Jorge Palinhos: O dr. Teles e Melo e o site do governo da Finlândia

O dr. Teles e Melo sentou-se na cadeira com alguma elegância, atirando a aba do casaco para trás e puxando as calças para cima pelo vinco, não sem antes se certificar que a cadeira não teria borradelas de tinta ou pastilhas elásticas mastigadas. Depois olhou para o seu interlocutor com o ar mais neutro que lhe foi possível.
– Creio que não tenho grande coisa a apontar à sua sobrinha, do ponto de vista académico. A Leonor é a melhor aluna da turma… – disse a professora Sílvia folheando com ar nervoso o processo da menina.
O dr. Teles e Melo avaliou a figura enfezada da professora, de roupa larga e coçada e cabelo curto, sentada atrás da secretária do gabinete de atendimento da escola. “Bloquista, filiada na Fenprof, sem qualquer dúvida”, pensou. E, com certo pesar, relembrou a figura digna e respeitável do seu professor da primária, tão composto na sua pose, tão másculo na sua sexualidade, tão erudito nas suas palavras, tão firme na sua autoridade, tão exemplar nas suas ideias e no seu comportamento, e meditou como só professores como ele poderiam salvar o ensino da actualidade. Mas, delicadamente, e tendo em conta que estava ali apenas a fazer um favor à irmã, limitou-se a observar.
– Fico contente por sabê-lo. É uma alegria ser aparentado a uma jovem tão dotada e com um futuro tão promissor diante de si.
-Sim… – replicou a esquálida professora Sílvia ajeitando os óculos com um ar ligeiramente atrapalhado – não há dúvida de que as explicações particulares resultam… Mas, visto que o senhor não é um dos pais… Gostaria de lhe dizer que, na minha opinião, não valia a pena atulhar a menina já com explicações a português, matemática, história e geografia. Afinal, a Leonor ainda só está na primeira classe.
O olhar do dr. Teles e Melo tornou-se vítreo e ele moveu-se desconfortavelmente na cadeira. A professora Sílvia reparou e apressou-se a acrescentar.
– Não é que queira pôr em causa as opções dos pais… Só penso que uma menina de seis anos devia poder ter tempo para brincar.
O dr. Teles e Melo não se conseguiu conter.
– Brincar? A sr.ª d.ª professora Sílvia que me desculpe, mas brincar é uma coisa que ela já faz em demasia na escola. É por demasiados ludismos que os pais sentem necessidade de que ela tenha aulas a sério nos seus tempos ociosos.
A professora Sílvia mexeu-se, desconfortável, e tentou responder:
– Desculpe, eu…
– Sim – disse o dr. Teles e Melo já completamente embalado – Perdoe-me que lhe diga, mas a minha irmã, como muitas outras pessoas, já me tinha avisado de que a educação portuguesa estava transformada numa grandessíssima patuscada destinada em transformar a nossa juventude em gandáios deploráveis. Os petizes vêm para aqui e são obrigados a suportar jogatinas papalvas e pseudo-didácticas enquanto os professores fazem o papel de arlequins inúteis.
A professora Sílvia ficou rúbea como um pimento, mas algo no seu interior pareceu convocar o seu orgulho corporativo, pelo que interpôs:
– Desculpe-me, o senhor doutor, mas não concordo nada consigo. O que nós fazemos é tentar tornar o ensino mais apelativo para as crianças.
– Apelativo? – indignou-se o dr. Teles e Melo – Desculpe a sr.ª d.ª professora Sílvia, mas desde quando é que o ensino tem de ser apelativo? O ensino tem é de ser esforço e trabalho!
– Sim, é claro – insistiu a professora Sílvia quase a rebentar pelo esforço de o contradizer -, mas para as crianças se esforçarem e trabalharem têm de ter motivação para isso. Algumas, como a Leonor, são motivadas pela família, mas muitas outras não são, e é então que o professor que tem de fazer esse papel.
– Se me permite dizer isto, sr.ª d.ª professora Sílvia: bah! – exclamou o dr. Teles e Melo, deliciado – A melhor motivação é um bom exame. Como bem afirma o sr. dr. Paulo Portas, o que é necessário é ter exames todos os anos. E se fossem exames todos os períodos, então é que era o ideal. Há que seguir os exemplos dos países civilizados! Há que seguir o exemplo da Finlândia!
A professora Sílvia levantou o sobrolho.
– Não há exames na Finlândia.
– Não interessa. – retorquiu muito depressa o dr. Teles e Melo, ligeiramente inseguro quanto a este ínfimo pormenor – Há uma cultura de exigência e rigor, em que não se tolera o erro e se separa o trigo do joio.
– Na Finlândia o que eles fazem é deixar os alunos corrigir os seus trabalhos as vezes que quiserem até ficarem bem e dão aulas de apoio aos alunos mais problemáticos de modo a promover as mesmas oportunidades para todos – disse, com esforço sobre-humano, a professora Sílvia.
Houve um longo silêncio no gabinete enquanto o dr. Teles e Melo ponderava aconselhar a irmã a mudar a Leonor de escola. Mas, magnanimamente, o dr. Teles e Melo optou por dar uma última hipótese à professora.
– Posso saber onde que a sr.ª d.ª professora Sílvia foi buscar tais… informações?
– Aos relatórios da OCDE e ao site de internet do governo finlandês.
O dr. Teles e Melo deu uma risada.
– Ao site de internet… Olhe, sr.ª d.ª professora Sílvia, aceite o meu conselho e não perca tempo a ler ignorantes. Leia os artigos da prof.ª dr.ª Maria Filomena Mónica, do prof.ª dr.ª Nuno Crato, da prof.ª dr.ª Fátima Bonifácio, do dr. José Manuel Fernandes e até mesmo do dr. José Miguel Júdice. Esses sim, pessoas que sabem do que falam. Tenha uma boa tarde, sr.ª d.ª professora Sílvia.
E o dr. Teles e Melo virou costas e saiu do gabinete, ainda rindo interiormente: “Site do governo finlandês! Com professores que se cultivam a ler balelas na Internet, como é que podem querer que os alunos aprendam!”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Jorge Palinhos: O dr. Teles e Melo e o site do governo da Finlândia

  1. ezequiel diz:

    Caro Nuno

    Não me interpretes mal. Tenho gostado de ler sobre as tototonices do Dr. Teles mas, se me permites…

    Já estigmatizaste a persona Teles com aquela coisa fatal para qualquer narrativa: previsibilidade. Isto está muito anacrónico. Tresanda a guerra fria. Podes enveredar por um revivalismo matreiro que invoca um futuro passado (? uhh), por exemplo, uma crise existencial provocada por consumo excessivo de MDMA (Teles, converte-se ao Maoismo, percorrendo o caminho inverso de alguns personas fantásticos). Acaba no movimento LGBT? Melhor. Teles é violentado pela Filismina, que sub-repticiamente escapa ao olhar pan-óptico do Dr, e consome o MDMA por ele adquirido. eh ehe heh eh eh

    Estou só a chatear…

    🙂

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