Donostia 1999

Encontrava-me no meio da multidão no casco viejo. Estávamos na linha da frente. Gente de rosto carregado gritava: “Gora eta militara”. Nós filmávamos. De repente, uma massa de centenas de pessoas acelera o passo para tentar atingir o boulevard. À nossa frente, dezenas de ertzainas aguardavam. A um só grito, os polícias apontam as shot guns. Um arrepio sobe-me pela coluna, tenho a impressão que estou na linha de mira. Olho para o meu camarada repórter de imagem como quem diz: “já percebi por que é que nenhum outro jornalista está aqui”. É tarde para recuar, uma corrente de adrenalina atravessa os manifestantes. O medo vai-se, fica uma excitação que nos enibria. Estamos encurralados, somos centenas, só resta avançar. Começámos a acelerar o passo contra a polícia. Houve-se uma ordem e um estrondo infernal que faz vibrar toda a rua, ao meu lado há um que cai com uma bala de borracha. A calçada cheira a queimada, há bolas de borracha, parecidas com grandes berlindes negros, que saltitam por todo o lado. Começamos a fugir. Dezenas de jovens encapuçados surgem das esquinas. Voam no ar os primeiros coktails molotov. Os polícias protegidos com fatos especiais enrolam-se nas chamas. Os tiros das armas repetem-se. Ficamos encostados à parede, no meio do bairro. De um lado, estão os encapuçados que usam os becos e as esquinas como protecção, do outro, os polícias que carregam em formação. No meio, como se nada pudesse quebrar a vida, surge um casamento. A noiva, noivo e as damas de honor, agarradas à longa cauda do vestido, caminham na rua como se nada se passasse.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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