A mulher do Vasco

Autora: Violeta Salgado

Ele olhava-me estarrecido e insistia: “A mulher do Colombo! Ó pá. A mulher do Colombo, não estás a ver de quem é que eu estou a falar?”. Eu não estava a ver, realmente. Não me lembrava com quem tinha casado o Colombo. Será que era suposto saber? Seria assim uma lacuna tão profunda na minha “cultura geral”? Envergonhada, lá acabei por acenar, num daqueles gestos que tanto pode significar uma mesma coisa como o seu contrário. Ele acabou por cabecear de volta, nitidamente mais vencido pelo cansaço do que movido pela ambivalência.

Nunca mais me lembrei do tropeção. Até que noutro dia, estava no café com um colega que, a meio da conversa, disse: “E pronto, essa tipa do Vasco da Gama é demais”. Confesso que já não estava particularmente atenta. Mas depois dessa deixa fiquei surda. “A mulher do Vasco da Gama?!”. Caraças. Outra vez. Não tinha a mais pálida ideia de quem era esposa do senhor. Devia ser uma Filipa ou Catarina. Foi o máximo que consegui concluir. Acabei por seguir umas dez horas mais tarde para casa, desanimada e recordando, com culpa, as palavras do outro: “Só sobram os livros”. O problema é que nunca gostei de restos. Mesmo assim entendi que, de uma vez por todas, tinha que fazer um esforço sério e sistemático para ler mais. Andei assim uns dias, a acordar bem cedo. Às oito já tinha o jornal visto e revisto e, depois de jantar, ficava em casa, na forreta poltrona do candeeiro. Nem uma semana tinha passado e eu já esquecera o episódio, voltando à minha vida de ignara.

Passaram-se meses. Pelo menos uma vez fui ao Colombo. Não dei conta de nada.

Até que ontem, estava na pastelaria e diz a senhora para o marido: “Ó Manuel, passou cá a rapariga do Apolo…”. Eu já estava para recomeçar a minha auto-flagelação – uma musa qualquer, seria? – quando fui salva por um 70: “A rapariga do Apolo 70”. Ok. Vi a luz. Tudo fez sentido. Suspirei e sai sem ler o jornal. Passei pela menina da mercearia, pelo homem da padaria, pelo senhor da livraria e pelo puto da esquina. Senti que dominava a expressão. Achei-me vitoriosa. Doravante (apus mesmo esta palavra para mim própria, de molde a sentir-me mais douta), revelarei como domino a língua sem piedade. Ao advogado chamarei senhor da firma e ao engenheiro o tipo da ordem. É que se não há lojistas, empregados de balcão, merceeiros, livreiros e padeiros, também não há doutores e etc. Afinal, se o talhante sabe que é o homem do talho, porque é que o médico não consegue entender que é o gajo do hospital?

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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5 respostas a A mulher do Vasco

  1. “… lá acabei por acenar, num daqueles gestos que tanto pode significar uma mesma coisa como o seu contrário…” – gostei! Aliás, é sempre nestas pequenas pérolas de literatura que descbrimos o seu real fundamento! Parabéns pelo texto!

  2. Heráclio Bastos diz:

    Corremos a vida por tudo e, muitas vezes, por nada… Com os significados/significâncias das coisas nos dando tempêro. 🙂
    Que bom ver um texto onde o tempero das palavras nos torna as coisas da vida… Do dia a dia… Com mais graça – nos promovendo o apetite de comer frases e textos não ditos… Apenas sugeridos, em outros sentidos, para numa ciranda intelectual nos aculturarmos de coisas boas na literatura.

  3. CARLOS CLARA diz:

    GRANDE FÔLEGO!!!!!!! MAS SE O TALHANTE SABE QUE É O HOMEM DO TALHO E O MÉDICO NÃO SABE QUE É O GAJO DO HOSPITAL É PORQUE O TALHANTE SERVE A COMUNIDADE NAQUILO QUE SABE FAZER.

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