Vícios privados, públicas virtudes

Às vezes bastam 30 segundos de imagens para que os disparates bem enterrados nas cabeças de alguns virem ao de cima. Repetem, sem saber, a célebre experiência de Pavlov, em que cada vez que as campainhas tocam, os cães salivam. Recentemente, apareceu na Internet um filme de promoção do cinema europeu. Durante meio minuto, podiam ver-se várias cenas tórridas. Apesar de alguns comentadores já terem idade para saber que não vieram de Paris numa cegonha, as campainhas e os sinos tocaram a rebate. Não houve jornalista, blogueiro ou comentador que não se escandalizasse com tal despautério. Aqui del rei que se arfava à conta do erário público. Gastar dinheiro a promover o cinema europeu, ainda por cima com cenas quentes, é um pecado orçamental imperdoável. Graças a Deus que há gente sempre atenta que vigia os nossos ecrãs e as camas de todo o mundo. Até porque campanhas como essa, já nos prevenia gente avisada, não são certamente inocentes. Estamos, provavelmente, perante uma obscura agenda fracturante e mais um despudorado ataque à família e aos bons costumes. Já se sabe, começa-se a ver sexo e acaba-se a contestar a propriedade privada. Tanto era o frisson purificador, tantos os isqueiros a pedir fogueira, que os argutos comentadores ladraram antes de verem. Até se percebe, o sexo costuma descompor os mais compostinhos. O problema é que parece, afinal, que a campanha de apoio ao cinema europeu não se esgotava no amor, nem era assim tão hard. Segundo se soube, foram produzidos quatro filmes temáticos sobre a Alegria, a Tristeza, a Amizade e o Amor. Neste último, é verdade, viam-se cenas de sexo de filmes de realizadores como Lars Von Trier, Bertolucci, Almodovar e Jeunet, do Fabuloso Destino de Amélie. Bons realizadores que, felizmente, não se ficaram pelo platonismo aconselhado por alguns e não tiveram de ir à comissão do visto prévio da censura.
Este episódio foi de facto um caso de argumentação precoce, a lembrar velhos tempos da outra senhora. Se os ditos comentadores estivessem com mais atenção, teriam reparado em mais uma ironia: os anúncios são construídos numa forma de citação ao filme “Cinema Paraíso”, em que o velho projeccionista da terra vai fazendo um filme com as cenas de beijos que o padre da aldeia mandava censurar. No fundo, no fundo, tão modernos e liberais comentadores, depois de quase 80 anos de progresso, reinventaram um padre censor do início do século XX. É caso para dizer: vícios privados, públicas virtudes.
Escrito para a Focus 404

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Vícios privados, públicas virtudes

  1. Totalmente de acordo. As reacções de virgens ofendidas de tanta gente fazem lembrar hipocrisias de outros tempos.

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