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Sorte ao jogo

29 de Junho de 2007 por António Figueira

Eu tenho muita sorte ao jogo, de maneira que, para evitar bocas foleiras, não jogo, ou melhor, só jogo quando é de borla ou quando a tal sou obrigado. Há uns anos, tive de entrar numa tômbola de Natal, daquelas que os diplomatas inventam para fingir que trabalham, a favor já não sei de que causa benfazeja, e ganhei o segundo prémio, uma semana de férias na Bulgária (o meu Embaixador da altura, com um sentido de humor peculiar, perguntou-me se o primeiro prémio era só um fim-de-semana). Há dias, fui com o meu filho Manel à Feira do Livro, comprei um livro qualquer na Cotovia, tive direito por isso a entrar num concurso e recebi uns dias depois um e-mail a dizer que tinha ganho uma cabazada de livros. Fixe. Fui buscá-los na sexta-feira à tarde: tratava-se de ficção, cinco autores brasileiros contemporâneos, para mim todos absolutamente desconhecidos. Com a família a banhos, escolhi um ao acaso para ler na sexta à noite, na casa vazia. Comecei a seguir ao jantar, acabei sábado antes de almoço – um unputdownable, portanto. O autor chama-se Bernardo Carvalho (escolhi-o, devo confessar agora, porque tenho um sobrinho com esse nome) e o livro intitula-se “O sol se põe em São Paulo”. É muito recomendável: não o digo para trocar gentilezas com a Livros Cotovia (“there are no free books”, diria o Prof. César das Neves) mas porque é mesmo: uma história bem urdida (que pouco tem que ver com S. Paulo, diga-se de passagem), labiríntica, matemática, xadrezística, que evoca o melhor Borges, o das “Ficções” e especialmente d’”O jardim dos caminhos que bifurcam” (e que, como ele, também se situa no extremo-oriente, não na China mas no Japão, neste caso o estranho Japão dos paulistas de origem japonesa, o que só acrescenta à sensação de dépaysement, se me é permitida a expressão). Para além disso, o livro é um tesouro de citações: como o autor é profissional da prosa (jornalista), tem o verbo fácil, a frase normalmente curta mas sempre bem talhada e com grande capacidade de arremesso: na página 81, um personagem diz, já não sei se a propósito do Brasil ou do Japão, que “quanto menor o país, menos se dizem as coisas na cara” (o que diria ele de Portugal?); nas páginas 114 e 115, alguém lembra que “de nada adianta fugir para o outro lado do mundo, para viver debaixo do sol, porque a sombra estará sempre no nosso encalço” (uma experiência que este vosso humilde blogger pode pessoalmente atestar, ao cabo de três países diferentes, embora nenhum particularmente ensolarado); e finalmente, na página 68, a minha preferida: “Se você não percebeu a graça, é porque já faz parte da comédia”. Fora Marx brasileiro e não acharia melhores palavras para contar essa tal de alienação.

Comentários

Comentário de Luís Lavoura
Data: 29 de Junho de 2007, 10:02

Já que faz propaganda, permito-me também propagandear um livro, “Burros sem Rabo”, de um autor português cujo nome me escapa, sobre portugueses adversários da ditadura refugiados no Brasil durante o tempo de Salazar. É um livrinho pequeno mas muito denso e divertido, também cheio de coisas curiosas.

Comentário de Sérgio
Data: 29 de Junho de 2007, 21:43

Isso sim, é sorte.

Pingback de cinco dias » Cinco passos de dança
Data: 18 de Janeiro de 2009, 3:01

[...] está essa meritória instituição chamada Livros Cotovia, por via das quais conheci em 2007 Bernardo Carvalho e agora, na passagem de 2008 para 2009, com muitos de anos de atraso sobre o calendário ideal mas [...]