Anabela Rocha: Uma esquerda do séc. XIX

Na Revista Crítica de Ciências Sociais de Dez/2006 (primeira publicação científica portuguesa a dedicar um número temático aos estudos queer), António Fernando Cascais explicita em “Diferentes como nós” os vários momentos históricos por que passou o movimento lgbt português.

Nesse artigo é identificada a principal ambiguidade desse movimento, a saber, o facto de ter como referencial cultural e político um sector que frequentemente o enjeitou, nomeadamente o sector da esquerda; por ser uma esquerda que nos anos 60 e 70 passou ao lado das transformações culturais que então ocorriam, ainda por ser uma esquerda que, pós-25 de Abril, se depara com um país de tal forma atrasado que cai na tentação de afunilar o questionamento e a acção política, e por ser uma esquerda que nunca soube integrar, de forma visível e descomplexada, os homossexuais assumidos e/ou as suas associações no seu seio (ao contrário de Espanha onde na oposição anti-franquista existiam já embriões de associativismo gay e onde o movimento homossexual surge associado às movimentações políticas autonómicas da Catalunha, afirma Cascais).

Afirma ainda que “A esquerda partidária e sindical, sobretudo comunista, (…) define-se em função do ruralismo tradicional e do industrialismo do séc. XIX e é herdeira directa da cultura neo-realista que, como notou Eduardo Lourenço (1978), veicula uma imagem populista idealizante do povo português que prolonga e chega a reforçar, mas não subverte, o nacionalismo do Estado Novo”. É assim que a “questão homosexual”, como bem refere, é adiada para um futuro sem classes e considerada uma questão divisionista pequeno-burguesa.

Mas o que se mantém fundamentalmente, enuncia Cascais, é a suspeita face a uma [qualquer] revindicação identitária no quadro fundacional duma esquerda de matriz iluminista [e que nunca, e ainda não, criticou o seu falso universalismo; exemplo gritante disso é o facto de não termos ainda sequer políticos feministas].

É no quadro desta esquerda arcaica e presa no séc. XIX que, afirma ainda Cascais, a emancipação homossexual é frequentemente empurrada para uma esquerda revolucionária, uma esquerda de recusa outsider do sistema [de que é ainda sintoma o discurso das ditas “questões fracturantes”].

Pior mesmo é que essa esquerda só terá sido capaz de iniciar a reformulação do seu discurso quando colocada na defensiva por maiorias de direita ou quando confrontada com o adquirido europeu, tendo sido sempre incapaz duma reformulação em diálogo consigo própria, quer a nível nacional, quer internacional.

Vem tudo isto a propósito de dois acontecimentos: o debate autárquico sobre questões lgbt na Ilga Portugal e o lançamento do manifesto e dia de acção mundial do Fórum Social Mundial.

No debate, é notória a fragilidade e ignorância dos discursos partidários, do ponto de vista das relações institucionais entre a CML e o movimento, e do ponto de vista do uso de determinadas categorias de análise, principalmente quando confrontada com a estruturação da agenda proposta pela Ilga (veja-se um resumo do debate aqui). É de salientar a excepção de Helena Roseta (que domina as categorias e tentou até avançar institucionalmente; e que, finalmente, avança do discurso da tolerância para o discurso da atitude pró-activa face às discriminações).

Quanto à primeira acção alternativa mundial de sempre de contestação ao neoliberalismo, esta constitui uma óptima oportunidade de constituição de novas dinâmicas de diálogo, com a participação de todos quantos se identifiquem com a esquerda, para lá do arcaísmo partidário, rompendo talvez até com o colete que esses mesmo partidos colocaram ao Fórum Social Português.

Resumindo e concluindo: quando Agamben dialoga com Judith Butler (autora lésbica, fundadora do novo conceito de género enquanto performance) quando pensa o seu homo sacer, não é por acaso; quando Negri/Hardt dialogam com Foucault (grande explicitador das categorias sexuais da modernidade) quando salientam que a produção também o é de corpos e afectos, também não é por acaso. A esquerda politicamente culta sabe que encontra nos estudos queer muitos instrumentos de luta contra a monolitização do poder actual, o biopoder. Assim o consiga reconhecer a esquerda portuguesa.

Texto de Anabela Rocha postado a pedido da Fernanda Câncio 

 

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