Ódio de estimação

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Cada vez que chega o dia de pagamento do empréstimo lembro-me deste senhor. Os sacrifícios que ele pede para impedir o mítico sobreaquecimento da economia (estará ligado ao efeito estufa?).

O ar lampeiro do Sr. deve-se a mais um aumento da taxa de juros e a mais uma prendinha para os amiguinhos.

O presidente do Banco Central Europeu tem o emprego perfeito: é, como se nota, completamente irresponsável e não pode ser despedido. Dão a esse estatuto o nome pomposo de independência do Banco Central Europeu.

É basicamente um homem feliz. Sabe que depois de tanto serviço mostrado, o seu próximo emprego será ainda melhor…

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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21 respostas a Ódio de estimação

  1. Kane diz:

    Trichet, tricheur…

    Em paralelo, também temos o “ nosso “ Constâncio, um homem sempre disposto a iluminar a política do governo, pleno de oportunidade. Mostra também ser grande amigo da Banca, relegando para segundo plano aquele que deveria ser o seu trabalho de fiscalização e regulação.

  2. Sérgio diz:

    A inimputabilidade deste senhor é um absatardamento grosseiro do federalismo. E, pelas, suas consequências, um inimigo do aprofundamento comunitário.

  3. Luís Lavoura diz:

    Pois eu acho muito bem que os juros subam. Os juros devem, numa economia saudável, ser superiores à taxa de inflação. Quem empresta o seu dinheiro deve ser remunerado por isso. É uma vergonha que, durante tantos anos, o dinheiro tenha sido tão barato que quem poupava não se visse minimamente remunerado por esse facto.

  4. Luís Lavoura diz:

    O presidente do Banco Central Europeu não toma as decisões sozinho. Não é um irresponsável. A direção do BCE é um órgão colegial, que debate e se aconselha com economistas. O sr. Trichet não toma por si as decisões que lhe dão na real gana.

    Ainda bem que ele não pode ser despedido. Só assim pode ter um mínimo de independência, para levar a cabo a tarefa que lhe é cometida, que é a de manter o valor da moeda. Se ele pudesse ser despedido por qualquer político, de acordo com os humores da multidão, a moeda estaria sempre a ser desvalorizada por emissões sucessivas de dinheiro, e a inflação seria imparável.

  5. Luís Lavoura,
    Desculpa não conseguir estar de acordo contigo. A política económica é uma escolha e deve estar sujeira à decisão democrática. O Banco Central não foi eleito, nem vai a votos , nem as suas decisões são, como devem, ser escrutinadas. De resto, não concordo: a taxa de inflação está a menos de 2%, a taxa de juros vai proximamente atingir 5%, a economia europeia não está a crescer o suficiente para gerar emprego e distribuição da riqueza. Acho uma estupidez este conjunto de dogmas monetaristas que nos vendem como se fosse a ECONOMIA e que têm como resultado a diminuição do investimento produtivo, o aumento desmesurado dos lucros do capital financeiro e o sobreendividamento das pessoas.

  6. António Figueira diz:

    Nuno:
    1 – Parabéns pelo post que faz discutir – e pela foto que arranjaste;
    2 – Uma coisa que ainda não foi dita mas conviria sê-lo, parece-me, é que as razões do Sr. Trichet se aplicam talvez a uma PARTE dos membros da UEM mas não a outra (quererá alguém desenvolver este tópico?);
    3 – É certo que Trichet não vai a votos directamente, mas a decisão de pô-lo a mandar foi indirectamente tomada por nós, quando a nossa AR ratificou Maastricht, Amsterdão e depois Nice; não será mais um argumento (O argumento) para o referendo europeu que falta em Portugal?
    Abraço, AF

  7. Tardes de Bolonha diz:

    TEM TODA A RAZAO!Excelente texto.Graças a esta figura sinistra da economia europeia,já tive-num ano!- um aumento de 135 euros na prestaçao da minha casa.
    Mas isto é uma maravilha para os bancos portugueses e as chamadas “sociedades financeiras”,que alcançam resultados liquidos anuais chorudos,graças ao crescente edividamento das familias.
    É tambem optimo para este Governo Sócrates,ultraliberal.
    Nem Alan Greenspan decretava subidas tão vertiginosas,e tao frequentes das taxas do FED!…

  8. Luís Lavoura diz:

    A função do BCE não é apenas o controle da inflação, é em geral a manutenção do valor da moeda (do euro). Isso implica também o seu valor internacional. Para isso o BCE tem que evitar que a taxa de juro europeia esteja muito abaixo das restantes, caso contrário o capital foge da Europa e é investido noutras moedas (dólar, franco suíço, iene, etc).

    A inflação ainda está baixa, mas, dada a pressão no preço do petróleo – que está outra vez perto dos 70 dólares – pode subir a qualquer momento.

    Ter a taxa de juros 3 pontos acima da taxa de inflação nada tem de mal – é um diferencial que eu consideraria normal, até deveras baixo. Historicamente, é normal as taxas de juro serem ainda mais diferentes das de inflação.

    Quanto à política económica, eu, como liberal, acho que o melhor é mesmo que os Estados não tenham nenhuma. Portanto, até é muito saudável que a governação do dinheiro esteja com uma entidade independente – isso impede os Estados de fazerem mais das suas manobras de política económica. Quem tem que tomar decisões em política económica são os cidadãos e as empresas, não os Estados.

  9. António Figueira diz:

    Tenho saudades do mundo de que fala o Luís Lavoura, com as suas verdades simples, sólidas e indiscutíveis. Infelizmente, o padrão-ouro já acabou há uns anos e o último século tem sido uma grande trapalhada.

  10. Luís Lavoura diz:

    António Figueira, eu não defendi o padrão-ouro, nem tenciono defendê-lo.

    Aquilo que disse no meu comentário é trivial. Se as taxas de juro na Europa são muito inferiores às dos EUA, as pessoas que têm poupanças passarão a investi-las todas nos EUA, em fundos denominados em dólares, e como consequência o euro perderá o seu valor, uma vez que terá pouca procura nos mercados. Isso é uma coisa que o BCE tem por função evitar: que o euro perca valor.

    Analisando um histórico das taxas de juro e das taxas de inflação em qualquer país europeu, por exemplo em Portugal, será trivial constatar que em geral as taxas de juro ficam 5% ou até 10% acima da taxa de inflação. (É por isso que, no passado, os bancos não cobravam comissões – porque a taxa de juro era muito superior à da inflação e, portanto, os bancos faziam dinheiro só de ter o dinheiro dos clientes lá parado durante algumas semanas. Os bancos atualmente cobram comissões porque a taxa de juro é praticamente igual, ou muito pouco superior, à da inflação, pelo que o dinheiro não se valoriza estando parado no banco.) Portanto, ter a taxa de juro nos 5% quando a inflação está a 2% nada tem de escandaloso – é até uma taxa de juro anormalmente baixa.

  11. António Figueira diz:

    Luís Lavoura,
    Aquilo do padrão-ouro era a brincar… senão ainda fazíamos da Rússia ou da África do Sul os banqueiros do planeta. Mas a brincadeira tinha que ver com a simplicidade um bocadinho arcaica com que justificava as decisões do BCE: se as razões da subida da taxa de juro se resumissem a uma simples concorrência entre bancos centrais, para mantar elevado o valor externo da sua moeda respectiva, nada impediria que aquele subisse até ao céu… enquanto nós gemíamos cá na terra. Não é por causa da saúde do dólar que as obrigações do tesouro dos EUA servem de refúgio a tanto capital estrangeiro, nem me parece que fosse muito mau para a economia europeia que o euro se depreciasse contra o dólar. O problema é que as decisões do Sr. Trichet não são tomadas a pensar em Portugal, e existem muitas assimetrias na zona euro. Como vê, a receita doutrinal oitocentista de pouco nos pode servir no complicado mundo de hoje.
    Cordialmente, AF

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Luís Lavora,
    Os argumentos monetaristas são em geral bastante divertidos. Retirando o facto de nos últimos anos o euro se ter valorizado em relação ao dólar, o que retira alguma credibilidade à tese, se virarmos o argumento que a taxa de juros baixa implica que os capitais vão comprar outra moeda, temos que se a taxa de juro é baixa, é mais fácil investir, se se investe , produz-se mais, se se produz mais, vende-se mais, se se vende mais tem-se um maior rendimento. O que, no mesmo simplismo, mas ao reverso, dá que os países com taxas de juros mais baixas ficam mais poderosos…
    Caro Luís Lavoura,o que nos divide não é o gosto pelos raciocinios esquemáticos, é que eu acho que o Estado que representa o conjunto dos cidadãos deve ter um papel na economia, e que a dita economia serve para satisfazer os cidadãos: dar-lhes condições sociais e emprego. Logo, uma medida ditada por um ideologia monetarista que tem como consequência a desaceleração de uma economia enfraquecida e o sobreendividamento de muitos europeses, é para mim uma estupidez.

  13. jpt diz:

    Ou querem estsar no euro ou nao.
    isto nao e a vontade do fregues
    se o meu amigo tivesse poupado dinheiro estaria todo contente nao?
    Mas as pessoas de esquerda querem tudo ao mesmo tempo.

  14. Sérgio diz:

    Lamento voltar um pouco atrás na vossa interessante discussão, mas a ideia que postula uma absoluta «independência» do BCE contribui largamente para uma Europa pouco democrática. Aspectos essenciais das nossas vidas devem, com efeito, ter escrutínio público. Invocar o medo das multidões é agitar um espantalho conservador de duzentos e cinquenta anos que justifica muitos bloqueios ao aprofundamento democrático. Vê-se que não há perigo, na Europa, para a democracia e para a liberdade onde os cidadãos mais participam na vida pública.
    De resto, a «independência consentida» e a neutralidade do BCE não passam de meros reflexos pavlovianos e de tributos a Friedman. Indigna-me que se conceba uma economia que satisfaça indicadores que satisfaçam a especulação e um crescendo inédito de lucros financeiros legitimados pelo esfarrapado discurso das inevitabilidades que mais não é do que a retórica fixadora de uma sociedade cada vez mais bipolarizada. Depois não se queixem das «multidões».

    P.S. É verdade que se pode dizer que os juros estão «historicamente baixos», mas a tendência, em nome das rectidões ideológicas do monetarismo, é de uma subida constante, à custa da actividade económica.
    Cordialmente,
    Sérgio.

  15. Rui Miguel diz:

    As pessoas, sejam de direita ou de esquerda, não querem começar a vida 20 anos antes de se reformarem… E por este andar, com o desemprego a crescer, a economia “cresce”, mas a um ritmo irrisório, gostava que pensassem nisto…certamente que alguns “comentadores” não fazem parte da média nacional, que hoje em dia se está lixando para a esquerda e para a direita e que apenas quer trabalhar para poder sobreviver, pagar as suas contas, porque para alem disso não pode fazer mais nada! Elementar meus caros senhores!

  16. Luís Lavoura diz:

    De qualquer forma, se ao Nuno lhe está a doer o juro que paga pela casa que comprou, sugiro-lhe o seguinte: venda a sua casa, invista o dinheiro assim embolsado – aproveitando-se das crescentes taxas de juro -, e vá viver para uma casa alugada. Era aquilo que a imensa maioria da população portuguesa (e de outros países europeus também) fazia antes de os juros terem vindo por aí abaixo, e era uma solução perfeitamente racional.

    Faço notar ao Nuno que, enquanto que os juros estão a subir e previsivelmente continuarão a subir, as rendas têm vindo gradualmente a descer nos últimos anos, por força da existência de cada vez mais casas para arrendar (excesso de oferta em relação à procura). Pelo que o inquilino pode sempre tentar negociar uma boa renda. A força está hoje do lado dos inquilinos, e não do lado dos senhorios como há uns 40 anos atrás.

  17. Luís Lavoura diz:

    “o Estado que representa o conjunto dos cidadãos”

    Nuno,

    esta frase só podia vir, natualmente, de um ex-comunista.

    Os comunistas são uns tipos muito engraçados. Por um lado dizem que o Estado é uma emanação da classe capitalista, que a ajuda a explorar o proletariado. Por outro lado querem sempre que o Estado tenha mais poder, porque dizem que ele, num futuro não especificado, representará o conjunto dos cidadãos.

    Eu sou um ex-anarquista, pelo que não posso se não estar em desacordo com o Nuno.

  18. Luís Lavora,
    Eu não sou ex-comunista. Sou comunista-autonomista. E de facto usei uma concepção lata do Estado não como aparelho, mas como função. E estou de acordo que as funções do Estado devem, tal como Lenine defendeu, democratizar-se: ‘o Estado só será democrático quando a empregada da cozinha possa exercer as suas funções’. A mim o que me faz confusão são anarquistas que defendem a lei do mais forte e das empresas como regime de liberdade.
    Eu prefiro que a economia esteja sobre a alçada da política em vez do poder político dominado pelas grandes empresas.

    Abraço

  19. Só uma achega a propósito do que diz Luís Lavoura: não é exacto que o BCE tenha por objectivo explícito a manutenção do valor da moeda. Poderá eventualmente ser esse um objectivo intermédio que visa a “estabilidade dos preços”. Apenas isso.
    A esse propósito, atente-se na diferença dos mandatos do BCE e do Federal Reserve System (banco central norte-americano):

    Estatuto do Sistema Europeu de Bacncos Centrais e do banco Central Europeu

    Article 2

    Objectives

    In accordance with Article 105(1) of this Treaty, the primary objective of the ESCB shall be to maintain price stability. Without prejudice to the objective of price stability, it shall support the general economic policies in the Community with a view to contributing to the achievement of the objectives of the Community as laid down in Article 2 of this Treaty. The ESCB shall act in accordance with the principle of an open market economy with free competition, favouring an efficient allocation of resources, and in compliance with the principles set out in Article 3a of this Treaty.

    Federal Reserve Act

    SECTION 2A—Monetary Policy Objectives

    The Board of Governors of the Federal Reserve System and the Federal Open Market Committee shall maintain long run growth of the monetary and credit aggregates commensurate with the economy’s long run potential to increase production, so as to promote effectively the goals of maximum employment, stable prices, and moderate long-term interest rates.

    A questão não se limita ao escrutínio democrático da actuação dos Bancos Centrais. Sem entrar na controvérsia quanto à independência destes face ao poder político, não é irrelevante o conteúdo do mandato que o mesmo poder político confere aos bancos centrais. Neste caso, o mandato do BCE é bem mais limitado do que o mandato da Federal Reserve; crescimento económico e emprego estão fora do seu mandato (pelo menos de forma explícita). A sua obrigação limita-se a garantir a estabilidade de preços…

  20. Luís Lavoura diz:

    “O problema é que as decisões do Sr. Trichet não são tomadas a pensar em Portugal, e existem muitas assimetrias na zona euro.”

    António Figueira,

    Você tem razão nestas duas afirmações, mas acontece que, neste caso, as decisões do sr. Trichet são de facto aquelas que mais convêm para Portugal! Ou seja, convêm para Portugal, que não para algumas famílias portuguesas, o que é muito diferente.

    O que acontece é que Portugal é um país sobre-endividado, com um deficit externo de 9% do PIB. Quer isto dizer que 9% daquilo que os portugueses consomem todos os anos lhes é “oferecido” – melhor, emprestado – pelo estrangeiro. E esta situação é insustentável.

    Aquilo que os bancos portugueses emprestam à população para comprar casas, é dinheiro que esses bancos portugueses pedem emprestado a bancos estrangeiros.

    Claramente, esta situação insustentável tem que terminar. Produzir e poupar, é o que é preciso. Ou seja, é preciso diminuir o crédito, fazer os portugueses sentir que não podem continuar a viver a crédito.

    Por isso, a subida das taxas de juro é muito benvinda para a economia portuguesa.

  21. Luís Lavoura diz:

    Nuno Ramos de Almeida,

    eu (1) não sou anarquista (só tenho origens políticas no anarquismo), (2) não defendo a lei do mais forte, e (3) não defendo a lei das empresas.

    Mas defendo uma sociedade de mercado, com concorrência e sem monopólios, na qual o Estado tenha apenas um papel regulador, e não um papel de estimulador ou de orientador da economia.

    Não quero, de forma nenhuma, que a economia esteja sob a alçada da política. Aliás, isso é impossível. As pessoas buscam a liberdade, incluindo a liberdade económica. Não toleram eternamente que o poder político lhes tolha essa liberdade.

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