Sorte ao jogo

Eu tenho muita sorte ao jogo, de maneira que, para evitar bocas foleiras, não jogo, ou melhor, só jogo quando é de borla ou quando a tal sou obrigado. Há uns anos, tive de entrar numa tômbola de Natal, daquelas que os diplomatas inventam para fingir que trabalham, a favor já não sei de que causa benfazeja, e ganhei o segundo prémio, uma semana de férias na Bulgária (o meu Embaixador da altura, com um sentido de humor peculiar, perguntou-me se o primeiro prémio era só um fim-de-semana). Há dias, fui com o meu filho Manel à Feira do Livro, comprei um livro qualquer na Cotovia, tive direito por isso a entrar num concurso e recebi uns dias depois um e-mail a dizer que tinha ganho uma cabazada de livros. Fixe. Fui buscá-los na sexta-feira à tarde: tratava-se de ficção, cinco autores brasileiros contemporâneos, para mim todos absolutamente desconhecidos. Com a família a banhos, escolhi um ao acaso para ler na sexta à noite, na casa vazia. Comecei a seguir ao jantar, acabei sábado antes de almoço – um unputdownable, portanto. O autor chama-se Bernardo Carvalho (escolhi-o, devo confessar agora, porque tenho um sobrinho com esse nome) e o livro intitula-se “O sol se põe em São Paulo”. É muito recomendável: não o digo para trocar gentilezas com a Livros Cotovia (“there are no free books”, diria o Prof. César das Neves) mas porque é mesmo: uma história bem urdida (que pouco tem que ver com S. Paulo, diga-se de passagem), labiríntica, matemática, xadrezística, que evoca o melhor Borges, o das “Ficções” e especialmente d’”O jardim dos caminhos que bifurcam” (e que, como ele, também se situa no extremo-oriente, não na China mas no Japão, neste caso o estranho Japão dos paulistas de origem japonesa, o que só acrescenta à sensação de dépaysement, se me é permitida a expressão). Para além disso, o livro é um tesouro de citações: como o autor é profissional da prosa (jornalista), tem o verbo fácil, a frase normalmente curta mas sempre bem talhada e com grande capacidade de arremesso: na página 81, um personagem diz, já não sei se a propósito do Brasil ou do Japão, que “quanto menor o país, menos se dizem as coisas na cara” (o que diria ele de Portugal?); nas páginas 114 e 115, alguém lembra que “de nada adianta fugir para o outro lado do mundo, para viver debaixo do sol, porque a sombra estará sempre no nosso encalço” (uma experiência que este vosso humilde blogger pode pessoalmente atestar, ao cabo de três países diferentes, embora nenhum particularmente ensolarado); e finalmente, na página 68, a minha preferida: “Se você não percebeu a graça, é porque já faz parte da comédia”. Fora Marx brasileiro e não acharia melhores palavras para contar essa tal de alienação.

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SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Sorte ao jogo

  1. Luís Lavoura diz:

    Já que faz propaganda, permito-me também propagandear um livro, “Burros sem Rabo”, de um autor português cujo nome me escapa, sobre portugueses adversários da ditadura refugiados no Brasil durante o tempo de Salazar. É um livrinho pequeno mas muito denso e divertido, também cheio de coisas curiosas.

  2. Sérgio diz:

    Isso sim, é sorte.

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