A batuta intrépida do Dr. Von Krafft-Ebing

Primeiro foi o Rorty, que morreu. Depois foi o Ivan ou ex-Ivan (que tem uma certa queda ainda mal explicada para obituários, é o lado gótico do artista) que assinalou a dita morte e o Nuno, que fez um link para o obituário do Ivan. A seguir foi o Habermas, para o qual o texto do Ivan remetia e que remete ele próprio para uma edição in extenso de um texto autobiográfico do Rorty, chamado “Trotsky and the Wild Orchids”. Enfim, foi o próprio Rorty a boucler la boucle e a contar os seus verdes anos sob a sombra tutelar de Trotsky e da “Psychopathia Sexualis” de Von Krafft-Ebing – está situada a coisa.

Sucede que eu não ainda não morri, não passei a juventude em NYC nem tive pais trotskistas (cruzes!), mas também tenho em casa o grande livro de Von Krafft-Ebing – e foi por isso que o texto de Rorty me falou tanto ao coração (o Ivan também parece que gostou muito, e fala mesmo em traduzi-lo, para quê?, “ter é tardar”, parece aquelas pessoas que quando vêem flores bonitas no campo querem logo arrancá-las e levá-las para casa). Eu tenho-o numa tradução francesa (se os pais de Rorty não tinham o original em alemão haviam de tê-lo numa edição inglesa, suponho); há poucos anos, o “Le Monde des Livres” assinalou uma reedição em três volumes da obra indicando que a primeira edição francesa datava de 1931, mas estava enganado: a minha é de 1895 – tem pouco mais de um século, portanto.

A “Psychopathia Sexualis” (subtítulo: “Avec recherches spéciales sur l’inversion sexuelle”) tem de tudo: sadismo, masoquismo, necrofilia, fetichismos vários, escravatura sexual, uranismo, lesbianismo, onanismo, bestialismo, satirismo, ninfomania, etc., tudo em seiscentas páginas de letra miudinha e tudo enriquecido com relatos clínicos e dos tribunais, que vão do caso de um famoso sodomizador de galinhas que espalhava o terror nas províncias orientais do Império Austro-Húngaro na década de 1880 a um fetichista dos cabelos que atacava as suas vítimas nos eléctricos de Viena, sentando-se atrás delas e cortando-lhes mechas à tesourada quando elas menos esperavam (e tendo um orgasmo no processo). Mas desiludam-se os voyeuristas (embora o Dr. Von Krafft-Ebing lhes dedique também algumas páginas): o que tem sobretudo graça neste livro é o seu cientismo e o seu moralismo – e não as histórias, mais ou menos salacious, que conta.

Os “pacientes” são sempre pacientemente descritos, em retratos à Lombroso, e a sua hereditariedade finamente escrutinada: pai alcoólico, tio melancólico, avó devassa, etc., etc.; a “inversão sexual” (e até o onanismo, que é aqui uma espécie de homossexualidade dos pobres) é apresentada do ponto de vista da sua “prevenção” e “terapia”; as preferências sexuais estão numa relação de causa e efeito com as maleitas da mente (“manias”, histerias, epilepsias, demências…); e as terapêuticas prescritas são sempre seguras: banhos frios, hábitos higiénicos, distracções do espírito – e, nos casos mais graves, a sugestão por via hipnótica (“au malade il a été dit : 1º défense de s’onaniser ; 2º ordre formel de considérer l’amour homosexuel comme méprisable, dégoutant et impossible ; 3º ordre de ne trouver de beauté que chez les dames, de s’approcher d’elles, de rêver d’elles, de sentir du libido et de l’érection à leur aspect.”). Sob a batuta intrépida do Dr. Richard Von Krafft-Ebing, calcula-se que a pederastia tenha sido praticamente erradicada do Império.

O Economist da semana passada dedicava a sua capa e um dos seus editoriais aos progressos da biologia e dizia que a biologia ia estar para o século XXI como a física tinha estado para o século XX – ou seja, que ia conhecer progressos tais que iam mudar radicalmente a nossa forma de conhecer a vida, tal como os progressos da física do séc. XX tinham alterado o nosso modo de compreender o mundo. Talvez tenha sido assim, mas não foi só assim: tão importante como a revolução einsteiniana, foi a revolução freudiana, e mais arcaico que um manual de física de 1895, só mesmo um manual de psicopatologia sexual: tenho uma peça de outro mundo em casa.

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SEXTA | António Figueira
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25 respostas a A batuta intrépida do Dr. Von Krafft-Ebing

  1. ezequiel diz:

    E eu que pensava que o gajo só fazia ketchup! Este livrinho deve ser uma preciosidade! Desde que li o homem-lobo do Sigmund que fiquei meio atordoado com estas coisas. Guarda este livro com a tua vida António! “Sodomizador de galinhas” Estou a chorar de rir!!! 🙂 🙂 🙂 Só mesmo um Prusso!!

  2. f. diz:

    este teu texto está maravilhoso, antónio.

    ezequiel, não viste o padre padrone dos irmãos taviani? tinha uma cena dessas com putos no galinheiro. devo dizer-te que fazia imensa impressão.

  3. ezequiel diz:

    Sim, mais do que impressão, repulsa. Mas, um Friedrich II qualquer, sodomizador de galinhas, nem woody allen lembrar-se-ia de tal coisa. Os galos a fugir a toque de tambor… não consigo parar de rir. O Monthy Pyton deveria ter pegado nisto. Mas já li literatura (Beckettiana) da melhor nos “casos clínicos” de Laing (especialmente).

    Há uma passagem lindíssima.

    O “paciente” entra para o consultório do psiquiatra que diz o seguinte (parafraseando, pq não tenho aqui o livro comigo..está lá dentro, no buraco negro)

    Psiq: Então Iain, disseram-me que estás a ouvir vozes?

    Paciente: Sim

    Psiquiatra: Estás a ouvir vozes agora?

    Paciente: SIM, A SUA!! 🙂

  4. Ana Matos Pires diz:

    Pois queiram vocês saber que, há para aí um ano, um caso em tudo semelhante agitou as urgências psiquiátricas de Santa Maria e do Júlio de Matos.

    António, e que dizer de alguns textos sobre sexualidade e psicopatologia do séc. XXI ? Parecem de 1895.

    Percebendo a equiparação da revolução freudiana à revolução einsteiniana – Freud foi responsável por um verdadeiro corte epistemológico, de facto -, não consigo deixar de me irritar com o mau contributo que deu ao “entendimento” da homossexualidade e da sexualidade feminina.

  5. FuckItAll diz:

    Até se pode esticar isto e falar de um processo de medicalização da moral.

  6. FuckItAll diz:

    …saindo aí do campo estrito da moral sexual.

  7. FuckItAll diz:

    …alargando as coisas para lá do campo estrito da moral sexual (sem a excluir).

  8. FuckItAll diz:

    (ups, o segundo comentário não era suposto ter saído)

  9. António, Desculpa lá, mas fazer Copy Past é usar o texto do Ivan como fosse meu, eu limitei-me a remeter os leitores para o post do Ivan. Neste caso, a tua ligeireza linguística incomoda-me, parece que me acusas de plágio.

  10. António Figueira diz:

    Oh Nuno, muda-se já isso, que eu não quero causar incómodos a ninguém: então tu achas que me passou pela cabeça que na tua cabeça copy+paste=plágio?! Também pensas cada coisa!
    Abr., AF

  11. António Figueira diz:

    Caros todos:
    Obrigado pelos comentários.
    Ezequiel: o Império era o dos Habsburgos, não o dos Hollenzollern (just for the sake of precision);
    Ana: o mais autorizado representante de Kraff-Ebing a exercer actualmente em Portugal parece-me ser, de longe, o Dr. João César das Neves;
    Fuckitall: isto participa sem dúvida do processo de “medicalização da moral”, mas aí, o melhor que eu conheço, é uma outra “ciência” (que eu adoro): a frenologia! (aí os desvios tratam-se com trepanações…)
    Cumps., AF
    PS À conta do Kraff-Ebing, redescobri uns outros livros que tenho em casa, também de “psicopatologia sexual”, mas portugueses, e dos anos 30 (são livros de direito, de medicina legal, que por sorte minha ninguém deitou fora e eu guardei): ainda são melhores do que este – e têm fotos!!!

  12. António Figueira diz:

    Ah! e só mais uma coisa:
    Ana, parece-me claro, one has to put Freud into perspective (e “salto epistemológico” parece-me neste caso uma expressão luminosa).
    AF

  13. Ana Matos Pires diz:

    O que o cansaço faz, que vergonha! “António, e que dizer de alguns textos sobre sexualidade e psicopatologia do séc. XXI?” Claro que do século XXI são os textos, não a psicopatologia

    eheh, gosto dessa, da do César das Neves.

  14. shyznogud diz:

    Por poder interessar a alguém, deixo aqui um link onde a “preciosidade” pode ser descarregada:
    http://www.archive.org/details/psychopathiasexu00krafuoft

  15. f. diz:

    af, toca a marcar já um jantarito com leitura e contemplação de fotos desses teus tesouros.

  16. António Figueira diz:

    f., aviso já que o meu livro é gordo, vale muitos rolinhos…

  17. Lobotomias diz:

    Nos manuais, mas principalmente nas práticas psiquiátricas actuais, existem ainda senhores à imagem do Dr. Richard Von Krafft-Ebing.
    O olhar sobre as práticas sexuais foi recentrado do agente sexual, para o desejo sexual, mas mantém uma visão patologizante e normalizadora do prazer.
    Freud deu-nos, claro, as armas para percebermos que impomos a patologia aos outros também para a excluirmos de nós próprios, mas a verdade é que neste aspecto teve pouco impacto.
    Eu segui um utente que entre outra sintomatologia apresentava um comportamento sexual, digamos, fora das normas (deve ser o mesmo de que estavas a falar Ana) e vi como muitos colegas tendiam a encerrar toda a sintomatologia dentro do diagnóstico depravado, ao que, aliás, a sistematização das ditas parafilias induz.

  18. Lobotomias diz:

    A frequência de relações sexuais com galinhas, cá em Portugal, parece-me que deve ser bastante superior ao que se sugere aqui nos comentários.
    Infelizmente não há dados que nos permitam concluir do seu efeito na qualidade de vida destes (e destas já agora-das galinhas). hélas

  19. Sérgio diz:

    Caro António,

    Belíssimo texto. Desconheço essa obra e o seu autor, mas a forma interessantíma como organizou estas despertou-me o interesse por essa vertente do higienismo e do «ataque» das ciências médico-biológicas aos códigos penais no fim do século XIX. Lembro-me de um ou outro diagnóstico de M. Bombarda (que não é um seguidor de Lombroso) sobre casos sérios (violações) ou simples taras, concluindo-se tantas vezes pela alienação mental dos examinados…

    Quanto à conhecida revista que citou, ocorre-me pensar que já nos séculos XVII/XVIII se dizia o mesmo sobre a física newtoniana e, no século XIX, sobre a biologia e química. São, aliás, alguns desenvolvimentos destes ideários que estão na base dos cientismos monistas que constituem a forma mentis de muita intelectualidade portuguesa de então.

    Cumprimentos,
    Sérgio.

  20. ezequiel diz:

    Caro António, mas os Habsburgos são primos filhos de irmãos dos Hollenzollern, não são? Fica tudo em família! Grandes malucos ! 🙂

  21. ezequiel diz:

    “A frequência de relações sexuais com galinhas, cá em Portugal, parece-me que deve ser bastante superior ao que se sugere aqui nos comentários.”

    Seria interessante ver as estatísticas europeias. Imagino o heading nos jornais: “Galinhas Portuguesas são as mais sexy da Europa!” ou “Galinhas Latinas: uma historia de sucesso na era da globalização!” No Times de Londres: “Forget about the Eggs: Latin Chiken conquer the world” No socialist international: “Chikens of the world, UNITE!” 🙂

    PS: Os Franceses levam vantagem. A Galinha coquette é ainda a mais apreciada. 🙂

  22. António Figueira diz:

    E o próprio coq au vin, como terá ele surgido? Teme-se o pior…

  23. ezequiel diz:

    António

    talvez gostes disto (deves conhecer mas como não sei se conheces…)

    http://samurai.fm/clubtransmediale2007/index.php

  24. ezequiel diz:

    Coq, no thanks! Just nice juicy CHICKENS! LLCOL LLCOL !!! eh ehe heh e h

  25. dude teatcher diz:

    Há uma versão tuga bastante divertida destas teorias: O Barão de Lavos, de Abel Botelho. Imperdível!

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