Erros cósmicos

A História de Portugal está cheia de personalidades que afirmam amar o povo, mas não o querem desgastar com decisões difíceis. Esses grandes estadistas garantem que têm os portugueses no coração, o único problema é que desconfiam deles. Para quê deixar os caminhos da Pátria nas mãos de pessoas que, visivelmente, não estão preparadas para decidir o que é melhor para elas? Nos tempos da “outra senhora”, o então Presidente do Conselho, António Oliveira Salazar, explicava que a democracia era muito complicada, levava  à divisão do povo e à sedição das almas. Concluía, avisadamente, que os parlamentos são tendencialmente inúteis e que o verdadeiro fórum de discussão se encontrava no Conselho de Ministros que ele ouvia, para depois decidir como lhe aprouvesse.
Nessa época, em que a liberdade não existia em Portugal, o escritor Mário Henrique Leiria escreveu, nos “Contos do Gin-tonic”, um texto em que satirizava a ditadura e as objecções à democracia num célebre diálogo:
“- Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer, era outra coisa. Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos. Acho um snobismo”.
É bom lembrar o passado numa altura em que nos afirmam que a Europa é fundamental para o futuro de Portugal, mas que é melhor para todos que os portugueses fiquem calados sobre o assunto. Garantem que seremos todos muito mais felizes se deixarmos Durão Barroso, José Sócrates e Aníbal Cavaco Silva decidirem por nós. Com todo o respeito pelos três políticos, será que não lhes passa pela cabeça que a Europa só será um projecto político democrático se os europeus participarem nele? É preciso expropriar o poder dos eurocratas e dos gabinetes e tornar a construção europeia um processo discutido e participado. Sem democracia, a Europa será um nado-morto. Sem permitir que os europeus se pronunciem sobre a novo Tratado Europeu não há democracia.
É preciso relembrar que os portugueses nunca tiveram a possibilidade de ter voz sobre as grandes linhas da integração portuguesa e do futuro da União Europeia. É altura de lhes dar voz e de fazer um referendo.
O mais divertido de tudo é que nos círculos de poder de Bruxelas, Londres, Paris e Berlim há pessoas que parecem mais inclinadas para aceitar as reivindicações do governo de extrema-direita polaco – que pretende fazer pesar nas votações na União o número de polacos mortos -, do que permitir que os europeus se pronunciem, em referendo, sobre a Constituição Europeia, que vai condicionar nas próximas décadas a vida de todos nós. Parece o tempo das eleições do antigo regime, em que a “situação” impedia os vivos de votar e “ganhava” com os votos dos mortos.

Escrito para a Focus nº402

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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