Da cegueira ideológica

Depois de ler este post de Henrique Raposo gostava de lhe corrigir algumas palavras:

Chomsky nunca branqueou o genocídio no Cambodja. Ele apenas afirmou que a divulgação pela a imprensa dos massacres horrendos dependia também das afinidades ideológicas. Para demonstrar isso provou que as notícias saídas na imprensa de referência nos Estados Unidos da América sobre o criminoso massacre dos khmers vermelhos eram centenas de vezes mais frequentes do que as notícias sobre o massacre dos timorenses perpetrado pelos indonésios. As centenas de milhares de pessoas massacradas nestes dois países eram vítimas de um horror inqualificável. Condenável da mesma maneira. Chomsky tinha razão sobre isso. Raposo, como de costume, não.

Adenda ao post:

Chomsky condenou o massacre dos Khemers vermelhos. Não gostando muito do que escreve esse autor, aqui deixo a sua resposta a essas críticas (não dá trabalho pode ser lida na Wikipedia).
” ‘Chomsky responde aos seus críticos, tais como Anthony Lewis, então colunista do New York Times, que acusou Chomsky de fazer apologia do Pol Pot. Chomsky dizendo que ele sempre reconhecera as atrocidades e a opressão desse regime, por exemplo, afirmando no início do livro “Depois do Cataclisma” que “não há dificuldades em documentar as enormes atrocidades e opressão (sofridas pelos cambojados por parte daquele regime), primariamente testemunhadas por refugiados'”.

Reparo agora que Raposo altera o sua posição inicial, afirmando que por “branquear” entendia aquela palavra mais vinte que não escreveu que explicitavam o seu post. Era como se eu dissesse que “o Raposo era um ladrão” e depois viesse a explicar que, por “ladrão”, eu queria dizer que o Raposo nunca fanou nada. Como de costume sou eu o culpado da escrita à la Raposo.
Como o Henrique Raposo não tem caixa de comentários ( gosta da democracia só nos outros) deixo aqui a resposta.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

42 respostas a Da cegueira ideológica

  1. Isso e toda a gente se esquecer ou nunca se informar que quem parou o genocídio no Camboja foram os ateus vietnamitas vermelhos que tiveram que invadir o país vizinho para parar o massacre…

    http://en.wikipedia.org/wiki/Khmer_Rouge

  2. António Figueira diz:

    Alguém ainda se lembra quem é que em Portugal fazia manifs de solidariedade com o “Kampuchea democrático” (= khmers vermelhos) e contra os horríveis vietnamitas? Muitos amigos de Raposo, por certo…

  3. Daniel Marques diz:

    e que tal ler o artigo:

    http://www.chomsky.info/articles/19770625.htm

    O que é certo é que num artigo onde é exaustivamente é negada a veracidade de noticias saídas na imprensa não existe uma única linha onde se aponte responsabilidades ao regime de Pol Pot. Ora isso é exactamente o que se chama “branquear”. O Henrique Raposo não usou a palavra “negar”.

  4. Luís Lavoura diz:

    Eu, que já fui um leitor assíduo de Chomsky, por acaso já discuti este assunto com uns tipos de direita, e devo dizer, Nuno, que eles me convenceram, apresentado-me diversas citações de Chomsky que, de facto, na prática, eram desculpabilizantes.

    É claro que Chomsky mais tarde corrigiu o tiro e passou a culpabilizar os Khmers Vermelhos. Mas durante algum tempo branqueou os seus crimes.

  5. Pingback: blogue atlântico » Blog Archive » Pol Pot é mau, mas a América é ainda pior

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Interessantes criticas, como de costume negam a verdade: Chomsky condenou o massacre dos Khemers vermelhos. Não gostando muito do que escreve Chomsky, aqui deixo a sua resposta a essas críticas (não dá trabalho pode ser lida na Wikipedia).
    Chomsky responde aos seus críticos, tais como Anthony Lewis, então colunista do New York Times, que acusou Chomsky de fazer apologia do Pol Pot. Chomsky dizendo que ele sempre reconhecera as atrocidades e a opressão desse regime, por exemplo, afirmando no início do livro “Depois do Cataclisma” que “não há dificuldades em documentar as enormes atrocidades e opressão (sofridas pelos cambojados por parte daquele regime), primariamente testemunhadas por refugiados”.

    Reparo agora que Raposo altera o seu post inicial, afirmando que por “branquear” entendia aquela palavra mais vinte que não escreveu que explicitavam o seu post. Era como se eu dissesse que “o Raposo era um ladrão” e depois viesse a explicar que, por ladrão, eu queria dizer que o Raposo nunca fanou nada. Como de costume sou eu o culpado da escrita à la Raposo.
    Como o Henrique Raposo gosta da democracia, mas só nos outros, e não tem caixa de comentários, deixo aqui a resposta.

  7. E’, no minimo, um pouco ridiculo alguem que tem um blogue queixar-se da opcao legitima do outro quanto a ter ou nao comentarios. Quer responder? Escreve em post. Ou escreve um email. Nao tem blogue? Cria um blogue.

    Isto faz-me lembrar a historia dos cisnes brancos e do cisne negro. Para haver “branqueamento”, basta que, nalgum momento, de forma suficientemente grave, tenham existido comentarios, directos ou indirectos, que sejam, na pratica, um branqueamento do assunto referido. Por exemplo, nao seria dificil, pelas suas “simpatias” e falta de critica, apontar uma serie de coisas que, na pratica, sao branqueadas por Mario Soares.

    Ninguem disse que Chomsky “negou”, nem sequer que “continua a branquear” os massacres no Cambodja. Acontece que ha’ certas coisas que sao de tal modo graves que basta uma pequena ocorrencia para justificar um rotulo forte e definitivo. Chomsky, em tempos, branqueou essa situacao, e isso e’ o bastante.

    Imagine que um tipo, muito “democratico” em tudo o resto, tinha um dia feito um comentario que branqueava ou relativizava o regime nazi ou o regime salazarista, tendo depois mudado de opiniao. Nao continuaria isso a ser, anos depois, ainda significativo?

    PS: regista-se ainda que o “espirito democratico” de NRA o leva a alterar o final do seu post inicial. Onde tinha “Henrique Raposo nao e’ honesto intelectualmente”, agora tem “Henrique Raposo nao tem razao”. Passa de um julgamento de caracter para um julgamento de ideias. O que demonstra, claro, o caracter de quem o faz.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Sim, é verdade. Postei e minutos depois alterei isso e outras partes do post. Achei que tinha exagerado e corrigi. O que é que isso tem que ver com democracia?
    Tiago, eu não concordo com o que escreve, mas o meu “espirito democrático” acha normal que me possa responder e comentar. Percebeu?

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Tiago,
    Finalmente, Chomsky nunca branqueou o regime cambojano, ao contrário de liberais de gema como alguns ex-maiostas da nossa praça, no artigo em que ele é acusado disso começa por afirmar os crimes de Pol Pot. Poupe-me ao Popper.

  10. Achar X normal, num dado contexto, nao implica que nao-X, noutro contexto, seja necessariamente criticavel. Mas filosofar sobre os comentarios na blogosfera seria uma historia interminavel.

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Tiago Mendes,
    Nisso tem você inteira razão. Eu só pretendi dizer que não é verdade que Chomsky não tenha condenado o horrível regime do Cambodja. E sempre lhe digo que sem estas pequenas polémicas a blogosfera não tinha graça. É isto que permite que, apesar de eu não o conhecer, tendo você posições tão diferentes das minhas, eu o leia. Como você é uma pessoa inteligente não dou o tempo por mal empregue.

    Um abraço

  12. Tambem acho que sem algumas pequenas ou grandes polemicas a blogosfera perde a graca.

    E’ possivel branquear-se e condenar-se a mesma coisa, sem contradicao, em diferentes momentos do tempo. Alias – e nisso concordamos, seguramente -, alguns liberais de gema, ex-maoistas, sao o melhor exemplo de como cada pessoa e’ sempre um livro em aberto. Os cisnes “nao” sao, claro, mencionados com o que quer que tenha a ver com epistemologia. Era apenas uma forma de dizer que ha’ nodoas que nao se esquecem – ou melhor, que nao se devem esquecer.

  13. f. diz:

    nuninho, com licença. também não acho bem essa cena de criticares as pessoas que não têm comentários nem isso me parece ter seja o que for a ver com democracia. democracia, as i see it, é aceitar a diversidade de opiniões e dialogar com elas desde que possível, não tendo a pretensão de as elidir. não me parece que isso tenha um cabelo a ver com caixas de comentários, muito francamente.

  14. Luís Lavoura diz:

    Gostei deste último comentário do Tiago Mendes, em que ele lembra os atuais liberais que foram maoistas e diz que há nódoas que não se devem esquecer. Muito bem, Tiago!

    E isto, claro, também se aplica a Chomsky, infelizmente para mim.

  15. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Câncio,
    Estamos nessa matéria em completo desacordo. Para mim, blog sem caixa de comentário é notícia sem direito de resposta. Acho que uma das vantagens da internet, sobre os meios clássicos, é permitir esta possibilidade imediata. Apenas defendo que nas caixas de comentários sejam impedidas mensagens insultuosas.
    Finalmente, acho que algumas pessoas que tiram a caixa de comentários fazem-no por que se acham acima da todo o mundo. Estão-se totalmente borrifando para a opinião dos outros.

  16. Havera’ imensas razoes para nao permitir comentarios. As do Pedro Mexia, que actualmente, e no contexto actual em que escrevo, subscrevo, sao estas:

    http://foradomundo.blogspot.com/2005_06_01_archive.html#111983222905746763

    Sempre tive comentarios abertos no meu blogue pessoal (www.aforismos-e-afins.blogspot.com), pelo que estou particularmente ‘a vontade para falar disto. La’ conversava-se – como aqui no 5 Dias – e isso era bom. Noutros blogues raramente se conversa e abrir os comentarios serve de pouco mais do que “parecer” que se e’ muito aberto ‘a critica, quando de facto nao existe qualquer coisa que passe muito para alem do comentario que se deixa num W.C. , como diz o Pedro Mexia (e isto nao e’ desprezar certos comentarios ou dizer que sao insultuosos, apenas que sao insuficientemente interessantes para justificar outras coisas que podem acontecer numa caixa aberta, sem moderacao – e a moderacao de comentarios da’ um trabalho significativo, como todos sabemos).

    Para alem de dar a cada um o direito de escolha, ‘a partida, e sem critica (isto e’, aceitando, mesmo sem as saber, as motivacoes de cada um para essa escolha soberana), ha’ contextos e contextos.

    A titulo de exemplo, deixo um principio simples: quanto menor for o “ritmo” de um blogue, mais atraente/valiosa e’ a escolha de abrir comentarios, porque se pode discutir, voltar atras, acompanhar uma conversa, etc. Quanto mais rapido for o ritmo de um blogue, mais provavel e’ que os comentarios nao passem de pancadinhas nas costas ou de insultos. Como ha’ muita coisa em jogo, e’ natural que vejamos, para alem de tudo o resto, uma diversidade grande na blogosfera em relacao a isto.

  17. Num blogue como o 5 Dias, onde se escreve relativamente pouco, mas muito bem, e’ particularmente valioso poder comentar. Noutros blogues onde se escrevem posts diariamente ‘as dezenas, a impossibilidade de comentar nao e’ (para alem de ser legitima) assim tao custosa, mais ainda quando falamos de bloggers, como o Nuno, que tem um espaco para escrever e comentar. Nada disto significa que eu ache que a possibilidade de comentar nao e’ valiosa e que e’ inteiramente susbtituivel pela possibilidade de postar. Nao e’. Acontece que considero isto tudo subsidiario face ‘a escolha de cada um, cujas motivacoes (ainda que eu as tente encontrar ou as conheca de fonte segura) sao, para mim, ‘a partida com um axioma: aceita-se e pronto. Cada um sabe de si.

  18. RAF diz:

    Pergunto ao NRA, se os que estiveram na primeira linha de apoio à guerra do Iraque, mesmo depois das evidências da sua inadequação terem vindo a público, vierem agora condenar a intervenção militar, merecerão de V. Exa. a mesma complacência que o Sr. Chomsky?

  19. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Tiago Mendes,
    Os seus argumentos são interessantes e admito que as pessoas possam inibir os comentários por boas razões que desconheço.
    Defendo que na internet deve-se tentar caminhar para aproveitar as potencialidades democráticas do meio. Os comentários são, na minha opinião, uma excelente possibilidade. Naturalmente que cada tipo de blog atrai diversos tipos de comentadores. Se nos especializamos em pequenas provocações é possível que recebamos, em troca, provocações sem graça. É, em geral, o que acontece com a democracia: dá-se voz a toda à gente e alguns dizem disparates. Gosto muito de ler o Pedro Mexia, assim como o meus amigo Ivan, mas estou ciente que eles são profundamente elitistas e não estão nada interessados em permitir que outros lhes respondam ao mesmo nível. Não deixam de ser inteligentes por isso, não estão é interessados em ouvir um outro qualquer.
    Penso que num blogue de discussão política, que não é o caso dos blogs do Pedro Mexia e do Ivan, isso é um contra-senso. Eu vejo estes espaços como sítios de discussão e não locais de panegíricos.

  20. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Raf,
    Uma discussão implica ouvir o outro.
    Eu nunca disse que o Chomsky apoiou os massacres de Pol Pot e depois mudou de posição e por isso devia ser absolvido. Eu escrevi que Chomsky desde o primeiro minuto condenou os massacres no Kampucheia, mas que assinalou que a visão dos massacres, por parte da imprensa norte-americana, dependia do alinhamento ideológico. Só assim se justificava que, enquanto condenavam JUSTAMENTE o massacre no Cabodja, silenciavam o massacre em Timor. Não creio que esta afirmação seja um branqueamento. Chomsky não negou o massacre do Kampucheia, as autoridades dos EUA é que durante anos foram cumplices do massacre dos timorenses.

  21. “Penso que num blogue de discussão política, que não é o caso dos blogs do Pedro Mexia e do Ivan, isso é um contra-senso. Eu vejo estes espaços como sítios de discussão e não locais de panegíricos.”

    Percebo o que o Nuno diz. Nao vejo um blogue como uma coisa ‘a partida catalogavel. Um blogue, mais que tudo, e’ uma coisa que se constroi e que vai adquirindo uma certa identidade. Nao e’ por ter pessoas X, intencao Y ou falar de temas A, B ou X que um blogue e’ necessariamente um sitio de discussao. Acho que percebe o que eu quero dizer. Um blogue e’ tambem o que os leitores permitirem que ele seja, nao e’ uma coisa escrita ‘a partida e imutavel.

  22. ezequiel diz:

    de pol pot …

    para as caixas de comentários….

    e a democracia….

    só falta a abelha maia 🙂

    Caro Nuno

    Concordo contigo. Os blogs sem caixas de comentários irritam-me. É uma decisão que não promove o “espirito democrático” apesar de também não o perverter. É um caso bicudo, como diz o meu motorista, o Dr. Teles Mello. 🙂 As autoridades Americanas foram cúmplices. Sim, eu teria defendido a ideia de uma invasão preventiva da Indonésia. O que é que os EUA poderiam ter feito Nuno? Bla bla nas NU?

    cumprimentos

  23. ezequiel diz:

    & agora vamos para os EUA, Timor e Indonésia. É um farrobodó cibernético!!!!

  24. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ezequiel,
    Apesar de seres comentador residente aqui no 5 dias,com muito proveito nosso (é sempre bom ler-te), anda a faltar-te a memória. As autoridades dos EUA fizeram muito mais do que ir à ONU: autorizaram a invasão, com a qual, aliás, Kissinger concordava.

  25. ezequiel diz:

    Caro Nuno

    A Indonésia não é uma républica das bananas. O termo “autorizar” parece-me excessivo. Kissinger nunca dirigiu a Indonésia e o congresso proibiu a venda de armas para a Indonésia em determinada altura. Não tiveram outra opção. A Indonésia foi e é uma grande-média potência. Sempre foi e no contexto da guerra fria (que de fria tinha muito pouco) as opções eram quase sempre de natureza binária. Kissinger sabia que pouco ou nada poderia fazer para impedir a invasão indonésia. E a indonésia sabia que Kissinger sabia disto. A política internacional é um teatro Hobbesiano. Os comunistas, tal como muitos republicanos (vocês tem isto em comum) sempre supuseram que os EUA são omnipotentes e, pior, omniscientes. Not so, my dear friend. Not so.

    abraço, ezequiel

  26. ezequiel diz:

    Ve o que se passou-passa no Darfur etc. É um problema sistémico.

  27. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Durante a guerra fria toda a gente, tirando os EUA e a URSS, eram repúblicas das bananas. A Indonésia pediu autorização à admnistração norte-americana para invadir Timor. E recebeu-a com incentivos. Está profusamente documentado

  28. MP-S diz:

    Quer dizer, condena-se liminarmente Chomsky por este ter (supostamente, ja’ que nunca vi as tais citacoes) branqueado os massacres do Pol PLot — o que seria uma tomada de posicao teorica, criticavel mas legitima ‘a luz da liberdade de expressao, por alguem sem responsabilidades nas decisoes politicas.

    Por outro lado, aceitam-se as decisoes politicas com consequencias praticas da administracao norte-americana no caso Indonesia-Timor. Tanto quanto me recordo, o embaixador norte-americanos na ONU (na epoca, Patrick Moynihan). Ver na Wikipedia:

    “The United States wished things to turn out as they did, and worked to bring this about. The Department of State desired that the United Nations prove utterly ineffective in whatever measures it undertook. This task was given to me, and I carried it forward with no inconsiderable success.” (A Dangerous Place, Little Brown, 1980, p. 247) Later, he admitted that he had defended a “shameless” Cold War policy toward East Timor.

    Mas o Chomsky e’ que e’ o campeao da infamia e sao as bocas dele (e nao as accoes dos politicos responsaveis) que merecem o nosso escrutinio implacavel.

  29. MP-S diz:

    ERRATA: o embaixador norte-americanos na ONU (na epoca, Patrick Moynihan) escreveu pelo seu proprio punho o seguinte:

  30. ezequiel diz:

    Nuno, por favor, não sejas redutor e simplista.

    Sim, está, mas não a autorização. Le o texto devagar! A invasão teria avançado com ou sem a “autorização” americana. O military build up já estava em curso antes de se saber qual a opinião dos americanos e de outros. Iniciou-se antes da carte blanche americana. É muito provável que, tivessem os americanos tentado contrariar as intenções da indonésia, o equilíbrio de forças (um conceito nebuloso, eu sei) na região tivesse sido substancialmente alterado. As potências regionais sabiam manipular a, e usufruir da, bipolaridade. Tucidetes, no seu melhor, ou pior.

    http://www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB174/index.htm

  31. ezequiel diz:

    Aliás, considera o seguinte. Se tivessem sido os Americanos os responsáveis pela (formação, pelo incentivar da) INTENÇÃO Indonésia de invadir Timor pela via da força, porque é que os Indonésios teriam sentido a necessidade de auscultar a sensibilidade Americana? Eles teriam-no sabido desde o inicio. Mas NÃO sabiam. (o que não desculpa a postura de silencio e o apoio Americano!! Que isto fique claro! )

  32. ezequiel diz:

    Ou seja,

    Os EUA teriam arriscado uma ruptura por causa de algo que não teriam conseguido evitar (e devemos falar também da conjuntura interna Indonésia: o objectivo da anexação era visto, pelos Indonésios, como um objectivo primordial). Kissinger é um realista clássico. São estes casos que demonstram que explicar e justificar (etica) são, às vezes, coisas muito distintas. Triste, não é?

    bem, tenho que ir.
    regresso mais logo se desejarem continuar a conversa.
    cumprimentos,

  33. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ezequiel,
    Vê lá tu como é a pluralidade: eu acho que tu é que estás a ser simplista. Fico sem perceber se com a tua inteligência estás apenas a tentar ganhar uma discussão com argumentos que, nem tu, acreditas ou então acordaste extremunhado. Adiante. Se os norte-americanos não tivessem autorizado e protegido internacionalmente os indonésios, estes não tinham continuado a invasão. Vê o caso dos ingleses e dos franceses no Suez, americanos e russos mandaram-lhes meter a viola no saco , o que eles fizeram a grande velocidade….
    Sinceramente, acho que discutir Timor a esta altura….
    Sobre as tuas compras de livros do Negri, acho que devias ser como a grande Alcina Lameiras, de quem espero que sigas o exemplo intelectual e não a indumentária reduzida: “não negue à partida uma ciência que não conhece”…. Eu cá tenho livros do Negri em várias línguas e não me queixo com as leituras. O site das Multitudes é curto, mas a revista com o mesmo nome é muito interessante. Aconselho-ta vivamente. Se te interessas pelas “perversões” que Negri fez a Spinoza acho que devias ler dois livros mais indicados que o Multitudes e o Império: Le Pouvoir Constituant e Spinoza , L’anomalia selvaggia…Fico à espera do teu comentário ao post da Anabel Rocha….ainda o publico no blog…abraço

  34. Daniel Marques diz:

    O livro (depois do cataclismo) é de 1979. O mesmo ano que a Uniao Sovietica mudou de ideias sobre o Kampuchea. Já no artigo de 5000 palavras de 1977 não se descobre umas 20 palavras para as atrocidades do regime.

  35. ezequiel diz:

    Bolas, estava a brincar com aquela coisa do Negri. É evidente que o homem não é atoleimado nenhum. (só comentei a citação da Anabela e assumi, erradamente, que o conceito de multitude tinha que ver com o Heidie) Nunca o li. Mas vou ler. Eu durmo muito pouco, infelizmente, mas não acordei mal-disposto.

    O caso do Suez: Petróleo, rivalidade (amiga) entre super-potência emergente e grandes potências em declínio, proximidade do império vermelho etc etc…Ali, naquela altura, teve mesmo que ser! Interesses vitais dos EUA estavam em causa. Não cometas o erro da Joana (aquando da discussão acerca do desarmamento da Coreia e a comparação com o Irão). A coisa é mesmo plural, complexa, apesar do maquievalismo generalizado da coisa. Mas, ok, não vale a pena prolongar a discussão. Não vamos concordar. É assim mesmo. No worries. 🙂

    Agora sinto-me intimidado com a tua oferta. Disse que tinha que fazer, não respondi convenientemente à Anabela. Má educação da minha parte, sem dúvida. Mas, cara Anabela, a questão que levantas requer mais tempo. O meu Pai já está aos berros. O gato tem que ir ao vet. Prometo responder à Anabela, com muito gosto, mas não é preciso publicar seja o que for no blog. Prefiro ler o que vocês escrevem, apesar de mts vezs n~ concdar.

    Abraço&beijins(Anabela)
    miauuuuu

  36. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Daniel Marques,
    Com todo o respeito por si, confundir o Chomsky, que é norte-americano e anarquista, com essa figura mitológica do comunista, pró-soviético e anti-americano que vive na imaginação de raposos e CIA é um pouco exagerado, não acha? Só faltava chamar-lhe fundamentalista islâmico.

  37. ezer diz:

    Isso não impede que Noam Chomskynão tenha razão em relaçãoao momento que passamos.Nuno,eu tenho lido alguns artg do Chomsky e ainda anteontem estive a vê-lo na Al-Jazeera e le é muito acutilante e certeiro em relação,p.e.,ao Médio Oriente

  38. Ainda é isto que a esquerda anda a discutir? É GRAVE!!!!
    O Chomsky pode ser um grande linguísta, como político devia ter ficado calado mais vezes.
    «No fim da década de 1970, Chomsky ridicularizou sistematicamente a ideia de que Pol Pot pudesse ser um assassino em massa, apesar do depoimento de muitos cambodjanos que tinham atravessado a fronteira. “Os refugiados ficam assustados e indefesos, à mercê de forças alheias”, disse ele aos leitores de The Nation, em Junho de 1977. “É natural que tendam a contar o que acreditam que os seus interlocutores querem ouvir (…). Em especial os refugiados interrogados por ocidentais ou tailandeses têm um interesse especial em relatar atrocidades por parte dos revolucionários cambojnanos, facto óbvio que nenhum repórter sério deixará de ter em conta”. Dois anos depois, após a queda de Pol Pot, as imensas pilhas de crânios humanos nos campos de extermínio confirmavam que não eram apenas os refugiados que se tinham enganado. A estimativa mais séria é que, entre Abril de 1975 e Janeiro de 1979, o Khmer Vermelho tenha matado 1.670.000 cambojnanos, cerca de 20% da população. Contudo, mesmo em 1980, ao publicar “After the Cataclysm: Postwar Indochina and the Reconstruction of Imperial Ideology, Chomsky recriminou os que aplicavam a palavra “genocídio” e este Holocausto. “As mortes no Cambodja não resultaram da matança sistemática e da paralisia promovidas pelo Estado, mas são atribuíveis, em larga medida, à vingança dos camponeses, a unidades militares indisciplinadas, fora do controlo do governo, à fome e à doença que são uma consequência directa da guerra norte-americana, ou a outros factores desta natureza.” (…) O lado positivo do quadro foi praticamente apagado (…) O lado negativo tem sido apresentado a uma ampla plateia, numa saraivada de informações que encontra poucos paralelos históricos, com excepção da propaganda dos tempos de guerra».
    Francis Wheen, «How Mumbo-Jumbo Conquered the World»
    (e, não, o Wheen não escreve na revista Atlântico, antes pelo contrário)

  39. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Cara Ana Leonardo,
    O Francis Wheen tem livros traduzidos em português. Tem uma excelente biografia de Marx. As suas antipatias por Chomsky são conhecidas. Isso não retira que Chomsky tenha condenado o genocídio cambodjano na mesma época que estes comentários que você escreve. A menos que queira apagar estas declarações da história, não pode afirmar que Chomski não condenou o massacre perpetrado pelos khemeres vermelhos. É também engraçado que nenhum dos comentadores se refira ao fulcro do argumento do Chomsky sobre os massacres: a sua divulgação e a importância que os meios de comunicação social lhe dão, depende de uma leitura ideológica. Dai o exemplo de Timor e o Cambodja. Talvez seja uma questão pouco conveniente para alguns…ficamos pela discussão interminável se ele , em todas as declarações, foi suficientemente enfático na condenação ao regime de Pol Pot. Sobre os assuntos que me apetece discutir, desculpe não lhe ter pedido autorização prévia, cara Ana Leonardo. Isso não voltará a acontecer.

  40. Caro Nuno, o Nuno discute, naturalmente, os assuntos que quer discutir, sem precisar de autorização minha (ou de qualquer outra pessoa, suponho), prévia ou posterior. Para mais na sua casa. Mas a questão, como compreenderá, não é essa, nem se resume a uma alfinetada retórica.
    O que acho GRAVE é a esquerda continuar, na sua ambiguidade moral, a dar o flanco à direita. E dizer, como faz neste seu post, que a questão de fundo, que ninguém parece ter percebido, reside no reconhecimento da dependência ideológica subjacente à divulgação e importância atribuída a determinado facto pelos meios de comunicação social, vai permitir-me a pretensão, não o ajuda nada.
    Primeiro, por ser uma banalidade; segundo, por se aplicar tanto à esquerda como à direita, o que não me parece vir em socorro do seu raciocínio, antes pelo contrário, já que as coloca moralmente no mesmo plano.
    A questão é que se a direita, como diz, pretendeu retirar dividendos políticos do genocídio no Cambodja, Chomsky, por seu turno, deu provas de uma cegueira imperdoável ao vir falar de um «lado positivo».
    Susan Sontag não teve medo de pôr o dedo na ferida: «Imaginem, por favor, alguém que só tivesse lido a revista Reader’s Digest entre 1950 e 1970, e alguém que, no mesmo período, tivesse lido apenas The Nation ou The New Statesman. Qual destes leitores estaria melhor informado sobre as realidades do comunismo? (…) Os emigrantes dos países comunistas a quem não dávamos ouvidos, que tiveram muito mais facilidade em ser publicados no Rider’s Digest do que em The Nation ou na The New Statesman, estavam a dizer a verdade.»
    Continuar a não reconhecer isto, desculpe-me insistir, é GRAVE. E talvez explique, em grande parte, o estado lamentável da esquerda. Mas o Nuno está em sua casa, eu cheguei aqui só porque a porta estava aberta.

  41. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Cara Ana Leonardo,
    Acho que tem razão quando afirma que a esquerda não pode ter ambiguidade moral em relação aos crimes e aos criminosos. Recordo-lhe que essa ambiguidade não é uma invenção da esquerda. Se não lesse o The Nation e se ficasse pelas selecções do Reader’s Digest não saberia grande parte do mundo. Não saberia, por exemplo, que um dos presidentes dos Estados Unidos interrogado sobre o pai Somoza, ditador vitalício da Nicarágua, respondeu: “é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.
    A vantagem do The Nation e outras publicações que cita é que reconheceram os seus erros de apreciação sobre as ditaduras a leste. Ainda está para chegar o dia que outras publicações reconheçam os crimes do capitalismo e do imperialismo. Não vi, aliás,as administrações dos Estados Unidos, nem Kissinger, terem pedido desculpa aos timorenses.
    De resto, tenho muito gosto de ter sempre a porta aberta aos seus comentários fundamentados, inteligentes e não concordantes com a minha opinião. Apareça sempre.

  42. Pingback: cinco dias » A capinha do murcôn

Os comentários estão fechados.