Filipe Moura:o meu voto em Lisboa

Falar sobre eleições, mantendo-se independente, por vezes é complicado. Não quero usar este espaço para criticar candidatos à Câmara de Lisboa (mesmo aqueles que dizem que se houvesse mais como eles, haveria menos carros, mas numa entrevista publicada pouco tempo antes de as eleições terem sido convocadas afirmam tranquilamente que só andam de transporte privado dentro da cidade: boleia ou táxi. Desculpem mas não resisti).
Mas o sentido do meu voto está decidido, e eu não vou escondê-lo, até porque é sobre ele que eu vou falar. Nestas eleições vou votar na CDU. Não tenho e nem nunca tive nenhuma ligação ao PCP ou a nenhum outro partido e, talvez por isso mesmo, ao contrário da maioria dos blógueres de esquerda, não acho que este partido tenha “lepra” e sei reconhecer o mérito do trabalho dos seus eleitos. O meu voto nestas eleições é na CDU (como noutras é noutros partidos) por achar genuinamente que esta é a melhor candidatura, a que melhor serve os lisboetas, embora não seja a única boa opção (não teria problemas em votar noutras candidaturas, e acho que os lisboetas não se podem queixar de falta de boas alternativas). Mas, vejam bem, o meu objectivo com este texto é mesmo criticar a campanha desta candidatura (e não fazer campanha por ela, algo que não seria adequado neste espaço – e nem eu o faria).
A verdade é que a campanha da CDU é má, e não tira proveito nenhum dos seus candidatos. A desorientação desta campanha começa pelo slogan fácil e estereotipado, “CDU – força alternativa”. Mas alternativa a quê? O PCP não é e nunca foi “alternativo”. Quem vota no PCP não está à procura de uma “alternativa”: está à procura daquilo que o PCP sempre foi, e que em termos de trabalho nas autarquias sempre foi muito bom. “Alternativo” é o Bloco de Esquerda. Se isto continua assim, algum dia temos comida vegetariana ou japonesa e cerveja com sabor a pêssego na Festa do Avante! Começamos mal.
Um dos principais motivos para o meu voto é mesmo o candidato. Em qualquer inquérito, em qualquer pergunta que lhe seja feita, vê-se imediatamente que Rúben de Carvalho, para além de ser um homem de cultura (no verdadeiro sentido da palavra), é um lisboeta autêntico, que conhece a cidade e gosta dela como poucos. É de esquerda e tem uma cultura de esquerda como nenhum dos outros candidatos apoiados por partidos de esquerda (não necessariamente “candidatos de esquerda”) tem. E conhece bem a Câmara (sem ser responsável pelo descalabro a que lá se chegou). Não é nenhum pára-quedista: é um candidato natural, e um excelente candidato. O PCP sempre se viu como um “colectivo” e sempre recusou qualquer protagonismo individual. Faz parte da cultura do partido, e só quem o conhecer (ou, pelo menos, quem tiver lido uns livros do Álvaro Cunhal) a poderá entender. Creio sinceramente que Rúben de Carvalho representa uma mais-valia da CDU nestas eleições (como o era, ainda mais, por exemplo Carlos de Sousa em Setúbal há dois anos). Mais-valia que não está a ser usada de todo na campanha. Será que o PCP quer ficar à vontade para poder substituir o candidato, mais tarde, depois de ele ser eleito? Esperemos que não seja esse o caso.
O pior aspecto da campanha da CDU reside, a meu ver, numa confusão deliberada entre a política nacional e a política autárquica. O PCP aposta em capitalizar algum descontentamento popular com as políticas do governo, e se tiver um bom resultado vai com certeza falar em “derrota do governo”. Esta é uma aposta errada por duas razões. A primeira é que o descontentamento popular talvez seja mais aparente do que real, principalmente entre a população residente em Lisboa. Talvez o tiiro lhes saia pela culatra. Independentemente dessa circunstância, e mais importante ainda: estas são eleições locais, que nunca devem ser confundidas com eleições nacionais. É perfeitamente possível (e muito frequente) votar-se na CDU nas eleições autárquicas e apoiar-se, pelo menos na generalidade, as políticas no governo.
Vou votar na CDU e espero que tenham um bom resultado mas, no caso de este não ser atingido (ou seja, se pelo menos não se mantiver a vereação actual), a culpa será só do PCP e da sua estratégia.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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17 respostas a Filipe Moura:o meu voto em Lisboa

  1. “É perfeitamente possível (e muito frequente) votar-se na CDU nas eleições autárquicas e apoiar-se, pelo menos na generalidade, as políticas no governo.”

    Ai se o Comité Central sabe!

  2. corvo diz:

    Chegamos as estas eleições intercalares porquê?

    Por incompetencia e negócios mal explicados de Carmona Rodrigues, e do PSD.

    Só que Ruben de Carvalho durante a campanha tem ajudado a branquear Carmona Rodrigues, aliás com a cumplicidade de Costa e de Roseta.

    E no debate de ontem isso foi flagrante.

    Ruben de Carvalho foi uma oposição envergonhada a Carmona Rodrigues.

    Querer premiar Ruben por este conhecer os dossiers, é para mim uma justificação pouco objectiva, quem está na Camara ininterruptamente há quase 20 anos o estranho seria se não os conhecesse.

    O que é de admirar é Ruben de Carvalho ter tido conhecimento de muitos erros crassos, de muitos negocios mal explicados, de muitas obras que se revelaram autenticos desastres, e nunca ninguem o ouviu dar dois murros na mesa e dizer basta.

    Mas cada um deve votar segundo as suas exigências.

    Eu como sou exigente voto naquele que cumpriu , que teve a coragem de denunciar as negociatas, e está a pagar e de que maneira esse arrojo

    José Sá Fernandes.

    Como dizia o outro a cada um o seu candidato.

  3. corvo diz:

    Por curiosidade aquele que assina Filipe Moura vota em Lisboa, ou em Odivelas, é perto mas não é Lisboa.

  4. Luís Lavoura diz:

    Quem foi o candidato que disse só andar à boleia ou de táxi? (Pergunta sincera: não sei quem foi, e gostaria de saber.) Pode o Filipe esclarecer, por favor?

  5. O Filipe Moura, que assina Filipe Moura, vive e vota em Lisboa, e não deve satisfações nenhumas ao a.pacheco que assina corvo.

    Luís, é esse mesmo, o “que faz falta”, “se houvesse mais”, etc. Foi numa entrevista à “Notícias Sábado” (creio que foi a esta revista), há poucos meses atrás.

  6. FuckItAll diz:

    Filipe, eu, que se ainda votasse em Lisboa votava no RC, tenho que concordar consigo, o candidato não está a ser rentabilizado como podia. Mas entrei aqui mesmo só porque não resisto a comentar o detalhe: há muitos anos que há comida vegetariana na Festa do Avante. É para que veja ao que isto chegou…

  7. corvo diz:

    Fiquei siderado com as suas palavras, mas quem sou eu para discordar de tão douta opinião.

    E aqui assumo o meu erro de avaliação, por ter menosprezado as excelsas qualidades do millitante do PCP, Ruben de Carvalho como grande organizador de ARRAIS e BAILARICOS.

    Há hoje o TIC ainda está a decidir se leva ou não a julgamento o dono da BragaParques.

  8. corvo diz:

    O que anda de bicicleta e de taxi, cumpriu o seu dever de cidadão e de vereador, denunciando uma tentativa de suborno, Domingos Nevoa vai a julgamento…

    E com ele lá se vai a credibilidade de Carmona e de quem o tentou branquear nestas eleições.

  9. António Figueira diz:

    Corvo amigo,
    Vou já acender uma vela a esse cidadão e vereador impoluto, bicicletista e justiceiro, e espetar mil agulhas nesse outro vereador branqueador, militante do PCP e organizador de ARRAIAIS E BAILARICOS (assim mesmo, com maiúsculas).
    Ele há doenças infantis que nos perseguem pela vida fora…
    Saudações lisboetas, AF

  10. Luís Lavoura diz:

    Filipe Moura, obrigado pela resposta.

    Entretanto, eu não entendo como pode louvar o bom trabalho de Ruben de Carvalho. Sabendo que ele esteve na Câmara nos últimos 20 anos, ou 10 que fossem, ele terá observado como surgiram os atuais profundíssimos problemas financeiros de que ela padece. Poderá ter visto como as receitas previstas nos orçamentos não se concretizavam, enquanto que a despea se mantinha constante. Como é que ele não disse nada? Como é que ele deixou chegar a Câmara de Lisboa a este miserabilíssimo estado, sem nunca ter alertado o povo?

    Aliás, se a suposição é que Ruben de Carvalho esteve na Câmara nos últimos 10 anos, então a coisa fica ainda pior, porque se assume que ele colaborou com os despautérios nas gestões ditas de “esquerda”.

    Ao menos António Costa teve a honestidade de compreender que era necessário o PS romper com o seu passado, alijando uma data de pessoal que esteve ligado às gestões “socialistas” anteriores.

  11. O Rúben esteve na câmara nos últimos dois anos. A CDU esteve doze no poder (coligada com o PS), entre 1989 e 2001, que creio terem sido os melhores para a cidade (embora nem tudo estivesse bem quando perderam em 2001 – mas houve alguma renovação da equipa). Não creio que tenham sido coniventes com nenhuma maioria de direita.

  12. corvo diz:

    Só posso aconselhar ao Filipe Moura que vá ver a biografia do seu candidato o Ruben de Carvalho, é que essa de dizer que o sr, só esteve na camara nos últimos dois anos , é de antologia.

    Já agora pergunte-lhe como vai a LX Desporto, e o lugarzinho que o Carmona preparava, para a excelentissima esposa do sr. Ruben de Carvalho, nessa novel empresa municipal

    Com se vê tudo boa gente…

  13. Que eu saiba, o Rúben só é vereador há dois anos. Ou estou muito enganado? Ainda há dez tinha sido candidato à Câmara de Setúbal.
    Há gente que já lá está há mais tempo, como a Rita Magrinho, mas houve outros que se afastaram, como o António Abreu ou (infelizmente) o Rego Mendes e o Rui Godinho.

  14. Manuel Costa diz:

    Quem aprovou em Assembleia Municipal o negócio da Bragaparques que propôe a troca dos terrenos do Parque Mayer pelos terrenos da Feira Popular?
    – PSD, CDS, PS, BE
    Quem recusou esse negócio por prejudicar gravemente os interesses da cidade e pôs o caso em tribunal, fazendo com que Carmona Rodrigues fosse constituido suspeito (ou arguido?)de crime, levando à sua queda e à marcação das actuais eleições?
    – A CDU

  15. corvo diz:

    Manuel Costa, quem pôs a acção no Ministério Publico a denunciar o negócio da permuta da parque Mayer com a Feira Popular tem um nome.

    José Sá Fernandes.

    E que me conste foi vereador independente nas listas do Bloco de Esquerda.

    E deve perguntar aos seus amigos do PCP, é porque apesar do que dizem ,NUNCA arriscaram a mandar o processo para o Ministério Publico.
    É que em Portugal felizmente há quem decida agir mesmo que isso tenha consequências, e há quem se fique só pelo trinta e um de boca.

    2 notas

    Antonio Abreu está neste momento bem empregado ,e com um bruto ordenado na Camara PCP do Barreiro, depois de ter tido um TACHO na Camara de Sintra, gentilmente oferecido pelo Seara do PSD, pela prestimosa colaboração que o PCP lhe deu no primeiro mandato, foi uma excelente bengala .

    Ruben de Carvalho está ligado á Camara de Lisboa há muito tempo.

    E não como diz só nestes ultimos dois anos, aí tem de pedir informações ao sr.Ruben de Carvalho.

  16. Manuel Costa diz:

    Sr. Corvol, das duas, três! Ou anda cego ou enganaram-no ou então, com todo o respeito, é mentiroso!

  17. Lorenzetti diz:

    Continua o incompreensível direito de voto exclusivo em Lisboa dos residentes em Lisboa.

    Sendo que residir em Lisboa é cada vez mais raro, como se sabe, relativamente ao número de pessoas que aí vivem todo o dia, porque aí trabalham, estudam, ou porque passam aí quase todo o seu tempo.

    Todos aqueles que penam no IC19 ou na autoestrada Cascais-Lisboa ou na Ponte 25 de Abril, Vasco da Gama e afins passam o seu dia em Lisboa.

    Muitas vezes mal conhecem o sítio onde vivem, desde os vizinhos a quem é o presidente da Câmara, para não falar no — nunca soube quem é, nem de que partido é — presidente da ‘junta’.

    No entanto, não votam em Lisboa.

    A mesma Lisboa onde fazem tudo, onde gastam e ganham dinheiro, que conhecem melhor que o concelho onde vão dormir.

    O que leva L. a pensar se os resultados eleitorais em Lisboa não serão injustos, errados e inúteis.

    Pelo menos enquanto os universitários e restantes estudantes, e todos os que ‘dormem’ fora de Lisboa, que trabalham em Lisboa, aqueles cujo BI não diz Lisboa em ‘residência’, não votarem em Lisboa.

    Porque vendo bem, são eles que vivem — e que são — a Capital.

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