, e se me permite tamanho abuso, preocupe-se com o seu. É mal comum a preocupação excessiva com o passado, presente ou futuro alheios.

    Caro jj,

    Obrigada pela subscrição! Vou ponderar abrir a caixa de comentários do meu blogue. Afinal, como o Senhor Lopes diz, quem é que quer comentar os meus posts? Não há perigo!

  30. jj diz:

    Vocês não sabem e eu também não vou dizer. Mas eu já fui um tipo importante, a sério, mas agora apenas mantenho a altura e algum peso que procuro controlar, se bem que o colesterol também ataca os magrinhos, segundo já vi numa análises dum amigo, sim, porque eu não sou médico, nem enfermeiro, e dessas coisas percebo pouco, melhor dizendo, nada.

    Então, uma bela tarde, ou terá sido de manhã, já não me lembro, mas também não interessa nada ao assunto que aqui agora me trouxe, apesar de estar de licença sabática.

    E chegando lá ao balcão do atendimento, fazendo aquele papel de cliente mistério, não sei se já ouviram falar, mas é uma técnica de auditoria da qualidade atendimento dos serviços, parece que até lá o Granadeiro faz isso na PT, onde o esperto do Joe Berardo, olha este é que é um intelectual do caraças, que fala uma língua que acho que ainda não foi inventada e tudo, mas, dizia eu, cheguei ao balcão.

    Então, perguntei pelo “Senhor Lopes”, tal como a Marta se dirige aqui ao nosso amigo e simpático comentador, e de que me fez lembrar o tal comissário Lopes, mas que agora já não deve ser, só o sendo do nome, por já ter sido promovido. Mas, sei lá, também anda por aí quem mude de nome. Por exemplo, o Santana “Lopes”, ainda está por se saber, apesar de bem ter pesquisado, até nos “clássicos russos”, se o homem é Miguel Pedro de Santana Lopes ou se o “de” lá está por alguma razão, digamos, aristocrática.

    Já me perdi sobre o que estava a querer dizer… Ah, já sei, era sobre o “Senhor Lopes”. Então eu, cliente mistério, perguntei por tal senhor. E uma senhora do atendimento, acho que até se chamava Marta, mas não tinha nada com a Marta Rebelo, sei lá se tem, então o Telmo Correia também não disse na campanha para Lisboa que somos todos primos, então, fica a dúvida.

    E chamou a Marta pelo “Senhor Lopes” usando o tratamento de “ó Lopes” está ali uma pessoa para falar contigo. E sabendo eu que o “Senhor Lopes” era o chefe daquilo não gostei daquele excesso de confiança, de tal maneira, que fiquei um pouco fodido com aquela história, olha disse ali uma asneira, mas agora fica aí, que até dá significado à gravidade do assunto em questão.

    E a coisa podia mesmo dar para o torto porque, essa de tratar o superior hierárquico por “ó Lopes” não pode ser, ora essa.

    Se fosse agora, aquela Marta bem que se tramava na avaliação para efeitos de promoção, mas eu sempre fui um tipo liberal e até gosto de gente simples.
    É que o “Senhor Lopes era um homem com galões, mas a Marta também era uma funcionária simpática.

  31. jj diz:

    Então, “ó Marta”, já viu está ficar com comentários às resmas, como diz o Herman das “gajas”.
    O Herman, bolas, de quem me fui lembrar, o tipo está a ficar assim um bocado para o esquisito.
    Que disparate de comparação, peço desculpa, sobretudo à Fernanda Câncio.

  32. manuel resende diz:

    Trovador não vem do francês “trouvère” mas do occitano “troubadour” e “troubadour” não vem de “trouver” mas ao contrário. “Troubadour” vem do latim popular “tropare” que quer dizer compor “tropos”, peças cantadas em latim. Mais tarde, é que apareceu “trouver”, porque os “troubadours” eram muito inventões.

    “Trouvère” é o equivalente dos “troubadours” no francês de cima, na língua d’oil. Mas o nosso “trovador” descende directamente do occitano “troubadour”, repito.

  33. Lopes diz:

    Eu ainda nem acredito no que li, mas tudo bem.

    Ó Drª Marta, faça-me um favor, encolha as garras que eu já tenho quem me coce as costas, muito obrigado. Se a sua intenção era, por outro lado, fazer-me rir com cócegas, parece-me que o jj já se encarregou disso.

    Segundo, não acho presunção, não senhora. Estou certo de que terá lido o que tenho escrito sobre os seus textos. Ó Drª, até a pedante da Margarida Rebelo Pinto já percebeu que “não há coincidências” e vossa senhoria quer fazer de mim parvo, é?

    Terceiro, muito me apraz que a sua estirpe não goste de pessoas como eu. É sol retemperador que me bate na cara.

    Quatro, o meu futuro já é passado. Os meus dias são agora cada vez mais precários. O tempo não perdoa. Já V.Exa. tem toda uma vida pela frente. Aproveite e faça-se útil.

    Quinto, estou a borrifar-me para o seu blogue. Só soube da existência de tal diário aquando da entrevista que a Drª Marta deu ao Rolo Duarte. O que não significa que não soubesse já da existência da sua ilustre pessoa.

    Por último, não se preocupe que não volto a dirigir-me a si. Pena tenho que vá ficar este país entregue a estes “democratas” de ouvidos e de fígados muito sensíveis.

  34. António Figueira diz:

    És o Manuel Resende de Bruxelas?

  35. manuel resende diz:

    Sou.

  36. António Figueira diz:

    Olá. Fomos colegas, até 1996 (ainda lá estás?). Vi no sábado o “Sete contra Tebas”, tradução tua, creio; vais publicá-la? Abraço, AF

  37. manuel resende diz:

    Deves ter muito a ver com isso.

  38. António Figueira diz:

    Tenho, tenho, nem imaginas como nem quanto nem porquê.

  39. manuel resende diz:

    Coisa esquisita: o último comentário que aparece assinado por mim não é meu…

    Bem, respondendo como deve ser ao António Figueira: já não estou a trabalhar lá. Agora faço o que se chama “traduções literárias”.

    O “Sete contra Tebas” vai ser publicado, espero que ainda este ano. Um abraço

  40. António Figueira diz:

    Caro Manuel Resende,
    Obrigado pelos esclarecimentos – e um abraço para ti também.

  41. Joana Reis Páscoa diz:

    Cara Marta Rebelo:
    Data Venia confundir liberdade de expressão com injúria e insulto é próprio daqueles que não aprenderam ainda a respeitar, valorizar, promover e acarinhar a democracia(demo cracia).
    A Marta Rebelo, porventura pela sua tenra idade, revela, e revelou aqui, no seu subconsciente, que não respeita verdadeiramente a LIBERDADE. Aliás, não viveu nunca sem ela e talvez por isso não a consegue compreender em toda a sua amplitude. É que compreender a LIBERDADE e respeitá-la profundamente não se compadece com teorias livrescas. A liberdade e tantas outras coisas precisam ser vividas, experimentadas para poderem ser compreendidas.
    Eu e tantos outros cedo aprendemos é que é ter a Libertas quae sera tamen.
    Trazida à estampa esta minha nota introdutória queria dizer à Marta Rebelo que não consigo compreender a sua opção no seu blogue de não ter caixas de comentários abertos. É que isso costuma ser um sinal dos fracos, dos que temem a divergência de opiniões, dos que não costumam aceitar nas suas vidas diárias outras opiniões. Aprendi ao longo dos vários cargos que ocupei que os fortes, capazes e reconhecidamente competentes e cultos não temem nada disso, deixam as suas opiniões como se fossem um livro aberto. A Marta ainda aprenderá um dia que coisas como opiniões, textos científicos, comentários, discursos políticos, decisões políticas, a nossa capacidade de trabalho e a nossa competência são imediatamente reconhecidas pelos outros mesmo que os outros não gostem de nós. Não gosto do professor Cavaco Silva. Mas jamais serei capaz de ousar escrever que ele é o homem com menos capacidade de trabalho ou competência que conheço.Perguntará: mas não haveré quem seja capaz de escrever isso sobre o nosso PR ou muito pior só porque não gosta dele? Talvez, mas será uma minoria e é para esses casos que existem caixas de comentários moderadas que é coisa diferente de não permitir sequer a sua existência.
    Ter um blogue só para me ouvir e quiça esperar que algum jornalista leia e escreva sobre ele numa jornal nacional tem apenas dois nomes: pretensiosismo e a fraqueza.

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