Dois mil anos de férias

No aeroporto em que eu cheguei houve um acidente, faz dois anos agora. Segundo as conclusões de um inquérito realizado entretanto, na construção de uma das áreas de circulação de passageiros, não foi devidamente levado em conta o efeito que a diferença de temperaturas entre o exterior e o interior da aerogare exerce sobre os materiais. Terá sido esse efeito térmico que, ao provocar uma retracção da estrutura metálica, deixou o cimento desarmado e originou a queda de uma secção da cobertura de uma área de passageiros, que causou seis mortos. Cinco foram imediatamente identificados; o sexto estava irreconhecível, sabendo-se apenas que se tratava de uma mulher, que viajava sozinha, num vôo em proveniência da Ucrânia e com um passaporte da República Checa, que tinha um visto de longa duração para os E.U.A.. As autoridades checas informaram, no entanto, que o passaporte em questão tinha sido roubado alguns meses antes e que a sua titular estava viva e de boa saúde em Praga e a polícia francesa também já anunciou ter abandonado quaisquer investigações destinadas a descobrir a identidade da sexta vítima do acidente. Felix qui potuit rerum cognoscere causas.

Num museu alemão, entre éne outros quadros, este: numa vasta sala, algumas dezenas de homens em camisa e mangas de alpaca, com as barbas e bigodes em uso no final do século XIX, sentados em frente de secretárias perfeitamente alinhadas, olhavam com atenção para uma parede onde eram projectados múltiplos textos manuscritos, que depois copiavam com penas que se adivinham ágeis. Sob o quadro, a legenda: trata-se de uma celebração, no caso dos progressos da fotografia e da microscopia, que permitiram, circa 1880, um extraordinário desenvolvimento das comunicações: graças a eles, cada pombo-correio podia agora transportar, em cada viagem que fazia, milhares de mensagens, que eram para esse efeito reduzidas fotograficamente à partida para serem depois ampliadas, projectadas e copiadas à chegada por homens em camisa e mangas de alpaca. Há 120 anos, mais ou menos três gerações atrás, um I-Phone ainda podia partir uma asa. Sic transit gloria mundi.

Praga faz-me lembrar Nova Iorque, ou certos momentos em Praga fazem-me lembrar outros passados em Nova Iorque, porque a luz era igual e o cenário era parecido. À esquina de uma rua (shall we call it Národní Street?) falta um prédio a um quarteirão, é como uma boca escancarada a que foi arrancado um dente, e no lugar dele há um buraco enorme, um estaleiro para a construção do dente novo. Ao lado desse buraco, ficam a ver-se as paredes dos outros prédios, amarelas, a brilhar à luz do fim da tarde; a atmosfera está serena e o movimento das pessoas é suave. Percebo que estou longe e, como quase sempre, gosto da ideia. Quando eu passei três semanas em Nova Iorque em casa do C., abri uma vez a janela das traseiras e descobri um outro mundo, do lado de trás do quarteirão enorme onde a casa ficava, uma espécie de quadrado com alguns quinhentos metros de lado, e achei graça ao barulho dos putos e ao espectáculo das escadas de serviço, que me pareceu saído de um filme, igual aos que eu tinha visto do lado de cá do Atlântico, e que eu registei de propósito na minha memória, como se a minha retina fosse uma máquina fotográfica – seguramente para depois o poder comparar com Praga. Em ambos os casos, eu gozo a calma que a distância oferece, sem ocupação certa, sem conhecidos à vista e sem um lugar a que possa chamar meu, nenhuma concessão à sedentariedade, sempre de um lado para o outro, a escrever postais para os outros e a jogar o grande jogo comigo próprio. Respiro fundo. Claro que depois o sol se põe, a luz desaparece e mais tarde ou mais cedo eu chateio-me com alguém e acabo por estragar tudo; mas guardo de qualquer modo para o porvir a lembrança destes minutos de paz, solidão e bem-estar quase absolutos, para uso em dias mais comuns.

Na Národní eu ponho-me a falar sózinho, como se estivesse a fazer uma voz off de um filme, os passantes olham-me por cima do ombro e eu estou-me nas tintas para eles; nisto invento uma teoria – a teoria da verosimilhança – que apaga a diferença entre a língua falada e escrita e assim tudo o que eu digo passa a ser uma legenda do cinema interior que eu faço. Distância, eu quero distância quando falo, ou calor quando escrevo, o calor do que realmente acontece, histórias verosímeis e imperfeitas como só as há na realidade. Eu digo isto alto e ninguém me percebe: será que é só por serem checos? (Impõe-se uma nova teoria – a teoria da incomunicabilidade, versão radical). Ao longo do rio com um nome difícil, enquanto a noite cai e as ruas pouco a pouco ficam sem gente, desprendido de todas as merdices que nos dias comuns me envenenam a existência e livre como só poucas vezes consigo estar, eu ponho-me a fazer cinema, filmes que infelizmente não poderei partilhar com ninguém, obras simples da era da sua impossível reprodução técnica.

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Dois mil anos de férias

  1. jj diz:

    “Em ambos os casos, eu gozo a calma que a distância oferece, sem ocupação certa, sem conhecidos à vista e sem um lugar a que possa chamar meu, nenhuma concessão à sedentariedade, sempre de um lado para o outro, a escrever postais para os outros e a jogar o grande jogo comigo próprio. Respiro fundo. Claro que depois o sol se põe, a luz desaparece e mais tarde ou mais cedo eu chateio-me com alguém e acabo por estragar tudo; mas guardo de qualquer modo para o porvir a lembrança destes minutos de paz, solidão e bem-estar quase absolutos, para uso em dias mais comuns.”

    E como a noite, a esta hora, nos faz abrir “ a janela das traseiras” na companhia de uma solidão que nos conforta, e que estranhamente nos faz companhia, divagando por esse “outro mundo”.

    E como acabo percebendo que, também eu, “estou longe”, procurando qualquer coisa que não percebo, mas sentindo “minutos de paz, solidão e bem-estar quase absolutos”.
    Que me transportam para aqui, ouvindo coisas antigas, e tentando discernir sobre a melhor forma de me servir deste tempo, tão precioso, e tão íntimo, “para uso em dias mais comuns”.

    E procurando encontrar o caminho para me sentir “desprendido de todas as merdices que nos dias comuns me envenenam a existência e livre como só poucas vezes consigo estar”.

  2. f. diz:

    hum, antónio. falando de passada larga…

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