Três razões pelas quais se pode dizer que ainda bem que perdemos em Alcácer-Quibir

1 – Se Portugal não tivesse perdido em Alcácer-Quibir, não nos teríamos visto livres tão cedo de D.Sebastião, e se os que vieram a seguir não foram muito melhores, pior que D.Sebastião também não houve.

2 – Se Portugal não tivesse perdido em Alcácer-Quibir, provavelmente a esta hora estaríamos todos a falar espanhol, ou a falar português com sotaque espanhol, como os galegos, e seria preciso ir até ao Brasil para ouvir a doce língua de Camões. Paradoxal? Nem tanto: Se Portugal não tivesse perdido em Alcácer-Quibir, não teria havido problema sucessório; se não tivesse havido problema sucessório, não teríamos tido os Filipes; se não houvesse Filipes, não haveria Restauração, e sem Restauração não teríamos virado as costas a Espanha, e continuaria a haver casamentos reais, e cortes bilingues, e tanta amizade colorida que agora não seríamos mais do que uma espécie de Catalunha (em pobre).

3 – Se Portugal não tivesse perdido em Alcácer-Quibir e D.Sebastião não tivesse desaparecido, nunca teríamos tido sebastianismo, nem culto da saudade, nem poderíamos ser a raça de suicidas que Unamuno dizia que somos. Ora sem sebastianismo nem saudade, era todo um filão das letras lusas que desapareceria, Jorge Dias nunca teria descoberto o homem português, Eduardo Lourenço não teria podido ganhar prémios lá fora e até, a um nível mais comezinho e comercial, os nossos Madredeus teriam de se dedicar, por exemplo, ao free jazz para ganhar a vida (escolhi estes três exemplos mais ou menos por acaso, mas ele há muitíssimos mais). Já viram o prejuízo?

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SEXTA | António Figueira
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13 respostas a Três razões pelas quais se pode dizer que ainda bem que perdemos em Alcácer-Quibir

  1. antonior diz:

    E se Portugal não tivesse perdido em 1966 contra a Inglaterra, hoje não teriamos o caso apito Dourado…
    Incondicionalmente pelo condicional.

  2. Tanta razão para que tivéssemos perdido em Alcácer-Quibir…

    Claro que poderíamos nem ter tido o D. Sebastião se o filho do D. João II soubesse andar a cavalo. E seríamos então essa tal versão de Catalunha ou Galiza.

  3. Luís Lavoura diz:

    No argumento 1: é falso que os que vieram a seguir não tenham sido muito melhores. Filipe 1º foi um dos melhores reis que Portugal teve.

    No argumento 2: teria havido problema sucessório na mesma, uma vez que D. Sebastião tinha problemas na pila e não mostrava grande inclinação para as mulheres (nem elas para ele, provavelmente). O gajo, se não morresse decapitado por uma cimitarra, teria morrido cedo de qualquer forma. A consanguinidade nas famílias reais não perdoa…

  4. Zellig diz:

    Espécie de Catalunha… porque será que me soa bem?

  5. Jorge diz:

    Teríamos tido a Guerra Civil… refiro-me à de 1936-39, não à de 1832-34, embora não me engane muito se disser que teríamos tido um século XIX agitado neste campo.

    Mas provavelmente teríamos muito menos património histórico. Sem Guerra da Restauração, nada de palácios dos Condes de Galveias ou dos Marqueses de Fronteira, nem Palácio-convento de Mafra, nem baixa pombalina (nem Marquês de Pombal) …

  6. Sérgio diz:

    Caro António,
    Um exercício curioso, aquele que trouxe aqui.
    Tomo a liberdade de propôr outro:
    Se Ceuta (onde estiveram concentrados o rei e os herdeiros lusos ao trono) tivesse corrido mal, D. João I ainda seria «O de boa memória»?
    Cordialmente,
    Sérgio.

  7. Sem Álcacer Quibir teríamos a Esquerda mais inteligente do Mundo, quiçá da Europa!

  8. António Figueira diz:

    Caros todos,
    Obrigado pelos comentários.
    É um facto que a “história virtual” é um exercício sem princípio nem fim, mas da hipótese sugerida parece-me que resultam duas certezas, a saber:
    1 – Que a derrota de Alcácer-Quibir passou a estruturar a nossa imagem própria, o nosso “carácter nacional”, dado ao sebastianismo e ao saudosismo, quando não ao derrotismo;
    2 – Que o episódio filipino (indirectamente resultante da derrota de Alcácer-Quibir e que poderia muito bem ter acabado de outra maneira), envenenou duradouramente a nossa relação com Espanha e separou-nos por vários séculos do resto da Península.
    Cumps., AF

  9. E se minha avó não tivesse morrido era um camião carregado de cerejas. Ou seriam tomates?

  10. Ah! Ainda havia aquela vantagem dos Açores terem resistido e continuarem a ser Portugal e a madeira ter, naturalmente, sido integrada no Magrebe.

  11. Harpad diz:

    Álcacer-Quibir pode ter tido a vantagem de nos criar uma espécie de alergia aos espanhóis e à família real com severos problemas de conseguinidade que os reinou (e nós também, por sessenta anos) mas pena, pena, é a monarquia não ter caído logo depois dos incidentes das Linhas de Torres: mandámos os franceses embora, podíamos ter mandado os ingleses atrás deles e os reis ficar no Brasil, e de vez. O melhor Bragança foi D. Luísa de Gusmão, que nem o era de nascimento, nem mesmo portuguesa.

  12. “não teríamos tido Baixa Bombalina…”, hummm… também que soa bem, do mal o menos…

  13. Euroliberal diz:

    O rei-virgem foi o último cruzado da história. Em 1578 essa mania de ir malhar na mourama para o norte de Africa soava a loucura e foi fortemente desaconselhada por todos os monarcas europeus, sobretudo pelo espanhol. Mas o Sebastiãozinho já tinha decidido que se não era capaz de foder as mulheres pelo menos haveria de foder os mouros . Foi ele que se….

    Quatro séculos depois, outro primata de cérebro claudicante, G. “Chimp” Bush, decidiu reatar a tradição das cruzadas, agora na Mesopotâmia. Parece que o resultado não está a ser muito melhor… é o princípio do fim do Império…

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