Jorge Palinhos: Dr. Teles e Melo na estreia

– Isto sim é cultura! – exclamou o dr. Teles e Melo afogueado, tentando afrouxar o laço que o estragulava.
O sr. Barbedo de Silva, que caminhava a seu lado, tentando manter as mãos afastadas do laço às pintas cor-de-rosa, acenou com a cabeça, de forma pouco entusiástica para não sufocar:
– É um brilho!
No momento é que soou “É um brilho”, todos os quatro saíram do parque de estacionamento. Os quatro eram o dr. Teles e Melo e o sr. Barbedo de Silva, seguidos pela sr.ª Barbedo de Silva, elegantíssima no seu vestido preto cerce à cintura côncava, acompanhada por uma senhora da mesma idade, também muito elegante numa calça e casaco clássico.
Mas ninguém seguiu o brilho do sr. Barbedo de Silva pois a saída do parque de estacionamento foi marcada por dois eventos emocionantes: uma passadeira vermelha e a visão (e sensação olfactiva, no caso do dr. Teles e Melo) de um amontoado de seres disformes, hirsutos e maltrapilhos segurando uns papéis borratados.
Ainda um pouco tonto por sentir a passadeira vermelha debaixo do seu confortável calçado, o dr. Teles e Melo teve alguma dificuldade em identificar com clareza a natureza dos seres. Salvaram-no as suas apuradas narinas, que apontaram estar perante um ajuntamento de bloquistas, comunas, pseudo-intelectuais de esquerda e pelintras artísticos. As senhoras mostraram alguma preocupação e a dama cujo nome lhe escapava mostrou a sua elegância, cobrindo discretamente as suas narinas com o dedo indicador.
Já o dr. Teles e Melo concentrou-se nos aspectos culturais do evento, admirando a elegante cruz armada no centro da praça, de sentido óbvio e superior a todo aquele embuste da arte contemporânea, e percebendo claramente que o tapete vermelho era um inteligentíssima referência à entrada em Jerusalém. Já o sr. Barbedo de Silva teve a gentileza de lhe apontar os lasers que percorriam as paredes do teatro, dando cor e vivacidade ao ambiente.
À entrada da tenda improvisada (mas de um requinte primoroso) depararam com o encenador da peça que, com um caloroso aperto de mão, cumprimentou o dr. Teles e Melo e o sr. Barbedo de Silva, e deu um beijo na face a cada uma das senhoras.
O dr. Teles e Melo teve a sinceridade de lhe dizer:
– Sr. director, espero que não leve a mal que lhe afirme que foi precisa a sua vinda para que esta cidade tenha finalmente começado a fazer parte da Europa e da cultura ocidental!
O director fez um sorriso amável e desejou-lhe bom espectáculo, passando em seguida a cumprimentar uma senhora loura de vestido vermelho que envergava ao ombro uma espécie de alga também vermelha. A sr.ª Barbedo de Silva sussurrou logo ao dr. Teles e Melo que aquela era uma das figuras mais destacadas da cultura portuguesa.
– Muito bem, muito bem – fez o dr. Teles e Melo pensando que para com os verdadeiros artistas era necessário ter alguma condescendência.

Atravessando a tenda, protegida dos olhares exteriores por lençóis brancos, o dr. Teles e Melo pode comprovar pelos acepipes que a cultura portuguesa estava no bom caminho. De facto, era uma ideia genial traçar um paralelismo entre a Última Ceia e um bom serviço de catering.
Contudo, ao saírem da tenda, já no alpendre da entrada do teatro, os ouvidos do dr. Teles e Melo foram momentaneamente bombardeados pelo rufar de uma vintena de percussionistas que atingiam selvaticamente bidões de tinta. Enterrando a cabeça entre os ombros para ouvir o menos possível, o dr. Teles e Melo tentou interpretar aquela estranha manifestação artística associando-a às teorias recentes – e bastante estapafúrdias – de que Jesus seria negro, mas o ruído não desviou a sua atenção de outro pormenor, assaz significativo: uma mulher de vestido justo e transparente que, em cima de uma barrica de cerveja, dançava sensualmente agarrada a uma garrafa da mesma marca de cerveja.
“Excelente referência a Maria Madalena” pensou encantado.
– Isto é giríssimo! – exclamou a sr.ª Barbedo de Silva, ao entrarem no foyer do teatro, repleto de ecrãs planos.
– Sim, – anuiu o dr. Teles e Melo – a verdadeira demonstração do que é um espectáculo total.
– Pois, giríssimo – repetiu a sr.ª Barbedo de Silva.
Uma simpatiquíssima arrumadora levou-os aos seus lugares e já confortavelmente sentados puderam admirar a remodelação da sala.
– Está muito melhor assim! – afirmou categoricamente a senhora desconhecida, que parecia ser uma amadora da decoração de interiores, embora de imediato admitisse que era a primeira vez que entrava naquele teatro.
As luzes, por fim, apagaram-se e, com um discreto suspiro de alívio, o dr. Teles e Melo desapertou o laço do pescoço, tirou os pés dos sapatos e alargou o cinto, podendo finalmente respirar e descontrair. Infelizmente, a sua descontracção foi tão grande que a meio da primeira canção sonhava já com o caviar e vinho branco geladinho do catering.

Jorge Palinhos

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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4 respostas a Jorge Palinhos: Dr. Teles e Melo na estreia

  1. Luís Lavoura diz:

    O que interessa não é saber se o espetáculo é arte ou não é arte – isso é altamente subjetivo. Também não interessa que os espetadores vão para lá para prestar atenção ao espetáculo ou para adormecer devido ao vinho branco. O que interessa é que haja muitos espetadores e que eles paguem bem. Que o espetáculo dê lucro ou, pelo menos, que não dê prejuízo. Essa é que é a bottom line.

  2. polegar diz:

    caro jorge Palinhos, permita-me aplaudi-lo de pé!

    CLAP CLAP CLAP CLAP!

    muito e muito obrigada por este texto.

  3. Joana Soveral diz:

    Parabéns ao escritor! Discordo do senhor Luís Lavoura. É bom que o espectáculo tenha público, nem que seja pelas despesas que há para pagar. Mas o aspecto fundamental da arte resume-se à sua função estética. Pelo menos acho que a arte e os artistas distinguem-se por isso mesmo, por provocarem reacções no público, por alterarem uma ordem de ideias, por mexerem com o mundo. De outra forma, uma sonata de Chopin ou um tango de Piazzola terima o mesmo valor que uma cançoneta do Emanuel, os sonetos de Camões teriam o mesmo valor do livro da Carolina Salgado. E se formos apenas pelo números então as coisas invertem-se: o Quim Barreiros é capaz de ter mais discos vendidos do que o Rodrigo Leão. As telenovelas são mais rentáveis do que Shakespeare.

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